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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

16
Set19

Diria Arquimedes (Humildade – 9)

Publicado por Mil Razões...

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Foto: Artwork - PublicDomainPictures

 

Não somos sós, felizmente, perante o mundo – a Terra e mais além – e perante os nossos pares, a sociedade que nos enquadra, cultiva, molda e que... seria ligeirissimamente diferente se nós não existíssemos. Seria quase tudo igual, menos eu, um de nós.

Pequeníssimos perante tanta e variegada gente, e tamanho mundo, e natureza, e tudo. Capazes, no entanto, a partir dessa infinitésima pequenez de fazer a diferença, mais ou menos naturalmente. Com vontade, expetativas, trabalho, contributo.

Não é contraditório, diria, é concomitante.

Não será um objetivo, acontece.

Isso de provocarmos a diferença, fazer importar a nossa existência. Talvez até aconteça tanto mais quanto melhor nos conhecermos – as nossas fraquezas, defeitos, debilidades - e ao que nos rodeia. Quanto mais tivermos os pés bem assentes na terra, quanto mais formos humildes, respeitadores, não nos sentirmos mais do que nada ou ninguém. Nem menos, é claro.

Se tivermos humildade, teremos uma sólida, forte, base de apoio, para podermos ser ambiciosos, querermos crescer, progredir, desenvolvermo-nos, contribuir.

Sem pisar ninguém. Sem menosprezar ou desconsiderar.

Acrescentando o nosso humilde contributo.

 

Como diria Arquimedes, tenhamos nós um ponto de apoio (a humildade) e uma alavanca (a ambição) e levantaremos o mundo.

 

Jorge Saraiva

 

09
Set19

Sê criança, sem vergonha (Humildade – 8)

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Foto: People - Hai Nguyen Tien

 

Ser humilde é teres a noção da criança que outrora foste. A vida encarregou-se de te dar tempo e tu deste-te ao encargo de te dares o que quiseste, ou o que conseguiste. Pelo caminho ganhaste e perdeste. Às vezes avançaste, noutras recuaste. Desde o início dos inícios criaste relações, primeiro com o ventre materno e, pouco mais tarde, com todos os outros que tocaste e te tocaram. Aprendeste a deslocar-te no mundo e a comunicar. Afirmaste-te num espaço, mostrando quem és, o que te define, no que acreditas. Umas vezes fizeste-o bem, noutras nem por isso. Talvez a culpa não seja tua, mas da família onde cresceste, que, por sua vez, cresceu numa família maior que ela. Talvez a culpa seja da sociedade, que te empurrou para a cultura do ter e não do ser. Sim, eu sei que já te mostraste arrogante e pretensioso. Sei que já foste tudo menos humilde. Sei que já mentiste, sei que já manipulaste. Sei que já te mostraste quem não és. Mas, como se diz por vezes, levianamente, “não faz mal…”. Não faz mal porque também eu já o fiz. Eu e todos os que conheces e conhecemos. Vivemos numa inquietude constante, numa corda fina que calcorreamos com um certo medo, com medo de que o medo nos apanhe. E assim construímos muros que nos protegem, mas que nos separam. A racionalização, a justificação e a segurança mantêm-te muitas vezes preso, colado a uma imagem que com muito custo construíste, e com muito esforço escondeste tudo o que não és. E, afinal, quem és tu? O relógio que te adorna o pulso? O carro que te preenche a garagem? O telemóvel que trazes no bolso? Ou os likes que tens nas fotos de verão? Enfim, se calhar tudo isso e nada disso. Curiosamente, por vezes até escondes o que tens, para te mostrares humilde. Ou então mostras, mas de forma despretensiosa, como se o objeto em causa fosse uma banalidade que não te custa a pagar. Contudo, mais danoso para ti e para todos, não é quando se fala de materialidade, mas sim quando remete para a consciência e comportamento. É agires em conformidade. Olhares para o mundo e para os outros com respeito e admiração. Não dares as pequenas e as grandes coisas por certas. Dar para receber. Ser humilde para aceitar o que te dão. Ser humilde é teres a noção da criança que outrora foste.

 

Rui Duarte

 

06
Set19

Essa ponderável espessura das coisas tristes (Humildade - 7)

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Foto: Woman - Claudio Scott

 

Acordar, na travessia da noite, para a aflição da pele. Para o incómodo fino, por contato opressivo, do lençol de cambraia fina que nos cobre. Ou para o aperto estreito e mordente do elástico das calças do pijama, ali, cortando a linha da cintura, como que nos dividindo em duas metades de corpo. Dolorosamente. Acordar, na lâmina do pesadelo, para o tormento da memória, ao peso do silêncio escuro que nos sitia.

As coisas – reflito, tentando alienar a consciência exacerbada do meu corpo – têm, todas, um peso próprio: mas sempre variável, sempre dinâmico, sempre circunstancial, e, dentro dessa circunstancialidade, sempre subjetivo. Uma gravidade única, em cada momento, para cada pessoa. Uma carga diferente para cada estado de alma e para cada alma. Uma pressão desigual em cada corpo, sob iguais condições, e para diferentes condições, num mesmo corpo.

Tudo depende do tempo, penso, arrastando o meu vertiginoso raciocínio para ventos, humidade, pressão atmosférica, anticiclones e ondas de calor.

 

Não.

Não, condições atmosféricas não têm nada a ver com isso.

Tudo depende do Tempo. Tempo, aquele feito de instantes, de esperas e de esperanças, de demoras e de esquecimentos. Tempo, aquela força centrífuga que sempre nos salva, enquanto nos devora. Tempo, aquele que se divide, generosamente em “tempos” – de luz, de escuridão, de riso, de choro, de alegria, de angústia, de amor… ou de ódios (digo «ódios», porque quero dizer ódios, aquelas pequenas raivas e ressentimentos não-tão-viscerais-como-Ódio-com-letra-grande-e-no-singular).

Ah, a insuportável espessura do silêncio, sobre o meu corpo mordido pela insónia! A veloz fuga dos meus pensamentos, através do vazio que me encapsula e me transporta além-universo, além-razão, além-noite, além-pele.

 

Além – Eu. Como numa enormíssima tela, movendo-me penosamente, cercada de adversíssimas condições de vento, humidade, pressão – um outro tempo, num outro Tempo… Eu, carregando uma carga esmagadora sobre as minhas costas estreitas e magoadas. Eu, tentando sorrir, apesar das dores, conseguindo levar o Amor dividido em duas metades, uma em cada mão, e ainda levando nos olhos a visão de um céu só meu. Eu, depreciando o peso das coisas tristes. Eu, apreciando o valor dos instantes felizes. Tanto Tempo, tantos tempos...

 

Regresso ao silêncio, à escuridão segura do meu quarto. Regresso – húmil, apaziguada, condescendente. O meu coração aquieta os monstros que o habitam, por milagre habitual.

O lençol de algodão toca a minha pele como uma carícia, o seu roçar é fresco, leve, macio, reconfortante. A minha cintura ajusta-se, dócil, ao elástico brando das calças do pijama, e o meu corpo reconstrói-se, como um puzzle de encaixes fáceis e perfeitos.

Ouvir a noite, lá fora, amanhando os mistérios da reparação, dos ciclos, dos tempos. Adormecer, ao sereno marulhar da mente – e à oblação do corpo aos ventos da Humildade. E da Gratidão.

 

Teresa Teixeira

 

02
Set19

O artista e os imbecis (Humildade – 6)

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Foto: Acolá - Fernando Couto

 

Paolo Zanarella é músico, pianista. Para alguns, muito bom, para outros, bom ou nem por isso, que isto do gostar é muito democrático. O que o distingue dos demais e o torna conhecido mundialmente é a forma de estar e de nos dar a sua música. Um pianista fora do lugar, é assim que se intitula e dá mote aos seus concertos. Leva o piano para as águas do grande canal em Veneza, para uma gôndola, um rio, montanhas, praças, suspenso entre dois prédios, e muitos outros lugares tão inesperados quanto os enunciados. Aí atua, dá asas a quem quer ser asado e elevar-se ao som dos seus acordes. Dispenso-me de mais delongas sobre as suas atuações porquanto, a quem interessar, poderá segui-lo na Internet. Não é o Paolo Zanarella, músico, que quero dar a conhecer, se refiro o seu lado artístico é tão somente para atentar no quão famoso é e de como isso não o eleva nem o coloca em cima de tamancos.

 

Cruzei-me com o Paolo Zanarella num dos seus insólitos momentos musicais. Desta vez o piano estava instalado no meio da ponte Pietra, no rio Ádige em Verona. Fato preto, cachecol branco, coluna ereta, posições relaxadas, querendo isto dizer, descontraído, as mãos levemente arqueadas. Era o Paolo na pose de pianista a percorrer os dedos pelo teclado num arranque de melodias de fazer parar os transeuntes. Parei também. Gostava do que ouvia. De repente, a música calara-se. Paolo parara de tocar. Levantara-se e falava com um casal que o abordara. De que falavam? Estariam aquelas pessoas a tecer-lhe elogios e ele, levantara-se para respeitosamente agradecer? O casal, turistas denunciados por um mapa aberto e, nessa qualidade, no gozo de liberdades reconhecidas a quem é de fora, queria saber que direção tomar para chegar ao castelo que se via no cimo da colina, mas sem estrada visível de acesso. O absurdo da situação teve a espantosa solicitude do artista que, com visível simpatia, os esclareceu indicando-lhe a rua que deviam percorrer, para de seguida continuar a fazer o que o tinha levado ali – tocar.

 

Se bem que, concetualmente, humildade seja vizinha próxima da cordialidade, respeito, simplicidade, ela é muito mais do que estas etiquetas impostas socialmente em nome de uma convivência civilizada. A humildade é a face visível da capacidade de nos reconhecermos e agirmos fielmente com o que sabemos ser. Nesta medida, a humildade é um exercício interessante que nos põe à prova todos os dias. É grande a tendência para nos descentrarmos do que somos e focarmo-nos no que esperam que sejamos, mas vale a pena contrariar esta tendência, por ninguém, por nós, para não cairmos em vaidades ou humilhações, riscos que não corremos quando sabemos o que somos e valemos, façamos nós o que fizermos.

A humildade de Paolo Zanarella pô-lo à prova publicamente, ele soube estar à altura e eu gostei do que vi, e do que ouvi, já agora.

 

Cidália Carvalho

 

30
Ago19

No Louvre (Humildade – 5)

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Foto: Sculpture - Ilona

 

As esculturas incomodam-me. Apreciar uma ou duas é um deleite, muitas mais já algo se coça dentro de mim, fazendo-me desviar o olhar. Até com desdém, por vezes.

Representar partes de corpos, um busto, cabeça, rostos, de pessoas que não nos dizem nada. Quando a vida nos dói, um certo representar da vida soa a falso, plástico.

Sentei-me numa escada ao lado de uma representação com ninfa e um Deus e crianças brincando em torno das duas ou três figuras. As imagens pareciam estar entretidas naquela sua dinâmica, algo de rotina e de improviso de onde desponta o espontâneo. Pareciam dar-se ao olhar, à exposição do meu desejo de ver e observar tudo. Voyeur.

Toda a escultura jogava bem ao Olhem para mim, somos todos bonitos.

 

Uma das figuras apanho-a a fitar-me de estuque na minha direção. Continuei a minha ignorância e desdém. Desvio o olhar e outras vidas se colocam ao meu lado a tirar fotografias, também na tentativa de se agarrarem à ilusão de que vão viver para sempre.

Perpassa-me o choque que tudo é vão e tal como eu, outra pessoa se sentará nas escadas, cansada. No mesmo jogo de flirt com a estátua.

O olhar de estuque incomoda-me. Pergunta-me: “Nós somos falsos, mas ficamos séculos e milénios aqui. E tu?”.

Guardo então o tempo, afinco e entrega ao esculpir uma figura. Meses, anos e naquele ritmo, aquela hora, dias de chuva e de sol. Guardo celebrar os outros que passam esta chuva e sol connosco, nos pequenos sorrisos ou olhares. Na relação entre a obra e o escultor, nasce uma ligação, uma presença em que um não existe sem o outro. Guardo esse molde também para a relação connosco. Mesmo se a pedra falhar e houver um ponto fraco, racha. Tentar embelezar ou partir de outro ponto mais atrás e seguro. Cuidemos de nós próprios com essa presença, principalmente quando mais arde, nessas horas mais modestas.

 

Maria João Enes

 

26
Ago19

Vencer na vida (Humildade - 4)

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Foto: Folk - Engin Akyurt

 

Pouco exigiu da vida, mas esta sempre exigiu muito dele. Por isso, o Sr. Felício (era esse o seu nome) teve de lutar, lutar muito, para fazer pela vida e para se afirmar. E afirmou-se como um respeitável comerciante, na cidade do Porto. Fê-lo, porém, sempre com humildade, com essa nobre e sublime virtude que reúne em si tantas outras virtudes, ou seja, com tolerância, gentileza, respeito e gratidão. Dir-se-ia que o Sr. Felício fez jus ao seu nome, para ser tão bem-sucedido a nível social e no âmbito da sua atividade profissional.

Na sua forma de estar na vida não havia lugar para a prepotência, arrogância, ingratidão ou soberba. Soube ler o conhecido pensamento de Confúcio, o qual sabiamente afirmou que: “a humildade é a única base sólida de todas as virtudes”. Segundo aquele Filósofo, tal atributo é a espinha dorsal do caráter de um Homem, porque todas as outras qualidades dependem dela.

Ao invés do que muita gente pensa, a prática da humildade nem sempre é fácil, é muitas vezes difícil praticá-la sem que a mesma implique alguma sujeição e sacrifício.

Muito cedo, porém, o Sr. Felício soube adotar uma filosofia que não se identificava com a figura de “coitadinho”, mas antes procurando valorizar sempre a modéstia e a simplicidade, duas caraterísticas poderosas do ser humano, que considerou indispensáveis para vencer os desafios da sua vida.

Os seus êxitos só assim foram possíveis de concretizar porque esteve sempre lado a lado com a humildade, reconhecendo as suas fraquezas e limitações, admitindo seus erros e, deles pedindo perdão, quando achou necessário.

 

José Azevedo

 

23
Ago19

Invisível (Humildade – 3)

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Foto: Invisible - Nangreenly

 

Depois de meses a tentar, finalmente consigo pôr em prática aquilo que penso ser a melhor forma de nos levar ao sucesso. Tenho vontade de gritar ao mundo o que consegui atingir, aquilo que sou capaz de fazer, aquilo que o meu cérebro consegue desvendar e criar. Mas há uma força que me impede de o fazer.

Ao olhar à minha volta vejo pessoas sem fim a gabarem-se do que fazem. No Facebook aparecem imensos posts sobre o que cada um comeu, onde foram passar férias, em que trabalho foram admitidos, o filho que entrou na faculdade... Ao olhar para essas mensagens penso que partilhar toda essa informação com o mundo faz com que tenha menos valor.

O facto de termos a necessidade de dizer em voz alta os nossos feitos torna-os menos gloriosos. Porquê?

Deixam de ser nossos, passam a ser propaganda.

Se há tanta necessidade de afirmação, quase imposta pela publicidade de nós mesmos, é porque na realidade sentimos que somos menos vistos do que queríamos.

Mas, e se as redes sociais não tivessem sido criadas? Seriamos invisíveis? Deixaríamos de fazer essas partilhas?

Não. Em todos os tempos sempre houve gabarolas, com falta de humildade, preocupados em viver a vida na ribalta, com necessidade de atenção. Não ter medo de ser invisível, viver da melhor forma, com humildade, deixar fluir a vida sem necessidade de a tornar pública, parece-me uma boa forma de viver.

As energias que temos não são gastas em mostrar-nos aos outros, mas sim em sermos nós mesmos.

 

Sónia Abrantes

 

19
Ago19

A riqueza (Humildade – 2)

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Foto: Friendship - G_Grilli30

 

No topo da montanha vivia um mestre sábio ao qual muitos recorriam em momentos de adversidade. Certo dia, dois forasteiros subiram a montanha em busca dos conselhos deste homem sapiente. Um deles possuía uma riqueza vasta e angustiava-se por estar prestes a perdê-la. O outro homem era pobre e sofria por não poder ajudar o filho que se encontrava gravemente doente, uma dor terrível que lhe consumia o espírito.

Quando o primeiro homem se encontrou com o mestre, falou-lhe de todos os seus tesouros e de como trabalhara arduamente para consegui-los, enaltecendo-se e ressalvando cada joia e cada moeda conquistada.

O segundo reconhecia as suas incapacidades e a sua pequena dimensão neste vasto universo, esperançoso de que o amor que nutria pelo filho pudesse ser suficiente, quando não tinha muito mais para lhe oferecer, nem mais que pudesse fazer.

O mestre escutou-os em silêncio, e ao fim de largos minutos, decidiu chamar os dois homens para que estes dialogassem.

- Há muito que podemos aprender uns com os outros, tanto nas diferenças como nas semelhanças. Ambos possuem riquezas que estão em vias de perder. Ambos sofrem com isso. E é na partilha que encontrarão as respostas que buscam.

 

Os homens entreolharam-se, estupefactos com o que o mestre lhes dissera, desconfiados de que tanto um como outro pudessem ser a solução dos problemas vigentes, mas aceitaram a recomendação que ele lhes dera.

Quando o mestre se ausentou para que eles pudessem falar, os dois homens confessaram as suas vidas e as suas mágoas, expetantes com o que daí pudesse advir.

O primeiro, vaidoso do seu estatuto e do que tinha, fez um inventário dos seus bens e do poder económico de que gozava. Era um homem rico que fizera maus investimentos e em breve iria perder tudo.

Quando o segundo lhe falou do filho, da doença que tinha e de como não conseguia ajudá-lo por não dispor dos meios necessários, o primeiro homem reconheceu o seu erro. Tinha-lhe falado de coisas e do seu apego às coisas, alheio ao que de verdade importava. Ao ouvir aquele homem a falar do amor que tinha ao filho, percebeu que os seus bens não tinham qualquer valor quando comparados com a vida daqueles que amava. Mas ainda havia algo a fazer. Ainda havia esperança.

 

- Falaste-me do teu filho e das dificuldades que atravessas. As minhas angústias não são nada face à tua dor. Perdoa-me por me ter achado superior.

- Todos temos as nossas dores. Não são maiores ou menores, são apenas distintas. Não há nada a perdoar. – assentiu o segundo homem.

- Ensinas-me a nobreza de caráter e por isso te estou agradecido. Sei que não me restará muito do que fui juntando ao longo dos anos, pelas dívidas que tenho a pagar, mas do que ainda tenho dou-te parte para que possas salvar aquele que amas.

- É um gesto muito bondoso, mas eu não posso aceitar. Não posso ficar com algo que não me pertence, com algo que depois lhe fará falta.

- Estas riquezas podem ser repostas, substituídas. Terei mais cuidado nos futuros negócios que fizer. Mas nada trará o teu filho de volta. Nada substituí uma vida, uma pessoa. Aceita o que te entrego de bom grado. Faz-te mais falta a ti do que a mim e assim ambos sairemos mais ricos desta partilha.

O segundo homem aceitou a oferenda com alguma relutância e constrangimento. Nunca no decorrer da sua existência tinha possuído tanto, nem tido tantos bens como naquele instante, mas só assim poderia resgatar o filho.

Despediram-se com agradecimentos e desejos de Fortúnio, satisfeitos com o culminar da sua demanda.

 

Meses depois do encontro no topo da montanha, ambos os homens se tinham libertado do seu sofrimento.

Com os bens do primeiro homem, o segundo pôde providenciar o tratamento de que o seu filho precisava, que a par do amor que nutria por ele, potenciaram a sua cura e a sua reabilitação. Era agora ainda mais feliz por ter a seu lado o seu filho, bem e de boa saúde.

Eventualmente, o primeiro homem perdeu o que lhe restava, anulando as dívidas que criara. Desprovido da riqueza material, aprendeu a regozijar-se com outros aspetos da sua vida e tornou-se num homem mais generoso e menos superficial. Não voltou a ser dono de tudo o quanto era de bom e do melhor, mas conseguiu levar uma vida modesta graças aos seus novos negócios e às boas gentes que com ele partilhavam os bens que escasseavam, reconhecendo a bondade daquele homem.

O mestre tinha razão na decisão que tomara. Efetivamente é pela partilha que enriquecemos e é através da humildade que se nos apresentam os maiores tesouros.

 

Sara Silva

 

16
Ago19

Maturidade psicológica (Humildade – 1)

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Foto: Man - Sam

 

Eu digo e assumo:

Assumir a humildade é reconhecer as nossas próprias limitações;

Assumir a humildade é agir com simplicidade;

Assumir a humildade é ter a responsabilidade a nortear a nossas ações;

Assumir a humildade é pensar que não sou melhor nem pior que os outros;

Assumir a humildade é não ter comportamentos de arrogância;

Assumir a humildade é demonstrar respeito por quem nos acompanha na vida;

Assumir a humildade é reconhecer os nossos próprios erros;

Assumir a humildade é ter a capacidade de aceitação e tolerância;

Assumir a humildade é aceitar que em alguns momentos da nossa vida precisamos dos outros;

Assumir a humildade é ter a consciência da limitação do nosso saber;

Assumir a humildade é aceitar um processo de maturidade psicológica;

Assumir a humildade é outras coisas, com toda a certeza. Vamos descobrir.

Mas, não humilhem as pessoas que assumem a humildade.

Há esse risco.

 

Ermelinda Macedo

 

12
Ago19

Há remédios tantos... (Dor – 12)

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Foto: Thanks - Free-Photos

 

... As garras frias duma Dor excruciante subjugaram-me ali, num instante que durou um tempo submerso. Um “destempo”, poço desconhecido, imensurável. Um tempo a que não pude negar o meu corpo, mesmo ficando assim, imóvel e gelada, petrificada, como se quisesse enganar a Vida... ou a Morte. 

Como se quisesse que a vida me ignorasse, passasse por mim sem me ver, sem me tocar, sem me ferir de morte...

(Diário pessoal)

 

Outra vez, fatalmente, falar da Dor. Não a dor física, aquela que vai e volta, como se, por acidente ou por garantia, tocasse estridentemente a um canto qualquer do nosso corpo, para nos tirar o sossego… ou a solidão. Ou aquela que vai ficando, se encanta por um qualquer pormenor da nossa arquitetura e se vai demorando, às vezes a ponto de roer os nossos alicerces.

Desta vez, depois de tantas, falar na Dor. Aquela a que ninguém julga poder sobreviver, aquela que altera a disposição do universo. E falar da força, do tempo, da aceitação, da gratidão.

 

Da força: sim, é mesmo verdade - nascemos com capacidades de fortaleza inimagináveis. Só saberemos o poder que temos quando obrigados a carregar às costas a nossa cruz, enquanto desbravamos, a cada dia, um caminho de espinhos, tomando especial cuidado em não magoar quem amamos, carregando ao colo os nossos filhos e empurrando à nossa frente o mundo inteiro, se for preciso – usando, a nosso favor, os ventos do tempo.

 

Do tempo: a sinergia do universo é incrível, há um poder magnânimo que rege todas as coisas, e todas as coisas nascem com tempo dentro. O tempo é instinto primordial e íntimo - julgo eu, contrariando quem diz que não passa de uma conceção humana. O tempo é o motor de todas as forças: desde a mais ínfima partícula subatómica, até à incalculável grandeza da Dor de perder um filho, tudo, tudo, se rege pela certeza (alívio) dos ciclos, da necessidade de movimentação, de seguir os instintos, de respeitar os tempos. Vejam a própria Terra: ela própria, girando sobre si mesma e à volta do sol, generosamente, permitindo, assim, luz e estações pródigas a todos os seus cantinhos, não está a seguir mais que o seu instinto de sobrevivência – não está a usar mais nada senão o tempo.

Aceitar a ordem do tempo é essencial.

 

Da aceitação: confesso, eu, que me revoltei – aceitar não é fácil. Mas é possível, é natural, usando a nossa força de nascença e a bondade do tempo, esse instinto do universo que nasceu antes de nós para nos ajudar no caminho. O tempo é remédio, dizem. Sim, remédio, conselheiro, pai natal, camélias outra vez, cerejas, férias em família, vindimas, castanhas assadas… inverno (por mais que doa…), primavera, verão, outono, luz de todas as manhãs, um sorriso, ou um beijo, ou um abraço. Vida: ver os filhos crescer, uma netinha a chegar. Estar disponível para dar. E para receber.

Sim, finalmente, reconhecer que aceitamos. Tudo. O passado, o presente, o futuro. A vida é uma cumpridora de promessas em quem nunca podemos perder a fé.

É hora de agradecer.

 

Da gratidão: ah, isso tem a ver com saudade… afinal, o que é a saudade, senão uma espécie de gratidão? Que, primeiro, vem ferida, magoada. Tão ferida, tão magoada, que dói, dói que se farta. Dói tanto, que às vezes pensamos que a morte nos doeria menos.

Depois, com a ajuda da força, do tempo e da aceitação, essa ferida terrível na nossa pobre gratidão, vai sarando, vai-se curando sozinha, devagarinho – transformando a dor em qualquer coisa de mais doce, mais próxima da nostalgia. Tão perto, sempre, do Amor. De vez em quando, claro, como qualquer dor no corpo, a dor na alma manifesta-se, sob qualquer efeito exterior, pontualmente. Assim como o frio, a chuva, a mudança de tempo, se manifestam nos nossos ossos fragilizados por qualquer mal, uma palavra, uma imagem, uma lembrança, pode, sim, provocar uma pontada de tristeza no coração, uma lágrima a picar-nos os olhos. Mas a Gratidão vem acudir. Abraça-me, aponta-me o céu… porque ele sabe, ele é testemunha dos dias felizes, dos anos felizes que antecederam a Grande Dor – os mimos, os abraços, as pequenas alegrias, os preciosos momentos, a luz que me ficou. E agradeço. Agradeço Tudo o que tenho. Tanto que eu tenho!

Saudade é Gratidão. Gratidão é Amor.

 

Teresa Teixeira

 

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