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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

23
Abr18

Vamos? Eu vou. (Partir – 7)

Publicado por Mil Razões...

Wanderer - Hermann Traub.jpg

Foto: Wanderer - Hermann Traub

 

Não se pode dizer que se trata de uma questão de ambiguidade. O facto de ter tantas possibilidades de significados diferentes, até opostos, dá-lhe riqueza e cada contexto torna a aceção clara, bem definida.

Pode, comecemos então, ser pedra. Alguém tem que o fazer, é duro, mas necessário e produtivo, ainda que nem sempre com resultados imediatos, até porque tal se faz, frequentemente, no início dos processos.

Pode ser um espelho, para desgraça de quem seja supersticioso. É que estar convencido de 7, esse mágico número, anos de azar é meio caminho andado.

Partir a louça toda é que não passa despercebido a nada nem a ninguém, só talvez à louça, para sorte dela, que tem aqui o papel de figura de estilo.

Há de ser triste, dramático, trágico e deixar saudades. Depende da possibilidade de voltar, regressando numa questão de tempo, ou não. Ser para sempre.

Vamos aproximar-nos do que queremos, ainda que para efeitos diversos e para sustentar a base de um argumentário. É sempre bom estabelecer qual a base de partida, determinar princípios.

Partir. Como mencionado, pode dar azar, fazer chinfrim, ser triste, originar saudade. Ser um fim.

 

Vamos, no entanto, tomar partir como uma partida, um começo. Algumas vezes o começo não parte de uma decisão, já o recomeço, partir para outra, mudar, carece de uma decisão, de uma iniciativa própria. Por força das circunstâncias, por força de vontade.

Porque queremos, porque precisamos, porque desejamos. O mais certo é que seja preciso estar disposto a suportar o desconforto, a dor, torná-la nossa amiga, sabendo que o processo que a produz nos vai trazer novos horizontes, novas conquistas. Atingir outro plano, outros e melhores, mais ambiciosos resultados. Partir para atingir. E depois, quiçá, partir de novo. Acompanhado, de preferência.

Vamos? Eu vou.

 

Jorge Saraiva

 

20
Abr18

Quem é linda quem é? (Partir – 6)

Publicado por Mil Razões...

People - Stock Snap.jpg

Foto: People - Stock Snap

 

Quando naquela tarde a morte lhe tocou com seus dedos de pedra fria, não encontrou senão restos. Restos de uma força que o tempo foi consumindo, de um corpo outrora belo, de um ser em sofrimento. Restos de um quase acreditar nos avanços da medicina. 

Tinha chegado o momento. Sentiam-no. Tomaram-se de uma tristeza que lhes gelou a alma e paralisou o corpo. Esquecer a inevitabilidade da partida tinha sido o esforço dos últimos tempos, mas aquela tristeza paralisante não os deixava iludirem-se por mais tempo. Não tinham mais do que segundos, talvez minutos. Quem saberia ao certo? Mas não mais do que isso. Pouco, muito pouco para serem e se darem. Ele lia-lhe a desistência no olhar. Ela queria compreensão. Não conseguia continuar, ele tinha que compreender e perdoar-lhe a fraqueza.

- Não te zangues, meu amor. Não encontro forças para continuar, já tudo me é insuportável. O fogo que me queima as entranhas é um sofrimento difícil de aguentar, desumano, e, no entanto, isso é nada comparado com a dor de te ver abandonado. Abandonado por mim! Não gastei a vida, ela é que me esvaziou. Escapou-me a concretização de alguns sonhos, haveria muito mais para fazer, para fazermos, mas já nada tenho que me possa manter.

Ela sussurrava despedidas num fio de voz emocionada, arrancada com esforço. Os olhos dele, pungentes, eram a expressão da dor. Uma dor seca sem lágrimas, que essas foram gastas nos dias a seguir à condenação, poucos meses antes. Desde então, viviam a acumular recordações, agarravam o hoje na certeza de que não existiria o amanhã.            

Quando por períodos, ainda que escassos, conseguiam expulsar a nuvem negra que se abatera sobre eles, vendando-a qual jogo de cabra-cega e punham em campo a esperança de olhos bem abertos, viviam intensamente. Davam grandes passeios, admiravam as cores da natureza, sorviam o ar puro dos campos e os aromas delicados dos perfumes. Faziam duetos sem qualquer sucesso, ela de voz doce, mas desafinada, ele afinado, mas sem melodia na voz, e cantavam. Riam de alegria, gritavam ou choravam de medo, mas tudo isto fazia sentido e enriquecia os dias incertos.

- Sinto-me viva quando choro ou quando rio - dizia ela com vivacidade.

 

Era chegado o final. Sabiam-no. Antes do diagnóstico nunca perderam mais do que um minuto a pensar que um dia se separariam. Sonharam com uma vida, planearam e construíram o mundo deles, indestrutível e intemporal. Pelo menos assim o pensavam. Por vezes, franqueavam as portas desse mundo e deixavam-se visitar por familiares ou amigos íntimos, por momentos partilhavam a vida com eles, mas isso não os distraia um do outro, ao contrário, aumentava-lhes a saudade e o desejo de se entregarem rapidamente aos seus hábitos, horários, às brincadeiras quase infantis que só eles entendiam e que tanto os divertia. E ele, mais por admiração dessa jovialidade e menos por repreensão, perguntava-lhe se ela sabia a idade que tinha. Sabia e glosava o tema, nunca seria uma velha rabugenta. Que ironia! Agora também sabia que nunca seria velha. Triste sabedoria! Mas que ninguém tivesse pena, tivessem sim, admiração. A pena não faz justiça às coisas que triunfam, como este amor que os uniu.

Trocavam elogios que outros diriam, quão pouco fundamentados eram. Talvez fossem! Talvez se vissem como mais ninguém os via. E que importância isso tinha se, para eles, eram agrados e bondades com que se mimavam?

- Quem é linda, quem é? - perguntou ele olhando a silhueta sem forma e inchada da mulher, a cabeça lisa e a pele de lagartixa manchada e maltratada pelos medicamentos. Ela respondeu com fingida vaidade e sem nenhuma certeza:

- Não sei. E acrescentou: - Mas, muito, muito linda sou eu.

- Acertaste meu amor, mereces um prémio.

E o prémio veio prazenteiro num beijo quente. O sorriso que ela lhe devolveu não passou de um esgar sem profundidade, a pressão das mãos entrelaçadas afrouxou até à lassidão e ele, impotente, não conseguiu evitar que os olhos dela se fixassem, sem expressão, no vazio.

 

Cidália Carvalho

 

16
Abr18

Um sonho de criança (Partir – 5)

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Autor desconhecido - Coleção F. Cabral.jpg

 Foto: Autor desconhecido - Coleção F. Cabral

 

Dali, daquele sítio sobranceiro ao rio Douro, é possível desfrutar de toda a panorâmica fabulosa que a vista alcança, dominada por essa excelente via fluvial pela qual veio, desde tempos imemoriais, o progresso e o desenvolvimento à “mui” nobre cidade do Porto. O afluxo e o movimento de barcos às ribeiras de ambas as margens foi sempre uma constante, o que parece dar vida eterna àquelas paragens. As próprias marginais, com a intensa circulação de pessoas e tráfego de mercadorias, também muito concorreram para ser um lugar de grande atividade comercial e turística. Toda a zona envolvente está repleta de história e de “histórias”, não fosse aquele o lugar donde proveio o nome de Portugal. Era dali que o menino da “rua” observava o “vai e vem” dos barcos, a chegada e a partida dos navios de maior calado que rumavam para muito longe, para lugares distantes que ele sonhava um dia visitar.

De vez em quando, ouvia a narrativa dos “embarcadiços” que demandavam a Gronelândia à pesca do bacalhau, cujos barcos, na época do defeso, ficavam atracados no cais de Massarelos. O que mais o encantava e obcecava era o “partir” desses navios. Para ele, a palavra “partir” assumia um sentido mágico, qual sortilégio da imaginação infantil, porque significava ir viajar, ir conhecer outros lugares, outras gentes e, sobretudo, a possibilidade de adquirir mais conhecimentos, ganhar mais “vida da vida para a vida”. No sítio, que lhe servia de autêntico miradouro, podia divisar a entrada e saída de navios, ao mesmo tempo que lhe servia também de fonte de inspiração para os sonhos que alimentavam a sua fértil imaginação de menino. Mas do que ele gostava mesmo era de partir para alguma parte do Mundo, demandar outras terras, sentir o encanto, o fascínio e o cheiro de outros lugares; por isso, fechava os olhos e, nesse devaneio, sonhava como se estivesse a viajar. Queria ser um homem das “sete partidas” a exemplo de outras figuras conhecidas da nossa história.

 

José Azevedo

 

13
Abr18

Querido capitão (Partir – 4)

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Auto - Albrecht Fietz.jpg

Foto: Auto - Albrecht Fietz

 

“Não vou procurar quem espero

Se o que eu quero é navegar

Pelo tamanho das ondas… Volto a partir em paz.”

Ornatos Violeta

 

Espero que o levante sopre quente e sereno nessa tua viagem. Decidiste pegar nas coisas e largar, mudar de ares. Que tinhas de ir, sentias ganas de sair. Na volta, é o mais simples. Começar novas pessoas e hábitos. Mesmo que depois tudo fique igual, temos a sensação de que algo se mexe, que não fica igual, não é verdade?

Na volta, um dia fitas o horizonte e pensas como estás no mesmo ponto. Como é que, a dada altura, mudar era mais simples que ficar. Até, sinceramente, uma parte de ti já tinha pegado nas malas e partido. A coragem veio depois com a crescente sensação de que dia-a-dia já não havia ali mais amor para ti e que saías da mesma forma que entraste. Pelo teu próprio pé.

Um dia o horizonte fita-te e responde se o desafio maior não será ficar. Perto do bater do teu coração, partindo dentro de ti.

Um dia contar-me-ás que mundos e peles cruzaste e quem te deixou a pele tisnada pelo sol e pelo sal. Até lá, encontras-me por aqui.

Boas marés!

 

Maria João Enes

 

09
Abr18

Chegou o momento (Partir – 3)

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Airport - Jé Shoots.jpg

Foto: Airport - Jé Shoots

 

Pensámos muito relativamente a esta partida. Ponderámos prós e contras. Chegou o momento. Despedimo-nos das pessoas que nos acompanharam ao aeroporto. Que despedida! Entramos no avião ainda com incertezas. Sabemos que vai ser uma viagem que nos vai transportar para aquele lugar por algum tempo. Vamos à procura de qualquer coisa que não temos cá. A saudade começou quando ainda ponderávamos os prós e contras.

 

Durante a viagem apetece desistir. Agora já não dá. Ainda na viagem, a nossa cabeça lembra-se daquela festa onde conhecemos algumas pessoas que deixamos cá; das corridas que fazíamos ao fim de semana, todos juntos; dos encontros ao fim da tarde com aqueles que escolhemos para nossos amigos; das namoradas e namorados que deixamos cá, dos pais e irmãos com quem partilhamos, face a face, os nossos problemas, os nossos segredos e as nossas aventuras; dos filhos que deixamos cá; a relva que regávamos ao fim de semana, das flores dos nossos jardins; daquele quarto onde dormimos toda a vida; daquele recanto da casa onde nos sentíamos melhor; das desavenças que tivemos com os nossos pais, com os nossos filhos, com os nossos irmãos e com os nossos amigos; dos momentos de alegria e de sofrimento que fizemos questão de partilhar com os filhos, com os pais, com os nossos irmãos e com os amigos; dos momentos de alegria e de sofrimento que os filhos, os pais, os irmãos e os amigos fizeram questão de partilhar connosco; dos altos e baixos das nossas vidas. Na viagem, a nossa cabeça lembra-se de tudo isto… e de outras coisas. Estamos sozinhos com o nosso pensamento.

A viagem continua e a incerteza também. De cima, conseguimos ver que passamos mar, cidades, montanhas e aldeias. A nossa cidade ficou para trás no mapa.

 

Chegamos ao destino. O que nos reversa este destino? Nós pesámos prós e contras e os prós ganharam, por isso, a decisão foi de partir. E agora? Vamos iniciar um ciclo novo da nossa vida? Como fazemos relativamente a tudo o que a nossa cabeça pensou no avião? Como gerimos a saudade? Partir para outro lugar no mapa, para nos dar qualquer coisa que não temos cá, implica um descontinuar de tudo o que deixamos cá? Dizem que agora estamos todos muito perto; que “somos do mundo”; que temos instrumentos fantásticos, como a Internet, viagens baratas e rápidas que nos permitem entrar na nossa cidade num instante e, também, que o ser humano se adapta com facilidade. Pois… talvez seja verdade. Sim, vamos ter experiências novas e diferentes, talvez enriquecedoras, mas não podemos “tocar” nas pessoas que deixamos cá. Isso é problema? Bem… vou fazer o exercício para aceitar que “somos do mundo”, que temos instrumentos fantásticos, como a Internet, viagens baratas e rápidas que nos permitem entrar na nossa cidade num instante e, também, que o ser humano se adapta com facilidade e talvez, assim, me sinta mais tranquila.

 

Ermelinda Macedo

 

06
Abr18

Apenas ir (Partir – 2)

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Train - Luís Ferreira 4X4.jpg

Foto: Train - Luís Ferreira 4X4

 

Sim, gostava de apenas ir.

Ir para um lugar longe daqui, onde tudo seja mais fácil e descomplicado. Onde o sol brilha mas não magoa, onde a chuva faz crescer mas não constipa. Será que existe?

Tiro o bilhete de comboio e vou, mas quando lá chego é tudo igual. Diferente, é certo, mas igual.

Encho o depósito de combustível do carro e parto, percorrendo quilómetros. Por fim, chego ao meu novo destino e sinto o mesmo. Vejo diferente, é certo, mas tudo igual.

Compro um bilhete de avião e faço o check-in. Ao levantar voo já me sinto diferente, como se estivesse a encher a alma. Quando lá chego, o cheiro é diferente, é certo, mas tudo igual.

Depois de tantas viagens, acredito que a maior viagem que fazemos é a interior. Mas como sair de mim mesma e partir para outra? Será possível?

 

Sónia Abrantes

 

02
Abr18

Transporte coletivo (Partir – 1)

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People - TréVoy Kelly.jpg

Foto: People - TréVoy Kelly

 

Há sempre um ponto de partida e de chegada. Dia a dia. De mês a mês. Ao longo de vários anos.

Toda a existência é feita de estações, transportando memórias e impactos. Das pessoas que vêm e permanecem, das que saem sem enunciar o adeus, das que expulsamos por vontade própria ou até das que entram de rompante, conquistando um teimoso lugar. Elas vêm com as suas próprias bagagens, a par da mercadoria preciosa que se enche e preenche de relatos, vivências e marcas.

É nesta relação simbiótica conjunta que prosseguimos viagem, abarcando as flutuações inevitáveis dos seres e bens que alternam quantitativamente ao longo do caminho, deixando apenas espaço para a saudade.

O que é certo, é que nada do que está fica. Não na escala do tempo que nos ultrapassa. Pouco a pouco os vazios agigantam-se e contemplamos, de forma cada vez mais próxima, o nosso destino.

 

E que mais se pode dizer face a isto se não que é uma aventura num imenso transporte coletivo que todos acolhe e abrange, não requerendo assinatura mensal.

Pagamos apenas em sorrisos, lágrimas, abraços, amuos... O que de outra forma não teria preço.

E de estação em estação partimos, recheando o saldo memorável (que não bancário), até ao derradeiro ponto de chegada.

 

Sara Silva

 

28
Mar18

Para te dar uma vida melhor (Abandono – 13)

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Persons- Free-Photos.jpg

Foto: Persons - Free-Photos

 

Sentia-me quase 100% feliz com a minha vida, não podia realmente queixar-me. Tinha sido adotada muito cedo, não me lembrava tão-pouco dos meus pais biológicos. A família que me adotou, para mim… são os meus verdadeiros pais. Não os vejo de outra forma. Deram-me a melhor educação que podiam, transmitiram-me valores e nunca me faltou amor e carinho.

Tornaram-me na pessoa que sou hoje. Acabei nova os estudos, pois além de ter entrado cedo para a escola nunca perdi nenhum ano. Sempre fui empenhada e dedicada nos estudos e fiz parte dos quadros de honra da escola. Os meus pais inscreviam-me em algumas atividades extracurriculares para me ajudar a socializar mais com as outras crianças, talvez também para me esquecer de que fora adotada; acho que eles sempre tiveram uma panóplia de receios no que toca a esse assunto. Penso que sempre houve uma voz pequenina no meu subconsciente que me questionava sobre esse assunto. Mas os anos iam passando e coisas novas iam sucedendo na minha vida, o que me fizera esquecer um pouco, ou colocar de parte algumas das minhas questões.

 

Foi quando terminei os estudos, que algo em mim despertou, uma curiosidade de saber quem eram os meus pais biológicos. Não só quem eram, como queria entender o motivo que os levou a desistirem de mim. Não que eu não tivesse sido amada, não que tivesse falta de algo. Mas porque sentia que não me conhecia na totalidade e precisava. Precisava de saber o porquê de me terem abandonado em pequena. Os meus pais adotivos, eles sabiam, notava no olhar deles por vezes, como se estivessem à espera do momento em que eu lhes colocasse a questão: “Vocês sabem quem eles são? Gostava de os conhecer”. Acho que sim, que temiam esse dia; e esse dia tinha chegado. Coloquei-lhes aquelas questões. Eles não levaram a mal, mas notei uma certa apreensão nos seus rostos. Não foram rudes, nem egoístas, nem esperava outra coisa deles. Só possuíam um número de telefone e um nome, o nome da minha mãe: “Carolina Mateus”. Deram-mo e abraçaram-me, pediram-me para ter cuidado, com medo que a verdade me magoasse demais. Mas eu sentia que precisava de descobrir, para conseguir conhecer-me a mim mesma. Para prosseguir com a minha vida para a frente. E pais, seriam sempre eles.

 

Os meus dedos suavam, toda eu tremia, digitei o número de telefone e hesitei durante alguns segundos. Respirei fundo e fiz a chamada. Tinha o coração acelerado e congelei quando uma voz rouca disse do outro lado da linha “Estou?”. A única coisa que consegui dizer foi “Sou eu, a Ana. A tua filha”. Por momentos o silêncio instaurou-se naquela chamada. Mas rapidamente ouvi- a chorar. “Ana… nunca pensei que me fosses ligar”.

Pouco falámos depois, mas tínhamos combinado um encontro num parque, não muito longe de onde eu morava. Estava nervosa à medida que as horas passavam.

Mais uns minutos e saí de casa em direção ao parque.

As folhas caíam agora das árvores, para dar lugar a outras novas que já espreitavam. Tinha um calor agradável. Fui caminhando pelo parque até que reparei numa figura estranhamente parecida a mim, sentada num banco, os cabelos ruivos, magra e com um aspeto algo envelhecido para a idade que supostamente tinha. Tive a certeza que era ela quando ela olhou para mim e as lágrimas lhe escorreram do rosto. Foi quando me dirigi a ela e, educadamente, me sentei e a cumprimentei. Não com um abraço, pois sentia uma controvérsia. Não queria, mas queria no fundo, mas não o fiz. Não a conhecia. Ela sorriu e pôs-me a mão no ombro. “Ana, estás tão grande, tão bonita”. Eu apenas tentava perceber que vida tinha tido aquela mulher para ter ficado com aquele aspeto tão triste e pouco saudável. Apenas me saíram da boca as poucas palavras que tinha realmente de dizer. “Porquê? Porque é que me abandonaste?”.

“Ana… eu abandonei-te para poderes ter uma vida melhor”. “Mas porquê?”, perguntei. Não poderia ela ter-se esforçado mais um pouco e ficado comigo?

“Era nova demais e com muitos vícios, o teu pai desapareceu e eu não tinha ninguém, sou uma sem-abrigo e já o era na altura. Foi quando vi um casal chorar à porta da igreja, falavam um com o outro, falavam com Deus ao mesmo tempo. Pediam um milagre, não conseguiam ter filhos. Vi como desejavam tanto um, eras tu Ana, tu eras o milagre deles.”

Eu estava perplexa, as lágrimas corriam-me pelo rosto. Ela também chorava. Levantou-se e abraçou-me. Disse mais uma vez antes de se ir embora: “Ana, eu abandonei-te para poderes ter uma vida melhor, mas nunca deixei de te amar”.

Antes que eu conseguisse fazer algo, ela tinha desaparecido por entre os arbustos.

Uma sensação de vazio apoderava-se de mim, mas de alívio também.

 

Inês Ramos

 

26
Mar18

A perda do não abandonado (Abandono – 12)

Publicado por Mil Razões...

Walking - Public Domain Archiv.jpg

Foto: Walking - Public Domain Archiv

 

Andava pelos seus cinquenta e poucos e andar é palavra que lhe assentava. Durante o dia poucas vezes estava sentado. Percorria o pavimento não fazendo sequer círculos. Para a frente e para trás, para a frente e para trás. Gostava de sair da sala e andar pelo exterior, assim, sem rumo. Repetia quase sempre as mesmas palavras, ou as mesmas frases curtas. Levava a mão ao queixo ou ao cabelo, repetindo estereotipias (não podia ser de outra forma) que provavelmente lhe dariam conforto no contacto com o corpo que era seu.

Gostava muito de comer, pelo menos até certa altura em que esse mesmo corpo começou a dar de si. Mas continuava a caminhar. Muitas vezes em sofrimento. Caminhava em casa, caminhava no centro e caminhava para consultas e análises. E caminhou assim durante anos.

Durante anos esteve entregue a uma instituição que o acarinhou, confortou, alimentou, vestiu, etc. As pessoas dessa instituição tornaram-se sua família.

Essas mesmas pessoas perderam-no há duas semanas. Perderam a sua presença, o seu andar. Restou um vazio no chão, no pavimento, na porta por onde ele passava para ir para o exterior. Em vazio caiu também (finalmente) o seu sofrimento. Os dias de lamúrias e gemidos que não conseguiam traduzir onde lhe doía. Doeu a quem o cuidou e teve de tratar do seu funeral. Não se sabe se doeu à família, que, afinal, sempre tinha. Enfim. Pelo menos no abandono, nunca esteve abandonado.

 

Rui Duarte

 

23
Mar18

A chuva nos meus olhos (Abandono – 11)

Publicado por Mil Razões...

Girl - Free-Photos.jpg

Foto: Girl - Free-Photos

 

“Nos dias cinzentos da rua, é mais fácil ficar cinzento cá dentro” - pensava eu, abandonada na minha tristeza, enquanto olhava pela janela à espera de te ver chegar, embora soubesse que não chegarias.

Por mais dias que passem, vou sempre esperar que chegues, cansado, depois de um dia de trabalho. Por mais luas e sóis que se sigam, uma parte do tempo parou no dia em que os dias deixaram de contar para ti. A outra parte, a que continua a correr, é ditada pelas estrelas que pões a brilhar para nós aí de cima, de onde nos vês e acompanhas. E pelas centelhas de luz, que na terra brilham por ti: os nossos filhos.

 

Sempre soube que me amavas. Mas foi só depois de partires, que percebi a força poderosa do Amor. Foi depois de ficar sozinha, que entendi que o Amor salva e que Deus não nos abandona. Foi só depois de não estares aqui fisicamente, que vi que afinal a morte não é o fim e a vida é apenas uma parte do caminho.

Mas mesmo assim... queria muito que o teu caminho tivesse sido mais longo. Merecia-lo! Queria que Deus não tivesse precisado de ti no Seu jardim. – E na horta? Tens trabalhado muito? Imagino-te sempre aí, com os teus biscates, sobretudo quando preciso de usar a chave de fendas, ou a enxada.

 

Tem chovido tanto, que me ri a pensar que devias ir ajudar o São Pedro a arranjar as canalizações. Ou foste tu que rompeste os canos de propósito, por saberes que estava tudo seco cá em baixo?

 

Todos temos aprendido esta nova forma de viver – sem ti. E todos os dias, mesmo não estando aqui fisicamente, fazes parte dos nossos dias. Umas vezes fazes parte de sorrisos. Outras, fazes parte de teimosias. Uns dias fazes parte de derrotas. Outros, das nossas conquistas.

Há muitas manhãs em que me apetece abandonar-me à dor e às lágrimas. E é o teu exemplo, de força e coragem, que me faz sair da cama. Mas ainda não consigo deixar lá a tristeza, ponho-a no bolso e levo-a comigo para viver o dia.

Quando há sol, sinto que a luz me ajuda a sorrir. Lembro-me de quando éramos jovens namorados, a passear de mãos dadas e a fazer promessas de amor eterno – que eterna e amorosamente cumprirei.

Depois, nos dias de chuva na rua, é mais fácil chover nos meus olhos.

Mas tal como a chuva faz brotar a vida na terra, assim as lágrimas serão fecundas em mim. Exatamente como o teu Amor.

 

HTR

 

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