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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

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10
Jan12

Resoluta (Resoluções – 3)

Publicado por Mil Razões...

 

Resoluta! Era assim que todos a viam: uma mulher resoluta, ou resolvida, como costumavam dizer quando se lhe referiam. Maria Francisca não desvalorizava nenhum problema, mas não lhe atribuía mais importância do que a que devia ter. Discernia com tanta facilidade o que era importante, ou desprezível, exibia uma destreza tal a resolver os problemas, que passou a ser adjetivada de “resolvida”.

Em pequena, rapidamente aprendeu a cativar, meio de ajuda à prossecução dos seus objectivos.

Direta e determinada, se queria, tinha; se não queria, de nada valia tentar convencê-la - pura perda de tempo.

Muito jovem ainda, conheceu o Gonçalo, logo aí resolveu que casaria, ele seria o seu marido e o pai dos seus três filhos. Assunto resolvido.

Ensinou os filhos a ter atitude perante os problemas: resolvem-se, se resolúveis, desprezam-se, se não têm resolução. Ilustrava a sua teoria com uma caixa de madeira e pequenos pedaços de papel. Um papel representava um problema. Se digno de atenção, metia-o na caixinha de madeira; se desprezível, deitava-o fora. Na caixinha não deviam acumular demasiados papelinhos, apenas e só os suficientes para desafiarem a capacidade de ação e resolução; demasiados poderiam levá-los a desistir sem os resolverem. O fundo da caixinha deveria manter-se sempre visível.

Os filhos de Maria Francisca viam nela um muro indestrutível que de tudo os protegia.

Os filhos dos filhos, quando procuravam os pais, era com a avó que acabavam a resolver os seus medos, as suas angústias, os seus problemas relacionais da escola, da casa, ou da rua.

- O Manelinho bateu-te? Se o professor não resolve isso vou eu à escola e mostro ao Manelinho com quem se está a meter, sempre quero ver se é menino para voltar a bater-te!

Desta forma, simples, sacrílega aos olhos de hoje, resolvia mais um problema com um dos seus pequenitos.

Tudo resolvia Maria Francisca. Tudo? A morte a resolver a doença do marido foi a sua grande derrota. Não foi tida nem achada, não foi ouvida, não pôde fazer nada. Bem se esforçou mas o resultado foi apenas o de se confrontar, pela primeira vez, com os limites do seu querer e da sua existência. A derrota não era a sua marca; chorou sozinha e em silêncio a morte do seu querido companheiro, mas sem se desviar do seu objetivo: não criar problemas, antes resolvê-los.

Quando anos mais tarde adoeceu e acamou, isso não a impediu de ajudar os filhos a gerir os seus recursos, dando orientações: os títulos na bolsa estão a descer, comprem; os títulos estão a subir, vendam; afundam, parem.

A festa do seu aniversário foi preparada no quarto, para maior comodidade da doente. Depois de aí terem almoçado, Maria Francisca mandou sair toda a gente, queria fazer uma sesta. Encontraram-na morta duas horas depois.

Diziam os familiares que resolveu morrer no seu aniversário para resolver duas datas numa só.

 

Cidália Carvalho

 

Porto | Portugal

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