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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

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22
Mar19

Faça como se fosse para si (Simplicidade – 10)

Publicado por Mil Razões...

Bread - Pexels.jpg

Foto: Bread - Pexels

 

– Por favor, meia-de-leite e um croissant. – pedi, certa de que não haveria complexidade na satisfação do meu pedido.

– Vai tomar ao balcão ou quer sentar-se numa mesinha?

Não estranhei a pergunta, pareceu-me até razoável, a intenção não seria outra que não fosse a de me sentir bem servida. Mas, vi-me assim, a ter de escolher um cenário, comprometendo a simplicidade do ato de morder um croissant e tomar uma meia-de-leite.

– Descomplica e escolhe lá uma mesa. – pensei.

Olhei à volta na esperança de lobrigar o lugar ideal para tão simples ocasião. A mesa junto à janela proporcionar-me-ia um ambiente agradável; separada por um vidro, testemunharia com recato a azáfama e o borburinho da rua. Por norma sou ativa e participativa, mas há momentos – aquele era um deles –, em que me deixo arrastar para uma letargia, de tudo deixar correr e sentir simplesmente a vida a passar.

– Posso sentar-me naquela mesa?

– Sim Senhora, nesse caso pode fazer o pedido à menina que serve às mesas. Ela passa por lá.

Solícita, a empregada anotou num bloquinho o meu pedido. Com a cabeça, fez um sinal de assentimento e pareceu dar a tarefa por concluída. Não, ainda não, faltava um pequeno pormenor.

– O croissant é simples?

Sempre gostei de croissants e, para mim, eles valem por si só, nunca senti necessidade de os misturar.

– Sim, simples.

– Gosta deles mais para o tostado ou para o clarinho?

Entendi por clarinho, malcozido; como não aprecio massas cruas, optei pelo tostado.

– Muito bem. A meia-de-leite é quente ou morna?

– Com o frio que está, quentinha confortar-me-á bastante mais.

Parece ser desta. A empregada acabou as anotações, meteu o lápis e o bloquinho no bolso da bata e ensaiou dirigir-se ao balcão, mas de repente:

– A meia-de-leite é clara ou escura?

Que raio, eu só queria lanchar. Pensei que fosse coisa simples de fazer, mas vejo-me submetida a um prolongado interrogatório. Nesta altura, as papilas gustativas já não preveem um croissant adocicado – este transformou-se num pedaço de farinha cozida, amarelada e deslavada de sabor. A meia-de-leite amargou. Sou tomada de uma indecisão, ficar ou admitir que me enganei e ir embora. Mas, de novo pensei para mim:

– Descomplica e decide-te, clara ou escura?

Com sinais evidentes de impaciência e desagrado, referi a minha opção.

– Peço desculpa, disse a empregada, só mais uma coisinha, quer açúcar ou adoçante?

Já me decidi, pego no saco e vou-me mesmo embora sem saborear os tão afamados croissants. Mas a contenção e o controle comportamental deram-me fome, a satisfação da necessidade básica de me alimentar obrigou-me a repensar a minha decisão. Vencida, respondo:

– Olhe, faça como se fosse para si.

– Ok! Nesse caso vou trazer-lhe açúcar amarelo e a meia-de-leite bem batidinha, com a espuma a vir ao de cima.

Afinal ainda se podia complicar mais um bocadinho.

 

Cidália Carvalho

 

Porto | Portugal

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