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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

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11
Fev19

Um, dois... amor e depois (Urgência – 12)

Publicado por Mil Razões...

Little - Barrie Taylor.jpg

Foto: Little - Barrie Taylor

 

“Vou contar até três”.  E a urgência acontece, entrecortada por soluços que agitam pequenas lágrimas e as despenham de uns olhos miúdos, entre rebeldes e apavorados.

 

1...

O dono dos olhos miúdos, uma criança de não mais de cinco anos, sento o peso do ameaçador monossílabo atroar o universo todo. O universo todo é uma coisa enorme, pensa ele. E mesmo assim, não há para onde fugir, no limiar da revolta ou do desespero ou da emergência.  O seu corpo pequeno acusa as réplicas do primeiro trovão, em ondas que se chocam entre si: “luto pelo doce que quero, ou desisto?...”  O tempo parece tomar uma forma estranha, difusa, e, portanto, aos olhos do menino, relativa:  afinal ainda haveria o 2 e o 3, ele sabe, já aprendeu na creche, já é crescido e sábio. Ainda não chegaria já o juízo final – ou se declaravam os vencedores.  Aproveitando um soluço vindo lá das profundezas do seu coraçãozinho cheio de direitos, solta mais um grito de protesto e arrelia, e mobiliza um exército de lagrimazinhas novas: “Eu queeeeeeroooooo!...”. A urgência dele é maior que a da mãe, a julgar pelo arrastar desesperado do verbo “querer”. “Não!”, dizia-lhe, lá de dentro da sua cabeça dorida do choro, a vozinha de um espírito voluntarioso e pérfido, “Tens direito ao doce, já o tinhas pedido quando saíste de casa, a mãe devia ter isso em conta! E portaste-te bem, até ajudaste a empurrar o carrinho de compras! E o doce é barato, e diz na televisão que faz os meninos felizes e tudo!”.

 

2…

Desta vez, até o espiritozinho meio-maligno se assustou, dentro da cabecinha fervente do pequeno. “Bolas, 2, já??... E eu ainda nem sequer dei o segundo berro! Mau, mau, a coisa complica, se o tempo se esgota e eu não uso todas as minhas armas... Olha!, gente a parar à nossa volta!! ...é isso, mais um berro e a coisa toma contornos de crueldade desnecessária contra uma criança inocente, para não falar já em violência!”. E, desta vez, dois gritos estridentes disparam da pequena boca gulosa e voam por todo o hipermercado, assustando até o pó das mais altas prateleiras. Sim, de facto, os olhares que se foram juntando à volta da cena tornam-se um pouco intimidadores para a pobre mãe, até aí exercendo o seu direito de ter razão, sem pressa, nem escândalo.  Um burburinho parece começar a ferver, no caldeirão da gente dona-da-razão. “Oh, coitado do menino, ele está nervoso e a mãe só está a piorar a situação, com aquela atitude de ameaça!”. “Qual quê?, eu dava-lhe era um valente açoite nas nalgas, ia ver se a birra não acabava logo!”. “Credo, a criança é um monstrozinho!”. “Não lhes sabem dar a educação em casa, vêm para aqui dar espetáculos de graça!”. “A mãe é que tem a culpa, com certeza já lhe deu abusos, agora que o ature!”.

Bem, a coisa está feia.  E o menino, de repente, já não se acha dono da eternidade, que o número 3 deve estar a cair-lhe em cima. E o comentário daquela senhora com lábios feitos de linha vermelha muito fina e olhos sem cor, que lha comeram as pestanas postiças, fá-lo parar o soluço propulsor de mais meia dúzia de lágrimas e coloca-o em alerta: “O importante é o amor. E esta mãe não tem amor pelo filho, ela não sabe, mas está a afetar o filho para a vida, expondo-o assim. Estas mães não têm paciência, nem compreensão, só querem saber delas próprias. Se calhar não tem tempo para explicar ao filho porque não lhe dá o doce, depois é esta cena triste... a mães assim, deviam-lhes ser retirados os filhos”... (...) ...Bem.  O espiritozinho dentro da cabeça do menino mexeu-se nervosamente e mandou parar de imediato:  soluços, lágrimas e esperneações. O coração, lá no fundo do seu peito, revolveu-se e reposicionou-se, assim, encolhidinho entre as costelas ainda meio trémulas, ligeiramente virado para a esquerda. Uma dorzinha lá dentro lembrou o menino que a urgência, afinal, não tem nenhuma importância. O importante é o Amor.  E o amor da sua mãe não sabe contar, nem sabe quando acaba o tempo, nem sabe medir o universo, porque ele, mesmo menino pequenino, está sempre entre ela e o universo, muito pertinho, por isso, maior que todo o universo.

A mãe, claro, sabe contar. Mas esquece-se sempre em que número vai, quando os seus olhos se entendem para ela, arrependidos e tímidos. Por isso, o 3 nem aconteceu. Em vez disso, a mãe deu-lhe um doce: um sorriso recheado do melhor amor. E seguiram os dois, empurrando o carrinho de compras, corredor fora, para longe das pessoas que comeram muitos doces em pequeninos e que nunca fizeram birras no supermercado.

 

Teresa Teixeira

 

Porto | Portugal

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