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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

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05
Jun17

Este é o meu monstro (Silêncio – 8)

Publicado por Mil Razões...

JoyOfLife-Ludi.jpg

Foto: Joy of Life - Ludi

 

Vês o meu sorriso no rosto e deténs-te. Admiras a minha gargalhada fácil e revoltas-te. Enerva-te a minha voz serena, o meu colo doce e a minha paixão nas palavras.

Agita-te o meu vagar nas horas, o meu café demorado pela manhã. Irritam-te os copos meio-cheios que deixo espalhados pela casa. Tira-te do sério a minha capacidade de deixar arrastar pelos dias tudo e tanto que poderia estar a fazer. Perturba-te que o mundo desmorone enquanto eu passeio com o meu sorriso, a minha paixão e a minha gargalhada, incólume ao caos das nossas vidas. Azeda-te a minha indiferença enquanto fazes malabarismos para segurar as 4 bolas no ar sem que se estatelem no chão. E eu, de longe chamo por ti… ”Olha! Olha um arco-íris!” E ensurdece-te esta voz que fala de tudo o resto que acontece enquanto o mundo onde tens, e bem, os olhos postos, vai caindo num sufoco de impotência.

 

Meu amor. Entendo-te. Sei-te bem. Mas ouve-me agora. Dá-me a tua mão e coloca-a aqui no meu peito. Ouves algo a bater? Não, não é um coração. É um monstro que aqui trago amordaçado. Detido e silenciado. Ouve-lo a bater com força no meu peito? Ele bate com tamanho ardume que me chega a doer. E sabes porque bate assim? E sabes porque dói? Quer libertar-se e, por isso, pontapeia-me. Lá dentro, fez-me refém no silêncio e segredou-me ao ouvido: “Deixa-me virar tudo do avesso! Grita, esperneia como ele! Despeja os copos que espalhaste pela casa e vai arruma-los vazios no armário. Não vês que tudo cai lentamente por terra? Não sentes os cortes nos teus pés de tanto que teimas em colocá-los descalços sobre o fio da navalha afiada? Não vês que, tal como todos os outros, os estilhaços dos escombros te ferem? Não preferes chorar e chorar e lamentar-te e ver que os copos nunca estiveram meio-cheios?”.

 

Quando te deitas, fico eu e o meu monstro. Abraço-o e acalmo-o. Choro sem chorar, grito sem se ouvir. Liberto-lhe as amarras e afago-o. Escuto tudo o que tem para me dizer até que esgote as palavras. E então, amarro-o outra vez. Amordaço-o de novo. E deito-me em silêncio. É deste pesar que faço o meu sorriso e a minha gargalhada fácil. É deste pesar que forjo a coragem de ousar demorar-me todas as manhãs e vislumbrar um arco-íris.

E acordo cansada, e tu não vês. Não assistes à luta de feras que travo em mim, todos os dias da minha vida. Porque neste palco sou rainha. Porque deste teatro sou mestre. E raios me partam se eu me vou a baixo! Por isso, o mundo pode ruir, mas o meu sorriso não. Porque enquanto puder trilhar o caminho, para o percorrermos caminharei erguida e nem darei pelas feridas nos pés, pelos estilhaços na pele, pelo fumo das derrocadas. Porque enquanto eu sorrir e abraçar serena, enquanto eu deixar o meu colo ser amor e não queixume, enquanto trouxer a paixão nos olhos e a esperança nos lábios, seremos felizes. E sei-o tão profundamente que chego a acreditar, e acredito tão verdadeiramente que tu, por vezes, também. E basta uma gargalhada que não a minha para eu saber que o silêncio valeu, enfim, a pena.

 

Vanessa Brandão

 

Porto | Portugal

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