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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

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21
Jan11

Desabafo (Reclusão – 6)

Publicado por Mil Razões...

 

 

 

 

Nunca mais vou esquecer o dia em que a polícia veio cá a casa buscar-vos... Faz hoje 20 anos mas lembro-me como se fosse ontem. Eu era tão jovem na altura que aos meus olhos, tudo parecia normal. O entrar e sair constante de pessoas, as filas de caras estranhas à porta de casa, a confusão, o barulho, a fumarada nos quartos, o afastamento dos avós e dos vizinhos, todos os sinais que são agora tão óbvios, tudo isso para mim era perfeitamente normal. Nessa altura eu não sabia o que eram drogas ou o que era um traficante, só fiquei a perceber melhor mais tarde quando a tia me explicou, depois de eu e a mana termos ido viver com ela.

Vocês não pensaram em nós. Não vos passou pela cabeça que o que estavam a fazer poderia comprometer seriamente a vida dos vossos filhos. E comprometeu... Tudo se complicou para mim depois de vocês terem sido presos. A tia trabalhava muitas horas fora de casa e disse-me logo, assim que fomos viver com ela, que só assinou os papéis e assumiu a responsabilidade porque não queria que fossemos para uma instituição. Disse tudo isto para me explicar que teria que ser eu a tomar conta da minha irmã de 4 anos, levá-la ao infantário, dar-lhe banho, dar-lhe de comer e tudo o que ela precisasse. Eu era só um rapaz de 12 anos.

Tive que ir trabalhar. Com a ajuda de amigos, consegui arranjar um trabalho das dez da noite às duas da manhã, o que me permitiu continuar a estudar. Durante 8 anos, acordava às sete da manhã para arranjar a minha irmã, dar-lhe o pequeno-almoço e levá-la ao infantário/escola. Daí seguia para a minha escola. Ao final da tarde, ia buscá-la, fazia os trabalhos de casa com ela, dava-lhe de comer, metia-a na cama e, com a tia já em casa, saía para ir trabalhar. E foi assim que fomos sobrevivendo.

Adoro a minha irmã, mas como devem perceber não estava preparado para ser pai com aquela idade. Hoje percebo que até me safei, pois ela é uma mulher fantástica, mas poderia não ter sido assim e tive muito medo o caminho todo...

 

Quando vocês voltaram, no final daqueles anos todos, recebi-vos com muita saudade e rapidamente voltamos a ser uma família. Mãe é mãe. Pai é pai. Não é? Mas nunca vos cheguei a dizer o quanto fiquei magoado por me terem roubado a minha adolescência, por me terem obrigado a crescer daquela forma tão violenta... Vocês não pensaram em nós. E isso eu não consigo esquecer. Pensei que este sentimento passaria ao passarmos tempo juntos e com o passar dos anos, mas não, não desaparece. Continua exactamente igual. Vocês não pensaram em nós.

Lanço estas palavras de ressentimento nesta carta que não sei se algum dia vos darei a ler, agora que tudo parece pertencer ao passado, que estamos mais próximos e as coisas correm melhor, porque nem tudo é passado para mim e há momentos que estão bem presentes na minha memória.

 

Ana Gomes

 

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