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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

16
Abr18

Um sonho de criança (Partir – 5)

Publicado por Mil Razões...

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 Foto: Autor desconhecido - Coleção F. Cabral

 

Dali, daquele sítio sobranceiro ao rio Douro, é possível desfrutar de toda a panorâmica fabulosa que a vista alcança, dominada por essa excelente via fluvial pela qual veio, desde tempos imemoriais, o progresso e o desenvolvimento à “mui” nobre cidade do Porto. O afluxo e o movimento de barcos às ribeiras de ambas as margens foi sempre uma constante, o que parece dar vida eterna àquelas paragens. As próprias marginais, com a intensa circulação de pessoas e tráfego de mercadorias, também muito concorreram para ser um lugar de grande atividade comercial e turística. Toda a zona envolvente está repleta de história e de “histórias”, não fosse aquele o lugar donde proveio o nome de Portugal. Era dali que o menino da “rua” observava o “vai e vem” dos barcos, a chegada e a partida dos navios de maior calado que rumavam para muito longe, para lugares distantes que ele sonhava um dia visitar.

De vez em quando, ouvia a narrativa dos “embarcadiços” que demandavam a Gronelândia à pesca do bacalhau, cujos barcos, na época do defeso, ficavam atracados no cais de Massarelos. O que mais o encantava e obcecava era o “partir” desses navios. Para ele, a palavra “partir” assumia um sentido mágico, qual sortilégio da imaginação infantil, porque significava ir viajar, ir conhecer outros lugares, outras gentes e, sobretudo, a possibilidade de adquirir mais conhecimentos, ganhar mais “vida da vida para a vida”. No sítio, que lhe servia de autêntico miradouro, podia divisar a entrada e saída de navios, ao mesmo tempo que lhe servia também de fonte de inspiração para os sonhos que alimentavam a sua fértil imaginação de menino. Mas do que ele gostava mesmo era de partir para alguma parte do Mundo, demandar outras terras, sentir o encanto, o fascínio e o cheiro de outros lugares; por isso, fechava os olhos e, nesse devaneio, sonhava como se estivesse a viajar. Queria ser um homem das “sete partidas” a exemplo de outras figuras conhecidas da nossa história.

 

José Azevedo

 

13
Abr18

Querido capitão (Partir – 4)

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Auto - Albrecht Fietz.jpg

Foto: Auto - Albrecht Fietz

 

“Não vou procurar quem espero

Se o que eu quero é navegar

Pelo tamanho das ondas… Volto a partir em paz.”

Ornatos Violeta

 

Espero que o levante sopre quente e sereno nessa tua viagem. Decidiste pegar nas coisas e largar, mudar de ares. Que tinhas de ir, sentias ganas de sair. Na volta, é o mais simples. Começar novas pessoas e hábitos. Mesmo que depois tudo fique igual, temos a sensação de que algo se mexe, que não fica igual, não é verdade?

Na volta, um dia fitas o horizonte e pensas como estás no mesmo ponto. Como é que, a dada altura, mudar era mais simples que ficar. Até, sinceramente, uma parte de ti já tinha pegado nas malas e partido. A coragem veio depois com a crescente sensação de que dia-a-dia já não havia ali mais amor para ti e que saías da mesma forma que entraste. Pelo teu próprio pé.

Um dia o horizonte fita-te e responde se o desafio maior não será ficar. Perto do bater do teu coração, partindo dentro de ti.

Um dia contar-me-ás que mundos e peles cruzaste e quem te deixou a pele tisnada pelo sol e pelo sal. Até lá, encontras-me por aqui.

Boas marés!

 

Maria João Enes

 

09
Abr18

Chegou o momento (Partir – 3)

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Foto: Airport - Jé Shoots

 

Pensámos muito relativamente a esta partida. Ponderámos prós e contras. Chegou o momento. Despedimo-nos das pessoas que nos acompanharam ao aeroporto. Que despedida! Entramos no avião ainda com incertezas. Sabemos que vai ser uma viagem que nos vai transportar para aquele lugar por algum tempo. Vamos à procura de qualquer coisa que não temos cá. A saudade começou quando ainda ponderávamos os prós e contras.

 

Durante a viagem apetece desistir. Agora já não dá. Ainda na viagem, a nossa cabeça lembra-se daquela festa onde conhecemos algumas pessoas que deixamos cá; das corridas que fazíamos ao fim de semana, todos juntos; dos encontros ao fim da tarde com aqueles que escolhemos para nossos amigos; das namoradas e namorados que deixamos cá, dos pais e irmãos com quem partilhamos, face a face, os nossos problemas, os nossos segredos e as nossas aventuras; dos filhos que deixamos cá; a relva que regávamos ao fim de semana, das flores dos nossos jardins; daquele quarto onde dormimos toda a vida; daquele recanto da casa onde nos sentíamos melhor; das desavenças que tivemos com os nossos pais, com os nossos filhos, com os nossos irmãos e com os nossos amigos; dos momentos de alegria e de sofrimento que fizemos questão de partilhar com os filhos, com os pais, com os nossos irmãos e com os amigos; dos momentos de alegria e de sofrimento que os filhos, os pais, os irmãos e os amigos fizeram questão de partilhar connosco; dos altos e baixos das nossas vidas. Na viagem, a nossa cabeça lembra-se de tudo isto… e de outras coisas. Estamos sozinhos com o nosso pensamento.

A viagem continua e a incerteza também. De cima, conseguimos ver que passamos mar, cidades, montanhas e aldeias. A nossa cidade ficou para trás no mapa.

 

Chegamos ao destino. O que nos reversa este destino? Nós pesámos prós e contras e os prós ganharam, por isso, a decisão foi de partir. E agora? Vamos iniciar um ciclo novo da nossa vida? Como fazemos relativamente a tudo o que a nossa cabeça pensou no avião? Como gerimos a saudade? Partir para outro lugar no mapa, para nos dar qualquer coisa que não temos cá, implica um descontinuar de tudo o que deixamos cá? Dizem que agora estamos todos muito perto; que “somos do mundo”; que temos instrumentos fantásticos, como a Internet, viagens baratas e rápidas que nos permitem entrar na nossa cidade num instante e, também, que o ser humano se adapta com facilidade. Pois… talvez seja verdade. Sim, vamos ter experiências novas e diferentes, talvez enriquecedoras, mas não podemos “tocar” nas pessoas que deixamos cá. Isso é problema? Bem… vou fazer o exercício para aceitar que “somos do mundo”, que temos instrumentos fantásticos, como a Internet, viagens baratas e rápidas que nos permitem entrar na nossa cidade num instante e, também, que o ser humano se adapta com facilidade e talvez, assim, me sinta mais tranquila.

 

Ermelinda Macedo

 

06
Abr18

Apenas ir (Partir – 2)

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Foto: Train - Luís Ferreira 4X4

 

Sim, gostava de apenas ir.

Ir para um lugar longe daqui, onde tudo seja mais fácil e descomplicado. Onde o sol brilha mas não magoa, onde a chuva faz crescer mas não constipa. Será que existe?

Tiro o bilhete de comboio e vou, mas quando lá chego é tudo igual. Diferente, é certo, mas igual.

Encho o depósito de combustível do carro e parto, percorrendo quilómetros. Por fim, chego ao meu novo destino e sinto o mesmo. Vejo diferente, é certo, mas tudo igual.

Compro um bilhete de avião e faço o check-in. Ao levantar voo já me sinto diferente, como se estivesse a encher a alma. Quando lá chego, o cheiro é diferente, é certo, mas tudo igual.

Depois de tantas viagens, acredito que a maior viagem que fazemos é a interior. Mas como sair de mim mesma e partir para outra? Será possível?

 

Sónia Abrantes

 

02
Abr18

Transporte coletivo (Partir – 1)

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Foto: People - TréVoy Kelly

 

Há sempre um ponto de partida e de chegada. Dia a dia. De mês a mês. Ao longo de vários anos.

Toda a existência é feita de estações, transportando memórias e impactos. Das pessoas que vêm e permanecem, das que saem sem enunciar o adeus, das que expulsamos por vontade própria ou até das que entram de rompante, conquistando um teimoso lugar. Elas vêm com as suas próprias bagagens, a par da mercadoria preciosa que se enche e preenche de relatos, vivências e marcas.

É nesta relação simbiótica conjunta que prosseguimos viagem, abarcando as flutuações inevitáveis dos seres e bens que alternam quantitativamente ao longo do caminho, deixando apenas espaço para a saudade.

O que é certo, é que nada do que está fica. Não na escala do tempo que nos ultrapassa. Pouco a pouco os vazios agigantam-se e contemplamos, de forma cada vez mais próxima, o nosso destino.

 

E que mais se pode dizer face a isto se não que é uma aventura num imenso transporte coletivo que todos acolhe e abrange, não requerendo assinatura mensal.

Pagamos apenas em sorrisos, lágrimas, abraços, amuos... O que de outra forma não teria preço.

E de estação em estação partimos, recheando o saldo memorável (que não bancário), até ao derradeiro ponto de chegada.

 

Sara Silva

 

28
Mar18

Para te dar uma vida melhor (Abandono – 13)

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Foto: Persons - Free-Photos

 

Sentia-me quase 100% feliz com a minha vida, não podia realmente queixar-me. Tinha sido adotada muito cedo, não me lembrava tão-pouco dos meus pais biológicos. A família que me adotou, para mim… são os meus verdadeiros pais. Não os vejo de outra forma. Deram-me a melhor educação que podiam, transmitiram-me valores e nunca me faltou amor e carinho.

Tornaram-me na pessoa que sou hoje. Acabei nova os estudos, pois além de ter entrado cedo para a escola nunca perdi nenhum ano. Sempre fui empenhada e dedicada nos estudos e fiz parte dos quadros de honra da escola. Os meus pais inscreviam-me em algumas atividades extracurriculares para me ajudar a socializar mais com as outras crianças, talvez também para me esquecer de que fora adotada; acho que eles sempre tiveram uma panóplia de receios no que toca a esse assunto. Penso que sempre houve uma voz pequenina no meu subconsciente que me questionava sobre esse assunto. Mas os anos iam passando e coisas novas iam sucedendo na minha vida, o que me fizera esquecer um pouco, ou colocar de parte algumas das minhas questões.

 

Foi quando terminei os estudos, que algo em mim despertou, uma curiosidade de saber quem eram os meus pais biológicos. Não só quem eram, como queria entender o motivo que os levou a desistirem de mim. Não que eu não tivesse sido amada, não que tivesse falta de algo. Mas porque sentia que não me conhecia na totalidade e precisava. Precisava de saber o porquê de me terem abandonado em pequena. Os meus pais adotivos, eles sabiam, notava no olhar deles por vezes, como se estivessem à espera do momento em que eu lhes colocasse a questão: “Vocês sabem quem eles são? Gostava de os conhecer”. Acho que sim, que temiam esse dia; e esse dia tinha chegado. Coloquei-lhes aquelas questões. Eles não levaram a mal, mas notei uma certa apreensão nos seus rostos. Não foram rudes, nem egoístas, nem esperava outra coisa deles. Só possuíam um número de telefone e um nome, o nome da minha mãe: “Carolina Mateus”. Deram-mo e abraçaram-me, pediram-me para ter cuidado, com medo que a verdade me magoasse demais. Mas eu sentia que precisava de descobrir, para conseguir conhecer-me a mim mesma. Para prosseguir com a minha vida para a frente. E pais, seriam sempre eles.

 

Os meus dedos suavam, toda eu tremia, digitei o número de telefone e hesitei durante alguns segundos. Respirei fundo e fiz a chamada. Tinha o coração acelerado e congelei quando uma voz rouca disse do outro lado da linha “Estou?”. A única coisa que consegui dizer foi “Sou eu, a Ana. A tua filha”. Por momentos o silêncio instaurou-se naquela chamada. Mas rapidamente ouvi- a chorar. “Ana… nunca pensei que me fosses ligar”.

Pouco falámos depois, mas tínhamos combinado um encontro num parque, não muito longe de onde eu morava. Estava nervosa à medida que as horas passavam.

Mais uns minutos e saí de casa em direção ao parque.

As folhas caíam agora das árvores, para dar lugar a outras novas que já espreitavam. Tinha um calor agradável. Fui caminhando pelo parque até que reparei numa figura estranhamente parecida a mim, sentada num banco, os cabelos ruivos, magra e com um aspeto algo envelhecido para a idade que supostamente tinha. Tive a certeza que era ela quando ela olhou para mim e as lágrimas lhe escorreram do rosto. Foi quando me dirigi a ela e, educadamente, me sentei e a cumprimentei. Não com um abraço, pois sentia uma controvérsia. Não queria, mas queria no fundo, mas não o fiz. Não a conhecia. Ela sorriu e pôs-me a mão no ombro. “Ana, estás tão grande, tão bonita”. Eu apenas tentava perceber que vida tinha tido aquela mulher para ter ficado com aquele aspeto tão triste e pouco saudável. Apenas me saíram da boca as poucas palavras que tinha realmente de dizer. “Porquê? Porque é que me abandonaste?”.

“Ana… eu abandonei-te para poderes ter uma vida melhor”. “Mas porquê?”, perguntei. Não poderia ela ter-se esforçado mais um pouco e ficado comigo?

“Era nova demais e com muitos vícios, o teu pai desapareceu e eu não tinha ninguém, sou uma sem-abrigo e já o era na altura. Foi quando vi um casal chorar à porta da igreja, falavam um com o outro, falavam com Deus ao mesmo tempo. Pediam um milagre, não conseguiam ter filhos. Vi como desejavam tanto um, eras tu Ana, tu eras o milagre deles.”

Eu estava perplexa, as lágrimas corriam-me pelo rosto. Ela também chorava. Levantou-se e abraçou-me. Disse mais uma vez antes de se ir embora: “Ana, eu abandonei-te para poderes ter uma vida melhor, mas nunca deixei de te amar”.

Antes que eu conseguisse fazer algo, ela tinha desaparecido por entre os arbustos.

Uma sensação de vazio apoderava-se de mim, mas de alívio também.

 

Inês Ramos

 

26
Mar18

A perda do não abandonado (Abandono – 12)

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Foto: Walking - Public Domain Archiv

 

Andava pelos seus cinquenta e poucos e andar é palavra que lhe assentava. Durante o dia poucas vezes estava sentado. Percorria o pavimento não fazendo sequer círculos. Para a frente e para trás, para a frente e para trás. Gostava de sair da sala e andar pelo exterior, assim, sem rumo. Repetia quase sempre as mesmas palavras, ou as mesmas frases curtas. Levava a mão ao queixo ou ao cabelo, repetindo estereotipias (não podia ser de outra forma) que provavelmente lhe dariam conforto no contacto com o corpo que era seu.

Gostava muito de comer, pelo menos até certa altura em que esse mesmo corpo começou a dar de si. Mas continuava a caminhar. Muitas vezes em sofrimento. Caminhava em casa, caminhava no centro e caminhava para consultas e análises. E caminhou assim durante anos.

Durante anos esteve entregue a uma instituição que o acarinhou, confortou, alimentou, vestiu, etc. As pessoas dessa instituição tornaram-se sua família.

Essas mesmas pessoas perderam-no há duas semanas. Perderam a sua presença, o seu andar. Restou um vazio no chão, no pavimento, na porta por onde ele passava para ir para o exterior. Em vazio caiu também (finalmente) o seu sofrimento. Os dias de lamúrias e gemidos que não conseguiam traduzir onde lhe doía. Doeu a quem o cuidou e teve de tratar do seu funeral. Não se sabe se doeu à família, que, afinal, sempre tinha. Enfim. Pelo menos no abandono, nunca esteve abandonado.

 

Rui Duarte

 

23
Mar18

A chuva nos meus olhos (Abandono – 11)

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Girl - Free-Photos.jpg

Foto: Girl - Free-Photos

 

“Nos dias cinzentos da rua, é mais fácil ficar cinzento cá dentro” - pensava eu, abandonada na minha tristeza, enquanto olhava pela janela à espera de te ver chegar, embora soubesse que não chegarias.

Por mais dias que passem, vou sempre esperar que chegues, cansado, depois de um dia de trabalho. Por mais luas e sóis que se sigam, uma parte do tempo parou no dia em que os dias deixaram de contar para ti. A outra parte, a que continua a correr, é ditada pelas estrelas que pões a brilhar para nós aí de cima, de onde nos vês e acompanhas. E pelas centelhas de luz, que na terra brilham por ti: os nossos filhos.

 

Sempre soube que me amavas. Mas foi só depois de partires, que percebi a força poderosa do Amor. Foi depois de ficar sozinha, que entendi que o Amor salva e que Deus não nos abandona. Foi só depois de não estares aqui fisicamente, que vi que afinal a morte não é o fim e a vida é apenas uma parte do caminho.

Mas mesmo assim... queria muito que o teu caminho tivesse sido mais longo. Merecia-lo! Queria que Deus não tivesse precisado de ti no Seu jardim. – E na horta? Tens trabalhado muito? Imagino-te sempre aí, com os teus biscates, sobretudo quando preciso de usar a chave de fendas, ou a enxada.

 

Tem chovido tanto, que me ri a pensar que devias ir ajudar o São Pedro a arranjar as canalizações. Ou foste tu que rompeste os canos de propósito, por saberes que estava tudo seco cá em baixo?

 

Todos temos aprendido esta nova forma de viver – sem ti. E todos os dias, mesmo não estando aqui fisicamente, fazes parte dos nossos dias. Umas vezes fazes parte de sorrisos. Outras, fazes parte de teimosias. Uns dias fazes parte de derrotas. Outros, das nossas conquistas.

Há muitas manhãs em que me apetece abandonar-me à dor e às lágrimas. E é o teu exemplo, de força e coragem, que me faz sair da cama. Mas ainda não consigo deixar lá a tristeza, ponho-a no bolso e levo-a comigo para viver o dia.

Quando há sol, sinto que a luz me ajuda a sorrir. Lembro-me de quando éramos jovens namorados, a passear de mãos dadas e a fazer promessas de amor eterno – que eterna e amorosamente cumprirei.

Depois, nos dias de chuva na rua, é mais fácil chover nos meus olhos.

Mas tal como a chuva faz brotar a vida na terra, assim as lágrimas serão fecundas em mim. Exatamente como o teu Amor.

 

HTR

 

19
Mar18

Conversas ao ocaso (Abandono – 10)

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Foto: Sunflowers - Rudy and Peter Skitterians

 

- Eu podia ter-te feito tão feliz... mas tu abandonaste-me.

- Nunca te abandonei. Como poderia? – os sonhos são feitos de matéria intáctil, inconsistente, incrível. Sustentável apenas pela sua própria leveza e transparência – como se pode abandonar o que nunca sequer conseguiu iludir-nos à desilusão? O que nunca sequer tocou o horizonte da nossa capacidade de ver?

- Mas tu viste-me, tu conseguiste ver-me, nitidamente, apesar da minha forma de ilusão. Apesar da minha débil natureza onírica...

- Consegui, confesso. E de que me valeu isso? Apenas fazer-me ganhar o tempo de um arco-íris... Ou de um sorriso. Ou de um beijo... Ou de um suspiro fundo...

Em contrapartida, fizeste-me perder bocadinhos preciosos do tempo que eu precisava para os projetos. Projetos viáveis, concretos, para os quais eu tinha capacidade e me foram dadas ferramentas. Coisas que eu tinha que fazer, para sobreviver. 

 - Não posso acreditar que, ainda por cima, me cobras os pequenos-grandes instantes que te fiz perder... Reconhece: a maior parte desses projetos de que falas com tanta ou tão pouca convicção, apenas fizeram de ti o que és hoje: infeliz...

- Tens razão. Ou talvez não. Digamos que fizeram de mim uma pessoa bem-sucedida, segundo os moldes da sociedade em que vivo. Construí família, criei os meus filhos em segurança, singrei na vida desafogadamente, direi até, com bastante sucesso...

- ...material. E que fizeste ao teu compromisso com a felicidade? Que fizeste com a esperança de me realizar? De te realizares...?

- Ah, para de me lembrar a paixão antiga que tive por ti. Quer dizer, a certeza de que poderia levar por diante essa paixão. Isso são águas passadas! Como eu já te disse, eu nunca te abandonei – apenas, para sobreviver, te releguei para o fundo mais fundo do meu coração – lá, onde hão de morrer todos os meus sonhos, afinal...

- Ainda bem que me guardaste no teu coração... Obrigadinha... Olha se fosse no fígado, num joelho... pior!!! – na cabeça: detestaria conviver lá com os teus preciosos e inadiáveis projetos.

- Não sejas irónico... Já te disse que a vida não se faz de sonhos?

- Já. E eu emendo-te: a vida não se faz só de sonhos. Mas negar o teu sonho, a tua paixão mais funda... (não te esqueças, foste tu que disseste que me exilaste no lugar mais fundo do teu coração...) Ah, negar o teu sonho de vida inteira é negar-te a ti próprio!

- ...

- Que foi? Emudeceste, agora?

- Posso confessar-te uma coisa?

- Claro, sou o teu sonho, que melhor confessor arranjarias?

- Não brinques, estou a falar a sério.

- Está bem, diz. Sabes que podes ter confiança em mim (assim essa confiança fosse recíproca...)

- Que disseste?

- Nada, nada. Diz lá o que querias dizer.

- É tarde. O sol já desce e tenho medo...

- ...

- Não dizes nada?

- Digo. Digo que te amo e que, para mim, serás sempre a criança ingénua e crente que me colheu numa manhã de girassóis e fez de mim a sua grande paixão. Digo que acredito em ti, no teu poder de me reabilitar e fazer do meu nome a tua melhor Obra. O Teu Sonho realizado. Não é tarde, é apenas o nosso tempo. Salva-te, salvando-me do limbo dos sonhos incumpridos.

E não tenhas medo. Eu estou no comando, agora... e a vida que te resta é, verdadeiramente, a Vida Inteira.

 

Teresa Teixeira

 

16
Mar18

Ver para crer (Abandono – 9)

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Alone - Mike.jpg

Foto: Alone - Mike

 

Hoje decidi partir. Podia ter avisado com algum tempo de antecedência mas não nos supus à mercê de maleitas sazonais. Enquanto oscilámos entre a primavera e o verão a coisa foi correndo, o outono e o inverno são impossíveis de aguentar ao teu lado: quem tu és nos dias negros nem o diabo quer para companhia. Transfiguras-te, insidiosamente, trazendo os piores sacanas do mundo na algibeira. Demorei a perceber que os conhecias de longa data e que te construías, enquanto pessoa, sob o seu patrocínio. Acreditei piamente seres apenas uma alma perdida e mal-amada mas cheia de vontade de ser tudo aquilo que dizia (querer) ser. Acreditei nas tuas palavras, nos teus silêncios, na tua presença, na tua ausência, nas tuas intenções e gestos “genuínos”. E, até depois de já não acreditar, escolhi ficar. Fui incapaz, apesar dos sinais cada vez mais evidentes, de ver o pior em ti, de te imaginar capaz de tudo aquilo que hoje sei. Em boa verdade, jamais acreditaria em tal se o mesmo me fosse narrado por terceiros. Tinha de ser assim: ver para crer, preto no branco, uma chapada dada pela língua de uma baleia azul. É indescritível o que se sente quando tudo aquilo que se pensava ser verdade não o é. Quando nos percebemos atores num enredo do qual nunca escolhemos fazer parte. Na verdade, por opção, nunca estaria aqui. Esta história contada ao pormenor seria igual a muitas outras, sobretudo depois de a teres tornado vulgar, decadente e pequena. Estabeleceste as regras do jogo mas eu escolho dar-lhe um final. Hoje. Sim, hoje mesmo. Não consigo respirar, não sinto nada mais do que desespero neste momento em que a vida, tal como a conheci nos últimos anos, ruiu perante os meus olhos. É desolador saber que tudo o que disseste e fizeste foi estudado, que faz parte do teu jogo doentio e que vais mentir até ao último minuto comigo. Claramente, não lamentas nada no teu discurso contraditório, apenas teres sido desmascarado. Não há em ti um pingo de honestidade, e nem isso consegues fingir, mesmo que penses que sim… Por isso, hoje, decidi partir. Não sei de quanto tempo vou precisar para curar o que ainda sinto mas jamais o farei permanecendo contigo. Preciso de sair deste pesadelo para poder pensar com clareza, longe da angústia que me consome. A tua máscara caiu por terra, por mais que te esforces em mantê-la. Já só quero que te cales e me deixes ir embora. Não peças desculpas vãs, não justifiques o indesculpável. Deixa-me regressar a casa, respirar amor e reconstruir-me na dor que me trouxeste, longe do asco que agora me causas. Tenho mil perguntas mas não vou fazer nenhuma: não quero ouvir mais nenhuma mentira, não quero lágrimas de crocodilo e acessos de raiva. Cala-te, suplico. Só quero ir-me embora, não há mais nada a dizer. Já não aguento ver-te aí, de pé, na cena teatral que ensaias há anos, consumido pelo ego e pela maldade, incapaz de perceber que já não há mais nada em ti que eu deseje, mesmo que ainda te ame. Atrai-te o abismo, nadas no sofrimento como um peixinho mas não pertenço aqui, nunca pertenci. Por favor, cala-te. Não precisas de entender. Não quero explicar nem mais uma linha. Quero ir para casa. Quero chorar em paz. Quero respirar fora do lodo em que te agitas e resgatar todos os meus sonhos. Deixa-me partir, simplesmente. Não contribuo, nem mais um dia, para esta farsa.

Respiraste sobre mim, pela última vez, há minutos. Com um ar dramático e choroso, balbuciaste: “com que facilidade me arrancaste da tua vida”. Olhos nos olhos, respondi-te: “com que facilidade nunca me fizeste parte da tua.” Amorfa e em choque, aceitei aquele beijo tenebroso que encerrou uma história de vários anos, como se de uma brisa se tratasse. Deixei-te encenar e protagonizar a cena final, insípida e doentia, sem paz, sem verdade, sem respeito. Fiquei aliviada quando me soltaste e pude, finalmente, virar-te as costas, sem vontade de olhar para trás. Já não me podes magoar mais, mesmo que eu ainda não saiba quando vais deixar de doer em mim.

 

Sentada no avião, lavada em lágrimas, abracei-me por ter sabido resgatar-me a uma meia vida contigo, num limbo demasiado perigoso que tu trilhas de olhos fechados. No regresso a casa, caminho trémula, não consigo respirar; ainda me sinto perdida porque mergulhei inteira em nós e andei à deriva, sem o saber, mas em momento algum me abandonarei. Amei-te como mereço ser amada, as tuas sacanices a ti pertencem. No final de um dia que começou tão mal, respiro de alívio, apesar da catástrofe que tenho ainda de digerir. A esta distância percebo que muita coisa terrível aconteceu, é um facto, mas que podia ser muito pior: eu podia ser tu. Como diria a minha avó: “Fosga-se”!

 

Alexandra Vaz

 

Porto | Portugal

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