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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

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28
Mai18

Talvez (Confiança – 4)

Publicado por Mil Razões...

Vietnam - Jess Foami.jpg

Foto: Vietnam - Jess Foami

 

Gosto do mundo, das pessoas, das múltiplas formas de vida, dos mil encantos que encontro em cada esquina, em cada nova rua que percorro. Gosto do que sinto em mim quando me deparo com o milagre da existência, da singularidade de cada universo com que me cruzo – cada um de nós é um mundo sem réplicas. Todavia, mergulhar na Humanidade é, também, aceitar as suas facetas mais negras. É saber que haverá sempre quem faça o pior ao seu semelhante, quem se venda por muito pouco, gente para quem respirar não vale nada. Aprendi, também com a vida, que esses estão, na grande maioria das vezes, demasiado perto, debaixo da nossa asa, a partilhar o nosso espaço íntimo e pessoal. Aqueles que mais nos ferem não são os desconhecidos, são os que amamos; são aqueles com quem partilhamos, com frequência, laços de sangue. E aos quais, pelas mesmíssimas razões, não podemos, simplesmente, virar as costas e partir.

 

Continuo a confiar na raça humana porque mo validam, dia após dia, as pessoas incríveis que tenho tido o privilégio de conhecer ao longo da minha vida. Considero as histórias de caos (também pessoal) e que dão nota de algumas facetas menos nobres da Humanidade, a exceção que confirma a grandeza dos meus congéneres. Acredito, piamente, que são mais os que amam e lutam, com e pelo seu semelhante, no mundo; do que aqueles que, em cada acontecimento, vislumbram (e executam) a oportunidade de “lixar” o próximo. Às vezes, só porque sim. Pois, pasmem: Também há quem seja bom, genuinamente bom, só porque sim – ideologias, género, crenças e rótulos à parte. São estes que tornam os meus passos mais seguros, a minha mente mais leve e o coração mais sereno. A eles devo a validação contínua da minha fé na raça humana e a sensação de pertença a algo muito maior do que eu.

Apesar de amar a vida, em geral, e me sentir grata por ser pessoa, em particular, caminhar entre humanos é um desafio mental tremendo. Nem sempre encontro uma linguagem comum que me permita comunicar com clareza - e não, não me refiro aos obstáculos linguísticos que trazem, por exemplo, os cerca de seis mil idiomas falados nesta “nossa” Terra, o que me impede de entender a realidade dos outros e as suas circunstâncias. Sinto-me, com frequência, impotente, incapaz de concluir com êxito as interações em que, voluntária ou involuntariamente, sou interveniente. É neste complexo processo de adaptação, na (des)aprendizagem de paradigmas e modos de ação que encontro forma de sobreviver e aceitar que jamais entenderei tudo. Sobretudo, no que toca à natureza dos outros e às suas camadas emocionais. Às vezes, é preciso aprender a sair de cena, simplesmente. E confiar que, cada decisão que tomamos, nos afasta de tudo aquilo que não é para nós.

 

Amo a Humanidade mas confio em muito poucas pessoas. Abraço toda a gente (creio que quem sofre e magoa precisa de mais amor ainda, talvez seja apenas uma ferida que fere) mas não me deixo abraçar (inteira) por quase ninguém. A minha alma resguarda-se, cada vez mais, perante as atrocidades do mundo, este pobre infeliz que precisa de amor e de esperança como de “pão p’ra boca”. Entendo as urgências dos que gravitam à minha volta mas não lhes entrego as minhas. Isso seria vilipendiar a minha própria existência, a única que será minha, nesta vida terrena. Não posso servir as minhas inquietudes com um chá e esperar que os outros me estimem como me devo estimar, bem sei, mas gostava tanto de poder confiar inteiramente noutro ser humano… Gostava de poder descansar em alguém, de chegar a casa, de conhecer esse sítio para lá de mim mesma, de total confiança e amor, onde a alma repousa e os olhos se podem fechar, sem medo do dia seguinte. Sei exatamente o que é que esse sítio, que ainda não conheço, me faz sentir. Por causa disso, não consigo viver pela metade, com ninguém, em lado nenhum.

Talvez um dia alguém decifre o meu idioma e leia nas linhas da minha pele, sem esforço. Talvez, nesse dia, eu possa ser quem sou, partilhar o que carrego há uma vida inteira e sentir-me, finalmente, segura e protegida. Talvez.

 

Alexandra Vaz

 

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