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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

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04
Mai18

Porquê, avô? (Partir – 10)

Publicado por Mil Razões...

Grandfather - Dan_Kelli Oakley.jpg

Foto: Grandfather – Dan/Kelli Oakley

 

O sol brindava-me logo pela manhã, ao entrar de rompante pela janela. Ouvia o assobiar dos pássaros à janela. Era impossível acordar triste. Saltei da cama e olhei para o relógio. Já passavam alguns minutos das 10h15 da manhã e tinha combinado ir visitar-te, avô. Estavas constipado e ia levar-te ao médico. Num instante estava à porta da tua casa. A avó abriu toda sorridente, deu-me aqueles abraços maravilhosos de que gosto muito, mas avô, não desfazendo dos abraços da avó, os teus eram o meu alento – era a menina do avô. Quando entrei no quarto, também já estavas pronto. Tinhas algumas olheiras – maldita constipação que não te deixava dormir bem – mas os teus olhos brilharam quando me viram e os meus também. Dei-te um longo abraço e sorri. “Vamos avô.”, disse-te. “Como estás? Estás melhor?”, tu sorrias e dizias que não era uma constipaçãozinha que te ia deitar abaixo. Eras forte. Tão forte, avô.

 

No médico, ele mediu-te a diabetes, sim porque os diabretes eram o teu grande problema, achava eu, achavas tu, todos nós. Lá ralhou o médico um pouco contigo porque estavam muito altos. Mas em relação à constipação receitou-te aquelas coisas normais, eu tinha-te dito para tu ires ao teu hospital privado, já que tinhas lá seguro, mas não, quiseste ir ao público. Se eu soubesse avô, se eu soubesse. Acho que te tinham dito para fazeres mais exames, mas tu eras tão teimoso, avô. Tão teimoso. Não sabias, nem eu, nem todos nós.

 

Fomos para casa, estavas cansado e tossias, eu preocupada questionava-te se querias algo, se precisavas que fizesse algo. Mas tu sorrias, dizias que estavas bem. Eu sorria, preocupada, fingindo acreditar. Levei-te a casa e lanchei contigo e com a avó. Foi tão bom passar aquele momento com vocês. As horas foram passando e eu tive que me despedir de vocês para ir trabalhar. Mas voltei todos os dias para lanchar.

 

Só tinham passado dois ou três dias de estares constipado mas parecias estar melhor. Fiquei feliz. Num dos dias refilavas à tua maneira com a avó, que não podia trazer todos os dias os bolinhos de que gostavas, ou os diabretes vinham em festa. Ri-me disso.

No final dessa semana, tive que fazer mais horas, o trabalho estava um caos. Recebi uma chamada da avó, ela tentava disfarçar a preocupação, dizia-me que estavam no hospital, no privado, do avô. Que possivelmente eram só os diabretes mais altos que o normal, mas como eu não podia vir, para não me preocupar, que vinha quando conseguisse, para não me prejudicar no trabalho. Fiquei preocupada, muito. Mas não podia sair, não tinha ninguém para me substituir e tive que ficar à espera até ao fim do dia para que viesse alguém. Liguei para a minha mãe, para ela ir por mim, rapidamente, ver o avô. Ela foi. Eu não consegui.

Tantos foram os contras nesse dia – quem me vinha substituir teve um percalço com o carro, teve um furo, atrasou ainda mais a minha hora de saída. Mas eu respirava fundo. Pensava: “foram apenas os diabretes que ficaram demasiado altos”, “o avô só estava constipado, provavelmente foi por precaução”. Fazia figas. Ninguém me atendia, nem a avó, nem a minha mãe. Toda eu tremia. Apavorada.

A minha colega chegou e eu saí a correr, acho que nunca corri tanto, nem conduzi tão rápido, eu que não tinha costume acelerar nem andar fora do que é o limite. Nesse dia, não podia ser, tinha de estar lá, tinha de estar ao pé do meu avô.

Quando cheguei ao hospital, a minha mãe chorava sentada num banco, a minha avó estava pálida. Sem expressão alguma. Corri para a minha mãe e perguntei pelo avô. Perguntei por ti, avô. Ela acenou-me com a cabeça que não. O meu mundo caiu. ”Porquê, avô? Tu só estavas constipado.”, mas não, afinal não te diagnosticaram uma pneumonia que se foi agravando durante aquela semana. Uma semana. Num instante partiste, sem me conseguir despedir. Queria pelo menos ter conseguido ver-te, dizer-te que te amo, uma última vez. Porquê, avô?

Porque partiste assim? Uma parte de mim morreu contigo. Eras a pessoa que mais admirava, que me dava os melhores conselhos, o melhor ouvinte, o melhor avô!

Não quero acreditar. Não pode ser verdade. Não vás, avô! Volta!

Partiste sem saber que o ias fazer, deixaste um vazio, mas para mim vais estar sempre vivo no meu coração.

“Porquê, avô?”

 

Inês Ramos

 

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