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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

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20
Abr18

Quem é linda quem é? (Partir – 6)

Publicado por Mil Razões...

People - Stock Snap.jpg

Foto: People - Stock Snap

 

Quando naquela tarde a morte lhe tocou com seus dedos de pedra fria, não encontrou senão restos. Restos de uma força que o tempo foi consumindo, de um corpo outrora belo, de um ser em sofrimento. Restos de um quase acreditar nos avanços da medicina. 

Tinha chegado o momento. Sentiam-no. Tomaram-se de uma tristeza que lhes gelou a alma e paralisou o corpo. Esquecer a inevitabilidade da partida tinha sido o esforço dos últimos tempos, mas aquela tristeza paralisante não os deixava iludirem-se por mais tempo. Não tinham mais do que segundos, talvez minutos. Quem saberia ao certo? Mas não mais do que isso. Pouco, muito pouco para serem e se darem. Ele lia-lhe a desistência no olhar. Ela queria compreensão. Não conseguia continuar, ele tinha que compreender e perdoar-lhe a fraqueza.

- Não te zangues, meu amor. Não encontro forças para continuar, já tudo me é insuportável. O fogo que me queima as entranhas é um sofrimento difícil de aguentar, desumano, e, no entanto, isso é nada comparado com a dor de te ver abandonado. Abandonado por mim! Não gastei a vida, ela é que me esvaziou. Escapou-me a concretização de alguns sonhos, haveria muito mais para fazer, para fazermos, mas já nada tenho que me possa manter.

Ela sussurrava despedidas num fio de voz emocionada, arrancada com esforço. Os olhos dele, pungentes, eram a expressão da dor. Uma dor seca sem lágrimas, que essas foram gastas nos dias a seguir à condenação, poucos meses antes. Desde então, viviam a acumular recordações, agarravam o hoje na certeza de que não existiria o amanhã.            

Quando por períodos, ainda que escassos, conseguiam expulsar a nuvem negra que se abatera sobre eles, vendando-a qual jogo de cabra-cega e punham em campo a esperança de olhos bem abertos, viviam intensamente. Davam grandes passeios, admiravam as cores da natureza, sorviam o ar puro dos campos e os aromas delicados dos perfumes. Faziam duetos sem qualquer sucesso, ela de voz doce, mas desafinada, ele afinado, mas sem melodia na voz, e cantavam. Riam de alegria, gritavam ou choravam de medo, mas tudo isto fazia sentido e enriquecia os dias incertos.

- Sinto-me viva quando choro ou quando rio - dizia ela com vivacidade.

 

Era chegado o final. Sabiam-no. Antes do diagnóstico nunca perderam mais do que um minuto a pensar que um dia se separariam. Sonharam com uma vida, planearam e construíram o mundo deles, indestrutível e intemporal. Pelo menos assim o pensavam. Por vezes, franqueavam as portas desse mundo e deixavam-se visitar por familiares ou amigos íntimos, por momentos partilhavam a vida com eles, mas isso não os distraia um do outro, ao contrário, aumentava-lhes a saudade e o desejo de se entregarem rapidamente aos seus hábitos, horários, às brincadeiras quase infantis que só eles entendiam e que tanto os divertia. E ele, mais por admiração dessa jovialidade e menos por repreensão, perguntava-lhe se ela sabia a idade que tinha. Sabia e glosava o tema, nunca seria uma velha rabugenta. Que ironia! Agora também sabia que nunca seria velha. Triste sabedoria! Mas que ninguém tivesse pena, tivessem sim, admiração. A pena não faz justiça às coisas que triunfam, como este amor que os uniu.

Trocavam elogios que outros diriam, quão pouco fundamentados eram. Talvez fossem! Talvez se vissem como mais ninguém os via. E que importância isso tinha se, para eles, eram agrados e bondades com que se mimavam?

- Quem é linda, quem é? - perguntou ele olhando a silhueta sem forma e inchada da mulher, a cabeça lisa e a pele de lagartixa manchada e maltratada pelos medicamentos. Ela respondeu com fingida vaidade e sem nenhuma certeza:

- Não sei. E acrescentou: - Mas, muito, muito linda sou eu.

- Acertaste meu amor, mereces um prémio.

E o prémio veio prazenteiro num beijo quente. O sorriso que ela lhe devolveu não passou de um esgar sem profundidade, a pressão das mãos entrelaçadas afrouxou até à lassidão e ele, impotente, não conseguiu evitar que os olhos dela se fixassem, sem expressão, no vazio.

 

Cidália Carvalho

 

Porto | Portugal

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