Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

11
Mar19

As coisas mais simples (Simplicidade – 7)

Publicado por Mil Razões...

Girl - Hulki Okan Tabak.jpg

Foto: Girl - Hulki Okan Tabak

 

A simplicidade rima com complexidade e caio na tentação de pensar na antologia entre ambos os conceitos. Não quero, porque simplicidade também combina com felicidade e, isso sim, vale a pena explorar.

Começo por um cliché: “A felicidade está nas coisas mais simples”.

 

Um sorriso. Tem o poder de contagiar o outro e é quase impossível não sorrir de volta a alguém que o mostra sinceramente. É uma arma que deita o outro por terra por mais defesas que ele demonstre. Contagia e desarma, é assim que o defino em parte.

O cenário que vivemos pode ser feio e negro e gigante e confuso, mas ao recebermos um sorriso toda a perspetiva se altera, nem que seja por um curto momento. Sorrir de volta é igualmente compensador porque nos dá uma sensação de alívio, há algo que se dissolve naquele momento.

 

Um bom dia. Há dias em que carregamos o mundo nas costas. O caminho avista-se longo, sinuoso, doloroso até. É difícil comandar o corpo porque o peso nos impede os movimentos. Mas há aquela pessoa que nos dá um bom dia com esperança no olhar e alegria na voz e o peso torna-se mais leve. São apenas duas palavrinhas e têm esse poder.

 

Um abraço. Às vezes existe um vazio. Suspiramos e aquele aperto no peito não nos deixa, olhamos em volta e sentimo-nos perdidos. Às vezes precisamos apenas de um carinho e o abraço, no meu ponto de vista, é o melhor que existe. O toque é uma terapia sobejamente comprovada cientificamente, o calor e o aconchego têm a capacidade de nos dar conforto, a pressão dos braços em nosso redor é relaxante, como é relaxante a pressão de uns dedos durante uma massagem. E é apenas um abraço.

 

O sol. Desde os primeiros raios do dia até ao seu desaparecimento artístico em pôr-se. O sol gosta de protagonismo. Com a luz do sol tudo se transforma. As paisagens ganham beleza, as cores evidenciam-se, há maior nitidez no que observamos porque a claridade assim o permite.

Todos apreciamos um bonito dia de sol. Todos temos mais energia quando o vemos e é quase inevitável sair à rua para senti-lo.  Todos ansiamos por ele pelos mais diversos motivos e deixo à imaginação de cada um.

O calor do sol na pele que a tonifica, o calor que nos traz satisfação, o calor que nos faz despir camadas de roupa mostrando a beleza dos corpos, o calor que tem um efeito terapêutico no nosso estado de humor.

 

Pequenas coisas que nos trazem alegria. Pequenos momentos de satisfação, e a vida é feita desses mesmos.

Dançar descontraidamente. Ouvir música, aquela música que mexe cá dentro. Um mergulho no mar. Uma refeição caseira na companhia certa. Beber um copo de água quando a sede aperta. Sentir uma brisa na cara. Andar descalço na areia. Um jantar entre amigos. Ouvir aquela palavra que nos acelera o coração. Dormir uma noite de sono tranquila. Ver um filme que nos traz emoções. Assistir a algo que nos faça arrepiar. Caminhar com um objetivo ou mesmo sem destino. Saltar, só porque sim. Fazer algo de diferente do habitual. Arriscar e sentir o friozinho na barriga. Dialogar sobre a vida. Comprar aquela peça que namorámos durante meses. Chegar a casa ao final de um dia de trabalho. Relaxar no sofá. O silêncio. Namorar. Um banho quente. A sensação de liberdade ao viajar. Ouvir uma “boa noite, dorme bem” daquela pessoa. Oferecer um presente. Receber algo que gostamos. Realizar um desejo. Ouvir um obrigado.

Podia continuar…

Cada um tem as suas coisas mais simples, as coisas que marcam a diferença e que tornam os momentos especiais e inesquecíveis. Não precisamos de muito, precisamos de saber apreciar a beleza na simplicidade das coisas do dia-a-dia.

 

Marisa Fernandes

 

08
Mar19

Um ponto brilhante (Simplicidade – 6)

Publicado por Mil Razões...

Woman - Alexandr Ivanov.jpg

Foto: Woman - Alexandr Ivanov

 

“Queria, queria

Ser igual ao peixe

Que livre nas águas

Se mexe”

Pedro Homem de Mello

 

Um dia, chegando a casa, senti que estava pela primeira vez a entrar num mundo novo. Mesmo que já lá morasse há um ano, aquele espaço não seria pisado por ele e tudo bem, não vinha nenhum mal ao mundo. Como se me encontrasse no agora, com esta nova pessoa que eu sou. Uma paz que assoma por dentro banhando as paredes e enchendo, enchendo e enchendo devagar até transbordar.

Como respirar quando tudo arde e pesa o ar cá fora?

Séneca, na sua ideia de viver de modo desapegado do prazer e sem medo da dor, não seria a chave do mistério. Há um conforto que nos transmite segurança, confiança, pontos de referências no que é familiar e rotineiro como o primeiro café da manhã.

Andamos na vida por vezes mais perdidos do que sei lá o quê, e nisto um dos corrimãos desaparece e caímos. Com poff!! e tudo.

Infinitamente rápido é o movimento do tempo, como se vê mais claramente quando se olha para trás. Pois quando estamos atentos ao presente, não o percebemos, tão suave é a passagem do tempo ao ir pelo dia afora.

A linguagem da verdade é simples. Quando nesse encontro mais silencioso nos deparamos a um espelho que não se parte ou distorce, aí aquietemos para ouvir esse ribeiro que murmura há já muito tempo: gosta muito de ti.

 

Maria João Enes

 

04
Mar19

Vem... vem comigo! (Simplicidade – 5)

Publicado por Mil Razões...

Couple - Mystic Art Design.png

Foto: Couple - Mystic Art Design

 

A noite cai assombrosamente gelada. Olho pela janela, mas não vejo ninguém. Parece que se silenciaram as horas neste anoitecer. Mas que me interessa isso se hoje tenho o teu beijo.

Hoje vou entregar-me a ti. No teu amor quero perder-me! Os teus olhos que tudo revelam, dizem-me para esperar pois um dia deixarei de sofrer.

Toco-te… Fecho os olhos e vejo as estrelas. Beijo-te… E por um momento voas comigo

até ao infinito, onde encontraremos o nosso amor.

Quero-te! Enfrentarei o mundo pelo teu amor. Sei que nada tenho para te oferecer além de todo este amor, toda esta simplicidade que nos une, que nos toca. Sou apenas um grão de areia no vasto deserto. Mas olha, fecha a janela, está a arrefecer, e vem! Vem consertar comigo os planos de um futuro ainda incerto.

 

Inês Ramos

 

01
Mar19

O essencial da vida (Simplicidade – 4)

Publicado por Mil Razões...

Woman - Foundry.jpg

Foto: Woman - Foundry

 

É nas coisas simples e na simplicidade dos nossos atos que podemos encontrar o essencial da vida. Todavia, na era em que vivemos, tão materialista e consumista, torna-se cada vez mais difícil encontrar simplicidade nas pessoas e nas coisas que nos rodeiam.

Nos tempos que correm, somos dominados, infelizmente, por uma cultura em que predomina o superficial e o virtual, subjugados muitas vezes por uma autêntica “loucura” de ficção, cujo mundo em que vivemos mais parece irreal face ao total desapego e indiferença do que é natural e genuíno.

Valha-nos, ao menos, a “Mãe Natureza” que, sempre fiel aos seus princípios e pródiga nas suas dádivas, nos vai confortando com as suas lições de simplicidade, suprema virtude de sentimentos. E são essas lições que, como autênticas lições de vida que são, nos ensinam que o poder das coisas simples é o que nos faz sobreviver e nos torna mais felizes.

Com tantas coisas simples e saudáveis ao nosso alcance, para o exercício do corpo e o cultivo da mente, é preciso saber aproveitar essa fonte de recursos naturais e fazer boas escolhas, no dia-a-dia de cada um de nós, que passam necessariamente pela convivência sã e fraterna entre as pessoas, pelo desfrutar da vida ao ar livre, pela rejeição de artificialismos, falando e agindo com simplicidade nos relacionamentos interpessoais.

Em tudo isto é que reside o essencial para uma vida salutar.

 

José Azevedo

 

25
Fev19

Bom dia. Como estás? (Simplicidade – 3)

Publicado por Mil Razões...

Woman - Free-Photos (1).jpg

Foto: Woman - Free-Photos

 

Aguardava mais um dia pacato e monótono como todos tinham sido até então. O despertar tornara-se numa obrigatoriedade que se forçava por cumprir todas as manhãs, em pleno contentamento com o que existia no agora, fruto do que construíra no passado. E assim seria esse dia, não fossem aquelas quatro palavras inesperadas a colorir o amanhecer.

“Bom dia. Como estás?”

 

Levantou-se, executou a rotina habitual e deixou que os seus olhos percorressem aquelas letras vezes sem conta até um sorriso se desenhar nos seus lábios.

“Bom dia.”

 

Não estava mais só. Havia alguém no outro lado da linha, entre quatro paredes como ela, quiçá, que dedicara alguns segundos ou minutos do seu tempo a essa partilha, a esse reconhecimento, e só por isso, este já não seria um dia como os demais. Ia ser mesmo um bom dia, independentemente do que se passasse.

“Como estás?”

 

Acostumara-se à solitude propiciada pelas circunstâncias a que não conseguira fugir, às inevitabilidades que fizeram parte do seu caminho, mantendo sempre a cabeça erguida enquanto o seu corpo se movia adiante. E agora recebia o retorno da sua coragem e valentia, do seu inesgotável otimismo que por vezes se quebrava, nunca se extinguindo, disfrutando dessa nova força e energia que se apoderaram do seu espírito, dando um novo fôlego à esperança.

“Bom dia. Como estás?”

 

Leu uma vez mais, espantando-se com o poder de meras palavras e dos pequenos gestos como este. Era inegável a magnitude dos detalhes, capazes de gerar os maiores impactos assim, quase sem querer.

 

“As coisas mais simples da vida são as mais extraordinárias, e só os sábios conseguem vê-las.”

Paulo Coelho; “O Alquimista”

 

Como tinha razão este sábio cujas histórias viajaram e povoaram mundos. As suas palavras evocadas quase por instinto comprovavam as verdades empíricas que lhe eram reveladas nas suas vivências.

Seguiu com as horas ocupadas, sentindo na pele a diferença proporcionada pela simplicidade, sabendo-se, de igual modo, um pouco mais sapiente por ter constatado essa verdade.

É que de facto são os detalhes que passam despercebidos na correria quotidiana, aqueles cuja soma se engrandece e se torna percetível no conjunto de dias a que se chama vida. São eles que podem marcar e determinar a maior das diferenças. Por isso, repetindo a intenção, logo se apressou a responder:

“Bom dia. Muito obrigado pela tua mensagem. Agora estou bem, ao lê-la. E tu, como estás?”

 

E esse gesto repetido manteve-se, multiplicando-se, trazendo dia após dia um novo ânimo ao seu despertar.

 

Sara Silva

 

22
Fev19

Beleza e coração aberto (Simplicidade – 2)

Publicado por Mil Razões...

Girl - Free-Photos.jpg

Foto: Girl - Free-Photos

 

Estou um bocadinho cansada de pessoas que exibem a sua sabedoria, que exibem o seu trabalho, que exibem só o que de melhor fazem, que exibem o seu exterior. Sinceramente tenho dificuldade em perceber! Não há necessidade.

Perceber a simplicidade é difícil e não é para todos. Na sociedade em que vivemos, a beleza que a simplicidade transporta nem sempre é percebida. Às vezes até é mal interpretada: “Aquela não é formal, não veste como a maioria das pessoas. É estranha”.

A simplicidade não traduz o conhecimento e as capacidades de cada um. É uma forma de estar na vida. A pessoa vê o mundo de forma transparente e vive-o de forma tranquila. Não precisa de ostentar; não precisa de se vangloriar. Ouve-se a si própria e não sabe ser de outra forma.

Pessoas simples são pessoas simples, e o que eu penso é que não sabem mesmo ser de outra forma, mesmo que lhe digam que podem ser prejudicadas e mal interpretadas por isso.  Ainda bem que não conseguem ser de outra forma, com todas as consequências que isso pode trazer, porque a beleza e a sabedoria estão aqui. 

 

Mas como lidar com pessoas que, perante a simplicidade, a discriminam?  Digo que, provavelmente, devem apelar à sensibilidade dos seus olhares e expandir horizontes, e aceitar que pessoas simples são, na sua maioria, pessoas belas, de coração aberto, e muitas vezes muito interessantes sob vários pontos de vista. Só não precisam de o dizer.

Conheço pessoas cuja simplicidade é uma das suas caraterísticas. São tão interessantes e aprendo tanto com elas!

 

Ermelinda Macedo

 

18
Fev19

Pingos (Simplicidade – 1)

Publicado por Mil Razões...

Drip - Free-Photos.jpg

Foto: Drip - Free-Photos

 

Mais um dia de chuva e uma ventania brutal.

Acordo e penso que o treino será engraçado. Talvez até uma verdadeira aventura!

Mas será bom fazer algo diferente e que apele aos instintos de sobrevivência. Que apele ao simples desejo de chegar ao fim com sucesso e, de preferência ileso.

Talvez seja melhor adiar por umas horas e adiantar trabalho. Treino depois...

 

Ui... A chuva agravou e o vento está a levantar tudo o que pode.

Treinar será ainda mais interessante assim...

Porque razão não fui correr como é habitual? É sempre a primeira coisa que faço... Hoje não porquê?

Esta simplicidade das rotinas diárias é tão eficaz... Lá tive que mudar hoje. Logo hoje que os céus decidiram desabar com tudo o que têm.

Penso agora que, no meu mais íntimo, desejo por algo mais do que um dia simples. Deixei a mente escolher em vez de obedecer à rotina. Esta mesma mente que agora teima em convencer-me que ir correr à chuva e ao vento me vai deixar divertida... Será ela louca? Serei eu dependente dela?

Afinal não é assim tão simples... Essa dita simplicidade.

 

Sónia Abrantes

 

11
Fev19

Um, dois... amor e depois (Urgência – 12)

Publicado por Mil Razões...

Little - Barrie Taylor.jpg

Foto: Little - Barrie Taylor

 

“Vou contar até três”.  E a urgência acontece, entrecortada por soluços que agitam pequenas lágrimas e as despenham de uns olhos miúdos, entre rebeldes e apavorados.

 

1...

O dono dos olhos miúdos, uma criança de não mais de cinco anos, sento o peso do ameaçador monossílabo atroar o universo todo. O universo todo é uma coisa enorme, pensa ele. E mesmo assim, não há para onde fugir, no limiar da revolta ou do desespero ou da emergência.  O seu corpo pequeno acusa as réplicas do primeiro trovão, em ondas que se chocam entre si: “luto pelo doce que quero, ou desisto?...”  O tempo parece tomar uma forma estranha, difusa, e, portanto, aos olhos do menino, relativa:  afinal ainda haveria o 2 e o 3, ele sabe, já aprendeu na creche, já é crescido e sábio. Ainda não chegaria já o juízo final – ou se declaravam os vencedores.  Aproveitando um soluço vindo lá das profundezas do seu coraçãozinho cheio de direitos, solta mais um grito de protesto e arrelia, e mobiliza um exército de lagrimazinhas novas: “Eu queeeeeeroooooo!...”. A urgência dele é maior que a da mãe, a julgar pelo arrastar desesperado do verbo “querer”. “Não!”, dizia-lhe, lá de dentro da sua cabeça dorida do choro, a vozinha de um espírito voluntarioso e pérfido, “Tens direito ao doce, já o tinhas pedido quando saíste de casa, a mãe devia ter isso em conta! E portaste-te bem, até ajudaste a empurrar o carrinho de compras! E o doce é barato, e diz na televisão que faz os meninos felizes e tudo!”.

 

2…

Desta vez, até o espiritozinho meio-maligno se assustou, dentro da cabecinha fervente do pequeno. “Bolas, 2, já??... E eu ainda nem sequer dei o segundo berro! Mau, mau, a coisa complica, se o tempo se esgota e eu não uso todas as minhas armas... Olha!, gente a parar à nossa volta!! ...é isso, mais um berro e a coisa toma contornos de crueldade desnecessária contra uma criança inocente, para não falar já em violência!”. E, desta vez, dois gritos estridentes disparam da pequena boca gulosa e voam por todo o hipermercado, assustando até o pó das mais altas prateleiras. Sim, de facto, os olhares que se foram juntando à volta da cena tornam-se um pouco intimidadores para a pobre mãe, até aí exercendo o seu direito de ter razão, sem pressa, nem escândalo.  Um burburinho parece começar a ferver, no caldeirão da gente dona-da-razão. “Oh, coitado do menino, ele está nervoso e a mãe só está a piorar a situação, com aquela atitude de ameaça!”. “Qual quê?, eu dava-lhe era um valente açoite nas nalgas, ia ver se a birra não acabava logo!”. “Credo, a criança é um monstrozinho!”. “Não lhes sabem dar a educação em casa, vêm para aqui dar espetáculos de graça!”. “A mãe é que tem a culpa, com certeza já lhe deu abusos, agora que o ature!”.

Bem, a coisa está feia.  E o menino, de repente, já não se acha dono da eternidade, que o número 3 deve estar a cair-lhe em cima. E o comentário daquela senhora com lábios feitos de linha vermelha muito fina e olhos sem cor, que lha comeram as pestanas postiças, fá-lo parar o soluço propulsor de mais meia dúzia de lágrimas e coloca-o em alerta: “O importante é o amor. E esta mãe não tem amor pelo filho, ela não sabe, mas está a afetar o filho para a vida, expondo-o assim. Estas mães não têm paciência, nem compreensão, só querem saber delas próprias. Se calhar não tem tempo para explicar ao filho porque não lhe dá o doce, depois é esta cena triste... a mães assim, deviam-lhes ser retirados os filhos”... (...) ...Bem.  O espiritozinho dentro da cabeça do menino mexeu-se nervosamente e mandou parar de imediato:  soluços, lágrimas e esperneações. O coração, lá no fundo do seu peito, revolveu-se e reposicionou-se, assim, encolhidinho entre as costelas ainda meio trémulas, ligeiramente virado para a esquerda. Uma dorzinha lá dentro lembrou o menino que a urgência, afinal, não tem nenhuma importância. O importante é o Amor.  E o amor da sua mãe não sabe contar, nem sabe quando acaba o tempo, nem sabe medir o universo, porque ele, mesmo menino pequenino, está sempre entre ela e o universo, muito pertinho, por isso, maior que todo o universo.

A mãe, claro, sabe contar. Mas esquece-se sempre em que número vai, quando os seus olhos se entendem para ela, arrependidos e tímidos. Por isso, o 3 nem aconteceu. Em vez disso, a mãe deu-lhe um doce: um sorriso recheado do melhor amor. E seguiram os dois, empurrando o carrinho de compras, corredor fora, para longe das pessoas que comeram muitos doces em pequeninos e que nunca fizeram birras no supermercado.

 

Teresa Teixeira

 

08
Fev19

Nunca é solução (Urgência – 11)

Publicado por Mil Razões...

Woman - Free-Photos.jpg

Foto: Woman - Free-Photos

 

O despertador ainda não tocou, mas já acordaste. Ao contrário de outros tempos, não são os minutos a menos de sono que te incomodam, nem o vislumbre imaginário da chatice das reuniões que vais ter ao longo do dia. De facto, o que te assalta é uma incapacidade imediata da capacidade de respirar. O peso no peito é insuportável e assim é, também, a incapacidade de suster o choro.

As tuas decisões e indecisões roubam-te o pensamento lúcido e a capacidade de resolução. Cessaram as soluções viáveis, existindo apenas uma montanha inultrapassável e inenarrável, porque sim, por muito que expliques, ninguém te entende, ninguém sabe como sofres, nem quão profundo é o buraco na tua alma. Porque a tua dor já não é tangível e o domínio do corpo e do real há muito foram deixados para trás, assim como a alegria e o prazer. O único consolo que te resta atualmente é quando te abandona a vigília, e o sono toma de assalto as tuas horas, agora maravilhosas. Contudo, adormeces sempre com o medo que a realidade invada o onírico, e então, até esse refugio foi contaminado pela tua dor e desespero. E esse torna-se o teu núcleo, o teu ser. A ansiedade e a angústia são o teu par, tornam-se o teu ser. Não reconheces o teu âmago e anseias a cada momento por uma explicação. Algo que te diga quem és e o que se perdeu. E como podes voltar a trás. Porquê? Que fiz eu para merecer tal sofrimento? Porque sinto o que sinto e porque já não sinto o que outrora sentia? E talvez, numa tentativa lógica de voltar a sentir, cortas-te. Uma e outra vez. Um braço serve, talvez os dois. Mas depressa te apercebes que não é solução. Nunca é solução. São apenas as cicatrizes visíveis da urgência da saída que não encontras.

 

Rui Duarte

 

04
Fev19

A procura (Urgência – 10)

Publicado por Mil Razões...

Man - Silvia & Frank.jpg

Foto: Man - Silvia & Frank

 

… “Chamem as tropas aquarteladas na província

Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva

Todos. Decrete-se a lei marcial com todas as suas consequências

O perigo justifica-o” …

 

Terá sido a esta altura que fiquei presa ao ecrã da televisão. O apelo, com carácter de urgência, despertou-me curiosidade, mas também inquietação.

As imagens, a preto e branco, mostravam um homem e uma mulher que corriam assustados, perdidos por ruas estreitas e vazias. Não percebia porque fugiam e de quem se escondiam, na verdade, eu nada percebia do que via na televisão, mas sentia-me arrebatada. Era a hora do jantar, o bulício do restaurante e o ruído inarmónico de talheres e pratos abafavam a voz que lia o comunicado de carácter urgente.

Inesperadamente, a sala silenciou-se. Não foi combinado e tão pouco intencional, foi um daqueles momentos em que ninguém tem nada para dizer e o silêncio cai. Pareceram uma eternidade, no entanto, quão breves e curtos foram esses segundos que nem chegaram para ouvir a razão da urgência na captura daquele casal em fuga! Mas o caso devia ser muito grave porque ainda pude ouvir na caixinha mágica:

 

 … “Por decisão governamental estão suspensas as liberdades individuais

a inviolabilidade do domicílio a habeas corpus o sigilo da

correspondência” …

 

O silêncio incomoda e é urgente preenchê-lo. Recomeçaram as conversas ao estilo rococó que é o mesmo que dizer, conversas superficiais e desorientadas, sem importância. E risos. Muitos risos, indiferentes ao drama do País e à desgraça do casal em fuga.

A dada altura, a televisão emudeceu e a imagem era um granulado nervoso e acinzentado.  Esteve assim até que, como era comum na época, apareceu o aviso:

“Pedimos desculpa por esta interrupção, o programa segue dentro de momentos.”.

A emissão retomou com anúncios publicitários. Sobre o homem e a mulher não deram mais notícias.

Lamentei o imprevisto e enfureci-me contra os desconhecidos que me impediram de seguir a história apaixonada do casal em fuga.

Não estabeleci como urgência descobrir o desenlace dos dois fugitivos, mas por vezes assaltava-me a curiosidade de saber que rumo tomaram. Seriam reais ou ficcionados? Ainda tentei descobrir que programa era aquele e recolher informações sobre a história, mas não encontrei ninguém que soubesse do que eu falava.

Por essa altura, aconteceu o 25 de Abril. Refiro-o, porque com este acontecimento chegaram novidades expressas livremente. A nível das artes então, foi um desabrochar lindo de acompanhar. As livrarias encheram-se de novos autores, as rádios passavam músicas até então desconhecidas, a televisão repunha programas anteriormente censurados. E, foi assim que numa noite, revejo novamente na televisão a história do casal em fuga. As imagens eram de outro ponto da história, mas reconheci-as de imediato. O Mário Viegas lia o comunicado que denunciava porque era tão urgente capturá-los.

 

… “beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade noturna

É preciso encontrá-los. É indispensável descobri-los

Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater

É possível que cantem

Mas defendam-se de entender a sua voz. Alguém que os escutou

deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de

lágrimas” …

 

Só consegui entregar-me à paixão das palavras ditas quando venci a surpresa e o espanto do reencontro. Não ouvi desde o início, mas tinha decorrido tanto tempo desde a primeira vez que tomei conhecimento daquela história, que não podiam estar a falar de um facto real, mas dum belíssimo texto ficcionado. Precisava de anotar o nome do autor e o título da obra, era imperioso adquirir o livro, tinha urgência em saber como começava e acabava a história dos dois amantes. Mas quê, a ficha técnica deve ter passado no início, que eu não vi, e o poema não foi dito até ao fim. Mais uma vez a história me escapou. Seria exagero afirmar que isso condicionou os meus dias seguintes, mas sim, empenhei-me na procura com a única informação que dispunha – um texto lido, na televisão, pelo Mário Viegas, sobre um homem e uma mulher que se amavam. Sem êxito.

Um dia entrei na redação do extinto jornal “O Diário” e vi colado na parede, em papel amarelecido, o extrato de um poema. Reconheci-o, era a “minha” história. Começava com o título e terminava com o nome do autor. Finalmente! Conhecer os personagens que anos antes tanto me intrigaram já não era uma urgência, mas uma emergência. Saí direta a uma livraria. O que encontrei, desconcertou-me, naquela como em todas as outras, nos escaparates destacava-se a “Invenção do Amor” do Daniel Filipe. Ainda hoje, passados tantos anos, mantenho por perto esse pequeno livrinho.

 

… “Prevê-se para breve a captura do casal fugitivo (Mas um grito de esperança inconsequente vem do fundo da noite envolver a cidade au bout du chagrin une fenêtre ouverte une fenêtre eclairée)” …

“Invenção do Amor”; Daniel Filipe

 

Cidália Carvalho

 

Porto | Portugal

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Recomendamos | Filmes

 

 

 

Equipa

> Alexandra Vaz

> Cidália Carvalho

> Ermelinda Macedo

> Fernando Couto

> Inês Ramos

> Jorge Saraiva

> José Azevedo

> Maria João Enes

> Marisa Fernandes

> Rui Duarte

> Sara Silva

> Sónia Abrantes

> Teresa Teixeira

Calendário

Abril 2019

D S T Q Q S S
123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
282930

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D

Comentários recentes

  • Anónimo

    Muito Obrigada pelo seu comentário.Agradeço as sua...

  • Anónimo

    Para além do conteúdo do texto, muito feliz o empr...

  • Anónimo

  • Anónimo

    Bom dia Cidália. Perfeita análise ao “não escrito”...

  • Anónimo

    Ok! Mesmo sem encontrar razões para escrever, foi ...

Ligações

Candidatos a Articulistas

Amigos do Mil Razões...

Apoio emocional

Promoção da saúde