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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

16
Mar18

Ver para crer (Abandono – 9)

Publicado por Mil Razões...

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Foto: Alone - Mike

 

Hoje decidi partir. Podia ter avisado com algum tempo de antecedência mas não nos supus à mercê de maleitas sazonais. Enquanto oscilámos entre a primavera e o verão a coisa foi correndo, o outono e o inverno são impossíveis de aguentar ao teu lado: quem tu és nos dias negros nem o diabo quer para companhia. Transfiguras-te, insidiosamente, trazendo os piores sacanas do mundo na algibeira. Demorei a perceber que os conhecias de longa data e que te construías, enquanto pessoa, sob o seu patrocínio. Acreditei piamente seres apenas uma alma perdida e mal-amada mas cheia de vontade de ser tudo aquilo que dizia (querer) ser. Acreditei nas tuas palavras, nos teus silêncios, na tua presença, na tua ausência, nas tuas intenções e gestos “genuínos”. E, até depois de já não acreditar, escolhi ficar. Fui incapaz, apesar dos sinais cada vez mais evidentes, de ver o pior em ti, de te imaginar capaz de tudo aquilo que hoje sei. Em boa verdade, jamais acreditaria em tal se o mesmo me fosse narrado por terceiros. Tinha de ser assim: ver para crer, preto no branco, uma chapada dada pela língua de uma baleia azul. É indescritível o que se sente quando tudo aquilo que se pensava ser verdade não o é. Quando nos percebemos atores num enredo do qual nunca escolhemos fazer parte. Na verdade, por opção, nunca estaria aqui. Esta história contada ao pormenor seria igual a muitas outras, sobretudo depois de a teres tornado vulgar, decadente e pequena. Estabeleceste as regras do jogo mas eu escolho dar-lhe um final. Hoje. Sim, hoje mesmo. Não consigo respirar, não sinto nada mais do que desespero neste momento em que a vida, tal como a conheci nos últimos anos, ruiu perante os meus olhos. É desolador saber que tudo o que disseste e fizeste foi estudado, que faz parte do teu jogo doentio e que vais mentir até ao último minuto comigo. Claramente, não lamentas nada no teu discurso contraditório, apenas teres sido desmascarado. Não há em ti um pingo de honestidade, e nem isso consegues fingir, mesmo que penses que sim… Por isso, hoje, decidi partir. Não sei de quanto tempo vou precisar para curar o que ainda sinto mas jamais o farei permanecendo contigo. Preciso de sair deste pesadelo para poder pensar com clareza, longe da angústia que me consome. A tua máscara caiu por terra, por mais que te esforces em mantê-la. Já só quero que te cales e me deixes ir embora. Não peças desculpas vãs, não justifiques o indesculpável. Deixa-me regressar a casa, respirar amor e reconstruir-me na dor que me trouxeste, longe do asco que agora me causas. Tenho mil perguntas mas não vou fazer nenhuma: não quero ouvir mais nenhuma mentira, não quero lágrimas de crocodilo e acessos de raiva. Cala-te, suplico. Só quero ir-me embora, não há mais nada a dizer. Já não aguento ver-te aí, de pé, na cena teatral que ensaias há anos, consumido pelo ego e pela maldade, incapaz de perceber que já não há mais nada em ti que eu deseje, mesmo que ainda te ame. Atrai-te o abismo, nadas no sofrimento como um peixinho mas não pertenço aqui, nunca pertenci. Por favor, cala-te. Não precisas de entender. Não quero explicar nem mais uma linha. Quero ir para casa. Quero chorar em paz. Quero respirar fora do lodo em que te agitas e resgatar todos os meus sonhos. Deixa-me partir, simplesmente. Não contribuo, nem mais um dia, para esta farsa.

Respiraste sobre mim, pela última vez, há minutos. Com um ar dramático e choroso, balbuciaste: “com que facilidade me arrancaste da tua vida”. Olhos nos olhos, respondi-te: “com que facilidade nunca me fizeste parte da tua.” Amorfa e em choque, aceitei aquele beijo tenebroso que encerrou uma história de vários anos, como se de uma brisa se tratasse. Deixei-te encenar e protagonizar a cena final, insípida e doentia, sem paz, sem verdade, sem respeito. Fiquei aliviada quando me soltaste e pude, finalmente, virar-te as costas, sem vontade de olhar para trás. Já não me podes magoar mais, mesmo que eu ainda não saiba quando vais deixar de doer em mim.

 

Sentada no avião, lavada em lágrimas, abracei-me por ter sabido resgatar-me a uma meia vida contigo, num limbo demasiado perigoso que tu trilhas de olhos fechados. No regresso a casa, caminho trémula, não consigo respirar; ainda me sinto perdida porque mergulhei inteira em nós e andei à deriva, sem o saber, mas em momento algum me abandonarei. Amei-te como mereço ser amada, as tuas sacanices a ti pertencem. No final de um dia que começou tão mal, respiro de alívio, apesar da catástrofe que tenho ainda de digerir. A esta distância percebo que muita coisa terrível aconteceu, é um facto, mas que podia ser muito pior: eu podia ser tu. Como diria a minha avó: “Fosga-se”!

 

Alexandra Vaz

 

12
Mar18

O abraço (Abandono – 8)

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Foto: Bed - Dieter Robbins

 

No outro dia comprei um pijama.

Para muitos pode parecer uma banalidade mas, de facto, eu nunca tinha, até àquele momento, comprado um único pijama para mim. Cresci a vestir os pijamas que me ofereciam – feios, sempre um ou dois tamanhos acima do meu – e sempre me bastou.

Mas naquele dia, como em muitos ultimamente, sentia-me longe de estar feliz.

Então, vi-o. Fiquei ali parada a olhar para o expositor, tentando decidir se o levava ou não: seria uma futilidade? Afinal, tenho uma gaveta cheia de pijamas (que detesto)...

Comprei-o, não sem deixar de me sentir estranha com aquela compra um pouco fútil.

Mas esse sentimento desvaneceu-se no momento em que o vesti: não sei explicar... Invadiu-me uma sensação de conforto, um sentimento de pertença e de carinho, e eu tive a sensação – não, eu tive a certeza – que o meu pijama estava a abraçar- me.

Por isso, posso afirmar que esta foi a compra mais importante que fiz até hoje. Que pena não ter comprado dois pijamas, para ir alternando...

 

Sandrapep

 

09
Mar18

Desertificando (Abandono – 7)

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Foto: Chairs - Jody Davis

 

A música pode ser a de Ry Cooder, como na banda sonora de Paris, Texas.

 

Caminhando, fisicamente. Sem tempo, relógio, sem rumo, quase, podem ser vários, tantos rumos. Tanto faz. Olhando, como que sem ver, como que absorto. Mecanicamente, mas ao mesmo tempo, sentindo, recordando, respirando.

 

Percorrendo, à base da memória, mentalmente. Recordações meio perdidas, mal definidas, como que no meio dos cinzentos da neblina. Em tempo: meio perdidas será o mesmo que dizer, meio achadas, mas com uma sensação de afastamento. Recordações perenes, apesar de tudo, de vida, vitais. Reconstruídas. Talvez já vistas com os olhos de hoje, vivas.

Histórias, vivências, pessoas.

 

Visto com os olhos de hoje, as pessoas estavam, sentiam-se abandonadas. Isoladas, como que à beira de perdidas. Ficar, continuar ali faria com que até a esperança fosse ela embora. Abandonasse as pessoas, cada uma.

Com um mínimo de ambição, dilaceradas, rasgadas por dentro, quase que só acompanhadas pela esperança futura umas, outras pelo desespero presente, todas, quase todas, foram saindo. Para muitos lados, saindo. Desertificando.

 

Volto. Percorro fisicamente, olho, vejo estradas novas, autoestradas, rotundas, esculturas, casas, edifícios. Tudo vazio... pessoas, muito poucas. Muito velhas. A meio caminho entre o orgulho de manter ali a vida e as suas raízes, a raiva de não ter saído, o sentir-se inteiro na sua terra e, lamentosamente, a inveja de não ter partido.

 

É o interior. É a vila, a aldeia, algumas com etiqueta de cidade. Ao abandono.

Antes, a triste agricultura de subsistência, que já nem isso era, ajardinava tudo, pobremente, o que a vista alcançava. Agora, tudo pode arder, matando muitos dos poucos que restam, ao abandono, como uma pilha.

 

Jorge Saraiva

 

05
Mar18

A escandalosa Gata Borralheira (Abandono – 6)

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Foto: Love - Longzu

 

Esbelta, de aparência muito cuidada mas sem descair para a exuberância, não passava despercebida. No liceu que frequentávamos era a mais popular. Irradiava uma simpatia e jovialidade cativantes. De gestos largos e risos fartos era agregadora e prendia-nos a atenção. Só por sonsice não admitíamos que ela era a colega perfeita, a amiga que todas queríamos ter. Não se privava de um abraço ou de um beijo mais caloroso, quer o outro fosse rapaz ou rapariga, amigo ou simplesmente conhecido. De tempos a tempos víamo-la dar mais atenção a um do que a outros e logo se levantava um coro de indignadas na contabilização de mais um namorado. Se os boatos lhe chegavam, e era natural que alguém lhos levasse com a generosa ideia de amizade mas que empacotava uma estratégia de aproximação àquela fonte de alegria, ela não os valorizava, nem isso era razão de reflexão sobre o rumo da sua conduta porque, pouco tempo depois, víamo-la entregue às atenções de outro qualquer que ela tivesse escolhido. Sim, porque era sabido ser ela a escolher quem seria o próximo a exibi-la em frente aos colegas.

 

Todos os anos o início letivo era de grande agitação e de muita curiosidade, que se estendia até ela. Como será que vem a Mariana? E ela vinha mais atraente e desafiadora do que no ano anterior. Entrava na sala de aulas confiante e sem pressa, cumprimentava à direita e à esquerda até se sentar no lugar vazio que lhe aparecesse. Vinha mais escandalosa.

Às raparigas que pensavam que belo era as gotas de orvalho a darem brilho às rosas numa manhã fresca de primavera, ela mostrava-lhes que belo era as gotas em corpos suados depois de uma sessão de amor. E os lábios pálidos daquelas, abertos para lamberem o rajá de morango, em nada se pareciam com os lábios carnudos e escarlate desta, desejosos de serem saboreados num jogo de paixonetas. E eram os mesmos lábios que se entreabriam num sorriso matreiro quando algum jogador deste xadrez amoroso lhe segredava ao ouvido, sabe-se lá que embrulho de palavras doces e promessas deliciosas, enquanto dos das outras apenas saiam cochichadas maledicências.

Tamanha liberdade escandalizava as colegas que assim não eram, mas assim queriam ser, e também aquelas que, assim sendo lhes faltava a audácia para o assumir. Era assim com Mariana, desejada por todos os rapazes invejada por todas as raparigas.

 

Troquei com ela duas ou três palavras em quantidade igual de ocasiões. Mariana nunca me elegeu para incorporar a enorme trupe que a rodeava e eu não era suficientemente determinada, tímida até, para impor a minha presença, mas atraía-me nela a forma como celebrava a vida.

Cruzei-me com ela muitos anos mais tarde, por razões profissionais. Não se lembrava de mim, naturalmente, mas aos poucos, com a conversa a trazer o passado ali para o presente, ela foi-se rendendo e a conversa, inevitavelmente, derivou para os bons tempos de juventude. Não tinha a mesma opinião que eu e a juventude, para ela, fora tudo menos boa. Confidenciou-me que a Mariana do liceu em nada se parecia com a Gata Borralheira que, depois das aulas, cuidava da casa e dos irmãos. Acabou o liceu e não pôde continuar os estudos. A mãe cumpria o horário de trabalho no emprego e horas extraordinárias a fazer limpeza num restaurante para poder sustentar a família, porque o pai tinha-as abandonado. Partira havia uns anos e dele sabiam muito pouco, apenas o que outros emigrantes contavam – tinha arranjado outra família. A responsabilidade de que tudo corresse bem com os filhos tornou-a numa mulher cheia de severas regras, por isso, e antes que ela regressasse a casa do trabalho, Mariana tratava de se desarmar, despia a máscara que fizera dela a rapariga mais desejada do liceu, apertava o cabelo, limpava as pinturas do rosto e retirava as pestanas postiças que tão bem lhe aprofundavam o olhar.

Quando nos reencontrámos mantinha a vivacidade e a alegria de outrora, mas transformada numa mulher discreta e serena. Casou com o homem que lhe garantira que nunca a abandonaria. O único homem que interrompeu o ciclo vicioso – escolhido, divertido, descartável, abandonado. A escolha dessa vez foi dele, ela não teve que fazer nada, apenas confiar e deixar-se amar. E, continuou o seu relato: “Antes dele nunca valorizei ou amei verdadeiramente alguém, sempre me rodeei de gente para não me sentir só e se percebia que os sentimentos me começavam a dominar, abandonava a pessoa com medo que ela me abandonasse a mim. Ele não poderá repor os pedaços de juventude que me foram arrancados por todos os que passaram pela minha vida, mas mostrou-me que o futuro é, também para nós, uma possibilidade.”.

 

Cidália Carvalho

 

02
Mar18

Soledade (Abandono – 5)

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Foto: Elder - Jhair Arcia

 

Viver na solidão, para muita gente, principalmente para pessoas idosas que são abandonadas pelos seus familiares e amigos, será como viver na “escuridão”. Mais doloroso, porém, do que essa solidão propriamente dita, é o sentimento atroz do abandono que as domina e que torna essa vida solitária ainda mais angustiante, mais triste e amarga.

Há quem considere que o maior poema do século XIX, que se chama simplesmente “Só”, da autoria de António Nobre, reflete o drama do infindável horror da soledade, cujo significado não se reduz apenas ao existir em solidão, mas também ao estado de abandono de alguém.

Dir-se-ia que a vida, para essa gente solitária, deixou de ser vivida, “deixou de ser vida”, porque todos os seus horizontes de vida se fecharam; cruel tortura de quem foi abandonado e rejeitado pelos seus, quando mais deles precisava em termos de amparo e afeto!

Infelizmente, é o que está a acontecer com frequência nos dias de hoje, com alguns idosos que são, muitas vezes, deixados pela família em abrigos, esquecidos em hospitais e atirados para lares.

Tanto fizeram ou sofreram pelos filhos e netos, ao longo da sua vida, muito amor, carinho e ternura lhes dedicaram; em muitos casos, porém, nada receberam em troca, nem mesmo um simples “mimo” de afeto ou de gratidão. 

E bastaria, contudo, às vezes, para aliviar esse sofrimento e tornar menos penosa a soledade em que vivem, que pudessem sentir a proximidade, o afago e a ternura dos seus familiares e amigos, bem como deles recebessem, ao menos, uma pequena parte da dádiva de amor que nunca regatearam aos seus entes queridos.

 

José Azevedo

 

26
Fev18

Afastamento sem aviso prévio (Abandono – 4)

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 Foto: People - Shawrypa

 

Vou pelos significados “deixar um local” e “afastamento”. Neste momento da vida, não me apetece ir mais longe na definição de abandono.

O afastamento desta vida de alguém querido para outro lugar, para mim misterioso, transforma-se num ato violento para quem fica deste lado e, quem sabe, para quem se afasta. O chão foge, o coração escurece, o peito aperta… a vida deste lado para repentinamente.

Depois, vai-se fazendo um esforço para ocupar a cadeira vazia, para deixar de ouvir a sua voz, para deixar de ver os seus olhos... Inicia-se um exercício de criatividade para levar a vida para a frente. Nunca mais vejo aqueles olhos, porque ninguém da família tem os olhos daquela cor e, também, não conheço ninguém com olhos daquela cor! Era uma característica muito peculiar. Que bonitos que eram! Até essa cor se afastou. Neste lugar, onde tudo continua a mexer, o que lembra são os pormenores que constituem cada um de nós. Nele, são os olhos, as piadas, os pedidos de ajuda, a forma como ocupava o sofá, as declarações de amor e afeto, o presente no sapatinho no Natal quando os filhos eram crianças… enfim… a pessoa que era.

Como eu gostava que esta ida para outro lugar fosse temporária!

Ele não queria abandonar este lado e não queria que nos sentíssemos abandonados. Mas fica um sentimento estranho, porque os seus momentos e os seus pormenores deixaram este local sem aviso prévio… parece um roubo! Vou continuar pelos significados de “deixar um lugar” e “afastamento”. Quero pensar que deixou este lugar, que toda a gente conhece e gosta de frequentar, e que, ainda assim, nunca nos abandonará. Também quero pensar que ele não se sentirá abandonado, porque os que ficaram deste lado nunca o esquecerão!

 

Ermelinda Macedo

 

23
Fev18

Querida Maria (Abandono – 3)

Publicado por Mil Razões...

 

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Foto: Attractive - Pexels

 

“Nunca mais amarei quem não possa viver

Sempre,

Porque eu amei como se fossem eternos

a luz, a glória e o brilho do teu ser.

Amei-te em verdade e transparência

e nem sequer me resta a tua ausência.

És um rosto de nojo e negação.

E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.”

Sophia de Mello Breyner

 

Espero que estejas bem. Sei que da última vez que te vi estavas um pouco fugidia e distante, parecia que me evitavas ou que não te sentias bem ao pé de mim. Achei-te com o cabelo em desalinho, olhar a vagar no fragor do horizonte, por dentro.

Acho que me disseste que tinhas ficado desiludida com alguém importante. Que essa falta estava marcada em ti, como se falássemos do recorte a tracejado das vítimas de séries de crime. Devia ser mesmo importante esse alguém, nunca mais disseste palavra sobre ele.

As marcas do que já passou ainda doem? Como passas os teus dias?

Ajuda partilhar com quem escute as lágrimas do sentimento ressequido e os gritos, sem interromper. Acho que a dor não se compraz com anúncios de dez em dez minutos, ainda que tenhamos de esperar, por vezes, por quem nos ouve com muito colo.

E a zanga Maria, o que é feito dela? Sei da tristeza que fica um tempo, ali sem nada, a hipnotizar-te. A rejeição também mas e a zanga? Ah sei, é fazer exercício físico, focar no trabalho e carregar no acelerador do carro. Mas sabes Maria, se vires da zanga manda-lhe um beijinho, gosto de a ver, mesmo quando ela é incómoda porque ela pá, ela sabe de coisas que nem eu nem tu desconfiamos.

Bem, esta carta já vai confusa mas era para te dizer que se precisares de alguma coisa diz, nem que seja ir tomar café ou ir para a fila das finanças.

Queria dizer-te que és importante para mim. Para tudo o resto, respiremos.

 

Maria João Enes

 

19
Fev18

Órfãos da humanidade (Abandono – 2)

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Foto: Homeless - Leroy Skalstad

 

Do momento de luz ao expoente da criação, tornamo-nos corpo, mas também alma. Agregamos experiências, lições, erros, histórias, gostos e desagrados, na edificação de um “Eu” distinto. E é nessa passagem do tempo que alicerçamos as nossas raízes. Prendemo-nos ao meio que nos envolve, ao conforto construído, ao que e a quem nos faz bem.

Se as fundações se abalam, é o ser inteiro que ampara o golpe, carregando as marcas e as feridas pelo longo e turbulento caminho que se estenderá.

Assim é o desígnio dos espíritos jovens abandonados pela sorte. Dos que crescem nas ruas, sem mão que afague, que proteja. Sem poiso que lhes garanta a segurança do amanhã, porque o próprio presente já é uma incógnita. Será que virá? Será que a vida persistirá?

A inocência do sorriso e da crença é-lhes roubada à partida, sem possibilidade de resgate de uma infância sumida. Os ruídos beligerantes atravessam ritmadamente a atmosfera e é no vazio propiciado pelo silêncio que se expressam os clamores sofridos. Os que ecoam num cântico aflitivo e os que são abafados pela dormência de um ser que já não sente, um ser que já não quer sentir.

Dos gritos às barbáries, perderam-se nas debilidades do ser humano. Desvaneceu o seu encanto, a esperança, a alegria… Miragens de uma vida alternativa, de uma outra realidade que não a vigente.

 

São órfãos da humanidade, o produto das massas de gente oca que os abandonou em terras impronunciáveis, submergíveis face às superficialidades da contemporaneidade.

Não os esqueçamos. Não os abandonemos. Pela memória e ação se fará a diferença quanto aos que serão o nosso futuro, enquanto (se) sucede o agora. E aí seremos todos membros da família humana.

 

Sara Silva

 

16
Fev18

Espelho (Abandono – 1)

Publicado por Mil Razões...

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 Foto: Woman - 5776588

 

Hoje acordei e, antes mesmo de abrir os olhos, pensei que seria um bom dia pois a noite foi calma cá em casa, com sonos retemperadores e descansados.

Olho-me ao espelho, já com a cara lavada com água fria e vejo que tudo está bem. Consigo escrever um e-mail de trabalho ainda a tomar o pequeno-almoço, adivinhando um dia produtivo.

De repente, cruzo olhares com o depois e a ideia de que tudo está bom sai a correr. Vejo-a fugir e fico em pânico. Começo a ficar mais nervosa, cada vez mais e mais nervosa e eis que tudo acontece. Tudo à minha volta é um caos, gritam comigo e tento não gritar, mas já vou perguntando “Porquê?”. Por que razão não há um dia em que a ideia de que será um bom dia não me abandona durante esse mesmo dia? Então, tudo acontece...

 

Se antes estava com boas energias, essas desaparecem e o meu pânico é maior pois convenço-me que nem sequer tinha direito de as ter tido em algum momento. Se conseguia suportar os gritos dos outros, esses mesmos gritos abandonam os seus corpos iniciais e passam todos para mim, sendo invadida por ataques de histeria louca, dos quais tenho consciência e abomino. Abomino-me a mim...

Se antes olhei para o espelho e tudo era bom, esse mesmo espelho mostra-me agora uma cara vermelha da própria raiva de existir, olhos a pedir para nunca mais serem vistos abertos por ninguém, lágrimas a pedir perdão por existir.

A alma quer sair do corpo, mas o racional não deixa. Estou presa em mim mesma, nesta minha neura, nesta minha existência medíocre. A pessoa que sou abandona-me e deixa-me à deriva com esta loucura.

Já consegui deixar todos à minha volta de olhos arregalados, mas que se dane! Sofram as consequências por conseguirem deixar-me assim.

Mas eu gosto tanto deles... Eu que já cá não estou. Eu que fui expulsa do meu próprio corpo para dar lugar à insanidade. Sinto ódio, abandono o amor, aquele que tanto acredito e desejo... Não é opção, mas é uma realidade. Uma estúpida realidade que só a mim diz respeito.

 

Sónia Abrantes

 

12
Fev18

Ângela (Beleza – 14)

Publicado por Mil Razões...

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Foto: Woman - Анастасия Гепп

 

O estrondo de um motor atraiu-lhe o olhar através da janela, instintivamente. Viu um carro que passava na rua lateral ao liceu. Tudo estava bem.

Quando Luís fez o olhar regressar ao interior da sala, a porta tinha sido aberta por uma rapariga que entrava, serenamente, com determinação educada. Todos olharam para ela; não podiam deixar de olhar, atraídos por ela, pelos cabelos castanhos a tocarem os ombros, pela pele clara mas precisamente bronzeada, pela beleza do rosto, pelos olhos magnéticos, pela elegância, pela suavidade dos gestos, pelo sorriso cativante, pelo vestido de verão a terminar pelo meio da coxa. O professor interrompeu o silêncio: “Por favor entre e sente-se, se ainda encontrar uma mesa e uma cadeira livres”. Reposto o silêncio, os olhares continuaram até ao fundo da sala, seguindo aquele corpo que flutuava harmonioso. Pousou na última cadeira, olhou o professor e mostrou de novo o sorriso, doce, que agora a todos dizia que estava tudo bem, que a aula podia continuar. Luís sentiu-se preso àquela rapariga tão bela como nunca imaginara possível, senhora de uma luz que criava todas as cores, que tudo harmonizava.

 

Naqueles dias a turma tinha crescido até ao limite do espaço da sala, com rapazes e raparigas regressados de uma África agora independente que os rejeitava, ou que eles rejeitavam. Todos tinham lá nascido e crescido, numa natureza diferente, numa cultura diferente, e por isso sentiam-se peixes fora de água, rejeitados, escorraçados, estigmatizados, a tentarem perceber onde estavam, com quem estavam, a tentarem aprender novos hábitos e a criar laços, referências, amizades. Pela forma como ela chegou, pelo seu jeito, só podia ser um deles – uma retornada.

 

Tornou-se muito longo e vazio o tempo até ao intervalo. Com o toque saíram da sala e, como sempre, caminharam até ao salão polivalente. Luís, sempre tímido, sempre reservado, sobretudo com as raparigas, não tirou os olhos dela. Sem entender como, atreveu-se a abordá-la quando todos a olhavam à distância, disfarçando mal a surpresa, o espanto, a fixação. Aproximou-se. Ao perto ainda era mais bela; era muito diferente de todas as outras raparigas. Atreveu-se e disse-lhe que se chamava Luís, que vinham da mesma sala. Ela respondeu-lhe com um sorriso terno, meigo, carinhoso, irresistível, e continuou: “Chamo-me Ângela. Cheguei ontem de Lourenço Marques e estou aqui hoje, o meu primeiro dia neste liceu. Nunca tinha vindo a Portugal continental”.

Luís não entendia a razão, mas com a Ângela sentia-se à vontade, completamente relaxado, sem medo de ser como era, sem medo de falar. Conversaram todo o intervalo grande e regressaram juntos à sala.

Quando as aulas terminaram - terminavam pela hora de almoço, Luís acompanhou Ângela a casa. Ela, o irmão mais novo e os pais, estavam a viver com os avós que acabara de conhecer. Ficaram a conversar mais um pouco junto ao portão da avó. E depois separam-se até à manhã seguinte quando, bem cedo, Luís chegou ao portão para acompanhar Ângela até ao liceu. O mundo estava todo coberto de cores vivas, de beleza, o ar cheirava bem e tudo era harmonia.

 

E foi assim durante um mês. Ângela e Luís, Luís e Ângela, sempre juntos, por todo o lado. Nunca ele se sentira assim, tão bem, tão sereno, tão seguro, apaixonado. Adorava tudo em Ângela – a imagem, a voz, o cheiro, a serenidade, o sorriso, o jeito, a beleza. Durante aquele tempo experimentou algo que nunca imaginara ser possível – quando caminhavam pela rua, todos os homens olhavam surpreendidos e invejosos. E sim, era ele que ali estava, ao lado de Ângela, era a ele que eles invejavam.

 

E uma sexta-feira, quando regressavam a casa, Ângela disse a Luís que era o último dia em que estariam juntos. Na segunda-feira viajaria de volta a Lourenço Marques, perdão – a Maputo, o pai já tinha tratado de tudo e Moçambique era o país deles, queriam voltar e lá continuar a viver. Luís não conseguiu escolher uma palavra das tantas que queria dizer. Não queria o seu mundo sem Ângela. Queria dizer-lhe o quanto ela era bela, o quanto estava apaixonado, o quanto a desejava, o quanto precisava dela. Mas nada conseguiu dizer.

Não voltou a vê-la, nada soube dela. Regressaram a timidez e as dificuldades com as raparigas. O mundo perdeu luz, cor e harmonia.

 

Alguns anos depois tornou-se adulto e foi mitigando a timidez. Encontrou outras mulheres, encontrou o seu amor. Mas a imagem adolescente da Ângela, a serenidade, a beleza, o amor, ficou para sempre dentro dele, despertando de quando em vez apenas para dizer que está lá, para não ser esquecida, para o encher de ternura.

 

Fernando Couto

 

Porto | Portugal

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