Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

14
Dez10

A última viagem (Depois da tentativa – 9)

Publicado por Mil Razões...

 

Não reconhece o lugar onde está mas o desconhecido não lhe causa qualquer medo ou ansiedade. Não ter medo do desconhecido alimentou-lhe a certeza de ser capaz de concretizar o plano, o seu plano, que começou por ser uma vaga ideia. Não a quis partilhar com ninguém, e sozinho, amadureceu-a, deu-lhe um meio, marcou uma data. Talvez tenha sido esse o único plano que conseguiu elaborar para a sua vida -  o da sua morte.

Quer mexer-se mas o seu corpo não obedece. Está confuso. Sente-se cansado, muito cansado. As pálpebras pesam-lhe, abre-as mas desiste do esforço para as manter abertas, deixa-as descair para as abrir não sabe quanto tempo depois. Sombras e imagens difusas. Os olhos baços fixam-se no tecto e repousam naquela suavidade que o branco sempre transmite.

- Onde estou? - Pensou que não tivesse feito a pergunta mas o som quase inaudível aproximou do seu, um rosto triste, angustiado, nas rugas agora mais fundas, um medo mal disfarçado. Reconhece-a e é então que tudo faz sentido. Quis morrer mas não resistiu ao desejo de a ouvir pela última vez. Oferecer-lhe os últimos momentos da sua vida ajudá-la-ia a despenalizar-se. Telefonou-lhe. Ouviu chorar desesperadamente, chorou com ela. Depois, tudo se apagou.

Não aguenta ver tanta dor, quer fugir daquele olhar interrogativo que espera saber as razões para acto tão tresloucado. Razões? Mas será que ela, ou alguém, o poderá compreender? Tentou uma ou outra vez abrir o seu coração, falar dos seus tormentos, mas quê, apontavam-lhe a sua juventude, os recursos académicos e a folgada situação financeira que lhe permitiam ter um futuro risonho. Que forma tão simplista para um problema tão grande como era o seu! Como se sentia sozinho e incompreendido nesses momentos! 

- Tome o remédio!

Não diz o que realmente pensa, olha-a simplesmente e obedece, segura o remédio sem a convicção da enfermeira, como é que ela pode achar que aquele é o seu remédio? Se ao menos tomasse muito daquilo e de uma só vez, sim, poderia ser o seu remédio.

 

Tomei conhecimento do que aconteceu porque a irmã, extremosa, nos pediu que no regresso ao emprego o acolhêssemos sem constrangimento nem julgamento.

Quando voltou não nos pareceu diferente. Reservado como sempre mas simpático e sempre, sempre muito educado. Mostrámos compreensão e disponibilizámo-nos para ajudar. Negou o acontecido. Desvalorizou o internamento: a mãe e a irmã assustaram-se porque ele dormia há muito tempo, e levaram-no ao hospital.

 

Não sei precisar quanto tempo depois mas não terão passado mais do que dois meses quando, num Domingo à noite, no café com os amigos, agitado olhou o relógio: 23 h 45 min.. Apressou-se a sair. Já na porta ainda ouviu um amigo a perguntar qual era a pressa, se ia apanhar o comboio da meia-noite. Virou-se e sorriu...

 

Cidália Carvalho

 

Porto | Portugal

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Equipa

> Alexandra Vaz

> Cidália Carvalho

> Ermelinda Macedo

> Fernando Couto

> Helena Rosa

> Inês Ramos

> Jorge Saraiva

> José Azevedo

> Maria João Enes

> Rui Duarte

> Sandra Pinto

> Sara Silva

> Sónia Abrantes

> Teresa Teixeira

Calendário

Dezembro 2010

D S T Q Q S S
1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D

Comentários recentes

  • Anónimo

    No tempo que é sempre o mesmo, o partir e chegar é...

  • Anónimo

    Diante da morte, diante de um suicida perante a mo...

  • S.

    Há o silêncio da sombra de duas pessoas falando.....

  • Alexandra Vaz

    Um abraço, de alma cheia. Beijinhos, Teresa.

  • Teresa Teixeira

    Sei tão bem disso. Sim, que escrever cura. Mesmo a...

Ligações

Candidatos a Articulistas

Amigos do Mil Razões...

Apoio emocional

Promoção da saúde