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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

28
Mai18

Talvez (Confiança – 4)

Publicado por Mil Razões...

Vietnam - Jess Foami.jpg

Foto: Vietnam - Jess Foami

 

Gosto do mundo, das pessoas, das múltiplas formas de vida, dos mil encantos que encontro em cada esquina, em cada nova rua que percorro. Gosto do que sinto em mim quando me deparo com o milagre da existência, da singularidade de cada universo com que me cruzo – cada um de nós é um mundo sem réplicas. Todavia, mergulhar na Humanidade é, também, aceitar as suas facetas mais negras. É saber que haverá sempre quem faça o pior ao seu semelhante, quem se venda por muito pouco, gente para quem respirar não vale nada. Aprendi, também com a vida, que esses estão, na grande maioria das vezes, demasiado perto, debaixo da nossa asa, a partilhar o nosso espaço íntimo e pessoal. Aqueles que mais nos ferem não são os desconhecidos, são os que amamos; são aqueles com quem partilhamos, com frequência, laços de sangue. E aos quais, pelas mesmíssimas razões, não podemos, simplesmente, virar as costas e partir.

 

Continuo a confiar na raça humana porque mo validam, dia após dia, as pessoas incríveis que tenho tido o privilégio de conhecer ao longo da minha vida. Considero as histórias de caos (também pessoal) e que dão nota de algumas facetas menos nobres da Humanidade, a exceção que confirma a grandeza dos meus congéneres. Acredito, piamente, que são mais os que amam e lutam, com e pelo seu semelhante, no mundo; do que aqueles que, em cada acontecimento, vislumbram (e executam) a oportunidade de “lixar” o próximo. Às vezes, só porque sim. Pois, pasmem: Também há quem seja bom, genuinamente bom, só porque sim – ideologias, género, crenças e rótulos à parte. São estes que tornam os meus passos mais seguros, a minha mente mais leve e o coração mais sereno. A eles devo a validação contínua da minha fé na raça humana e a sensação de pertença a algo muito maior do que eu.

Apesar de amar a vida, em geral, e me sentir grata por ser pessoa, em particular, caminhar entre humanos é um desafio mental tremendo. Nem sempre encontro uma linguagem comum que me permita comunicar com clareza - e não, não me refiro aos obstáculos linguísticos que trazem, por exemplo, os cerca de seis mil idiomas falados nesta “nossa” Terra, o que me impede de entender a realidade dos outros e as suas circunstâncias. Sinto-me, com frequência, impotente, incapaz de concluir com êxito as interações em que, voluntária ou involuntariamente, sou interveniente. É neste complexo processo de adaptação, na (des)aprendizagem de paradigmas e modos de ação que encontro forma de sobreviver e aceitar que jamais entenderei tudo. Sobretudo, no que toca à natureza dos outros e às suas camadas emocionais. Às vezes, é preciso aprender a sair de cena, simplesmente. E confiar que, cada decisão que tomamos, nos afasta de tudo aquilo que não é para nós.

 

Amo a Humanidade mas confio em muito poucas pessoas. Abraço toda a gente (creio que quem sofre e magoa precisa de mais amor ainda, talvez seja apenas uma ferida que fere) mas não me deixo abraçar (inteira) por quase ninguém. A minha alma resguarda-se, cada vez mais, perante as atrocidades do mundo, este pobre infeliz que precisa de amor e de esperança como de “pão p’ra boca”. Entendo as urgências dos que gravitam à minha volta mas não lhes entrego as minhas. Isso seria vilipendiar a minha própria existência, a única que será minha, nesta vida terrena. Não posso servir as minhas inquietudes com um chá e esperar que os outros me estimem como me devo estimar, bem sei, mas gostava tanto de poder confiar inteiramente noutro ser humano… Gostava de poder descansar em alguém, de chegar a casa, de conhecer esse sítio para lá de mim mesma, de total confiança e amor, onde a alma repousa e os olhos se podem fechar, sem medo do dia seguinte. Sei exatamente o que é que esse sítio, que ainda não conheço, me faz sentir. Por causa disso, não consigo viver pela metade, com ninguém, em lado nenhum.

Talvez um dia alguém decifre o meu idioma e leia nas linhas da minha pele, sem esforço. Talvez, nesse dia, eu possa ser quem sou, partilhar o que carrego há uma vida inteira e sentir-me, finalmente, segura e protegida. Talvez.

 

Alexandra Vaz

 

25
Mai18

Pratos frios (Confiança – 3)

Publicado por Mil Razões...

David Gareji - Goda Kupryte.jpg

 Foto: David Gareji - Goda Kupryte

 

A vingança é um prato que se serve frio. Ou será a confiança…?

Por vezes, a reação a uma situação desagradável é, de imediato, a vingança, mesmo que involuntária e inconsciente. A confiança, por sua vez, só a conquistamos depois de algum tempo a conviver e a viver, a dar provas de que somos de confiança, de que podem contar connosco para aquilo a que nos propomos, mesmo com alguns erros. Nós próprios, apenas desenvolvemos a confiança individual depois de muito trabalhar para isso. Uns, mais facilmente e mais rapidamente do que outros, é certo, mas não é imediato.

Conhecemos alguém e depositamos toda a nossa confiança logo na primeira vez em que nos vemos? Se assim for, teremos também que estar preparados para que corra mal e não considerar muito as desilusões. A confiança ganha-se quando permanecemos coerentes, fiéis àquilo que pretendemos transmitir e realmente ser.

 

Tenho-me deparado com imagens, primeiras imagens, que induzem a grandes erros. Quantas vezes pensamos que podemos contar com alguém que se apresenta com imensos floreados e depois, na hora certa, depois de muito conviver mas sem provas dadas sobre determinado aspeto, a pessoa falha? Falha, não… Deixou de ser de confiança, ou nunca chegou a sê-lo pois não foi posta à prova antes disso. Não deixamos o prato inicial arrefecer da euforia do início, então todo o calor e ímpeto inicial induzem a grandes erros.

“Nem em mim própria confio, quanto mais…”. Sim, quando estou muito entusiasmada com algo, a vontade é imensa e a energia também, mas ao longo do processo tudo se pode gastar muito depressa. Se se mantiver o mesmo nível, passamos a ser de confiança. Se baixarmos o nível a que nos propusermos, deixamos de ser fiáveis. Como alguém diz por aí: “Keep it simple.”

 

Sónia Abrantes

 

21
Mai18

Falar com o coração (Confiança – 2)

Publicado por Mil Razões...

Girl - Lisa Runnels.jpg

Foto: Girl - Lisa Runnels

 

Para vivermos precisamos de confiança no outro e em nós… penso eu…

 

O que é confiar no outro?

É esperar que o outro não nos desaponte.

É esperar que o outro seja sincero.

É esperar que o outro guarde para si aquilo que partilhamos.

É esperar que o outro seja uma referência para nós.

É esperar que o outro nos dê segurança.

É outras coisas, com certeza…

 

O que é confiar em nós?

É esperar que as expetativas que temos sejam congruentes com o que fazemos.

É esperar que tenhamos autoestima suficiente para que acreditemos nas nossas potencialidades.

É esperar que tenhamos a certeza do que fazemos.

É esperar que aquilo que sabemos dará resposta ao que nos é pedido.

É outras coisas, com certeza…

 

A confiança ganha-se e perde-se num minuto, com uma palavra certa ou errada, com um gesto certo ou errado.

 

Há dias, quando eu me “queixava da vida” num momento de indignação, uma pessoa com os seus sábios 90 anos disse-me: “Não fales com a boca – fala sempre com coração; só assim Ele te ouve e leva a sério o que dizes e pedes.”.

Pensei… De facto, quando penso e falo com o coração confio no que digo e confio em mim, porque não digo nem mais nem menos do que aquilo. Está lá tudo! Provavelmente, os outros receberão assim a mensagem (transparente; está lá tudo). Não há razão para não confiar.

A confiança transporta-nos para o mundo das relações humanas, cujas variáveis são difíceis de controlar… penso eu...

 

Ermelinda Macedo

 

18
Mai18

“Adelante”, Princesas Arrojadas e Cavaleiros Valentes! (Confiança – 1)

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Foto: Child - Jonny Lindner

 

A vida amedronta. Di-lo a criança em nós, saudosa das liberdades e inocências de outrora. Desde então que ela se tornou num conto sem fadas, dragões ou príncipes, e aqui estamos, adultos, com os nossos próprios monstros e heróis.

Continuamos com medo do desconhecido, dos passos que ainda nos falta dar ou do que se encontra ao virar da esquina, todos eles derivados da incerteza daquilo de que somos capazes. E é a própria vida que se encarrega de o evidenciar. Ela pega na crença necessária em nós mesmos e nas potencialidades latentes e impele-nos à ação. E nós seguimos, bravos, destemidos, aventurando-nos pelos recantos obscuros que antes nos intimidavam. Tudo porque ousamos. Porque acreditamos.

Para quê deitar a perder os inúmeros momentos de que poderíamos usufruir tão viva e intensamente, só porque partimos derrotados e desvalorizados? Somos humanos, cometemos erros e sem a tentativa não há a experiência. Há que dar uma chance às infinitas capacidades humanas e assim, talvez, nos convertamos nas princesas arrojadas e cavaleiros valentes dos quais esta realidade urgentemente necessita. E juntos, rumaremos em frente, batalha após batalha, com confiança!

 

Sara Silva

 

14
Mai18

Noutro lugar qualquer (Partir - 14)

Publicado por Mil Razões...

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Foto: Generations - Tammy Cuff

 

Não decidiste partir, mas foste-te mesmo assim. Acredito que fosses, de todos, o que menos se queria ausentar, mas de nada adiantou. Tiveste a sorte de ver cumprido um último desejo, algo que poucos terão hipótese de conseguir. Posso dizer que aí foste feliz. Não sei se terei o mesmo. Na verdade, não sei se terei tanto.

Fazes-nos falta e fazes-me falta… Aborrece-me pensar que as memórias de ti, de nós, vão ficando fracas com o tempo. Algumas dessas memórias estão a partir também. Por vezes, socorro-me de outros para não sucumbir, finalmente, a esse vazio. Conversas de “lembras-te daquela vez…” enchem-me o coração e os olhos também.

Houve quem gravasse na pele o teu rosto e quem desse teu nome a um filho. Homenagens nobres para um nobre. Homenagens para um ciclo que se queria eterno. O teu nome, nem que seja num outro, mantém-te vivo entre nós.

Esse outro que nunca te conheceu, mas que ainda ontem via fotografias tuas. Perguntou-me coisas sobre ti. Sobre como eras, como era o original. Respondi-lhe e falei-lhe de ti. Não sei se alguma vez, contudo, conseguirá perceber o que foste para mim. Para nós. Gosto mesmo de acreditar que, de alguma maneira, esse outro herdou mais de ti que apenas o nome.

O ano da tua partida foi o mesmo da chegada do teu homónimo. Propositadamente. No início e final do mesmo. Final e início de dois ciclos. Quem sabe se num lugar, que não este, vocês se encontraram e conheceram? Se lhe passaste o testemunho e avisaste da responsabilidade de carregar o teu nome? Se assim foi, obrigado. Se assim foi, então peço-te que esperes por mim nesse outro lugar. Não sei de momento o quê, mas tenho mesmo tanto para te contar. Tanto para te abraçar.

Partiste, e o aperto na garganta permanece, assim como a tua fotografia na minha sala de jantar. Amo-te. Ainda hoje e sempre.

 

Rui Duarte

 

11
Mai18

Sete dias depois (Partir – 13)

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Foto: Farm - Helge Leirdal

 

Do corpo curvado pelo peso dos anos, pendiam memórias de tempos idos. As rugas do rosto eram as marcas visíveis dos dias difíceis, embora não fossem as mais profundas. As mãos trémulas, quase a lembrar os dias frios que conhecera na serra, sempre seguravam quaisquer outras que lhe tocassem, que lhe trouxessem carinho e a aquecessem com dois minutos de atenção.

Amélia – contou-nos – casara cedo. Não suportava as discussões diárias dos pais, nem o som daquele cinto castanho a cortar o ar, segundos antes de atingir as costas da sua mãe. Não suportava o grito mudo que se seguia. E menos ainda o medo e a angústia de calar. Decidiu partir. Casar com o primo afastado, construir uma vida na pacatez do interior e poder assim esquecer tantos gritos calados que trazia em si.

 

Começava o mês de janeiro quando chegou à aldeia. As ruas eram estreitas, as casas em pedra, e não se avistava quem mais fizesse frente ao vento gélido, que vinha dos campos e atravessava até o casaco de fazenda que a mãe lhe oferecera.

Ainda assim, foi o assobio do vento nos ciprestes, geometricamente alinhados, ao portão da casa onde iria viver, que lhe causou um arrepio.

Demorou uma semana a entender que o marido não era a companhia que tinha idealizado. Mas estava fora de questão a possibilidade de abandoná-lo e voltar para junto dos pais e, por outro lado, não tinha meios para subsistir sozinha. Restava-lhe ficar e viver com as consequências da decisão que tomara.

 

Amélia acordava cedo, tinha sob sua responsabilidade um rebanho de cabras que era necessário levar ao monte a cada manhã. E que bem lhe sabiam aquelas horas de liberdade! Apenas as cabras testemunharam as muitas vezes em que, no sopé da montanha, os olhos de Amélia choraram lágrimas saídas diretamente do coração.

No regresso à aldeia trazia um enorme sorriso, uma palavra de consolo para os mais velhos e um “quem me apanhar primeiro come uma moeda de chocolate” para as crianças sentadas no degrau da porta da mercearia. Claro que todas corriam e, fazendo um círculo, cercavam-na, exigindo a moeda.

Amélia nunca deixou de sorrir para a aldeia que a acolheu, e que não fazia ideia daquilo que se passava para lá dos ciprestes, geometricamente alinhados, ao portão de sua casa.

Amélia agradecia todas as noites a Santa Rita de Cássia por ter intercedido no pedido a Deus para que não lhe desse filhos. Não queria que mais ninguém no mundo tivesse de passar por aquilo que ela passara com os seus pais. E todas as manhãs pedia perdão por recusar a bênção de gerar uma vida no seu ventre.

 

Naquela altura do ano em que era Inverno para todos, o inferno da sua vida intensificava-se. O ego inflamado do marido bem-sucedido era inversamente proporcional à sua humanidade. O homem, aclamado nas ruas da aldeia pela capacidade de negociação e altruísmo, era afinal um monstro, depois de passar aquela porta.

Amélia recordava-se do som do cinto castanho a cortar o ar, segundos antes de atingir as costas da sua mãe. Agora eram as suas a ser atingidas. E mais uma vez sem motivo aparente, além dos muitos copos de vinho bebidos a mais pelo marido, antes de chegar a casa.

 

Ao início daquela tarde começou a nevar e teve de regressar mais cedo à aldeia. Notou que não se ouvia o assobio do vento nos ciprestes e pensou que seria pelo peso dos muitos flocos que já começavam a pintar os ramos de branco. Entrou em casa e cumpriu a sua rotina: acendeu o lume, fez um chá de tília e cortou uma fatia de pão que sempre comia com a marmelada que aprendeu a fazer em criança, com a sua tia-avó. Era dezembro e o seu corpo já se contorcia com as dores que sentiria, duas horas mais tarde, quando o homem que escolheu para seu, atravessasse aquela porta.

As duas horas passaram e, ao passarem mais quinze minutos, alguém bateu à porta. O comandante da GNR, amigo da família, vinha de lágrimas nos olhos dar-lhe a notícia da morte abrupta do marido, num acidente com o velho trator que usava no cultivo das terras.

Amélia não pôde manifestá-lo no momento, mas confessou-o na conversa que tivemos: o desaparecimento daquele homem foi para ela um alívio. Sentiu-se tão leve, que chegou a julgar-se genuinamente feliz no final daquele dia. Na aldeia pacata, de ruas estreitas e casas em pedra, era agora unicamente perturbada pelo corredor de ciprestes – que mandou cortar sete dias depois.

 

HTR

 

09
Mai18

Para sempre a Tua flor (Partir – 12)

Publicado por Mil Razões...

Worried girl - Ryan McGuire.jpg

Foto: Worried girl - Ryan McGuire

 

Minha flor. Foi assim que me batizaste quando a tua memória te começou a pregar partidas. No meio da tristeza que era ver-te desaparecer aos poucos, fazias crescer em mim uma alegria imensa quando me vias e esboçavas aquele sorriso só a mim concedido, à tua flor. Provavelmente, esqueceste o meu nome e era-te mais fácil tratares-me assim. Eu não me importei, era um privilégio só meu. E que grande privilégio!

A tua doença transformou-te e inevitavelmente transformou-nos a nós. Tivemos que aprender a ver-te partir. E como foi difícil! Porque nem sempre estivemos à tua altura, nem sempre conseguimos dar-te aquilo de que mais precisavas da forma que te era necessário. Éramos iniciados nesta lição que a vida nos impôs.

Existias no teu canto, confortável naquele espaço, e a tua companhia deixou de aparecer junto de nós. Não conseguíamos perceber porquê, queríamos-te por perto mas tu recusavas. Éramos nós que aparecíamos para te fazer companhia, para cuidar de ti. Estranhavas aqueles que te acolheram com amor, olhava-los desconfiada e elevavas o nosso desafio diário. Exceto quando eu aparecia porque era a tua flor. Os teus olhos enchiam-se de esperança, nascia-te uma vivacidade que não aparecia noutros momentos, aparecias. Minha flor, dizias a meio da tua refeição ou ao deitar, já cansada e com poucas energias, ou a meio da tarde quando já tinham passado horas sem veres ninguém. Sempre!

 

O ciclo da vida devia ser invertido. Devíamos nascer velhinhos, de cabelos brancos e curvados, com dificuldades na mobilização. Tristes por sentirmos que não nos compreendem e, por vezes, por estarmos sozinhos e desamparados. Mas sábios, com a bagagem da sabedoria às costas, ávidos de percorrer o caminho da vida. De inocência perdida, acolher cada experiência com garra. Justos conhecedores do mundo, hospedar cada pessoa com paciência, tolerância, compaixão, amizade, carinho, amor… Deveríamos percorrer esse desejado caminho ganhando energia e ignorando tudo aquilo que a sugasse. O auge da vida não teria como panorama um abismo, mas sim uma íngreme colina para subir. Acabaríamos nos braços calorosos dos nossos queridos, a encher bocas de sorrisos e de lindas afirmações. Derreteríamos então corações. Agora sim, inocentes e esquecidos das mágoas do percurso. O final seria desejado e feliz, uma felicidade entendida por várias gerações e distribuída com entusiamo aos demais envolvidos.

Contudo, a velhice é triste, entristece o próprio e os próximos. O final da vida deveria ser o auge da felicidade, livre de sofrimento.

A tua velhice teve sofrimento não merecido e não calculado. Desejo que o teu esquecimento, que foi doloroso para nós, tenha sido uma bênção para ti. Não precisavas de recordar os dias mais negros.

Para além da tua cabeça, o teu corpo foi fraquejando nos nossos braços. Foste perdendo a energia que te caracterizava, as forças que utilizaste no teu árduo trabalho no campo enquanto jovem, as capacidades que entregaste ao cuidar de mim na minha infância. Fizemos o melhor que podíamos, sem saber agora se fizemos tudo o que estava ao nosso alcance. Eu sinto necessidade de te pedir perdão por não ter feito mais. Eu não sabia e, ingenuamente, pensava que estava a fazer tudo bem.

 

Naquele dia tu foste a mais forte de todos. Aguentaste firme enquanto nós hesitávamos. Não te queríamos a sofrer mais do que o inevitável. Protelámos a tua saída de casa por desejarmos o melhor para ti. A tua saída seria temporária, para te curar ou apenas para te melhorar se fosse essa a única opção. Levei-te, estive sempre junto a ti, desejosa de te trazer de volta ao teu cantinho.

Mas rapidamente te levaram para longe de mim e não quis perceber porquê. Não pensei e não parei de pensar, parei e estive irrequieta. E esperei, aquilo que pareceu uma eternidade. Finalmente saiu um grupo de pessoas para falar comigo e aí senti-me a não sentir absolutamente nada.

Naquele segundo, o mundo desabou. Em cima de mim, senti todo o seu peso e as minhas pernas falharam. Encostada à parede, sustentei-me ali, e ali permaneci sem tempo, incrédula e sozinha. Perdi-te! A tua voz, o teu carinho, a tua bondade, o teu sorriso, a tua pessoa. Solucei inconsolável perante desconhecidos com ar intocável. Não podia ser verdade porque ainda agora me tinhas chamado Minha flor.

Ainda respiravas, ainda existias fisicamente. Mas já tinhas partido… há tanto tempo que nos tinhas deixado. Acompanhei-te nessa longa e triste partida, sem saber que estaria contigo na abalada definitiva para o outro mundo.

 

Vi-te numa sala pequena e fria. Não eras tu. Eras um corpo disforme, uma feição irreconhecível, uma respiração irrespirável. Falei-te ao ouvido, pedi-te perdão, e sei que me ouviste. Não queria deixar-te ali mas não havia outra opção. Tu já tinhas decidido. Acarinhei-te até ao último suspiro e, aí, abracei-te com força. Senti-te fugir de mim, mas agarrei-me com toda a força que tinha para não cair. Partiste, tranquila e acompanhada por aqueles que mais te amaram na tua longa despedida.

Agarrei-me ao teu amor e honrei-te o melhor que soube. Mas ainda hoje te peço perdão porque sinto que nunca valorizei devidamente as tuas palavras “Minha flor”.

 

Marisa Fernandes

 

07
Mai18

Carta à minha filha que não morreu (Partir – 11)

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Park - Виктория Бородинова.jpg

Foto: Park - Виктория Бородинова

 

Deixaste-me num dia que não existiu. Sei-o agora, já fora do glaciar sem contornos onde tentei decifrar explicações para as minhas lágrimas tão ardentes – escrevendo, escrevendo, quase furiosamente, os mais doces poemas de amor. Sei-o agora, que o destino está mais perto, agora, que a paisagem me reconhece, agora, que a poesia me estranha. Agora, já certa de que o Céu é mais baixo e mais nítido do que eu pensava, e de que a Terra é um lugar de invisibilidades e de abismos.

 

Jamais partiste, meu amor. Aquele dia de dezembro, tomou-o o nevoeiro pela eternidade, decerto, e embrulhou-o em si, para sempre, como cobertor de papa que não sabe as mãos do tempo que o teceu. Na altura fiquei confusa, achei que te tinha perdido também, que tinhas sido escondida de mim, pelos fiapos espessos do nevoeiro. Dividi-me entre Terra e Céu, estiquei-me toda para ti, encolhi-me toda para amimar os teus irmãos, caí, voei, voltei a cair, caí tantas vezes, meu Deus. Fugi e voltei. Parti e perdi-me. Fiquei e parti-me. Ah, tantas vezes me parti!... Mas, sempre, sempre, consertada pelo amor dos teus irmãos, a mim regressava. E fui aprendendo, devagarinho, a serenar e a agradecer. E agora sei que sempre estive inteira – que nunca me partiste, meu amor...

 

Os filhos crescem, seguem as suas vidas, partem-nos. Os teus irmãos, tu sabes, tu vês, enchem-me a alma de amor e de orgulho. Enchem-me os olhos as suas asas e eu fico feliz por eles voarem... mas partem-me. Mas partem...

Tu ficaste. Sempre. Tu hás de ficar, sempre. Colada a mim pela humidade longínqua de um dia que não existiu. Tu ficaste, com a inocência feliz do teu riso. Com as flores frescas que nasceram nos teus olhos e que eu cuido, todos os dias. Com a leveza flexível do teu corpinho de anjo, que se agarra a mim como a brisa se abraça às rosas do maio. Com a melodia da tua voz pequenina, chamando-me, em urgência adocicada: “Mãe!”.

- Estou aqui, filha, estou aqui. Quando for para eu partir, partiremos juntas...

 

Teresa Teixeira

 

04
Mai18

Porquê, avô? (Partir – 10)

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Foto: Grandfather – Dan/Kelli Oakley

 

O sol brindava-me logo pela manhã, ao entrar de rompante pela janela. Ouvia o assobiar dos pássaros à janela. Era impossível acordar triste. Saltei da cama e olhei para o relógio. Já passavam alguns minutos das 10h15 da manhã e tinha combinado ir visitar-te, avô. Estavas constipado e ia levar-te ao médico. Num instante estava à porta da tua casa. A avó abriu toda sorridente, deu-me aqueles abraços maravilhosos de que gosto muito, mas avô, não desfazendo dos abraços da avó, os teus eram o meu alento – era a menina do avô. Quando entrei no quarto, também já estavas pronto. Tinhas algumas olheiras – maldita constipação que não te deixava dormir bem – mas os teus olhos brilharam quando me viram e os meus também. Dei-te um longo abraço e sorri. “Vamos avô.”, disse-te. “Como estás? Estás melhor?”, tu sorrias e dizias que não era uma constipaçãozinha que te ia deitar abaixo. Eras forte. Tão forte, avô.

 

No médico, ele mediu-te a diabetes, sim porque os diabretes eram o teu grande problema, achava eu, achavas tu, todos nós. Lá ralhou o médico um pouco contigo porque estavam muito altos. Mas em relação à constipação receitou-te aquelas coisas normais, eu tinha-te dito para tu ires ao teu hospital privado, já que tinhas lá seguro, mas não, quiseste ir ao público. Se eu soubesse avô, se eu soubesse. Acho que te tinham dito para fazeres mais exames, mas tu eras tão teimoso, avô. Tão teimoso. Não sabias, nem eu, nem todos nós.

 

Fomos para casa, estavas cansado e tossias, eu preocupada questionava-te se querias algo, se precisavas que fizesse algo. Mas tu sorrias, dizias que estavas bem. Eu sorria, preocupada, fingindo acreditar. Levei-te a casa e lanchei contigo e com a avó. Foi tão bom passar aquele momento com vocês. As horas foram passando e eu tive que me despedir de vocês para ir trabalhar. Mas voltei todos os dias para lanchar.

 

Só tinham passado dois ou três dias de estares constipado mas parecias estar melhor. Fiquei feliz. Num dos dias refilavas à tua maneira com a avó, que não podia trazer todos os dias os bolinhos de que gostavas, ou os diabretes vinham em festa. Ri-me disso.

No final dessa semana, tive que fazer mais horas, o trabalho estava um caos. Recebi uma chamada da avó, ela tentava disfarçar a preocupação, dizia-me que estavam no hospital, no privado, do avô. Que possivelmente eram só os diabretes mais altos que o normal, mas como eu não podia vir, para não me preocupar, que vinha quando conseguisse, para não me prejudicar no trabalho. Fiquei preocupada, muito. Mas não podia sair, não tinha ninguém para me substituir e tive que ficar à espera até ao fim do dia para que viesse alguém. Liguei para a minha mãe, para ela ir por mim, rapidamente, ver o avô. Ela foi. Eu não consegui.

Tantos foram os contras nesse dia – quem me vinha substituir teve um percalço com o carro, teve um furo, atrasou ainda mais a minha hora de saída. Mas eu respirava fundo. Pensava: “foram apenas os diabretes que ficaram demasiado altos”, “o avô só estava constipado, provavelmente foi por precaução”. Fazia figas. Ninguém me atendia, nem a avó, nem a minha mãe. Toda eu tremia. Apavorada.

A minha colega chegou e eu saí a correr, acho que nunca corri tanto, nem conduzi tão rápido, eu que não tinha costume acelerar nem andar fora do que é o limite. Nesse dia, não podia ser, tinha de estar lá, tinha de estar ao pé do meu avô.

Quando cheguei ao hospital, a minha mãe chorava sentada num banco, a minha avó estava pálida. Sem expressão alguma. Corri para a minha mãe e perguntei pelo avô. Perguntei por ti, avô. Ela acenou-me com a cabeça que não. O meu mundo caiu. ”Porquê, avô? Tu só estavas constipado.”, mas não, afinal não te diagnosticaram uma pneumonia que se foi agravando durante aquela semana. Uma semana. Num instante partiste, sem me conseguir despedir. Queria pelo menos ter conseguido ver-te, dizer-te que te amo, uma última vez. Porquê, avô?

Porque partiste assim? Uma parte de mim morreu contigo. Eras a pessoa que mais admirava, que me dava os melhores conselhos, o melhor ouvinte, o melhor avô!

Não quero acreditar. Não pode ser verdade. Não vás, avô! Volta!

Partiste sem saber que o ias fazer, deixaste um vazio, mas para mim vais estar sempre vivo no meu coração.

“Porquê, avô?”

 

Inês Ramos

 

Porto | Portugal

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