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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

20
Mai19

Contributo coletivo (Honestidade – 2)

Publicado por Mil Razões...

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Foto: Rainbow - Gerd Altmann

 

Tudo se passa entre a verdade e a mentira.

A medida factual dos acontecimentos é frequentemente distorcida segundo a vontade dos intervenientes, por isso há que preservar a honestidade que enaltece e enobrece o caráter dos indivíduos. Esse valor raro que se encontra em perigo de extinção no seio desta sociedade sedenta e competitiva.

Proteger e valorizar a integridade, a veracidade e a franqueza.

Ser-se como é.

Ser-se o melhor que se pode ser.

Dar o melhor de si aos demais e fomentar o melhor dos demais. E nesta positividade iniciada pela honestidade, o mundo se tornará um pouco mais risonho, pouco a pouco, com o contributo coletivo de cada um de nós.

 

Sara Silva

 

17
Mai19

Limites (Honestidade – 1)

Publicado por Mil Razões...

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Foto: Girl - FotoRieth

 

Por várias vezes, nos mais variados contextos, acusaram-me de excesso de zelo. Só não percebo porque o fizeram em jeito de acusação se, para mim, é visto como um elogio. Elogio, sim, pois o excesso de zelo pode ser confundido com a honestidade no seu extremo e a honestidade é uma qualidade. Ou não será?

Talvez seja uma pessoa de extremos e estes são mal vistos por muitos que não aguentam a pressão da responsabilidade de assumir todos os seus atos, de dar a cara por causas em que verdadeiramente acreditam, de ficar na sombra quando é isso que é preciso, mesmo tendo o papel principal em todo o processo e desenrolar da história.

Há quem precise de ficar com os louros, mesmo tendo feito tudo não por mera honestidade e zelo, mas porque tem como objetivo final o seu proveito próprio, nem que seja alimentar o ego e pensar que vai para a cova de consciência tranquila.

 

A honestidade pode ser confundida também com inocência, por se deixar enganar por outros que se aproveitam do zelo e empenho de uns e daí tirem o seu proveito. Sim, também pode acontecer. Neste caso, opto por manter a honestidade, não à pessoa em si, mas à causa, ao propósito final do que nos é pedido e sugerido fazer e que vemos ser realmente útil e com sentido.

“Mas, eles estão a aproveitar-se de ti!”

E daí? Serão eles a aproveitar-se de mim ou serei eu a otimizar ferramentas para continuar o caminho que escolhi? Deixai-os pensar dessa forma.

Os limites são desenhados por cada um, cada indivíduo escolhe até onde consegue ir.

No final a conversa é entre mim e aquilo em que acredito.

 

Sónia Abrantes

 

15
Mai19

A morte contada

Publicado por Mil Razões...

Pode subscrever este livro em campanha, até 3 de junho de 2019, às 18:00, por € 11, com agradecimento personalizado impresso no interior do livro. Após o fecho da campanha o preço será de € 13.

Mais informação e subscrição

13
Mai19

Um bocadinho à nora... (Força – 12)

Publicado por Mil Razões...

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Foto: Witch - ID 942987

 

Dizem que era uma vez uma mulher chamada Sogra, muito, muito má. Mal-encarada, metediça, feia como uma verruga de bruxa, escanzelada como uma erva ruim arrepiada pelo vento. Entendam:  ela não nasceu Sogra. Se calhar, nem nasceu má, nem feia, nem verruga, nem joio – pelo contrário, há quem diga que ela era até uma joia, antes de lhe porem o nome Sogra. Mas, claro, isso do disse-que-disse é poça de água turva, onde não se pode, nem se deve, lavar os ouvidos…

Bem… seja como for, diz que essa tal megera, uma certa tarde peganhenta, depois de uma jornada de trabalhos duros pelas leiras da vida, se sentiu sem forças, morta de sede e de cansaço, desesperando por um fio de água que lhe aliviasse a secura da boca e da alma.  Mas nem rio nem arroio lhe valiam, tudo à sua volta era secura e silêncio: nem cantar de fonte próxima, nem coaxar de rã longínqua. Quando a tarde começava a definhar, finalmente, escondida por uma mancha verde escura, ela descobriu o que lhe pareceu ser a estrutura altiva de uma nora – primeiro viu um alcatruz, depois outro, depois percebeu, pela disposição dos recipientes, a curva de uma enorme tarambola. Parada. Mas era uma nora – que alegria a dela! Cheia de um novo ânimo, a criatura correu para ela, de braços abertos, como se quisesse abraçar o esqueleto enferrujado do mecanismo, que, para ambas, seria a esperança da água, da vida. E, oh, sim, havia água, no fundo do poço! Havia luz, a luz rósea da tarde, refletida naquelas águas, paradas, pensava ela, apenas porque ninguém, há muito tempo, as abençoava com o beijo da sede!

Mas aquela nora, de vulto sombreado pelo decair do dia, e de toque áspero, pela ferrugem dos anos e pela oxidação da sua própria herança férrea, negou-se a mover, à pouca força dos seus braços – antes a repeliu, quase empurrando o seu corpo magro para o poço alvoroçado por algumas pedras que rolaram, como lágrimas, a seus pés.  Aquela nora, ofuscada pelo seu poder inesperado, ciosa dos seus domínios de egoísmo, avara da água de que se julgava guardiã e senhora absoluta, zombou da sua fra(n)queza e, como uma burra teimosa, fincou os dentes da roda, arvorou-se em coisa superior, e condenou a Sogra ao amargor da sede - condenando-se, a ela própria, ao chiar pulverulento dos emperrados por soberba.

Dizem que a Sogra ainda anda por esses campos, juntando as forças que precisa para encontrar, quem sabe, águas tranquilas. Um ribeirinho, que seja. Uma chuvinha mansa, que baste para lavar a alma.

 

(Lendas são lendas:  em contracena com uma nora, ferrugenta ou não, o povo põe sempre uma sogra, malvada ou nem tanto, vá-se lá saber porquê. Nomes são apenas nomes - a Força, dão-lhes as pessoas que os usam, em sede ou em ignorância.)

 

Teresa Teixeira

 

10
Mai19

Força a consciência (Força – 11)

Publicado por Mil Razões...

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Foto: Beauty - Chí Nguyen Quoc

 

Ultimamente, tenho visto, com interesse, uma série que no seu fundamental foca a experiência da moralidade humana. Evidentemente que, para ter audiência, veste-se o tema com humor, satirizando a triste realidade da finitude da nossa estadia por estes lados e a expetativa de se ter (ou não) uma recompensa “pelos bons serviços prestados”. Em resumo: ser “bom” ou ser “mau” durante a vida determinará uma recompensa ou um castigo eterno. Soa familiar, certo?

Ora, cheio de lugares comuns, como podem imaginar, está o argumento. Conceitos como o livre arbítrio, as escolhas pessoais, os modelos seguidos e, claro, a força de vontade. Força de vontade para, depois de vividos e instruídos, agirmos em consonância com a nossa consciência e com as leis / regras / ética / costumes / moralidade do contexto em que vivemos.

Em princípio, aqui residiria a fórmula para a etiquetagem da “boa pessoa”. Claro que isto assim posto, de forma tão redutora, sem os constrangimentos e exigências de um texto que “altere o mundo”, leva à conclusão da seguinte causa-efeito: “se queres ser um tipo às direitas (e até merecedor de um paraíso, se essa for a tua convicção), basta teres força de vontade”.

 

É claro que isto não chega. É claro que não é suficiente. Porventura, se não contássemos com a instabilidade inerente ao ser humano, em que “um dia é uma coisa e noutro dia é outra”, poderíamos ter esperança num movimento em contínuo, no sentido da elevação do ser e (porque não?) do espírito. Mas não somos assim e todos o sabemos. É também certo (e ainda bem), que “uma má atitude, não faz de mim má pessoa”, abrindo-se assim um buraco negro descomunal que nos conforta a consciência de cada vez que nos atraiçoamos.

Porque sim, desengane-se quem pense que o maior prejudicado nessas situações será um qualquer terceiro, vítima da nossa ação. Se o pensamento sobre o facto se evadir, se as noites forem bem dormidas, se o humor for o melhor, assim como o apetite, podes ter a certeza que o teu “grilo falante” não está a fazer bem o seu trabalho. Mas lá está, se calhar a culpa é dele e nunca tua. Força para se encontrar bodes expiatórios, é coisa que nunca falta.

 

Rui Duarte

 

06
Mai19

Contigo no pensamento (Força – 10)

Publicado por Mil Razões...

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Foto: Love - Janko Ferlic

 

Senta-te aqui, em silêncio, e espera que o tempo passe. Não mexas um dedo e a dor irá embora. Ali, ao virar da esquina, está tudo aquilo de que precisas, mas agora só por um momento, para. Detém-te aqui, observa a cadência do teu coração. Permite-te este espaço, este tempo, sem explicações que nem tu podes entender. Dizem os vizinhos que “tens de ser forte”, “tens de “esquecer”, que “já está na altura”. Nem sabem que, quando to dizem, te tiram o direito de ser humana. Precisas muito de atracar, dentro de ti, de resgatar o que resta, de respirar fundo sem cair. Precisas de carpir, de gritar, de envolver nas tuas lágrimas toda a dor que te consome para que saia de ti. Fica aqui. Não dês nem mais um passo que te aproxime do abismo dos outros. Precisas de tempo, mesmo que não to lembrem. Todo o tempo de que precisares.

 

Ontem vi-te à janela. Olhavas o horizonte e sorrias sozinha. Achei tão bela aquela imagem, apesar da tristeza velada no cantinho do teu olho, que contrastava com a luz do teu sorriso. Tive vontade de tocar à tua porta, de te convidar para um café e um passeio no parque. Se calhar, fazia-te bem. Sei que ninguém te visita há muito tempo, que ninguém te vê na rua desde o funeral dos teus filhos. Diziam-te que tinhas de ultrapassar, sem saberem que jamais se ultrapassa uma coisa destas, ainda que um dia possas seguir em frente. Não consigo imaginar a tua dor, nunca perdi um filho e a simples menção do mesmo faz-me tremer inteira. Não sei como se vive isto, como se continua a respirar depois de uma perda tão profunda. O que te digo, então, que te possa aliviar? Nada, nada te pode aliviar e é por isso que fugimos todos de ti. Não sabemos o que dizer, o que fazer - logo a ti, que sempre soubeste as palavras certas, a dose certa de cada abraço, todas as vezes que a vida nos tolheu os dias. Desculpa...

 

No Outono passado, cruzamo-nos na escada. Saías com os miúdos, felizes e barulhentos, cheia de sacos e coisas coloridas. Sorri e disse-vos olá, troquei algumas palavras com os pequenos e segui, certa da vida que me corre nas veias, sem supor que seria a última vez que vos veria. Nesse dia sorriste, visivelmente cansada, mas feliz disseste que a tua mãe fazia anos e que lhe tinham preparado uma festa surpresa. Os miúdos, com 4, 6 e 8 anos saltavam, excitadíssimos, certos de que a avó iria adorar os seus presentes. Lembro-me de ter pensado que os teus filhotes eram meninos muito doces, felizes e que tinhas muita sorte em ter uma prole assim. Não, não imaginava que o Sr. Alberto, o motorista do colégio que os ia buscar a casa diariamente, sofresse um AVC fulminante e morresse ao volante do autocarro escolar, com os teus filhos lá dentro. Ninguém sobreviveu a este acidente, nem os pais que estavam em casa. E a vida mudou, inteira.

 

Mais de um ano se passou e tu quase nunca sais de casa. Nas primeiras semanas, as noites eram interrompidas pelo som do teu choro, convulsivo e cheio de angústia. Agora já não choras, mas também não vives. Abres as janelas e, por vezes, assombras à janela, mas não existe vida em ti. Faze-lo mecanicamente, sem pensares o que te leva a fazer aquilo, todas as manhãs. Pergunto o que será necessário para que redescubras um sentido na vida, para que possas caminhar mesmo sem os teus filhos. Há muitos meses que dou por mim em frente à tua porta, ao regressar do trabalho, num misto de dor e de absoluta tristeza. Pergunto-me se sabes que fico ali, todos os dias, em silêncio, incapaz de perceber o que vai no teu coração, do outro lado da porta. Não sei como chegar a ti sem te assustar, como te ajudar sem ferir, como te olhar nos olhos sem que me apeteça chorar. Não sei. Mas todos os dias entro em casa e abraço os meus filhos, contigo na alma, triste pela dor que te consome e da qual não te consegues livrar.

 

Hoje de manhã decidi que ia tocar à tua campainha, ainda que a angústia me dissesse para não o fazer. Saí de casa, levei umas fatias do bolo que tinha feito ontem, enchi-me de coragem e rumei à tua casa. Quando saí do elevador ouvi o riso de uma criança, a tua voz e parei no corredor. À tua porta, estavas tu e a filha dos vizinhos da frente, com 3 anos, que te agarrava a mão enquanto te olhava nos olhos. Pela primeira vez, em muito tempo, presenciei a tua gargalhada. Não fui capaz de me dirigir a ti, permaneci tão quieta quanto possível, naquele canto, a admirar-te cada vez mais, pela capacidade de estares, simplesmente, ali. De estares viva. Quando puseste o joelho no chão, a menina beijou-te na face e convidou-te para o seu aniversário. Penso que te apanhou desprevenida pois não foste capaz de recusar aquele convite. Os pais, agradecidos, confidenciaram que a pequena acordava há vários dias a falar em ti e que não descansou enquanto não foi convidar-te pessoalmente. Depois de se despedirem ficaste ali, de pé, com o olhar perdido no vazio, mas serena e sorridente. Como se algo tivesse mudado, como se por um momento tivesses respirado mais fundo e o mundo não fosse só dor.

 

Apesar dos sinais de esperança, dos pequenos momentos que podem construir um futuro pelo qual valha a pena lutar, sei que não vais ultrapassar nem esquecer e que há memórias que vão doer sempre. Talvez já o saibas também e, por isso mesmo, aceites seguir em frente, sabendo que tudo isto caminhará contigo, até ao último dos teus dias. Podes construir novas memórias, conhecer pessoas extraordinárias, ter até outros filhos, mas serás, para sempre, a mãe do João, do Pedro e da Clarinha. Na dor que te procurará, em ondas violentas e inesperadas, nos dias ainda por vir, eles serão eternamente o teu oceano de amor. Dizem que és forte porque não choras, porque não gritas, porque ninguém te vê sangrar por dentro. Eu acho que és forte porque te permites sentir tudo isto, visceralmente: a dor e o amor. Regressei a casa com o bolo, as palavras e os pensamentos; amanhã talvez tos leve. Hoje, estou certa, o dia acordou contigo no pensamento.

 

Alexandra Vaz

 

03
Mai19

Não somos frouxos (Força – 9)

Publicado por Mil Razões...

Pretty - Deedee86.jpg

Foto: Pretty - Deedee86

 

Não sei, não sabe ninguém que força nos anima em determinadas circunstâncias. A verdade é que move e impulsiona os nossos instintos, obriga-nos a cumprir deveres e a gozar direitos e alegrias. Com ela defendemo-nos e sobrevivemos. Sentimo-la ao de leve ou a encorpar-se quando a reação assim o exige. É um processo interno, individual, que nos remexe e incomoda até lhe franquearmos saídas para se libertar. É incontrolável. A vida vai-se desenrolando larga, promissora, mas também profusa em obstáculos. E nós, porque a vida tem muita força, com essa força os vamos arredando e ultrapassando.

Acordamos e a única coisa que nos apetece é ficar deitados sem ver, ouvir ou falar. Esquecer que o mundo fervilha e nós temos que acompanhar esse movimento. Fixamo-nos no vazio, não queremos fazer nada e não sentimos vontade de contrariar esta apatia, esperamos que algo aconteça e nos anime. De repente, como que movidos por uma mola, saltamos da cama, esquecemos as razões da inércia que nos tomou ao acordar.

Que força nos anima, afinal?   O amor, claro – evidenciam uns. A vontade de mudar e vencer – dizem os ambiciosos. O sentido de justiça e consciência social – afirmam os politizados. A maldade e a bondade – adiantam os moralistas. A esperança. Dizem que enquanto há vida há esperança, ou o ditame é bem, enquanto há esperança há vida? O que quer que seja, de uma maneira ou de outra, a esperança, o gosto pela vida ou a obrigação de viver impulsionam a força que há em nós. Ou será a força que impulsiona tudo isto?

 

Essa força denuncia-se nos atos que praticamos ou aos quais somos expostos. Não é possível quantificá-la nem mensurá-la à luz das unidades de medida conhecidas, mas é possível avaliar a grandiosidade em função das circunstâncias. Saberá alguém de quantos quilos ou metros precisa um condenado para se arrastar e subir (sabendo que não vai descer) os degraus que terminam no patíbulo? Que intrigante é essa força que vem, sabe-se lá de onde, que o mantém de joelhos, sentado ou em pé na espera do contacto frio com a lâmina ou da bala incandescente que lhe há de ceifar a vida! Não tem outra saída, dir-me-ão. E eu percebo, mas não ter outra saída não invalida a força presente na espera do momento final, o organismo simplesmente poderia desistir e abandonar-se à atonia. Mas não, reage até ao fim.

Conta-se que a rainha Antonieta no momento em que subiu ao cadafalso para ser decapitada terá pisado, inadvertidamente, o pé do seu carrasco. Com sincero pedido de desculpa ainda explicou que não o fez de propósito. Reação semelhante terá tido a Marquesa de Távora quando, ao porem-lhe o capuz e se soltou uma madeixa do cabelo, ela pediu para não a descomporem ao mesmo tempo que tapava um calcanhar que o vestido teria deixado a descoberto quando se sentou à espera que a decapitassem.    

O que quer que sejamos ou nos aconteça, temos em nós uma inesgotável força energética que nos muscula a alma e não nos deixa cair vencidos.

 

Cidália Carvalho

 

26
Abr19

Subtilezas (Força – 8)

Publicado por Mil Razões...

Fist-bump - Miriam Verheyden.jpg

Foto: Fist-bump - Miriam Verheyden

 

Espantoso!

No sentido de dificilmente explicável, muito dificilmente mesmo.

Há coisas, conceitos, que vivem, convivem, connosco no dia a dia, normalmente (como alguém diria, “fazem parte”), quase que desde que nos conhecemos, falamos, pensamos. De tal maneira que nem lhes prestamos atenção.

A força! À força! Não, não se trata da diferença que uma (mera?) cedilha poderia constituir. Trata-se das diferenças, e são tantas, subtis, das subtilezas no significado que há ou pode haver, num simples termo de utilização banal e corriqueira como a força.

Simples, trivial, do dia a dia. Como se define?

Pois é. A começar por o indivíduo ser sujeito ou ator. No primeiro caso será forçado, constrangido, subjugado, enquanto no segundo será dominador, perseverante, através da vontade, conseguirá alterar as circunstâncias, pôr as coisas a mexer.

Pode haver um motivo de força maior que, como sabemos, é um obstáculo intransponível que não posso superar. Ou posso estar a referir-me a uma força pública, essencial para manter a ordem e a segurança.

Também há as forças vivas da região ou as forças do bloqueio, assim como a dita força pública pode descambar ou ser instrumentalizada como força bruta.

É, posso, portanto, ser forçado ou ter a energia, a força de vontade necessária e suficiente para movimentar o que está parado, acelerar o que está demasiado lento, reorientar o que seguia na direção errada.

 

Parece-me evidenciada a dificuldade em definir uma ideia única que está por detrás da força. Estabelecer facilmente um conceito universalmente aceite e aplicável.

A força pode ter muitas subtilezas que lhe alteram o que queremos em diferentes momentos significar. De subtileza em subtileza podemos estar a ligar, sob a mesma vulgar palavra, polos opostos.

A força precisará de ser amparada pela vontade, pelos valores, pelos princípios. E estes sem ela serão quase que inoperacionais.

O melhor é assumir, pegar nas rédeas, escolher o caminho, a direção, descobrir a nossa força para mover a montanha da vida. Será um trabalho sem fim. Para sempre, mas nosso.

 

Jorge Saraiva

 

22
Abr19

Positivo vs. Negativo (Força – 7)

Publicado por Mil Razões...

Arm-wrestling - Mnanni.jpg

Foto: Arm-wrestling - Mnanni

 

Nada é linear. Aquilo que é hoje pode deixar de ser amanhã. Cada um tem a sua perspetiva de positivo e negativo assim como a forma como cada coisa influencia a nossa vida. Gosto de clichés e repito-me.

Sou pessimista por natureza, acredito que seja uma caraterística que veio com a herança genética. Apurou com a vida. Talvez seja por isso que sinto que o negativo tem um maior peso, no geral, que o positivo.

Aceitamos aquilo que temos e esquecemo-nos de agradecer, esquecemo-nos de valorizar, esquecemo-nos até de nos lembrar.

Ser otimista é meio caminho andado. Simples.

Um sorriso no meio de muitos é notado, apreciado e talvez até retribuído. Uma palavra desagradável é sentida como um ataque, mexe connosco e, possivelmente, deixa-nos a remoer.

Um elogio é apreciado, enche-nos de alegria e orgulho por um período, talvez demasiado curto. Uma crítica, por muito positiva que seja, desconforta, leva-nos a refletir. Pensamos mais sobre o assunto.

Recebemos um bónus e a alegria é imensa. Junta-se a euforia e crescem planos e sonhos. Aparece uma despesa extra e é o caos. Choramos aquele dinheiro com sentimento. Pesa-nos.

O negativo corrói-nos, aprisiona-nos, coloca-se sobre nós e empurra-nos para o fundo. Sou pessimista.

 

Vem o otimista e discorda disto tudo. Eu própria consigo discordar e ficar confusa.

A força de uma paixão move mundos, é indiscutível. E não me apetece recorrer a outros exemplos para traduzir a imensidão dessa força positiva.

Tenhamos força suficiente para o braço de ferro entre ambas, essa que nunca nos falte.

 

Marisa Fernandes

 

19
Abr19

Flores de cerejeira (Força – 6)

Publicado por Mil Razões...

Barefoot - Rawpixel.jpg

Foto: Barefoot - Rawpixel

 

Primavera

Debaixo de uma cerejeira

tudo é servido

decorado com flores

 

Flores de cerejeira no céu escuro

E entre elas a melancolia

quase a florir.

 

Matsuo Basho

 

O coração humano pede muitas coisas. Pede a rotina para ter controlo sobre as coisas e confiança para melhor habitar o tempo. Por entre a ramagem dos dias, os sonhos aguardam tímidos. Aqui e ali um raio de sol atravessa as folhas verdes e castanhas. O coração sequioso de esperança, quando as nuvens se acinzentam de chuva, interroga-se sobre o subtil mistério do viver. Pede instantes de alegria para suportar as nuvens de chuva.

Por vezes, o coração pede janelas para arejar e deixar entrar a plenitude do viver na sua efemeridade.

Ao resgatar a vulnerabilidade, abraçar a fraqueza, o quão tudo dói ou se torna demasiado, esquecemos de nos focar no momento. Os sentidos permitem isso, regar melhor as plantas para crescerem fortes. Estender o corpo a notas quentes, como a voz de quem gostamos dizer que nos ama, o frescor da água nos pés ao ritmo das ondas, o som dos passarinhos na lonjura. Este voltar a luz ao que brilha de mais pequeno, à verdade da nossa fisicalidade, permite um encontro connosco no agora e perante tudo o que nos possa assaltar, a certeza do vaivém das ondas. Neste ver o que é invisível, a esperança floresce, ancorada no viver como se estivéssemos enamorados.

No amor, o coração humano regala-se estando em aberto consigo próprio e ao outro. Se entra chuva e vento, granizo, entram também sorrisos e mimos, carinho de toda a espécie pelo espanto que é o encontro com o outro. Como quando banhamos os pés no mar, espantados face à sua beleza e intensidade, felizes por existir.

 

Maria João Enes

 

Porto | Portugal

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