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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

30
Ago19

No Louvre (Humildade – 5)

Publicado por Mil Razões...

Sculpture - Ilona (1).jpg

Foto: Sculpture - Ilona

 

As esculturas incomodam-me. Apreciar uma ou duas é um deleite, muitas mais já algo se coça dentro de mim, fazendo-me desviar o olhar. Até com desdém, por vezes.

Representar partes de corpos, um busto, cabeça, rostos, de pessoas que não nos dizem nada. Quando a vida nos dói, um certo representar da vida soa a falso, plástico.

Sentei-me numa escada ao lado de uma representação com ninfa e um Deus e crianças brincando em torno das duas ou três figuras. As imagens pareciam estar entretidas naquela sua dinâmica, algo de rotina e de improviso de onde desponta o espontâneo. Pareciam dar-se ao olhar, à exposição do meu desejo de ver e observar tudo. Voyeur.

Toda a escultura jogava bem ao Olhem para mim, somos todos bonitos.

 

Uma das figuras apanho-a a fitar-me de estuque na minha direção. Continuei a minha ignorância e desdém. Desvio o olhar e outras vidas se colocam ao meu lado a tirar fotografias, também na tentativa de se agarrarem à ilusão de que vão viver para sempre.

Perpassa-me o choque que tudo é vão e tal como eu, outra pessoa se sentará nas escadas, cansada. No mesmo jogo de flirt com a estátua.

O olhar de estuque incomoda-me. Pergunta-me: “Nós somos falsos, mas ficamos séculos e milénios aqui. E tu?”.

Guardo então o tempo, afinco e entrega ao esculpir uma figura. Meses, anos e naquele ritmo, aquela hora, dias de chuva e de sol. Guardo celebrar os outros que passam esta chuva e sol connosco, nos pequenos sorrisos ou olhares. Na relação entre a obra e o escultor, nasce uma ligação, uma presença em que um não existe sem o outro. Guardo esse molde também para a relação connosco. Mesmo se a pedra falhar e houver um ponto fraco, racha. Tentar embelezar ou partir de outro ponto mais atrás e seguro. Cuidemos de nós próprios com essa presença, principalmente quando mais arde, nessas horas mais modestas.

 

Maria João Enes

 

26
Ago19

Vencer na vida (Humildade - 4)

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Folk - Engin Akyurt.jpg

Foto: Folk - Engin Akyurt

 

Pouco exigiu da vida, mas esta sempre exigiu muito dele. Por isso, o Sr. Felício (era esse o seu nome) teve de lutar, lutar muito, para fazer pela vida e para se afirmar. E afirmou-se como um respeitável comerciante, na cidade do Porto. Fê-lo, porém, sempre com humildade, com essa nobre e sublime virtude que reúne em si tantas outras virtudes, ou seja, com tolerância, gentileza, respeito e gratidão. Dir-se-ia que o Sr. Felício fez jus ao seu nome, para ser tão bem-sucedido a nível social e no âmbito da sua atividade profissional.

Na sua forma de estar na vida não havia lugar para a prepotência, arrogância, ingratidão ou soberba. Soube ler o conhecido pensamento de Confúcio, o qual sabiamente afirmou que: “a humildade é a única base sólida de todas as virtudes”. Segundo aquele Filósofo, tal atributo é a espinha dorsal do caráter de um Homem, porque todas as outras qualidades dependem dela.

Ao invés do que muita gente pensa, a prática da humildade nem sempre é fácil, é muitas vezes difícil praticá-la sem que a mesma implique alguma sujeição e sacrifício.

Muito cedo, porém, o Sr. Felício soube adotar uma filosofia que não se identificava com a figura de “coitadinho”, mas antes procurando valorizar sempre a modéstia e a simplicidade, duas caraterísticas poderosas do ser humano, que considerou indispensáveis para vencer os desafios da sua vida.

Os seus êxitos só assim foram possíveis de concretizar porque esteve sempre lado a lado com a humildade, reconhecendo as suas fraquezas e limitações, admitindo seus erros e, deles pedindo perdão, quando achou necessário.

 

José Azevedo

 

23
Ago19

Invisível (Humildade – 3)

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Foto: Invisible - Nangreenly

 

Depois de meses a tentar, finalmente consigo pôr em prática aquilo que penso ser a melhor forma de nos levar ao sucesso. Tenho vontade de gritar ao mundo o que consegui atingir, aquilo que sou capaz de fazer, aquilo que o meu cérebro consegue desvendar e criar. Mas há uma força que me impede de o fazer.

Ao olhar à minha volta vejo pessoas sem fim a gabarem-se do que fazem. No Facebook aparecem imensos posts sobre o que cada um comeu, onde foram passar férias, em que trabalho foram admitidos, o filho que entrou na faculdade... Ao olhar para essas mensagens penso que partilhar toda essa informação com o mundo faz com que tenha menos valor.

O facto de termos a necessidade de dizer em voz alta os nossos feitos torna-os menos gloriosos. Porquê?

Deixam de ser nossos, passam a ser propaganda.

Se há tanta necessidade de afirmação, quase imposta pela publicidade de nós mesmos, é porque na realidade sentimos que somos menos vistos do que queríamos.

Mas, e se as redes sociais não tivessem sido criadas? Seriamos invisíveis? Deixaríamos de fazer essas partilhas?

Não. Em todos os tempos sempre houve gabarolas, com falta de humildade, preocupados em viver a vida na ribalta, com necessidade de atenção. Não ter medo de ser invisível, viver da melhor forma, com humildade, deixar fluir a vida sem necessidade de a tornar pública, parece-me uma boa forma de viver.

As energias que temos não são gastas em mostrar-nos aos outros, mas sim em sermos nós mesmos.

 

Sónia Abrantes

 

19
Ago19

A riqueza (Humildade – 2)

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Foto: Friendship - G_Grilli30

 

No topo da montanha vivia um mestre sábio ao qual muitos recorriam em momentos de adversidade. Certo dia, dois forasteiros subiram a montanha em busca dos conselhos deste homem sapiente. Um deles possuía uma riqueza vasta e angustiava-se por estar prestes a perdê-la. O outro homem era pobre e sofria por não poder ajudar o filho que se encontrava gravemente doente, uma dor terrível que lhe consumia o espírito.

Quando o primeiro homem se encontrou com o mestre, falou-lhe de todos os seus tesouros e de como trabalhara arduamente para consegui-los, enaltecendo-se e ressalvando cada joia e cada moeda conquistada.

O segundo reconhecia as suas incapacidades e a sua pequena dimensão neste vasto universo, esperançoso de que o amor que nutria pelo filho pudesse ser suficiente, quando não tinha muito mais para lhe oferecer, nem mais que pudesse fazer.

O mestre escutou-os em silêncio, e ao fim de largos minutos, decidiu chamar os dois homens para que estes dialogassem.

- Há muito que podemos aprender uns com os outros, tanto nas diferenças como nas semelhanças. Ambos possuem riquezas que estão em vias de perder. Ambos sofrem com isso. E é na partilha que encontrarão as respostas que buscam.

 

Os homens entreolharam-se, estupefactos com o que o mestre lhes dissera, desconfiados de que tanto um como outro pudessem ser a solução dos problemas vigentes, mas aceitaram a recomendação que ele lhes dera.

Quando o mestre se ausentou para que eles pudessem falar, os dois homens confessaram as suas vidas e as suas mágoas, expetantes com o que daí pudesse advir.

O primeiro, vaidoso do seu estatuto e do que tinha, fez um inventário dos seus bens e do poder económico de que gozava. Era um homem rico que fizera maus investimentos e em breve iria perder tudo.

Quando o segundo lhe falou do filho, da doença que tinha e de como não conseguia ajudá-lo por não dispor dos meios necessários, o primeiro homem reconheceu o seu erro. Tinha-lhe falado de coisas e do seu apego às coisas, alheio ao que de verdade importava. Ao ouvir aquele homem a falar do amor que tinha ao filho, percebeu que os seus bens não tinham qualquer valor quando comparados com a vida daqueles que amava. Mas ainda havia algo a fazer. Ainda havia esperança.

 

- Falaste-me do teu filho e das dificuldades que atravessas. As minhas angústias não são nada face à tua dor. Perdoa-me por me ter achado superior.

- Todos temos as nossas dores. Não são maiores ou menores, são apenas distintas. Não há nada a perdoar. – assentiu o segundo homem.

- Ensinas-me a nobreza de caráter e por isso te estou agradecido. Sei que não me restará muito do que fui juntando ao longo dos anos, pelas dívidas que tenho a pagar, mas do que ainda tenho dou-te parte para que possas salvar aquele que amas.

- É um gesto muito bondoso, mas eu não posso aceitar. Não posso ficar com algo que não me pertence, com algo que depois lhe fará falta.

- Estas riquezas podem ser repostas, substituídas. Terei mais cuidado nos futuros negócios que fizer. Mas nada trará o teu filho de volta. Nada substituí uma vida, uma pessoa. Aceita o que te entrego de bom grado. Faz-te mais falta a ti do que a mim e assim ambos sairemos mais ricos desta partilha.

O segundo homem aceitou a oferenda com alguma relutância e constrangimento. Nunca no decorrer da sua existência tinha possuído tanto, nem tido tantos bens como naquele instante, mas só assim poderia resgatar o filho.

Despediram-se com agradecimentos e desejos de Fortúnio, satisfeitos com o culminar da sua demanda.

 

Meses depois do encontro no topo da montanha, ambos os homens se tinham libertado do seu sofrimento.

Com os bens do primeiro homem, o segundo pôde providenciar o tratamento de que o seu filho precisava, que a par do amor que nutria por ele, potenciaram a sua cura e a sua reabilitação. Era agora ainda mais feliz por ter a seu lado o seu filho, bem e de boa saúde.

Eventualmente, o primeiro homem perdeu o que lhe restava, anulando as dívidas que criara. Desprovido da riqueza material, aprendeu a regozijar-se com outros aspetos da sua vida e tornou-se num homem mais generoso e menos superficial. Não voltou a ser dono de tudo o quanto era de bom e do melhor, mas conseguiu levar uma vida modesta graças aos seus novos negócios e às boas gentes que com ele partilhavam os bens que escasseavam, reconhecendo a bondade daquele homem.

O mestre tinha razão na decisão que tomara. Efetivamente é pela partilha que enriquecemos e é através da humildade que se nos apresentam os maiores tesouros.

 

Sara Silva

 

16
Ago19

Maturidade psicológica (Humildade – 1)

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Foto: Man - Sam

 

Eu digo e assumo:

Assumir a humildade é reconhecer as nossas próprias limitações;

Assumir a humildade é agir com simplicidade;

Assumir a humildade é ter a responsabilidade a nortear a nossas ações;

Assumir a humildade é pensar que não sou melhor nem pior que os outros;

Assumir a humildade é não ter comportamentos de arrogância;

Assumir a humildade é demonstrar respeito por quem nos acompanha na vida;

Assumir a humildade é reconhecer os nossos próprios erros;

Assumir a humildade é ter a capacidade de aceitação e tolerância;

Assumir a humildade é aceitar que em alguns momentos da nossa vida precisamos dos outros;

Assumir a humildade é ter a consciência da limitação do nosso saber;

Assumir a humildade é aceitar um processo de maturidade psicológica;

Assumir a humildade é outras coisas, com toda a certeza. Vamos descobrir.

Mas, não humilhem as pessoas que assumem a humildade.

Há esse risco.

 

Ermelinda Macedo

 

12
Ago19

Há remédios tantos... (Dor – 12)

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Foto: Thanks - Free-Photos

 

... As garras frias duma Dor excruciante subjugaram-me ali, num instante que durou um tempo submerso. Um “destempo”, poço desconhecido, imensurável. Um tempo a que não pude negar o meu corpo, mesmo ficando assim, imóvel e gelada, petrificada, como se quisesse enganar a Vida... ou a Morte. 

Como se quisesse que a vida me ignorasse, passasse por mim sem me ver, sem me tocar, sem me ferir de morte...

(Diário pessoal)

 

Outra vez, fatalmente, falar da Dor. Não a dor física, aquela que vai e volta, como se, por acidente ou por garantia, tocasse estridentemente a um canto qualquer do nosso corpo, para nos tirar o sossego… ou a solidão. Ou aquela que vai ficando, se encanta por um qualquer pormenor da nossa arquitetura e se vai demorando, às vezes a ponto de roer os nossos alicerces.

Desta vez, depois de tantas, falar na Dor. Aquela a que ninguém julga poder sobreviver, aquela que altera a disposição do universo. E falar da força, do tempo, da aceitação, da gratidão.

 

Da força: sim, é mesmo verdade - nascemos com capacidades de fortaleza inimagináveis. Só saberemos o poder que temos quando obrigados a carregar às costas a nossa cruz, enquanto desbravamos, a cada dia, um caminho de espinhos, tomando especial cuidado em não magoar quem amamos, carregando ao colo os nossos filhos e empurrando à nossa frente o mundo inteiro, se for preciso – usando, a nosso favor, os ventos do tempo.

 

Do tempo: a sinergia do universo é incrível, há um poder magnânimo que rege todas as coisas, e todas as coisas nascem com tempo dentro. O tempo é instinto primordial e íntimo - julgo eu, contrariando quem diz que não passa de uma conceção humana. O tempo é o motor de todas as forças: desde a mais ínfima partícula subatómica, até à incalculável grandeza da Dor de perder um filho, tudo, tudo, se rege pela certeza (alívio) dos ciclos, da necessidade de movimentação, de seguir os instintos, de respeitar os tempos. Vejam a própria Terra: ela própria, girando sobre si mesma e à volta do sol, generosamente, permitindo, assim, luz e estações pródigas a todos os seus cantinhos, não está a seguir mais que o seu instinto de sobrevivência – não está a usar mais nada senão o tempo.

Aceitar a ordem do tempo é essencial.

 

Da aceitação: confesso, eu, que me revoltei – aceitar não é fácil. Mas é possível, é natural, usando a nossa força de nascença e a bondade do tempo, esse instinto do universo que nasceu antes de nós para nos ajudar no caminho. O tempo é remédio, dizem. Sim, remédio, conselheiro, pai natal, camélias outra vez, cerejas, férias em família, vindimas, castanhas assadas… inverno (por mais que doa…), primavera, verão, outono, luz de todas as manhãs, um sorriso, ou um beijo, ou um abraço. Vida: ver os filhos crescer, uma netinha a chegar. Estar disponível para dar. E para receber.

Sim, finalmente, reconhecer que aceitamos. Tudo. O passado, o presente, o futuro. A vida é uma cumpridora de promessas em quem nunca podemos perder a fé.

É hora de agradecer.

 

Da gratidão: ah, isso tem a ver com saudade… afinal, o que é a saudade, senão uma espécie de gratidão? Que, primeiro, vem ferida, magoada. Tão ferida, tão magoada, que dói, dói que se farta. Dói tanto, que às vezes pensamos que a morte nos doeria menos.

Depois, com a ajuda da força, do tempo e da aceitação, essa ferida terrível na nossa pobre gratidão, vai sarando, vai-se curando sozinha, devagarinho – transformando a dor em qualquer coisa de mais doce, mais próxima da nostalgia. Tão perto, sempre, do Amor. De vez em quando, claro, como qualquer dor no corpo, a dor na alma manifesta-se, sob qualquer efeito exterior, pontualmente. Assim como o frio, a chuva, a mudança de tempo, se manifestam nos nossos ossos fragilizados por qualquer mal, uma palavra, uma imagem, uma lembrança, pode, sim, provocar uma pontada de tristeza no coração, uma lágrima a picar-nos os olhos. Mas a Gratidão vem acudir. Abraça-me, aponta-me o céu… porque ele sabe, ele é testemunha dos dias felizes, dos anos felizes que antecederam a Grande Dor – os mimos, os abraços, as pequenas alegrias, os preciosos momentos, a luz que me ficou. E agradeço. Agradeço Tudo o que tenho. Tanto que eu tenho!

Saudade é Gratidão. Gratidão é Amor.

 

Teresa Teixeira

 

09
Ago19

Amor (Dor – 11)

Publicado por Mil Razões...

Heartache - Pexels.jpg

Foto: Heartache - Pexels

 

Dor. Um sinal vital, o mais difícil de avaliar. A dor é subjetiva, não existe aquele aparelhómetro xpto para a avaliar. Quem me dera que o inventassem. Eu sou enfermeira e a dor faz parte do meu vocabulário diário e da minha experiência profissional.

Paracetamol. Nolotil. Tramadol. Morfina. E muitos mais. Os analgésicos para a dor física são imensos e trato-os por tu. Quem nunca recorreu a eles?

Mas o maior analgésico é o amor, em todas as suas formas. Porque a dor da alma é a mais difícil de controlar.

Uma mão amiga, um abraço, uma palavra, o toque, a companhia, um gesto, um sorriso, um beijo. São os mais potentes e eficazes.

Que nunca falte o amor. Porque doeu, dói e doerá. É assim a dor.

 

Marisa Fernandes

 

05
Ago19

Despir o medo (Dor – 10)

Publicado por Mil Razões...

Writing - Free-Photos.jpg

Foto: Writing - Free-Photos

 

Sento-me para escrever na minha cozinha, noite dentro, enquanto a minha cadela se agita no seu sono de bebé. Num dia em que assuntos importantes foram resolvidos, o que me trouxe um profundo alívio, entristece-me esta angústia que me acompanha e me impede de respirar fundo. Deixo que a visão da pequenina me traga a serenidade que ainda não fui capaz de sentir. Preciso de mim para mim e não consigo atinar com a minha pessoa. As coisas pendentes impedem-me de avançar. Sinto-me estagnada, numa bolha de irrealidade, fruto daquilo que está ao meu alcance fazer e não faço. Não basta cumprir os mínimos olímpicos para a sociedade, a entidade patronal, as finanças e outras “sagradas instituições” nos deixarem em paz, para sermos felizes. Não, não basta. Não quando permanece esta sensação de incompletude, de faltar algo em nós a que pertencemos (mais do alguma vez nos pertencerá), uma dor crónica na alma, invisível para os demais.

 

O que a vida traz porque traz - e traz a todos nós, aprendi com o tempo a aceitar, sem questionar. Contudo, as circunstâncias dramáticas que não posso escolher (as tais que a vida traz porque traz), as perdas, os lutos, as doenças, não as contesto. Choro-as, escrevo-as, grito-as, danço-as, mas não lhes pergunto porque chegaram ou porquê a mim. Preciso de toda a minha força para as enfrentar, para lhes sobreviver, para saber que existe um dia seguinte. Para acreditar. Mas o que é da minha responsabilidade e não faço, pesa-me como uma albarda. Estou nesse lugar agora. De profunda desilusão comigo própria pela minha incapacidade em dar o único passo que me separa da minha realização pessoal. E saber que isto já só depende de mim. Não é o fim de nenhuma linha mas o começo de uma linda caminhada que gostaria que fosse longa. Em vez disso, estou aqui, na antecâmara dos meus sonhos tornados realidade, com a mão na maçaneta, ad aeternum. As circunstâncias vão e vêm, outras agudizam-se e eu permaneço neste lugar de dor e frustração, incapaz de agir por mim. Sucumbo a uma angústia que me rouba o chão e a autoconfiança e, quanto mais o tempo passa, mais esta dor exige ser sentida. Hoje, pesa demasiado e não quero perder-me nela. Não posso. Por agora, fico aqui, a ver a pequenita dormir. Quero lembrar todas as coisas pelas quais sou grata e repetir, até acreditar, que um dia vou ser capaz de despir o medo e caminhar segura.

 

Alexandra Vaz

 

02
Ago19

Fantasma real (Dor – 9)

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Barbell - Digital Designer.jpg

Foto: Barbell - Digital Designer

 

É emocional e física. Pode ser aguda, crónica, baça, difusa, cortante, dilacerante. Até pode ser fantasma. Não sendo por isso menos verdadeira e real.

Marcante, como pode ser, até consegue fazer com que olhemos para trás, na nossa vida, com outros olhos. Quem nunca se sentiu ou apercebeu “que era feliz e não sabia”, por estas ou outras palavras? Ou o contrário: “estava numa via dolorosa e nem me dava conta”, achava normal que a vida fosse assim, tinha de ser assim, penosa.

Sim, a dor, é da dor, do sofrimento, físico ou emocional, que se trata aqui, proporciona-nos por vezes olhar para o retrovisor e vermos a vida de outro modo, com outros olhos, e também, ou por isso mesmo, nos permite olhar para a frente e projetar a vida de outra maneira.

Claro que, deixando o senhor von Sacher-Masoch em paz, a dor não se deseja a ninguém; mas é verdade também que podemos retirar dela ensinamentos, experiência, resistência, resiliência. Conviria, direi, encontrar um equilíbrio entre a sua aceitação, reconhecimento e o seu combate, com vista à eliminação, se possível. O que não será muito positivo será ignorá-la, como que num estado de negação, encará-la como se de uma fatalidade da qual não podemos sair ou, que seja, atenuar, se tratasse.

Falámos da dor que nos surge sem aviso, sem a procurar, de repente ou não, constante ou não, exasperante.

Sim, às vezes temos de padecer voluntariamente, voluntariosamente, ter dor(es) para atingir algo, um novo e superior patamar. Mas aqui estamos num processo de decisão e de vontade. Sabemos que é transitório, conhecemos o prémio, é uma dor que acreditamos, desde o início, como boa, podemos dizer que são dores de crescimento.

Só para aliviar, termina-se com esta: e aquelas dores musculares, naqueles um ou dois dias depois de fazermos exercício físico que já não fazíamos há demasiado tempo, só eu é que acho que têm (pelo menos) um lado saboroso, como que agradável?

 

Jorge Saraiva

 

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