Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

25
Jan13

Cuidado com o que desejas (O que fazer? – 8)

Publicado por Mil Razões...

  

Sonhei toda a vida com quimeras. Tenho-as sonhado com muito empenho. Acreditado bastante. Apostado ainda mais. No entanto, nada do que me foi dado ficou. Nada do que vivi me pareceu certo, a não ser pela metade: metade deste, metade com aquele, metade de alegria, metade de metade da metade. Concluo que tudo aquilo que desejei não existe na vida real; tem apenas a importância que sempre lhe dei e que me leva a sentir-me insatisfeita a dada altura da viagem. Um pormenor, um gesto, uma mentira pestanejada com languidez, um momento qualquer em que tudo muda. Faço as malas e vou-me embora; não me acomodo mas demoro uma eternidade até dar o grito do Ipiranga. Sofro como o caraças, faço um luto lento e esmiuçado e almejo, de novo, a quimera: o amor, o tal, aquele de que toda a gente fala. Aquela coisa maravilhosa que faz a alma planar em torno do sol, sem se queimar, e que torna o chão mais seguro debaixo dos pés, sobretudo nos dias em que tudo o resto desaba. Voar nas asas da quimera impede-me de ser feliz com qualquer outra coisa, com qualquer vírgula da existência que ouse encostar o casaco num ponto sem escrita da minha história. A quimera torna o resto insosso e insuficiente. Intragável. Ato insano o meu! Se não existe, porque a procuro? Serei tolinha, masoquista, dona quixote da parvalheira? Tanto mastiguei esta minha alucinação que deixei de a procurar, deixei de pensar nela. Passei a adormecer sem chorar e a acordar sem saudade. Cá dentro, o vazio deu lugar a uma paz que me transcendeu. De repente, podia ouvir uma música lamechas sem sentir um aperto no coração. Guardei a quimera na gaveta dos biquínis, para me lembrar dela apenas sazonalmente, e saí prá rua com o coração mais leve do que se este fosse feito de papel da mais fina gramagem.

Mas a quimera não gostou de ser esquecida. No meio da multidão, fez-se ver. Fez-se sentir. Aquele par de olhos verdes trazia a mesma paz que senti quando deixei de sofrer. Não sei como duas almas se redescobrem no mundo a sério mas deve ser algo muito parecido com isto. Com inteligência e subtileza, para não assustar, foi estreitando mais o abraço; foi dando forma ao amor sem lhe chamar amor. Aquela coisa magnífica era, nada mais, nada menos, do que a materialização dos sonhos mais belos, a simbiose que permite vibrar na mesma sintonia. Num passe de magia, encheu a mente de cores vibrantes e envolventes e o coração de uma plenitude que trouxe o mais doce dos amores, na mais absoluta paz de espírito. E, quando finalmente abraçou a alma e a fez sentir-se em casa, todo o chão tremeu. O encaixe que não precisa de palavras assusta, afinal, mais do que todas as desavenças do mundo. Como diz a canção: “Procuramos os sonhos no céu mas o que diabo fazemos com eles quando se concretizam?”. Ninguém me ensinou a viver a plenitude. E agora, faço o quê com tudo isto?

 

Alexandra Vaz

Porto | Portugal

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Equipa

> Alexandra Vaz

> Cidália Carvalho

> Ermelinda Macedo

> Fernando Couto

> Helena Rosa

> Inês Ramos

> Jorge Saraiva

> José Azevedo

> Maria João Enes

> Marisa Fernandes

> Rui Duarte

> Sandra Pinto

> Sara Silva

> Sónia Abrantes

> Teresa Teixeira

Calendário

Janeiro 2013

D S T Q Q S S
12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D

Comentários recentes

  • Anónimo

    ...bem me parece...

  • alguém

    " há duas razões para não termos confiança nas pes...

  • Anónimo

    Olá, Boa tarde.Gostei muito deste artigo.Rebeca Ma...

  • Anónimo

    M. Teixeira, a sabedoria está em encontrar o ponto...

  • Anónimo

    O que é muito significativo - quando se perde a Co...

Ligações

Candidatos a Articulistas

Amigos do Mil Razões...

Apoio emocional

Promoção da saúde