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O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

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15
Nov13

Pode alguém ser quem não é? (Sexualidade – 17)

Publicado por Mil Razões...

 

- Diz-me, pode alguém ser quem não é?

- O que queres dizer com isso? Como é isso de ser quem não é?

- Cada pessoa tem as suas caraterísticas, a sua identidade, é única naquilo que é. Pergunto se uma pessoa, sendo aquilo que é, consegue, por força da sua vontade ou da vontade de alguém, ou das circunstâncias, ser aquilo que não é.

- Entendo… Penso que não. Se uma pessoa é de um determinado jeito, não poderá ser de outro jeito. A menos que mude, que consiga mudar.

- Então acreditas na mudança!? A mudança é possível?

- A mudança de caráter, de atitude, de comportamento é possível, mas é um processo complexo, exige esforço, persistência e tempo, por vezes muito tempo. Ao longo da vida todas as pessoas mudam. Mas lá está, ao longo da vida…

- Sim, concordo, mas conseguimos mudar o que está na base?

- Não sei o que entendes por base…

E continuaram em silêncio.

 

- Uma pessoa, sendo o que é, pode ser outra, pode como que vestir outra, encarnar outra, representar outra.

- Sim, mas isso é teatro. O ator veste o personagem, mas continua a ser quem é, não passa a ser o personagem. O personagem não se instala no ator eliminando-o definitivamente. Tal não é possível, pois não?

- Se continuas assim, com essa dose de abstração, perco-me definitivamente. Não queres concretizar q.b.?

E o silêncio recuperou o seu espaço entre os dois.

 

- Ok, concordo, esta conversa está muito abstrata.

- E então, queres passar ao concreto?

- Quero! Mas isto não está fácil. O tema é difícil, bem difícil. Ouvi esta manhã uma história, na primeira pessoa, e desde então que os meus neurónios não descansam, às voltas com o que ouvi e percebi.

- Entendo. E então…?

- Um jovem, vinte poucos anos, classe média, estudante universitário, é claramente homossexual. Observa as mulheres, procura imitá-las. Sente-se atraído apenas por homens, deseja-os. Tudo nele revela a sua homossexualidade. Mas ele não se aceita tal como é. Está desgostoso e revoltado contra aquilo que é, ansiando por ser aquilo que, claramente, não é, procurando a fórmula que lhe permita a mutação. Questiona-se com desespero e revolta, mesmo violência, porque é assim, porque não é diferente, porquê ele. Repara que questionar-se assim é como que culpabilizar-se a si mesmo, é punir-se a si próprio.

- A não-aceitação de si mesmo, porque ninguém consegue fugir de si próprio, é sempre dor e sofrimento. Essa é uma situação terrível.

Uma réstia de silêncio, que ficara colada num deles, agigantou-se e retomou o espaço entre os dois.

 

- E a família? Qual é o enquadramento?

- Na família, nunca ninguém falou sobre esse tema – é tabu. Segundo ele, a mãe soube bem antes do filho, da sua homossexualidade. Apenas verbaliza que o amará sempre, incondicionalmente. Quanto ao pai, homem duro, inflexível, é completamente intolerante a todos e a tudo o que não é claramente heterossexual. Brejeirices, provocações, afirmações de uma masculinidade que, assim colocada, é ofensa, é agressão. Total impossibilidade de diálogo entre os dois. No filho, uma frustração na mesma gigantesca proporção do desejo de ser…

- … Aceite e amado pelo pai.

- Exato!

- Terrível. Assustador. Provavelmente daí vir a revolta por não ser do único jeito que o pai admite. Como poderá esse jovem ter paz, ter harmonia, ter vida?

E ambos fizeram silêncio e nele mergulharam, procurando assim fugir àquela dor que os invadiu, irreprimível.

 

Fernando Couto


Porto | Portugal

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