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05
Mai14

Vou ter um gato (Infância – 15)

Publicado por Mil Razões...

 

Estão a dar os meus desenhos animados preferidos na televisão, mas hoje não consigo estar com muita atenção. Estou a pensar no teste de português que fizemos ontem e que acho que não me correu muito bem. Quer dizer, acho que não vai dar para ter um muito bom e se calhar a mamã vai ficar chateada comigo. Ela está sempre a dizer que os estudos são o meu trabalho e que tenho que me esforçar.

Mas ontem não conseguia concentrar-me muito bem. Primeiro foi o passarinho com a asa partida que encontrámos no recreio e que a professora disse que se calhar não sobrevive; depois foi a estúpida da discussão com a minha amiga que insistia que eu não podia estar a ler o livro tão depressa… e eu que estava a ler devagar para ela me poder acompanhar! Mas pronto, não importa… as pessoas nunca acreditam em mim e já devia estar habituada. Quem tem mais de nove anos diz que sou uma miúda e não me leva a sério… os outros miúdos não me percebem ou não querem perceber. Se calhar a culpa é minha.

Mas às vezes os dias são giros e divertidos, porque há muitas coisas para descobrir e fazer. Há flores a nascer nas árvores, há gatos e patinhos pequeninos e estrelas, e montes de livros para ler, tantos que nunca vou conseguir ler todos. Livros sobre pessoas e animais e o espaço e descobertas e pessoas muito inteligentes e coisas que nem consigo imaginar apesar de estarem sempre a dizer que tenho uma imaginação delirante.

E agora tenho que esperar pelo resultado do teste para ver se sou castigada, mas se for, paciência, porque mereço. Depois hei de ter tempo porque há muito tempo à minha frente, para estudar e brincar e tirar boas notas e ser aquilo que quiser ser quando for crescida. De vez em quando os adultos ralham-me ou batem-me por causa de coisas que dizem que eu fiz ou não fiz, e eu nem sempre entendo o que fiz de errado mas devo ter feito alguma coisa mal porque os adultos dizem que fiz… mas quando for crescida não vou fazer assim com os miúdos porque deve haver uma maneira de eles saberem como é que se faz as coisas certas sem apanhar.

Estou a pensar que deve ser muito fixe poder ser grande e ninguém mandar em mim, poder comer o que quiser quando quiser e ler quando quiser e aprender todas as coisas do mundo e arranjar um emprego a fazer coisas de que gosto, e ser feliz. Mas depois parece-me que se calhar não deve ser assim tão simples, porque os adultos não me parecem sempre muito felizes e só falam em contas e em dinheiro e parece que não têm muito tempo para se divertirem, e mesmo quando têm tempo para se divertirem parece que já não sabem muito bem o que fazer com ele.

Mas eu vou fazer melhor do que isso porque ando a aprender muito com os livros e de vez em quando na Internet, quando me deixam, e olho com muita atenção para os adultos da minha família para aprender o que é certo e errado e o que eles fazem bem e fazem mal, e só vou fazer coisas bem. Já percebi que quando somos maus ficamos mal dispostos e quando somos bons e ajudamos pessoas e animais sentimos um calorzinho cá dentro e o nosso coração parece que está a rir-se e ficamos bem-dispostos e felizes. Por isso só é preciso sermos bons.

Eu sei que às vezes não apetece nada ser boa pessoa, porque alguém nos chama nomes feios ou nos mente, ou nos engana, ou o dia não nos correu bem, como dizem os adultos. Mas eu não gosto de sentir-me triste e, apesar de algumas vezes fazer asneiras, como saltar em cima de uma secretária na sala de aulas, ou fazer cara de má a um colega mais irritante, acho que vou conseguir ser boa pessoa.

A minha avó diz que eu tenho a vida toda pela frente. Eu não sei se entendo muito bem o que ela quer dizer com isso, porque já estou a viver há alguns anos e por isso parece-me que também tenho a vida por trás. Mas sei que vou esforçar-me muito para poder ter a vida que quero quando crescer.

E, nessa altura, finalmente, ninguém me vai poder impedir. Vou ter um gato.

 

Dora Cabral

 

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