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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

21
Jan19

Tiquetaque (Urgência – 6)

Publicado por Mil Razões...

Wristwatch - Steve Buissinne.jpg

Foto: Wristwatch - Steve Buissinne

 

Urgente! Temos que viver este instante. O dia deixou de ter 24 h, resume-se a minutos e ouve-se o tiquetaque do relógio, ensurdecedor. O tempo encolheu, é insuficiente. Incontáveis são as solicitações que recebo e quero responder a todas, preciso disso. Ou será que não? Há uma pressão constante e cedo. Quero ter o controlo, mas tudo é incontrolável. Corro, perco o fôlego, mas contínuo, não posso parar. Ou não me deixam? Fico ansiosa porque amanhã já nasce um novo dia.

Quero viver, mas o tempo é tão rápido que nem dou conta. Não quero perder um segundo da vida, mas não consigo senti-la. Também quero tempo para olhar para mim, para fechar os olhos e inspirar profundamente, também quero ter tempo para não pensar em nada, mas não consigo encontrá-lo. A cada segundo sou bombardeada com milhares de informações, não consigo escapar. Sinto-me cansada e farta de ser levada no meio da multidão. Mas não temos que ser todos iguais, apesar de ser difícil de controlar, é possível.

Ligo a televisão e sei, no mesmo instante, que o mundo continua a girar. Fico a saber o que interessa e aquilo que não me traz benefício algum. Desligo-a e torno-me uma ignorante.

Ligo a Internet no meu smartphone, quase imposto, e há um dilúvio de informação. Estamos em permanente contacto com o mundo e com as pessoas. Haverá necessidade? Tudo é uma escolha. Desligo a Internet e o telefone não toca durante dias. A vida acontece por detrás de um ecrã e isso entristece-me. Sou culpada, aceito a sentença.

 

Os álbuns de fotografias, daquelas que temos na casa dos nossos pais com a história da nossa infância, encontram-se em vias de extinção. O rolo da câmara nunca acaba. Esteja onde estiver eu sou a fotógrafa, por completo. Escolho e enquadro o cenário, ajusto a luz, pressiono o botão e olho, repito o processo as vezes que entender. Depois volto a escolher, eu mando no arco-íris. Revelo-a, mas não me encontro numa sala escura, encontro-me no palco principal do espetáculo. E quase no imediato, sem sequer se moverem do local onde estão, todos assistem. Gosto. Sim, e nem sei bem porquê. Preciso disso para ser feliz? É óbvio que não.

Os conhecidos são mais “amigos” do que os amigos que conheço. A lista de “amigos” cresce exponencialmente. O livro permanece aberto e em permanente construção, a sua história nunca terá um ponto final. Mas se sou eu a autora, porque não? Porque há histórias que já não se escrevem fora do livro.

Instante. Histórias. Público. Paredes. 24 h. Todos somos iluminados pelas luzes da ribalta, à espera de um aplauso. Quem somos nós? Somos o amigo daquele amigo a quem nunca demos um abraço.

Queremos ser vistos, ouvidos e comentados no agora. É urgente porque o tempo encolheu. Ganho um sorriso vago, mas o meu ritmo cardíaco não se altera. Passam mais 24 h e tudo se repete, provavelmente.

 

Existem vantagens na urgência do dia-a-dia, é claro que as vejo. Mas as desvantagens perturbam-me. Volto a baixar a cabeça, sou culpada também, sim.

A verdade é que o tiquetaque fica gravado na nossa cabeça. Queremos viver o instante porque não sabemos o que o amanhã nos reserva e, muito menos, o que pode acontecer num instante. A vida é para ser vivida, mas temos que a sentir, não nos podemos esquecer disso. Os sentimentos aquecem-nos a alma, fazem acelerar o coração e trazem-nos sensações inexplicáveis. Gosto de clichés. Simples.

Sozinha, em silêncio e, depois de me ter perdido no tempo, finalizo citando um autor que não é meu “amigo”: “Não tenha pressa, mas não perca tempo.”.

 

Marisa Fernandes

 

18
Jan19

Prioridades (Urgência - 5)

Publicado por Mil Razões...

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Foto: Hourglass - Annca

 

No nosso dia-a-dia, temos por hábito colocar a urgência à frente da prioridade, sacrificando, frequentemente, valores importantes da nossa vida, nomeadamente, a saúde, a segurança e o nosso bem-estar. Pomos de lado as prioridades para atender ao urgente, deixando-nos subjugar pela urgência, o que nos tolhe e nos retira a clareza e o discernimento necessários para poder decidir serenamente.

Quantas vezes, por sermos escravos da urgência, não damos prioridade àquilo que é prioritário, em manifesto detrimento do que é fundamental para um viver saudável. Prioritário é aquilo que é mais importante, aquilo que deve ocupar o primeiro lugar e que deve sobrepor-se, sempre que possível, à urgência. Esta, afinal, apenas traduzirá aquilo que urge, aquilo que é iminente, muitas vezes sem conteúdo significativo, e que não nos permite ir mais além, porque nos sufoca, nos aperta, nos oprime, comportando-se como uma entidade tirânica que controla todos os nossos movimentos e interesses.

 

Nos tempos que correm, a nossa vida é, infelizmente, dominada pela tirania da urgência; esta impera sobre o importante, criando uma autêntica vida de tensão. Como seria bom poder vermo-nos livres dessa tirania!

Atribui-se a Eisenhower a frase “O que é urgente raras vezes é importante, e o que é importante raras vezes é urgente”. Muito significativa esta máxima, dado que muitas tarefas consideradas urgentes não precisariam de ser feitas hoje ou até nos dias próximos, podendo, no lugar delas, ser realizadas outras mais prioritárias, mais úteis, com mais interesse e de maior relevo ou importância social, pois, nem tudo na vida que é urgente é prioritário.

Antes que seja tarde de mais, livremo-nos da tirania da urgência, do seu jugo, saibamos gerir o nosso tempo de acordo com a ordem de prioridades do que é mais profícuo e importante na vida. Afinal, esta é uma só e vale a pena ser vivida, mas sem qualquer tipo de opressão ou constrangimento.

 

José Azevedo

 

14
Jan19

Basta um minuto (Urgência – 4)

Publicado por Mil Razões...

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Foto: Black-and-white - abigail2resident

 

O teu sorriso era diferente – o teu ar, que costumava ser calmo, era hoje agitado.

Senti-me preocupada e perguntei-te. Respondeste que estava tudo bem, apenas estavas ligeiramente cansado e abraçaste-me. Um abraço forte, um abraço demasiado forte, como se te despedisses de algo, como se te fosses ausentar. Não questionei o facto de o fazeres. Apenas retribui.

Saíste pela porta e espreitei-te pela janela, olhaste para trás e sorriste-me, acenando.

Sentia-te perto, mas longe ao mesmo tempo. Senti um calafrio, não conseguindo explicar o porquê.

Pedi-te para me mandares uma mensagem ou para me ligares quando chegasses, apesar de não ser longe – apetecia-me pedir-te, algo me dizia para o fazer.

 

Passou uma hora, passaram duas. Achei estranho – não costumavas esquecer-te de ligar. Liguei-te! Chamou, chamou... Ninguém atendeu. Liguei-te uma segunda vez. Atendeste! Pensei eu...

Do outro lado uma voz estranha disse "Olá!". O meu coração gelou, senti-me estremecer. Do outro lado ouvi essa mesma voz dizer-me que tinhas tido um acidente, tinhas ido de urgência para o hospital mais perto.

Corri, corri tanto. Tinha medo, medo de não te conseguir ver mais, medo de te perder. Medo de não conseguir dizer o quanto te amo. Pedia a Deus, pedia muito, para não te levar.

Cheguei. Corri até à primeira pessoa que encontrei e perguntei. Perguntei por ti, perguntei a medo. Mas estavas vivo. O mesmo minuto que foi crucial para sobreviveres, fora também o minuto para te deixar paraplégico. Um minuto que tudo mudou.

 

Inês Ramos

 

11
Jan19

Reflexão contemporânea (Urgência – 3)

Publicado por Mil Razões...

Woman - Engin Akyurt.jpg

Foto: Woman - Engin Akyurt

 

É urgente o amor, é urgente

permanecer.”

 “É urgente o amor”; Eugénio de Andrade

 

Há urgências intemporais, alheias aos costumes e épocas. Há preces por atender, ânsias por viver, abraços por receber. Há tempestades por colher e bonanças por antever. Mas acima de tudo, urge o amor.

O que carrega a paz em si e se expressa por meio da compreensão. O que é parente da empatia e forte amigo da alegria.

E antes que o negrume se instale, gerando o caos e a confusão, há que pensar e refletir devidamente sobre toda esta situação. Porque é urgente o amor. É urgente saber ao que se deverá dar valor.

 

Sara Silva

 

07
Jan19

Trabalhar para ontem (Urgência – 2)

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Foto: Woman - Gerd Altmann

 

Trabalhar para ontem e não deixar para amanhã o que se pode fazer hoje é um lema de vida que me tem acompanhado. Embora não me tenha ainda dado mal com ele, por vezes sofro com isso. Parece que o tempo me aperta e até me estrangula. Quero dar resposta logo ao solicitado, porque me dizem que é urgente. Faço logo que posso, apenas porque me dizem que é urgente. As solicitações são muitas e são todas para ontem e, assim, eu penso que é urgente e faço desvalorizando o cansaço, desvalorizando os sinais que o corpo me vai dando. Tenho dias assim. Tenho dias que, quando tenho solicitações que me dizem que são urgentes, faço sem parar. Reparo mais tarde que, afinal, não precisava de tanta urgência. Sim, já aconteceu várias vezes. Pessoas com as mesmas solicitações vivem a situação com mais calma. Afinal, poderia responder ao solicitado com uma urgência relativa. Mas, já está. Tenho vozes que me vão dizendo para relativizar a urgência das coisas e dormir sobre os assuntos. Vou fazendo um esforço para me comportar assim. Mas quando dou conta, lá estou eu a responder com a urgência que me é solicitada. Talvez um dia venha a conseguir. Seria bom, porque, de facto, às vezes a urgência é mesmo relativa e o stresse talvez diminuísse. Vou tentar!

 

Ermelinda Macedo

 

04
Jan19

Estado de espírito (Urgência – 1)

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Foto: African - Lihle Lynne

 

“É urgente estar atento

Ver para onde corre a maré

Ver de onde sopra o vento

Não vás tu perder o pé”

 

Excerto da canção “Impele a tua própria canoa”, do Corpo Nacional de Escutas

 

Quem foi, ou é escuteiro, certamente já ouviu esta canção. Se assim é, já sentiu a sensação de parar para pensar no que é urgente para si e para a sua vida. Conduzir a nossa própria vida é o mais prioritário, se pretendermos deixar de estar num estado de urgência permanente sobre “coisas a fazer”. Quando dou por mim a pensar “Tenho que...!” significa que me encontro no tal estado de espírito que não me permite priorizar com clareza. Nos dias em que, com calma, vou fazendo as mil e uma coisas que há a fazer, percebo que me encontro realmente preparada para o que, de facto, é urgente, pois irei fazê-lo com mais clareza e sem pressas.

Parece ambíguo, mas para mim torna-se cada vez mais claro.

Se fosse a minha avó diria para “não colocar a carroça à frente dos bois”, ou seja, não vale a pena fazer o que se cataloga de urgente se não for feito na sequência certa. No caso da carroça, não andaria, pois os bois não iriam conseguir puxá-la. Empurrá-la, talvez, mas essa não é a ordem natural.

 

Na vida é assim, é prioritário o que nós escolhermos como mais importante. Se há um problema de saúde, é sem dúvida essa a prioridade pois nada do resto funcionará. Se há falhas financeiras, há obrigatoriamente pausas para repensar o que se está a fazer e melhorar a situação. Se há mal-estar diário no local de trabalho, priorizamos o que nos faz sentir bem, pois o dia-a-dia torna-se impossível.

Parece simples? Não é! De todos os lados surgem sempre informações e pedidos urgentes e extremamente importantes.

O ideal seria manter o estado de espírito e de consciência que nos garante e dá o conforto de termos as prioridades bem definidas e confiar em nós mesmos. Aí, o urgente acontece quando tem que acontecer, e o que deve ficar para depois aguarda pacientemente a sua vez.

 

Sónia Abrantes

 

28
Dez18

Outubro (Solidariedade - 13)

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Foto: Flame - Rudy and Peter Skitterians

 

O ano 2017 marca tragicamente a história do nosso país. O drama dos incêndios, não só mudou, como ceifou demasiadas vidas. Demasiadas casas. Demasiados campos. Demasiados sonhos.

 

Maria foi uma das pessoas que, naquela noite, naquela pequena aldeia do interior, viu o inferno a aproximar-se a galope. Quando procurou abrigar-se, já sentia o calor do inferno queimar a sua roupa, e a sua pele. Não percebeu no momento, mas sabe hoje que a sua alma foi a parte do corpo que sofreu as feridas mais profundas.

O teto da sua casa ardeu e desabou, deitando por terra o trabalho de 10 anos em França e muitos mais dedicados à lavoura, ali mesmo, nos campos ao redor da aldeia onde nasceu – e para onde sempre quis voltar.

As primeiras paredes daquela casa tinham sido erguidas pelo seu tio-avô, que lha deixou como herança. Quando Maria decidiu fazer obras de ampliação, fez questão de mantê-las intactas e assim honrar a memória e o esforço dos seus antepassados. “Para quê?… se agora andou aqui o diabo à solta e deitou tudo abaixo?”.

Maria vive agora na casa que foi dos seus pais e que se encontrava fechada há muitos anos, por não haver gente na terra que a quisesse arrendar. São cada vez menos os jovens que ali se instalam, e são cada vez mais os idosos que são obrigados a procurar cuidados fora da pequena aldeia, tornando cada vez mais próxima e real a ameaça da desertificação que, também Maria, já ouviu referir nos telejornais.

Não se cansa de dizer que “felizmente, e com a graça de Deus nosso Senhor, ninguém morreu por aqui”. Não se cansa, mas cansa-a a memória daquela noite em que do céu chovia o fogo. Aquela noite em que temeu por si e pelos seus. Aquela noite que não quer recordar, mas que não a larga a cada passo que dá nos terrenos despidos, onde a medo começam finalmente a surgir pontos verdes aqui e ali.

 

Maria viveu na primeira pessoa o que é isso de precisar da solidariedade. E sentiu-se incomodada com a vinda de estranhos à sua porta, que lhe entregavam leite, massa e enlatados, em troca de pormenores trágicos da noite que queria e precisava de esquecer por instantes.

Foi com a chegada do Vítor e dos voluntários que a ele se juntaram, organizados e respeitadores da privacidade de cada um, que Maria entendeu a verdadeira solidariedade: a que respeita a dignidade de quem, no momento, está numa situação mais frágil.

Impressionou-a como tanta gente chegou àquele cantinho da serra, com luvas nas mãos e botas nos pés, e uma força de vontade tão grande para limpar a destruição “que o diabo ali semeou”. E tocou-a o abraço que recebeu, daquela criança que quis vir ajudar, com o pai, durante as férias de Natal.

Também ela se juntou algumas vezes aos forasteiros. Também ela abriu as portas da sua “nova” casa para servir um lanche, naquela tarde de dezembro em que “fizeram o favor de ir ali abaixo limpar os escombros que ainda estavam caídos para a rua”.

Já passou mais de um ano e já muitas vidas cruzaram a vida de Maria, naquela pequena aldeia onde nem o merceeiro já passava. Mas à noite, quando fecha a janela do quarto e se senta na cama, a rezar a Nossa Senhora de Fátima, faz questão de agradecer a vida de cada um dos que a ajudaram a reerguer a sua. Até mesmo a vida daqueles que invadiram o seu espaço cedo demais, só para ficarem bem nas fotografias. “Cada um dá o que pode, daquilo que tem”, desabafa ela muitas vezes na sua oração.

 

* Este texto reúne retalhos de vidas atingidas pelos incêndios de 2017, mas não retrata a história de nenhuma pessoa concreta.

 

HTR

 

24
Dez18

O mais solidário (Solidariedade - 12)

Publicado por Mil Razões...

Homeless - Brigitte Werner.jpg

Foto: Homeless - Brigitte Werner

 

Sou solidária. Todos somos! Seremos? Quero acreditar nisso, que em algum momento da vida, cada um de nós foi capaz de estender a mão ao próximo. Mas aquilo que sei é que o mais solidário é aquele que, no seu íntimo, sabe exatamente o que é necessitar de algo, mas algo vital. Seja uma refeição, um abrigo, um agasalho ou mesmo um abraço caloroso naquele momento em que nos sentimos em queda livre e com dúvidas se o paraquedas irá abrir-se.

Hoje em dia todos necessitam da solidariedade alheia. Ontem, hoje, amanhã e depois de amanhã tal como num futuro próximo, fui, sou e serei “convidada” a ser solidária. E nalgum desses momentos encontrei a causa para a qual quererei dar de mim. Mas será que se pode chamar solidariedade, nestes casos? Porque a sensação que tenho é que a maioria de nós está apenas a ceder, seja a algo chamado “pressão social” ou algo chamado “peso na consciência” porque no meio de tantas solicitações “não me vou sentir bem se não ajudar pelo menos uma”. E assim a minha missão fica cumprida. Não me parece genuíno, principalmente quando oiço no supermercado “todos os anos, nesta altura, é a mesma coisa, pedem para isto e para aquilo e pensam que podemos ajudar toda a gente!”. E aí é a pressão a falar alto. Mas provavelmente, ou muito certamente, são esses que, ao longo de todo o ano, nunca se “lembraram” de ser solidários!

 

É mais solidário aquele que, espontaneamente, despende do seu tempo para dedicar ao outro, naquele momento mais inesperado e de verdadeira necessidade. É mais solidário aquele que recebe solidariedade e sabe partilhá-la com aquele que também necessita. Comove-me sempre ver aquele sem-abrigo com o seu amigo de quatro patas, com quem partilha a sua refeição, o seu desconforto, as suas mágoas, mas principalmente o seu amor. É mais solidário aquele que dá pouco, porque é aquilo que tem, mas que dá de coração, sem se queixar ou sem necessidade de se exibir. É mais solidário aquele que se dedica a uma causa em que acredita, que a cria ou que a encontra, se identifica e se envolve de corpo e alma.

Mas ainda acredito que todos somos solidários! Todos nos comovemos verdadeiramente em algum momento da nossa vida e, espontaneamente, sem esperar retorno, damos com coração.

 

Marisa Fernandes

 

21
Dez18

Comprometimento (Solidariedade - 11)

Publicado por Mil Razões...

Hands together - Gladis Abril.jpg

Foto: Hands together - Gladis Abril

 

Ser solidário é?

- Comprar “massa, arroz e salsichas” para entregar numa campanha alimentar

- Comprar postais de Natal de uma organização

- Comprar bonecos ou canetas à porta do supermercado ou da bomba de gasolina

- Colocar umas moedas numa lata e receber um autocolante

- Comprar um miniboneco, de cor diferente do ano anterior

- Comprar um barrete de Natal, de cor diferente do ano anterior

- Comprar um isqueiro ou lenços de papel enquanto estamos parados num semáforo

- Fazer uma transferência bancária para uma conta solidária

- Patrocinar uma criança em África, por débito direto

- Fazer um donativo na declaração do IRS

- Comprar produtos mais baratos numa feira social

- Fazer voluntariado

- Fazer greve de zelo por apoio a colegas de profissão

- Doar sangue / medula óssea

- Todas as anteriores

- Algumas das anteriores

- Todas as anteriores, mas não chega

- Algumas das anteriores, mas não chega

- Todas as anteriores, mas não é bem isso

- Algumas das anteriores, mas não é bem isso

- Algumas das respostas anteriores, mais a opinião do Rui (A “boa” solidariedade – ia escrever verdadeira, mas pareceu-me talvez excessivo – não tem tempos nem períodos específicos. Não é feita de campanhas e de épocas festivas. Não se faz às portas de estabelecimentos, nem aos magotes. Certamente não se faz a troco de benefícios (in)diretos para “quartos”, se considerarmos que os “terceiros” é que deveriam ser os recetores do gesto solidário.

 

A pergunta não é minha e muito menos nova: quanto ganham os supermercados e o governo com as campanhas alimentares? Quanto ganham os bancos com as transferências solidárias? A solidariedade “massificada” ajuda pessoas? Certamente. Mas também “ajuda” pessoas (entenda-se por organizações e algumas figuras de gestão) mais do que deveria? Certamente. A “boa” solidariedade não tem forçosamente de ser voluntariado. A “boa” solidariedade pode (e nalguns casos deve!) ser remunerada. Se é para “fazer o bem”, mas fazê-lo mesmo, péssimo é ter um incompetente de borla a gerir as coisas. A responsabilidade, social neste caso, pode ser voluntariosa ou profissional. Não é isso que está em causa. Em causa está a consequência (social, politica, jurídica) da irresponsabilidade dos atos praticados. Para liderar ou gerir o ato solidário, prefiro ter um profissional solidário que um voluntário solidário. Quer se goste ou não, o comprometimento com a lei é superior ao comprometimento com a consciência. A “boa” solidariedade é individualizada. É o comprometimento com as pessoas e, em segundo lugar, com as causas. É o estar lá mesmo, compreender mesmo, ajudar mesmo, sentir (quase) o mesmo. Sem lamechices ou dramas. Com respeito (e porque não, admiração) pelo outro. Com os Direitos Humanos bem presentes em cada ação, porque sem a sua observância não existe solidariedade.)

Em janeiro perfazem-se 18 anos de trabalho numa IPSS. Sou feliz por observar atos de solidariedade diária há tanto tempo. Permitam-me uma palavra de apreço e agradecimento sentido a todas as pessoas que ali trabalham e, evidentemente, às pessoas para quem e com quem nós estamos.

 

Rui Duarte

 

17
Dez18

O que me comove e move (Solidariedade – 10)

Publicado por Mil Razões...

Alms - Vannino.jpg

Foto: Alms - Vannino

 

Facebook e quejandos despejam constantemente no correio eletrónico, murais e páginas de Internet, frases sucintas e assertivas carregadas de ensinamentos e moralidade sobre como devemos ser e fazer para praticarmos solidariedade. Empacotam também a recompensa. Em alguns casos vem como uma promessa de felicidade, noutros, como ameaça – se não formos solidários o mais certo é que, quando precisarmos, os outros não sejam solidários connosco. Está tudo lá nessas frases de poucas palavras; o que aqui possa escrever nada acrescenta de diferente.

E quem de nós nunca deu uma moedinha, participou em campanhas de solidariedade, visitou doentes e pessoas solitárias, ouviu com compreensão quem se lhe quis confiar, pondo assim em prática os ensinamentos que recebemos em casa, no grupo de amigos, na escola, no dia-a-dia em convivência com os outros seres da sociedade? No final, vem o proveito da contabilização de mais um crédito na conta corrente do dar e receber. Em certas circunstâncias o gozo de dar é tal que o difícil é distinguir quem recebe de quem?

 

Naturalmente valorizo a solidariedade e as ações de sensibilização. E, como não valorizar e atribuir-lhe importância se são exemplos de boa conduta, consciencialização da miséria e das diferenças sociais, resolvidas tantas vezes com a solidariedade alheia?! Num quadro de desumanização para onde parece que caminhamos, a sensibilização tem, sem dúvida, um papel importante na inversão das forças desumanizantes.

Mas quantos de nós já reconhecemos e colocamos esperança no silêncio dos desistentes? Vimos e acudimos ao olhar suplicante dos desesperados? Compreendemos a fraqueza e ajudamos a reforçar os que, de tanto lutarem, se esgotaram, aceitaram e aprenderam a viver com outras verdades que não a sua? Muitos pensarão que nunca se cruzaram com alguém assim tão desesperado, atormentado, e eu sinto-me tentada a concordar.

 

Vale a pena refletir sobre o solidário. Socorro-me de um dos casos que nos chegam nas redes sociais e que, conforme já referi, abundam. Por uma vez ponhamos de lado a mensagem final e fixemo-nos apenas no facto. Um menino com ar abandonado, a quem não conseguimos colar-lhe uma família, uma mãe que zele pela sua higiene, saúde e bem-estar, recebe de alguém um agrado, uma esmola ou algo que o faz sentir-se melhor. Já vi várias versões: num caso apagam-lhe a fome, noutro dão-lhe umas moedas, e ainda noutro sentam-se ao seu lado e colocam-lhe um braço por cima do ombro num afeto que, claramente o menino não conhece, mas que o faz sentir-se muito bem. Passados 20 anos tem oportunidade de retribuir o que recebeu porque a vida se revelou mãe para ele e madrasta para quem o ajudou. Tenho para mim, e quero manter esta crença porque é aí que reside o verdadeiro valor da solidariedade, que quem deu ao menino a atenção que todo o ser humano precisa e merece não o fez a pensar que no futuro também poderia precisar desse gesto solidário; fê-lo porque sim, porque dar é uma caraterística voluntária de quem é gente. A solidariedade faz-se sem querer vender ou trocar, não é um ato que fica suspenso a aguardar retribuição futura. O solidário não tem em conta nem faz contas ao que dá, também não sofre com a falta de reconhecimento, muitas vezes a pessoa solidária nem sabe que o é – é-o porque se identifica com o sofrimento alheio. Se o solidário é o desesperado, o fraco, o esgotado, o injustiçado e o incompreendido, esconde o seu estado de alma para poupar os outros ao sofrimento – é por isso que não o vemos e não o reconhecemos quando nos cruzamos com ele. Para esses, viver é muitas vezes um ato de enorme solidariedade. Não vivem agarrados à vida, mas vivem porque seria profundamente amoral não esperarem a sua hora, ultrapassarem etapas, abreviarem o fim provocando a dor alheia. A solidariedade comove-me, mas o solidário é um ser tão especial que me move.

São tão poucos os verdadeiramente solidários!

 

Cidália Carvalho

 

Porto | Portugal

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  • Anónimo

    Reparei...mas não quis reparar... Deixa lá....Bj

  • Anónimo

    Não reparaste na palavra entre parênteses?! ]É uma...

  • Anónimo

    Pois é. Os genes são assim...Bj

  • Anónimo

    Somos irmãs até nestas " piquíces". Os genes e os ...

  • Anónimo

    Uma boa reflexão!Feliz Natal!

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