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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

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05
Mar18

A escandalosa Gata Borralheira (Abandono – 6)

Publicado por Mil Razões...

Love - Longzu.jpg

Foto: Love - Longzu

 

Esbelta, de aparência muito cuidada mas sem descair para a exuberância, não passava despercebida. No liceu que frequentávamos era a mais popular. Irradiava uma simpatia e jovialidade cativantes. De gestos largos e risos fartos era agregadora e prendia-nos a atenção. Só por sonsice não admitíamos que ela era a colega perfeita, a amiga que todas queríamos ter. Não se privava de um abraço ou de um beijo mais caloroso, quer o outro fosse rapaz ou rapariga, amigo ou simplesmente conhecido. De tempos a tempos víamo-la dar mais atenção a um do que a outros e logo se levantava um coro de indignadas na contabilização de mais um namorado. Se os boatos lhe chegavam, e era natural que alguém lhos levasse com a generosa ideia de amizade mas que empacotava uma estratégia de aproximação àquela fonte de alegria, ela não os valorizava, nem isso era razão de reflexão sobre o rumo da sua conduta porque, pouco tempo depois, víamo-la entregue às atenções de outro qualquer que ela tivesse escolhido. Sim, porque era sabido ser ela a escolher quem seria o próximo a exibi-la em frente aos colegas.

 

Todos os anos o início letivo era de grande agitação e de muita curiosidade, que se estendia até ela. Como será que vem a Mariana? E ela vinha mais atraente e desafiadora do que no ano anterior. Entrava na sala de aulas confiante e sem pressa, cumprimentava à direita e à esquerda até se sentar no lugar vazio que lhe aparecesse. Vinha mais escandalosa.

Às raparigas que pensavam que belo era as gotas de orvalho a darem brilho às rosas numa manhã fresca de primavera, ela mostrava-lhes que belo era as gotas em corpos suados depois de uma sessão de amor. E os lábios pálidos daquelas, abertos para lamberem o rajá de morango, em nada se pareciam com os lábios carnudos e escarlate desta, desejosos de serem saboreados num jogo de paixonetas. E eram os mesmos lábios que se entreabriam num sorriso matreiro quando algum jogador deste xadrez amoroso lhe segredava ao ouvido, sabe-se lá que embrulho de palavras doces e promessas deliciosas, enquanto dos das outras apenas saiam cochichadas maledicências.

Tamanha liberdade escandalizava as colegas que assim não eram, mas assim queriam ser, e também aquelas que, assim sendo lhes faltava a audácia para o assumir. Era assim com Mariana, desejada por todos os rapazes invejada por todas as raparigas.

 

Troquei com ela duas ou três palavras em quantidade igual de ocasiões. Mariana nunca me elegeu para incorporar a enorme trupe que a rodeava e eu não era suficientemente determinada, tímida até, para impor a minha presença, mas atraía-me nela a forma como celebrava a vida.

Cruzei-me com ela muitos anos mais tarde, por razões profissionais. Não se lembrava de mim, naturalmente, mas aos poucos, com a conversa a trazer o passado ali para o presente, ela foi-se rendendo e a conversa, inevitavelmente, derivou para os bons tempos de juventude. Não tinha a mesma opinião que eu e a juventude, para ela, fora tudo menos boa. Confidenciou-me que a Mariana do liceu em nada se parecia com a Gata Borralheira que, depois das aulas, cuidava da casa e dos irmãos. Acabou o liceu e não pôde continuar os estudos. A mãe cumpria o horário de trabalho no emprego e horas extraordinárias a fazer limpeza num restaurante para poder sustentar a família, porque o pai tinha-as abandonado. Partira havia uns anos e dele sabiam muito pouco, apenas o que outros emigrantes contavam – tinha arranjado outra família. A responsabilidade de que tudo corresse bem com os filhos tornou-a numa mulher cheia de severas regras, por isso, e antes que ela regressasse a casa do trabalho, Mariana tratava de se desarmar, despia a máscara que fizera dela a rapariga mais desejada do liceu, apertava o cabelo, limpava as pinturas do rosto e retirava as pestanas postiças que tão bem lhe aprofundavam o olhar.

Quando nos reencontrámos mantinha a vivacidade e a alegria de outrora, mas transformada numa mulher discreta e serena. Casou com o homem que lhe garantira que nunca a abandonaria. O único homem que interrompeu o ciclo vicioso – escolhido, divertido, descartável, abandonado. A escolha dessa vez foi dele, ela não teve que fazer nada, apenas confiar e deixar-se amar. E, continuou o seu relato: “Antes dele nunca valorizei ou amei verdadeiramente alguém, sempre me rodeei de gente para não me sentir só e se percebia que os sentimentos me começavam a dominar, abandonava a pessoa com medo que ela me abandonasse a mim. Ele não poderá repor os pedaços de juventude que me foram arrancados por todos os que passaram pela minha vida, mas mostrou-me que o futuro é, também para nós, uma possibilidade.”.

 

Cidália Carvalho

 

Porto | Portugal

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