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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

11
Fev19

Um, dois... amor e depois (Urgência – 12)

Publicado por Mil Razões...

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Foto: Little - Barrie Taylor

 

“Vou contar até três”.  E a urgência acontece, entrecortada por soluços que agitam pequenas lágrimas e as despenham de uns olhos miúdos, entre rebeldes e apavorados.

 

1...

O dono dos olhos miúdos, uma criança de não mais de cinco anos, sento o peso do ameaçador monossílabo atroar o universo todo. O universo todo é uma coisa enorme, pensa ele. E mesmo assim, não há para onde fugir, no limiar da revolta ou do desespero ou da emergência.  O seu corpo pequeno acusa as réplicas do primeiro trovão, em ondas que se chocam entre si: “luto pelo doce que quero, ou desisto?...”  O tempo parece tomar uma forma estranha, difusa, e, portanto, aos olhos do menino, relativa:  afinal ainda haveria o 2 e o 3, ele sabe, já aprendeu na creche, já é crescido e sábio. Ainda não chegaria já o juízo final – ou se declaravam os vencedores.  Aproveitando um soluço vindo lá das profundezas do seu coraçãozinho cheio de direitos, solta mais um grito de protesto e arrelia, e mobiliza um exército de lagrimazinhas novas: “Eu queeeeeeroooooo!...”. A urgência dele é maior que a da mãe, a julgar pelo arrastar desesperado do verbo “querer”. “Não!”, dizia-lhe, lá de dentro da sua cabeça dorida do choro, a vozinha de um espírito voluntarioso e pérfido, “Tens direito ao doce, já o tinhas pedido quando saíste de casa, a mãe devia ter isso em conta! E portaste-te bem, até ajudaste a empurrar o carrinho de compras! E o doce é barato, e diz na televisão que faz os meninos felizes e tudo!”.

 

2…

Desta vez, até o espiritozinho meio-maligno se assustou, dentro da cabecinha fervente do pequeno. “Bolas, 2, já??... E eu ainda nem sequer dei o segundo berro! Mau, mau, a coisa complica, se o tempo se esgota e eu não uso todas as minhas armas... Olha!, gente a parar à nossa volta!! ...é isso, mais um berro e a coisa toma contornos de crueldade desnecessária contra uma criança inocente, para não falar já em violência!”. E, desta vez, dois gritos estridentes disparam da pequena boca gulosa e voam por todo o hipermercado, assustando até o pó das mais altas prateleiras. Sim, de facto, os olhares que se foram juntando à volta da cena tornam-se um pouco intimidadores para a pobre mãe, até aí exercendo o seu direito de ter razão, sem pressa, nem escândalo.  Um burburinho parece começar a ferver, no caldeirão da gente dona-da-razão. “Oh, coitado do menino, ele está nervoso e a mãe só está a piorar a situação, com aquela atitude de ameaça!”. “Qual quê?, eu dava-lhe era um valente açoite nas nalgas, ia ver se a birra não acabava logo!”. “Credo, a criança é um monstrozinho!”. “Não lhes sabem dar a educação em casa, vêm para aqui dar espetáculos de graça!”. “A mãe é que tem a culpa, com certeza já lhe deu abusos, agora que o ature!”.

Bem, a coisa está feia.  E o menino, de repente, já não se acha dono da eternidade, que o número 3 deve estar a cair-lhe em cima. E o comentário daquela senhora com lábios feitos de linha vermelha muito fina e olhos sem cor, que lha comeram as pestanas postiças, fá-lo parar o soluço propulsor de mais meia dúzia de lágrimas e coloca-o em alerta: “O importante é o amor. E esta mãe não tem amor pelo filho, ela não sabe, mas está a afetar o filho para a vida, expondo-o assim. Estas mães não têm paciência, nem compreensão, só querem saber delas próprias. Se calhar não tem tempo para explicar ao filho porque não lhe dá o doce, depois é esta cena triste... a mães assim, deviam-lhes ser retirados os filhos”... (...) ...Bem.  O espiritozinho dentro da cabeça do menino mexeu-se nervosamente e mandou parar de imediato:  soluços, lágrimas e esperneações. O coração, lá no fundo do seu peito, revolveu-se e reposicionou-se, assim, encolhidinho entre as costelas ainda meio trémulas, ligeiramente virado para a esquerda. Uma dorzinha lá dentro lembrou o menino que a urgência, afinal, não tem nenhuma importância. O importante é o Amor.  E o amor da sua mãe não sabe contar, nem sabe quando acaba o tempo, nem sabe medir o universo, porque ele, mesmo menino pequenino, está sempre entre ela e o universo, muito pertinho, por isso, maior que todo o universo.

A mãe, claro, sabe contar. Mas esquece-se sempre em que número vai, quando os seus olhos se entendem para ela, arrependidos e tímidos. Por isso, o 3 nem aconteceu. Em vez disso, a mãe deu-lhe um doce: um sorriso recheado do melhor amor. E seguiram os dois, empurrando o carrinho de compras, corredor fora, para longe das pessoas que comeram muitos doces em pequeninos e que nunca fizeram birras no supermercado.

 

Teresa Teixeira

 

08
Fev19

Nunca é solução (Urgência – 11)

Publicado por Mil Razões...

Woman - Free-Photos.jpg

Foto: Woman - Free-Photos

 

O despertador ainda não tocou, mas já acordaste. Ao contrário de outros tempos, não são os minutos a menos de sono que te incomodam, nem o vislumbre imaginário da chatice das reuniões que vais ter ao longo do dia. De facto, o que te assalta é uma incapacidade imediata da capacidade de respirar. O peso no peito é insuportável e assim é, também, a incapacidade de suster o choro.

As tuas decisões e indecisões roubam-te o pensamento lúcido e a capacidade de resolução. Cessaram as soluções viáveis, existindo apenas uma montanha inultrapassável e inenarrável, porque sim, por muito que expliques, ninguém te entende, ninguém sabe como sofres, nem quão profundo é o buraco na tua alma. Porque a tua dor já não é tangível e o domínio do corpo e do real há muito foram deixados para trás, assim como a alegria e o prazer. O único consolo que te resta atualmente é quando te abandona a vigília, e o sono toma de assalto as tuas horas, agora maravilhosas. Contudo, adormeces sempre com o medo que a realidade invada o onírico, e então, até esse refugio foi contaminado pela tua dor e desespero. E esse torna-se o teu núcleo, o teu ser. A ansiedade e a angústia são o teu par, tornam-se o teu ser. Não reconheces o teu âmago e anseias a cada momento por uma explicação. Algo que te diga quem és e o que se perdeu. E como podes voltar a trás. Porquê? Que fiz eu para merecer tal sofrimento? Porque sinto o que sinto e porque já não sinto o que outrora sentia? E talvez, numa tentativa lógica de voltar a sentir, cortas-te. Uma e outra vez. Um braço serve, talvez os dois. Mas depressa te apercebes que não é solução. Nunca é solução. São apenas as cicatrizes visíveis da urgência da saída que não encontras.

 

Rui Duarte

 

04
Fev19

A procura (Urgência – 10)

Publicado por Mil Razões...

Man - Silvia & Frank.jpg

Foto: Man - Silvia & Frank

 

… “Chamem as tropas aquarteladas na província

Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva

Todos. Decrete-se a lei marcial com todas as suas consequências

O perigo justifica-o” …

 

Terá sido a esta altura que fiquei presa ao ecrã da televisão. O apelo, com carácter de urgência, despertou-me curiosidade, mas também inquietação.

As imagens, a preto e branco, mostravam um homem e uma mulher que corriam assustados, perdidos por ruas estreitas e vazias. Não percebia porque fugiam e de quem se escondiam, na verdade, eu nada percebia do que via na televisão, mas sentia-me arrebatada. Era a hora do jantar, o bulício do restaurante e o ruído inarmónico de talheres e pratos abafavam a voz que lia o comunicado de carácter urgente.

Inesperadamente, a sala silenciou-se. Não foi combinado e tão pouco intencional, foi um daqueles momentos em que ninguém tem nada para dizer e o silêncio cai. Pareceram uma eternidade, no entanto, quão breves e curtos foram esses segundos que nem chegaram para ouvir a razão da urgência na captura daquele casal em fuga! Mas o caso devia ser muito grave porque ainda pude ouvir na caixinha mágica:

 

 … “Por decisão governamental estão suspensas as liberdades individuais

a inviolabilidade do domicílio a habeas corpus o sigilo da

correspondência” …

 

O silêncio incomoda e é urgente preenchê-lo. Recomeçaram as conversas ao estilo rococó que é o mesmo que dizer, conversas superficiais e desorientadas, sem importância. E risos. Muitos risos, indiferentes ao drama do País e à desgraça do casal em fuga.

A dada altura, a televisão emudeceu e a imagem era um granulado nervoso e acinzentado.  Esteve assim até que, como era comum na época, apareceu o aviso:

“Pedimos desculpa por esta interrupção, o programa segue dentro de momentos.”.

A emissão retomou com anúncios publicitários. Sobre o homem e a mulher não deram mais notícias.

Lamentei o imprevisto e enfureci-me contra os desconhecidos que me impediram de seguir a história apaixonada do casal em fuga.

Não estabeleci como urgência descobrir o desenlace dos dois fugitivos, mas por vezes assaltava-me a curiosidade de saber que rumo tomaram. Seriam reais ou ficcionados? Ainda tentei descobrir que programa era aquele e recolher informações sobre a história, mas não encontrei ninguém que soubesse do que eu falava.

Por essa altura, aconteceu o 25 de Abril. Refiro-o, porque com este acontecimento chegaram novidades expressas livremente. A nível das artes então, foi um desabrochar lindo de acompanhar. As livrarias encheram-se de novos autores, as rádios passavam músicas até então desconhecidas, a televisão repunha programas anteriormente censurados. E, foi assim que numa noite, revejo novamente na televisão a história do casal em fuga. As imagens eram de outro ponto da história, mas reconheci-as de imediato. O Mário Viegas lia o comunicado que denunciava porque era tão urgente capturá-los.

 

… “beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade noturna

É preciso encontrá-los. É indispensável descobri-los

Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater

É possível que cantem

Mas defendam-se de entender a sua voz. Alguém que os escutou

deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de

lágrimas” …

 

Só consegui entregar-me à paixão das palavras ditas quando venci a surpresa e o espanto do reencontro. Não ouvi desde o início, mas tinha decorrido tanto tempo desde a primeira vez que tomei conhecimento daquela história, que não podiam estar a falar de um facto real, mas dum belíssimo texto ficcionado. Precisava de anotar o nome do autor e o título da obra, era imperioso adquirir o livro, tinha urgência em saber como começava e acabava a história dos dois amantes. Mas quê, a ficha técnica deve ter passado no início, que eu não vi, e o poema não foi dito até ao fim. Mais uma vez a história me escapou. Seria exagero afirmar que isso condicionou os meus dias seguintes, mas sim, empenhei-me na procura com a única informação que dispunha – um texto lido, na televisão, pelo Mário Viegas, sobre um homem e uma mulher que se amavam. Sem êxito.

Um dia entrei na redação do extinto jornal “O Diário” e vi colado na parede, em papel amarelecido, o extrato de um poema. Reconheci-o, era a “minha” história. Começava com o título e terminava com o nome do autor. Finalmente! Conhecer os personagens que anos antes tanto me intrigaram já não era uma urgência, mas uma emergência. Saí direta a uma livraria. O que encontrei, desconcertou-me, naquela como em todas as outras, nos escaparates destacava-se a “Invenção do Amor” do Daniel Filipe. Ainda hoje, passados tantos anos, mantenho por perto esse pequeno livrinho.

 

… “Prevê-se para breve a captura do casal fugitivo (Mas um grito de esperança inconsequente vem do fundo da noite envolver a cidade au bout du chagrin une fenêtre ouverte une fenêtre eclairée)” …

“Invenção do Amor”; Daniel Filipe

 

Cidália Carvalho

 

01
Fev19

Só hoje (Urgência – 9)

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Foto: People - StockSnap

 

Faz hoje vinte e quatro anos que o meu pai morreu. Não consigo passar este dia sem me lembrar deste facto, mesmo que o tempo avance e se preencha com tantas outras datas e memórias. Faz hoje anos que perdi alguém que me amou, que mo disse, que me fez sentir especial, ainda que por um curto espaço de tempo. Para quem nos conhece e acompanhou a nossa história de vida, esta minha afirmação poderá parecer insana. Em abono da verdade, não posso enaltecer as qualidades paternas ou conjugais do meu pai que, escravizado pelo álcool, quase nos destruiu. Durante muitos anos, a seguir a cenas dantescas, fugíamos e refugiávamo-nos em casa de algum parente (chegámos a mudar de país), mas regressávamos a casa para o infernal habitual, depois das lágrimas do meu pai e a promessa velada de que “agora ia ser tudo diferente”. Não foi um bom pai, não foi um bom marido. Quando a minha mãe teve coragem de o deixar definitivamente, passei três anos sem sequer lhe falar. Fugia dele quando ele aparecia na escola ou na rua, vivia com medo até da minha própria sombra. Aos 16 anos senti que tinha de o enfrentar e perceber o que sentia por ele, para além daquele terror tão absoluto. Sabia que não podia crescer naquele espaço, dentro de mim, de tanta raiva, em permanente estado de vigília, dominada pelo medo.

 

Um belo dia, comprei, com a ajuda de braços de um amigo, uma grade inteira de cerveja. Ajudou-me a carregá-la até à porta da casa do meu pai e fugiu antes que ele tivesse tempo de a abrir, depois de me dizer que eu devia ser maluca ou masoquista para o procurar. As minhas pernas tremiam, as mãos suavam, tinha vontade de fugir também, mas não arredei pé. Quando abriu a porta, ficou surpreso pela minha presença. Saudou-me com o sarcasmo que lhe conhecia e proferiu um disparate qualquer que ignorei. Apontei para a grade de cerveja (bebida de eleição do meu pai e que ele consumia em doses industriais, bem como os bagaços) e disse-lhe:

- Esta noite, eu e o pai, vamos beber isto tudo. Pode ser que eu hoje perceba como é que esta porcaria foi mais importante do que a mãe, eu e o meu irmão na sua vida.

Surpreso, deixou-me entrar. Enquanto caminhava para a sala, ainda com as pernas trémulas, pensava no quão difícil era estar ali, naquele cenário onde, durante mais de uma década, fomos espancados quase até à morte. Aquela casa trazia-me o terror de outrora, os gritos, o sangue, a violência física e psicológica que, para nós, foi a normalidade do quotidiano, durante demasiado tempo.

Nessa noite, estivemos sentados na varanda, bebemos, falámos. Pude, pela primeira vez, ver o meu pai com outros olhos. Descobri que, por baixo de tanta raiva, de tanta frustração, estava um homem assustado, frágil, vulnerável. Não falámos diretamente do passado, mas a dada altura, o meu pai perguntou-me se era possível perdoar coisas já idas, se eu era capaz de perdoar. Disse-lhe que não era Juíza, Deus ou qualquer outra entidade com tal poder, para criticar, julgar, absolver ou condenar. Disse-lhe que gostava dele, apesar de todos os pesares, que percebia agora que tinha o melhor dele em mim (o amor pelas palavras, pela leitura e pela escrita, o humor mordaz, a rapidez de pensamento) e que lamentava que a vida lhe tivesse, precocemente, ceifado o caminho. Perguntei quem o tinha magoado tanto para ele nos ferir com tanta violência. Chorou como um menino, mas não me respondeu… Não consegui abraçá-lo, não sabia como fazê-lo, mas permaneci ao seu lado, em silêncio, e partilhei as suas lágrimas.

 

Naquele momento, constatei que eu, a minha mãe e o meu irmão teríamos de viver com aquelas memórias aterradoras, sim, mas o meu pai tinha o pior dos castigos: viver com o que nos tinha feito, até ao último dos seus dias. Não podia imaginar nada mais triste do que ser quem ele era, nada podia ser mais punitivo do que carregar aquela mágoa: ser, simultaneamente, a sua maior vítima e o seu próprio carrasco. E, naquela varanda pequena, de madrugada, com aquele homem ao meu lado, subjugado pelo peso da culpa, do remorso e da vergonha, soube que nem o meu pai conseguiria odiar.

Essa noite salvou-nos. Nunca mais pude apreciar uma cerveja, é um facto, mas o balanço final era claramente positivo. Durante os (quase) quatro anos seguintes, apesar do alcoolismo crónico, tive o pai que nunca havia tido: doce, carinhoso, orgulhoso de mim. Nunca mais foi violento, física ou psicologicamente. No único dia em que ousou levantar-me a voz, berrei mais alto do que ele e ele calou-se. Disse-lhe:

- Afinal o pai é um covarde como os outros. Só ostraciza quem treme de medo. Pois eu não tenho medo, já não. Acabou!

Olho no olho. Firmeza na minha voz. A primeira e última vez que precisei de o fazer.

Desse dia em diante, substituímos os gritos por gargalhadas e os anos passaram demasiado rápido. Na verdade, não podemos parar o tempo ou dizer-lhe que é urgente viver devagar, que precisamos de tempo para sentir devidamente, para absorver e digerir as páginas da vida e as mazelas debaixo da pele. Gostava de ter crescido mais um pouco, mais depressa, de poder vir a ser adulta a sério para o conseguir ajudar. Na minha cabeça, assim que tivesse um emprego “como devia ser”, estabilidade e maturidade, iria ajudá-lo a deixar o álcool. Iria ser capaz de o amar o suficiente para que ele não fosse atormentado pelos seus demónios; imaginá-lo torturado pelos remorsos não era uma imagem que me agradasse. Durante esses anos, fui feliz ao lado do meu pai. Vivi com ele momentos muito bons que, aos poucos, foram varrendo as memórias tempestuosas para um canto esquecido em mim e dando lugar apenas ao amor, ao carinho, ao respeito que sempre havia esperado. O meu pai esteve presente, sobretudo, emocionalmente, em momentos marcantes e decisivos da minha entrada na vida adulta. Sou muito grata por este tempo que nos resgatou e que me permite, ainda hoje, lembrá-lo sem dor e com verdadeira saudade.

 

No dia em que o meu pai faleceu, corri para a sua casa, para lhe dar a notícia da neta que vinha a caminho. Queria tanto que ele conhecesse a bebé que trazia dentro de mim, talvez esta menina o ajudasse a escrever uma nova história, uma sem violência, dor e culpa. Uma que lhe permitisse uma velhice feliz e sanada. Afinal, os seus 52 anos faziam-me crer que tínhamos tempo. Estava tão feliz por saber que seria avô em breve! Faltavam quatro meses para a minha filha nascer quando sepultei o meu pai. Faltava tempo para todos os meus planos, faltava o meu pai na minha vida e, pela primeira vez, senti-me verdadeiramente só. Órfã de amor e de pertença. Tudo me havia sido tomado precocemente. Na urgência dos dias, questionava-me se seria essa a cadência do meu percurso vital. Estava mais perdida do que um caramelo esquecido no bolso de um casaco, na mudança de estação. Assim que me foi possível, coloquei aqueles quatro anos no regaço, para que jamais me escapassem (tudo o resto deixei ir no caixão do meu pai), abracei a dor e a incompreensão e aceitei a inevitabilidade da existência. Um dia atrás do outro.

 

Vinte e quatro anos depois, não sou vítima de coisa nenhuma, continuo profundamente grata. Estou em paz com este passado e deixo que a saudade mais apertada, que hoje sinto, me lembre o bom que pude viver – é aqui que me alicerço, nos dias frágeis, em que a memória me trai… Mas hoje, só hoje, gostava de poder olhar o meu pai nos olhos, apresentar-lhe os três netos lindos que ele tem e, estou certa, vê-lo sorrir, inchado de orgulho e de alegria. Gostava de sentir as suas mãos nas minhas, dizer-lhe que o amo, que sou feliz e dar-lhe o abraço que lhe faltou quando ele era pequenino. Afinal, sei-o agora, precisou de mais amor do que nós.

 

Alexandra Vaz

 

28
Jan19

É como se fosse (Urgência – 8)

Publicado por Mil Razões...

Millennial - Quinn Kampschroer.jpg

Foto: Millennial - Quinn Kampschroer

 

É sexta feira à noite, trabalhei até tarde, todo o dia. Toda a santa semana. Acabei um jantar de restos, em casa. Estou cansado, o corpo pesa-me, cai-me, quase desvalido, no sofá. Não tenho programa para o início de fim de semana, nem procuro ter. Não me apetece.

Mecanicamente, sonolentamente, automaticamente pressiono a tecla do comando e deslizo a vista, sem ver, pelos vários canais da televisão. O mesmo pelos aplicativos e redes sociais do telemóvel sempre na mão. Encosto a cabeça para trás...

 

Toca o telefone, o toque do cartão profissional.

Grande surpresa, das antigas! É um grande parceiro e amigo de Coimbra, que já não vejo e de quem já não tenho notícias há anos, por mais que as tivesse procurado ter. Está no Porto. Conseguiu o número de telefone na minha página profissional. Não preciso de mais nada, basta-me a sua voz, um pouco mais grave e rouca, para, sobressaltado, melhor, entusiasmado, o reconhecer. Grande, saudoso amigo, finalmente! Como estás tu, como me descobriste? Claro que vou, imediatamente. Apanho-te no hotel, vamos conversar, beber um copo. Pôr a conversa, as nossas vidas, em dia!

Já percebestes, o sono, a canseira, esfumaram-se. O que tenho é entusiasmo. Despertei. Até parece que tenho menos 30 e tal anos. Maravilha de surpresa, é bom ter alegrias assim.

 

A situação pode ser esta, similar, semelhante. Acredito que não é difícil assimilar o que se passou. Já todos passámos por isto, basta fazer as devidas adaptações pessoais. Fácil de compreender, não é?

Convirá é ir buscar estas vivências, por que todos já passámos e observámos nos outros, quando precisamos delas. Quando estamos cansados, ou descrentes, ou desmotivados. Quando não nos apetece e… talvez amanhã ou depois.

 

Urgência, emergência, importância. Muitas vezes confundimos conceitos, situações. Deixamos andar. Por algum motivo estamos cansados. Só a sirene, o final do prazo nos espicaça e nos dá a vontade, a força que estava escondida, adormecida.

É hoje em dia evidente como verdadeira a tese de Ortega y Gasset de que o Homem é ele próprio e a sua circunstância.

Sabido e aceite isto, falta, convirá, aplicar. Fazer. Não deixar para o acaso ou iniciativa de outros o que nós podemos também fazer, nos nossos termos. Construir, erguer mecanismos interiores que nos ajudem a assumir que o que é importante é como se fosse urgente. Não o contrário.

Ser reativo pode ser bom. Desenrasca. Ser proativo é melhor.

 

Jorge Saraiva

 

25
Jan19

Ruge (Urgência – 7)

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Foto: Time - Myriam

 

“Não tenho pressa. Pressa de quê?

Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.

Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,

Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.

Não; não sei ter pressa.

...

Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,

E vivemos vadios da nossa realidade.

E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.”

Alberto Caeiro

 

Um incómodo grande, a falta de barulho. Nem que seja o do rádio ou da televisão. Um aborrecimento ter de nos ouvir, o que por aqui ecoa na tubagem, nas cavernas.

Reparei que fico bastante cheia de mim ao fim de uma viagem de autocarro de 4 horas. Chego ao pé das pessoas e toda eu só quero falar. Expulsar o demónio. Quando não consigo adormecer, ler tem sido um modo de me distrair. Fico pensando se esta parte da canalização interna não range como um cuco à espera de ser notada, se não quer ser ardentemente vista. Mas traz aquele incómodo das paixões, invejas, ciúmes, as fraquezas da gula e do desejo. Traz o ressentimento e o ódio, a competição e a agressividade. A par disso muita fome, várias.

 

Tenho lido “De olhos fixos no sol” do Irvin Yalom, e fala sobre a morte, a construção de significado, o isolamento face ao nosso derradeiro. Conta também o face a face com aquela questão que nos tira o sossego, o do passado já não voltar. Dei conta que ele partilha o momento em que vê o pai ao telefone a receber a notícia que o seu pai morreu. Isso remeteu-me também para a minha história, tal e qual, tirado a papel químico. Vi o meu pai a ir ao telefone, ouvi um som diferente, a mãe passa a correr atrás dele, ambos em direção ao quarto. O som diferente não se altera, agudiza e fica num som permanente.

Eu dirijo-me ainda mais ao meu quarto (se calhar já lá me encontrava), por mais curiosidade que tivesse apercebo-me rapidamente que não ia mesmo querer saber o que causava tamanha desfiguração ao meu pai, tive medo.

Que mais futuro me fará fugir para o meu quarto? O medo maior, penso, é o terror conhecido, não o que há de vir ou o desconhecido, desse não tenho sequer imagem, cores ou sons. Yalom recomenda um exercício, olhar para o passado ano e perguntar-se: estaria disposto a repeti-lo tal e qual? Se notar arrependimentos, algo que não quer que se repita, então, tratar de remover ou mudar isso. Eu gostei deste exercício.

Aconselho o livro, mas com leitura reconfortante, por exemplo, Tolentino Mendonça.

 

Maria João Enes

 

21
Jan19

Tiquetaque (Urgência – 6)

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Wristwatch - Steve Buissinne.jpg

Foto: Wristwatch - Steve Buissinne

 

Urgente! Temos que viver este instante. O dia deixou de ter 24 h, resume-se a minutos e ouve-se o tiquetaque do relógio, ensurdecedor. O tempo encolheu, é insuficiente. Incontáveis são as solicitações que recebo e quero responder a todas, preciso disso. Ou será que não? Há uma pressão constante e cedo. Quero ter o controlo, mas tudo é incontrolável. Corro, perco o fôlego, mas contínuo, não posso parar. Ou não me deixam? Fico ansiosa porque amanhã já nasce um novo dia.

Quero viver, mas o tempo é tão rápido que nem dou conta. Não quero perder um segundo da vida, mas não consigo senti-la. Também quero tempo para olhar para mim, para fechar os olhos e inspirar profundamente, também quero ter tempo para não pensar em nada, mas não consigo encontrá-lo. A cada segundo sou bombardeada com milhares de informações, não consigo escapar. Sinto-me cansada e farta de ser levada no meio da multidão. Mas não temos que ser todos iguais, apesar de ser difícil de controlar, é possível.

Ligo a televisão e sei, no mesmo instante, que o mundo continua a girar. Fico a saber o que interessa e aquilo que não me traz benefício algum. Desligo-a e torno-me uma ignorante.

Ligo a Internet no meu smartphone, quase imposto, e há um dilúvio de informação. Estamos em permanente contacto com o mundo e com as pessoas. Haverá necessidade? Tudo é uma escolha. Desligo a Internet e o telefone não toca durante dias. A vida acontece por detrás de um ecrã e isso entristece-me. Sou culpada, aceito a sentença.

 

Os álbuns de fotografias, daquelas que temos na casa dos nossos pais com a história da nossa infância, encontram-se em vias de extinção. O rolo da câmara nunca acaba. Esteja onde estiver eu sou a fotógrafa, por completo. Escolho e enquadro o cenário, ajusto a luz, pressiono o botão e olho, repito o processo as vezes que entender. Depois volto a escolher, eu mando no arco-íris. Revelo-a, mas não me encontro numa sala escura, encontro-me no palco principal do espetáculo. E quase no imediato, sem sequer se moverem do local onde estão, todos assistem. Gosto. Sim, e nem sei bem porquê. Preciso disso para ser feliz? É óbvio que não.

Os conhecidos são mais “amigos” do que os amigos que conheço. A lista de “amigos” cresce exponencialmente. O livro permanece aberto e em permanente construção, a sua história nunca terá um ponto final. Mas se sou eu a autora, porque não? Porque há histórias que já não se escrevem fora do livro.

Instante. Histórias. Público. Paredes. 24 h. Todos somos iluminados pelas luzes da ribalta, à espera de um aplauso. Quem somos nós? Somos o amigo daquele amigo a quem nunca demos um abraço.

Queremos ser vistos, ouvidos e comentados no agora. É urgente porque o tempo encolheu. Ganho um sorriso vago, mas o meu ritmo cardíaco não se altera. Passam mais 24 h e tudo se repete, provavelmente.

 

Existem vantagens na urgência do dia-a-dia, é claro que as vejo. Mas as desvantagens perturbam-me. Volto a baixar a cabeça, sou culpada também, sim.

A verdade é que o tiquetaque fica gravado na nossa cabeça. Queremos viver o instante porque não sabemos o que o amanhã nos reserva e, muito menos, o que pode acontecer num instante. A vida é para ser vivida, mas temos que a sentir, não nos podemos esquecer disso. Os sentimentos aquecem-nos a alma, fazem acelerar o coração e trazem-nos sensações inexplicáveis. Gosto de clichés. Simples.

Sozinha, em silêncio e, depois de me ter perdido no tempo, finalizo citando um autor que não é meu “amigo”: “Não tenha pressa, mas não perca tempo.”.

 

Marisa Fernandes

 

18
Jan19

Prioridades (Urgência - 5)

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Hourglass - Annca.jpg

Foto: Hourglass - Annca

 

No nosso dia-a-dia, temos por hábito colocar a urgência à frente da prioridade, sacrificando, frequentemente, valores importantes da nossa vida, nomeadamente, a saúde, a segurança e o nosso bem-estar. Pomos de lado as prioridades para atender ao urgente, deixando-nos subjugar pela urgência, o que nos tolhe e nos retira a clareza e o discernimento necessários para poder decidir serenamente.

Quantas vezes, por sermos escravos da urgência, não damos prioridade àquilo que é prioritário, em manifesto detrimento do que é fundamental para um viver saudável. Prioritário é aquilo que é mais importante, aquilo que deve ocupar o primeiro lugar e que deve sobrepor-se, sempre que possível, à urgência. Esta, afinal, apenas traduzirá aquilo que urge, aquilo que é iminente, muitas vezes sem conteúdo significativo, e que não nos permite ir mais além, porque nos sufoca, nos aperta, nos oprime, comportando-se como uma entidade tirânica que controla todos os nossos movimentos e interesses.

 

Nos tempos que correm, a nossa vida é, infelizmente, dominada pela tirania da urgência; esta impera sobre o importante, criando uma autêntica vida de tensão. Como seria bom poder vermo-nos livres dessa tirania!

Atribui-se a Eisenhower a frase “O que é urgente raras vezes é importante, e o que é importante raras vezes é urgente”. Muito significativa esta máxima, dado que muitas tarefas consideradas urgentes não precisariam de ser feitas hoje ou até nos dias próximos, podendo, no lugar delas, ser realizadas outras mais prioritárias, mais úteis, com mais interesse e de maior relevo ou importância social, pois, nem tudo na vida que é urgente é prioritário.

Antes que seja tarde de mais, livremo-nos da tirania da urgência, do seu jugo, saibamos gerir o nosso tempo de acordo com a ordem de prioridades do que é mais profícuo e importante na vida. Afinal, esta é uma só e vale a pena ser vivida, mas sem qualquer tipo de opressão ou constrangimento.

 

José Azevedo

 

14
Jan19

Basta um minuto (Urgência – 4)

Publicado por Mil Razões...

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Foto: Black-and-white - abigail2resident

 

O teu sorriso era diferente – o teu ar, que costumava ser calmo, era hoje agitado.

Senti-me preocupada e perguntei-te. Respondeste que estava tudo bem, apenas estavas ligeiramente cansado e abraçaste-me. Um abraço forte, um abraço demasiado forte, como se te despedisses de algo, como se te fosses ausentar. Não questionei o facto de o fazeres. Apenas retribui.

Saíste pela porta e espreitei-te pela janela, olhaste para trás e sorriste-me, acenando.

Sentia-te perto, mas longe ao mesmo tempo. Senti um calafrio, não conseguindo explicar o porquê.

Pedi-te para me mandares uma mensagem ou para me ligares quando chegasses, apesar de não ser longe – apetecia-me pedir-te, algo me dizia para o fazer.

 

Passou uma hora, passaram duas. Achei estranho – não costumavas esquecer-te de ligar. Liguei-te! Chamou, chamou... Ninguém atendeu. Liguei-te uma segunda vez. Atendeste! Pensei eu...

Do outro lado uma voz estranha disse "Olá!". O meu coração gelou, senti-me estremecer. Do outro lado ouvi essa mesma voz dizer-me que tinhas tido um acidente, tinhas ido de urgência para o hospital mais perto.

Corri, corri tanto. Tinha medo, medo de não te conseguir ver mais, medo de te perder. Medo de não conseguir dizer o quanto te amo. Pedia a Deus, pedia muito, para não te levar.

Cheguei. Corri até à primeira pessoa que encontrei e perguntei. Perguntei por ti, perguntei a medo. Mas estavas vivo. O mesmo minuto que foi crucial para sobreviveres, fora também o minuto para te deixar paraplégico. Um minuto que tudo mudou.

 

Inês Ramos

 

11
Jan19

Reflexão contemporânea (Urgência – 3)

Publicado por Mil Razões...

Woman - Engin Akyurt.jpg

Foto: Woman - Engin Akyurt

 

É urgente o amor, é urgente

permanecer.”

 “É urgente o amor”; Eugénio de Andrade

 

Há urgências intemporais, alheias aos costumes e épocas. Há preces por atender, ânsias por viver, abraços por receber. Há tempestades por colher e bonanças por antever. Mas acima de tudo, urge o amor.

O que carrega a paz em si e se expressa por meio da compreensão. O que é parente da empatia e forte amigo da alegria.

E antes que o negrume se instale, gerando o caos e a confusão, há que pensar e refletir devidamente sobre toda esta situação. Porque é urgente o amor. É urgente saber ao que se deverá dar valor.

 

Sara Silva

 

Porto | Portugal

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