Quando olhei para ti... e me perdi. Quando olhei para ti e me perdi não foi pelas melhores razões. Quando o meu sorriso desvaneceu. Quando deixei de existir, deixei de acreditar na minha essência. Perdi-a no comodismo. Perdi-a por ti. Para ti. Sem saber, sem sequer me aperceber.
Fechei os olhos a novas oportunidades quando tantos me alertavam para ser feliz. Eu achava que o era, erradamente. Muito erradamente. Cega, fechada num mundo infeliz. Até tu teres o desplante de teres aberto os olhos para uma nova oportunidade. Para algo que dizias ser bom para ti. Mas não admitiste! Mentiste. Com todas as palavras. Com todos os dentes. Mentiste-me. Iludiste-me. Com palavras vazias, gestos vazios. Que eu quase acreditei. Quase!...
Felizmente consegui superar, consegui não olhar mais para ti, consegui virar a cara. Não acreditar nas tuas palavras feitas e gestos ensaiados. Foste um bom ator nesse teu palco falso. Mas não triunfaste. Lamento dizer-to. Mas não foste sucedido. A força trouxe-me ao de cima. Voltei a sorrir, voltei a viver, a sentir-me viva. Sentir que existe algo que nunca vivi, pois nunca me dei a oportunidade de o fazer. Porque estava numa concha só tua. Perdida. Iludida com a infelicidade.
Renasci. A vida é cheia de sonhos, que perdemos pelo medo de não arriscar. Pelo medo de fugir do comodismo. Basta ter coragem, ter força. Não ter medo de ser feliz.
Saber vencer na vida, mais do que uma virtude, é uma manifestação de força do querer, da tenacidade, da pertinácia e determinação da vontade de alguém que não vacila face a qualquer obstáculo ou contrariedade. A força de vontade interior é o motor necessário para todas as áreas da vida, não só a nível pessoal, mas também no campo profissional, constituindo ela própria uma fonte de energia indispensável para a adoção de uma firme atitude mental e intelectual na luta diária e persistente de cada um de nós.
Ela, a força de vontade, motiva a decisão de alguém poder crescer e afirmar-se como pessoa, de superar-se a si próprio, ir mais além e ultrapassar os seus próprios limites.
A força de vontade deve ser exercitada de forma gradual e progressiva, mediante ações repetidas ao longo do tempo, tal como acontece com a preparação física dos atletas, no sentido de se poder alcançar os objetivos.
Lutar, cair, sem, porém, esmorecer, levantar e começar de novo, se for preciso, faz parte desse exercício mental para fortalecer o ânimo e o espírito de vencer.
Já o eminente cientista Albert Einstein afirmava: “Há uma força motriz mais poderosa que o vapor, a eletricidade e a energia atómica: é a vontade”. Essa capacidade de esforço do ser humano é determinante e ajuda-o a cumprir um plano de ação com vista ao objetivo que definiu.
A força de vontade interior, mental e intelectual, qual segunda natureza que é, na motivação da luta diária e persistente, constituirá, seguramente, a grande fonte inspiradora para quem não se resigna com as adversidades da vida.
Momentos que pensamos que nunca podem vir a acontecer;
Momentos que quando chegam são uma surpresa absoluta;
Momentos que acontecem e são desastrosos,
Momentos que provocam um sofrimento tal que, às vezes não se percebe como se resiste;
Momentos indiscritíveis de tanta miséria e angústia;
Momentos em que falta tudo;
Momentos em que as pessoas não conseguem dizer absolutamente nada, e os discursos dos que falam são dramáticos;
Momentos em que as pessoas só pedem o essencial;
Momentos em que doenças aparecem por falta de condições;
Momentos em que as prioridades são água e mantimentos básicos (como as prioridades são tão relativas!!!);
Momentos em que é preciso TUDO.
As imagens que se veem de Moçambique são aflitivas e muitos duras. Como se sobrevive a partir do zero? É preciso tudo, mas, é preciso muita força para garantir a sobrevivência imediata.
Era uma vez uma menina, como tantas outras há 30 anos atrás, que via o Popeye e a Olívia Palito na televisão. Todas aquelas histórias contribuíram, de alguma forma, para moldar o seu ser e a sua personalidade. A distinção entre o bom e o mau, a vida enfatizada e sem filtros, as traquinices do Brutus, a resolução de problemas do Popeye, o encantamento da Olívia... Tudo isto lhe deu o conhecimento, visto agora como ferramentas para levar a vida de determinada maneira, sem que esta lhe roube toda a energia que teima em querer fugir.
Até sobre os espinafres e o seu poder ela aprendeu. Lembrou-se deles quando, num certo momento da sua vida, foi diagnosticada como tendo princípios de anemia, o que quer que isso signifique, já que o princípio quer dizer que já começou, quando na realidade ainda não tem. A verdade é que o pai se lembrou, e bem, que se o Popeye ganhava tanta força com os espinafres, a sua menina, agora já não tão pequena, também o conseguiria. Claro está que não devemos acreditar em tudo o que os desenhos animados nos dizem e, após consultar o médico, este confirmou que a alimentação com bastantes legumes verdes escuros ajudam a combater a anemia. E assim foi, até hoje a anemia não passa disso, de principio e não uma doença que veio para ficar.
A delicadeza da Olívia também lhe transmite, sempre o fez, uma força incrível pois, com aquele jeito feminino e aparentemente sensível, consegue ser educada, fazer o que acha melhor e sem agredir os outros, sem ser preciso ser mal-educada nem indelicada.
Até Brutus consegue provar que o tipo de força que utiliza não o leva onde ele pretende chegar, pois inclui sempre a maldade para a situação e para os outros.
Estas forças, como tantas outras, parecem ser dadas a todos como adquiridas, mas não o são. Temos que saber exponenciá-las, saber geri-las, escolher onde e quando aplicá-las. E, por vezes, se as gastarmos mal, quando precisamos realmente delas, elas falham...
Para a menina desta história, que continua a comer espinafres, a força mantém-se, mas até quando? Ela sabe que não a pode dar como adquirida.
É o que nos prende e nos mantém, ou o que nos impele. A ação invisível que nos soergue ou derruba. A incógnita entre o estático e o movimento, entre a pressão e a reação, concretizada no enlace da física com a realidade, pendendo sempre entre a conjetura e a realização.
Tanto marca a sua existência como a sua ausência, perdida e achada em diversas dimensões do ser, onde não há verdades absolutas. É tudo o que nos sustem e nos faz ver um pouco mais além.
É a força. É a garra. É o que ou nos liberta ou nos amarra.
Começo a escrita sob a nuvem de uma semana profissional complicada. Com certeza um arranque auspicioso quando o tema proposto é a simplicidade. Confesso que o deadline para a entrega do texto já foi largamente ultrapassado, mas com toda a honestidade, apenas ontem me apercebi de tal facto. Simplesmente resta-me pedir desculpa.
Desde ontem à noite, assaltado pela culpabilidade de quem não cumpriu, revi os ângulos possíveis de abordagem ao tema, tendo-me rapidamente apercebido que as hipóteses seriam:
a) de caráter pessoal, que incidisse na vivência da última semana;
b) de caráter geral, até mesmo ficcionado, que incidisse em quê ???
Pois… nada simples…
A hipótese a) rapidamente ficou fora do horizonte descritivo atendendo que a primeira frase que se colou imediatamente à ideia foi: “se não tens nada de bom para dizer, mais vale estares calado”. Podia, claro, simplesmente borrifar-me para as consequências das palavras escritas e utilizar este texto como um veículo de catarse, mas todos sabemos que na suposta era da Liberdade Individual nunca antes estivemos tão escrutinados. É complicado… Aproveito aqui a oportunidade para agradecer à minha esposa a solidariedade e compreensão demonstradas na escuta ativa do que levei para casa. E, já agora, perdoa-me os palavrões utilizados que ilustraram e deram cor à minha revolta e frustração. Podem ser artifícios linguísticos básicos, mas na verdade simplificam com crueza a categorização de certas coisas. E assim, dessa forma, todos nos entendemos.
Restava-me a hipótese b) e aqui apresentou-se a segunda dificuldade. “Keep it simple” e partir daí. Mas, sinceramente, quantos textos de treta existem vangloriando uma existência mais “despegada”, “em contacto com o interior”, com menos “pegada ecológica” e blá-blá-blá?
Invariavelmente, o quadro profissional invadiu o pensamento, alicerçando-se numa dicotomia eu vs. outro. Nas simplicidades e dificuldades da minha vida, comparativamente às simplicidades e dificuldades da vida de terceiros. Mas, muito honestamente, não irei por essa via, principalmente por duas ordens de razão: já demasiadas vezes escrevi acerca da deficiência / incapacidade e ninguém aprecia um tipo chato e repetitivo. E, mais importante ainda, devido à convivência recente com pessoas que têm tido o condão de me fazer pensar acerca da diversidade funcional, não sinto segurança (ou justiça) na minha opinião acerca de tal juízo comparativo. Ficou registada a frase “nada sobre nós, sem nós”. Fica a promessa: se algum dia escrever sobre tal tema, será com coautor.
E assim, analisadas as hipóteses que tinha, cheguei a conclusão que serve o imediato. Face ao tema que propuseram, simplesmente decidi não escrever.
Vem aí a primavera. É fácil perceber isso, mesmo sem ter descoberto a serventia dos calendários, mesmo não sabendo a dinâmica das rotações, mesmo não conhecendo o poder das sementes, ou a necessidade da chuva, ou a importância do sol. Tudo o que nos é revelado de forma simples é fácil de entender: e o que há de mais simples do que o nascimento de uma margaridinha miúda, no relvado semisselvagem em frente da minha casa? Depois outra, e outra, e um ou outro dente-de-leão. Ao mesmo tempo, as árvores, que passaram a época mais fria despidas e tristes, começam a espreguiçar-se ao sol mais demorado dos novos dias, e dos seus ramos brotam flores magníficas. Nascem de noite, talvez, silenciosamente, para não acordar quem dorme – e é tão natural a sua chegada que os nossos olhos nem estranham as cores novas, antes se agradam e dulcificam, aceitando a simples idade das coisas.
É como nós. É como a vida. A gente nasce e pronto, nascemos, é tão simples. Está tudo previsto, o colo da mãe, a alegria do pai, o berço, o amor, o mundo. E mesmo quando falta, ou a mãe, ou o pai, ou a alegria, ou o amor, ou o berço – ou isso tudo junto – é certo que um colo haverá sempre, seja de quem for. Ainda certo, por enquanto, é também o mundo (até porque sem o mundo, não seria nada simples alguém nascer...). E a ele chegamos nus, puros, inocentes, ignorantes – e nunca, em outra qualquer idade da vida, seremos tão cobertos de simplicidade, tão naturalmente confiantes e espontâneos. O instinto, de imediato, é o que nos serve – e, dali em diante, a Natureza harmonizará as forças para que as primaveras façam connosco o que fazem com as flores: mel, feitiço, esperança; e os estios, o que fazem com os frutos: maturidade, alimento, colheita; e os outonos, o que fazem com as folhas: júbilo, ouro, sangue; e os invernos, o que fazem com as sementes: milagre, criação, sobrevivência.
Mas, entretanto, há todo um processo de complicação, nesse simples decorrer das estações. Crescemos e vamos aprendendo coisas: que às vezes chove, que às vezes está frio, que às vezes dói, que às vezes magoamos. Descobrimos, num processo tão natural quanto simples foi o nosso nascimento, que a vida é confusa, que, não sendo nós seres solitários, nos é impossível manter, tantas vezes, a simplicidade. Ou a liberdade – de o ser e de Ser, simplesmente. O estudo desperta, a experiência ensina: há fios por todo o lado, tropeçamos, caímos, aprendemos, reaprendemos; há, à nossa volta, cotovelos em riste, criamos estratégias de sobrevivência e defesa, mentimos, caímos, fingimos estar bem, rebuscamos em nós o princípio da verticalidade, cedemos outra vez ao vento, inclinando a cabeça a interesses mais altos, a solicitações mais aguerridas, a sofisticações mais apuradas. E lá se vai a simplicidade por completo.
Mesmo com essa consciência, repetimos a frase chave para entrar nos círculos dos jubilados da vida: “A simplicidade é uma arte, atinge-se por refinada estratégia e apurada e experiente habilidade”. Ora! Eu fico na simples idade das coisas – talvez porque ainda reste em mim um bocado de inocência e uma espécie de talento natural para esbardalhar a Vida com que nasci.
– Por favor, meia-de-leite e um croissant. – pedi, certa de que não haveria complexidade na satisfação do meu pedido.
– Vai tomar ao balcão ou quer sentar-se numa mesinha?
Não estranhei a pergunta, pareceu-me até razoável, a intenção não seria outra que não fosse a de me sentir bem servida. Mas, vi-me assim, a ter de escolher um cenário, comprometendo a simplicidade do ato de morder um croissant e tomar uma meia-de-leite.
– Descomplica e escolhe lá uma mesa. – pensei.
Olhei à volta na esperança de lobrigar o lugar ideal para tão simples ocasião. A mesa junto à janela proporcionar-me-ia um ambiente agradável; separada por um vidro, testemunharia com recato a azáfama e o borburinho da rua. Por norma sou ativa e participativa, mas há momentos – aquele era um deles –, em que me deixo arrastar para uma letargia, de tudo deixar correr e sentir simplesmente a vida a passar.
– Posso sentar-me naquela mesa?
– Sim Senhora, nesse caso pode fazer o pedido à menina que serve às mesas. Ela passa por lá.
Solícita, a empregada anotou num bloquinho o meu pedido. Com a cabeça, fez um sinal de assentimento e pareceu dar a tarefa por concluída. Não, ainda não, faltava um pequeno pormenor.
– O croissant é simples?
Sempre gostei de croissants e, para mim, eles valem por si só, nunca senti necessidade de os misturar.
– Sim, simples.
– Gosta deles mais para o tostado ou para o clarinho?
Entendi por clarinho, malcozido; como não aprecio massas cruas, optei pelo tostado.
– Muito bem. A meia-de-leite é quente ou morna?
– Com o frio que está, quentinha confortar-me-á bastante mais.
Parece ser desta. A empregada acabou as anotações, meteu o lápis e o bloquinho no bolso da bata e ensaiou dirigir-se ao balcão, mas de repente:
– A meia-de-leite é clara ou escura?
Que raio, eu só queria lanchar. Pensei que fosse coisa simples de fazer, mas vejo-me submetida a um prolongado interrogatório. Nesta altura, as papilas gustativas já não preveem um croissant adocicado – este transformou-se num pedaço de farinha cozida, amarelada e deslavada de sabor. A meia-de-leite amargou. Sou tomada de uma indecisão, ficar ou admitir que me enganei e ir embora. Mas, de novo pensei para mim:
– Descomplica e decide-te, clara ou escura?
Com sinais evidentes de impaciência e desagrado, referi a minha opção.
– Peço desculpa, disse a empregada, só mais uma coisinha, quer açúcar ou adoçante?
Já me decidi, pego no saco e vou-me mesmo embora sem saborear os tão afamados croissants. Mas a contenção e o controle comportamental deram-me fome, a satisfação da necessidade básica de me alimentar obrigou-me a repensar a minha decisão. Vencida, respondo:
– Olhe, faça como se fosse para si.
– Ok! Nesse caso vou trazer-lhe açúcar amarelo e a meia-de-leite bem batidinha, com a espuma a vir ao de cima.
Afinal ainda se podia complicar mais um bocadinho.
A água parece tão calma. Sentada na relva, em frente ao rio, fecho os olhos e deixo-me embalar pela harmonia que me rodeia. Dentro de mim, o burburinho serena, lentamente. Oiço os pássaros, as águas, o som do vento, das folhas que se agitam no meu regaço. Fundo-me no tempo como se pudesse, eu própria, ser onda, gaivota ou raiz. O sol devolve-me a preguiça e estendo-me ao comprido. Sinto o cheiro da relva, ainda molhada, e algo se me agita no sangue: esta felicidade toda dá-me vontade de chorar. O meu corpo estremece, silencioso, sucumbe num pranto sem fim, mas não consigo parar de sorrir. Abraço a Mãe Terra e encosto o ouvido no solo, oiço o bater de um coração; pensei ser o meu, jurei ser o dela, despedi-me sem saber em que momento nos alternamos nesta história. Quer dizer, eu e ela, sentir e ser, simplesmente. Não importa. Aqui, nada importa. Apenas respirar, ser, sem pressa, com lágrimas, sorrisos e estes raios luminosos sobre nós. Dentro de nós.
Quando o sol, majestoso e sereno, boceja no horizonte, levanto-me sem vontade de regressar. Obrigo um pé a caminhar atrás do outro, digo ao coração que não tenha medo. Há um equilíbrio, muito nosso, que mantém as coisas no seu lugar. Há sítios para descansar, há sítios onde morar. Há pessoas com quem se está, há pessoas com quem se é. Sei as que não me dizem nada, as que me fazem sentido e as que, sem aparente sentido, sempre me encontrarão. Haja o que houver, caminho sabendo que voltarei aqui, que levo o som do rio, dos seus habitantes, da sua dança, das árvores, debaixo da minha pele. Que somos Um sendo únicos. Sei que estou em casa em momentos e lugares onde o barulho do sangue se confunde com o som da terra, com a musicalidade das águas, com a gargalhada cristalina de uma criança. Quanto mais me afasto, mais pertenço. E encontro, sempre, o caminho de volta.
No regresso ao ritmo urbano, diluo-me na multidão. Caminho, anónima, ainda com o cheiro da relva molhada em mim, alheia às conversas e aos pensamentos do mundo. A lua, por cima da minha cabeça, lembra-me que me espera, para a nossa conversa noturna. Nas noites em que ela ilumina a minha casa, a minha pele não é minha, é dela; ou me sento e resolvo a coisa a bem, ou ela vai comigo para a cama e arruma comigo. E ela sabe-o, ó se sabe. Hoje, conversamos, despimos o que calamos e deitamos, sem dolo. Dançamos, se tiver de ser, abraçamos o que restar e respiramos. A pele inteira. Mas, antes disso, é preciso chegar a casa, abraçar os filhos, os patudos, orientar a vida, falar em Morse, fazer mil e umas coisas antes do tempo (parecer) abrandar e a lua se instalar, imponente e zangada – sabe que me havia esquecido dela – na minha varanda. Pois aqui me tens, inteira, de braços abertos, sem qualquer resistência.
Uma avalanche de coisas boas percorre o meu corpo, sacudindo os meus medos. Lembra-me que viver é maravilhoso, também nos dias em que dói existir e nada parece lógico, nos momentos em que cada passo parece um salto no escuro… As coisas simples e pequeninas são as que sustentam esses dias de indecisão e de medo, são as que permitem manter a cabeça à tona e os olhos no horizonte, enquanto as águas se agitam com violência. As coisas pequeninas são extraordinariamente importantes e, sem elas, não há pertença, não há chão, não há tempestade que se derrote. Sem elas, nem a lua escuta nem o sol sorri. Sem elas, eu estaria perdida num mundo onde sentir e pensar, intensamente, é quase uma perversão.
Hoje, aqui e agora, abraçada pela lua, respiro, grata, na simplicidade que torna o (meu) mundo mais belo e com sentido. E, amanhã, se acordar, saúdo o sol e a vida, como se os sentisse pela primeira vez, e continuo. Um pé atrás do outro.
(pois, sei, estamos a começar mal; num texto, uma apresentação, uma ideia a começar pela negativa, é fraco sinal, pouco cativante, se cativar...)
O que eu quero dizer é que o simples, a simplicidade, não é um começo, deverá ser um fim, um objetivo a atingir. Dizer, pensar, fazer as coisas simples, de uma forma o mais simples possível. Sem facilitismos, sem complicações que, se calhar, serão tão só um meio de impressionar, mesmo distanciar.
Fixemos então, já aqui e agora uma conclusão parcelar. Ser, fazer, dizer simples não é o mesmo que ser fácil. Redutor, simplista, imediatista. Atingir a simplicidade é um processo, bem trabalhoso porventura. É preciso desbastar muito, depurar, retirar gorduras supérfluas, pouco saudáveis.
Para se ser simples no resultado é precisa muita complexidade, muito conhecimento, muita técnica e muita arte.
Fácil de perceber e de ouvir: para onde nos leva a simplicidade aparente dos primeiros acordes da Quinta Sinfonia de Beethoven - tan, tan,tan, taaam? Que emoções profundas, arrebatadoras, nos envolvem ao ouvir as primeiras notas da Lacrimosa, do Requiem de Mozart?
“Amor é um fogo que arde sem se ver”, de Luís de Camões, para onde nos leva este primeiro verso do soneto, para que memórias, pessoas, circunstâncias?
Aliás a poesia será o cúmulo da forma da escrita, o processo em que com menos se consegue mais. Emoção, sentimento, ideias.
Não somos todos geniais, evidentemente, não podemos, a generalidade das pessoas, ambicionar produzir obras primas.
Podemos e devemos, todos, ambicionar atingir a simplicidade, questionarmo-nos sobre isso. Sem facilitismos, sem complicações desnecessárias, com dádiva e entrega.
Como um serviço. Humilde.
Jorge Saraiva
Publicado às 07:30
Porto | Portugal
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