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12
Ago15

Um frio imenso (Marginalização – 19)

Publicado por Mil Razões...

MulherCongelamento-PetrKratochvil.jpg

Foto: Mulher Congelamento – Petr Kratochvil

 

Che cos'è?

C'è nell'aria qualcosa di freddo

Che inverno non è.

 

Sentou-se paulatinamente e, com o corpo, fez a cadeira deslizar um pouco até ficar colada à mesa. Pousou nela os braços, inspirou fundo, rodou um pouco a cabeça para a direita e olhou através da vidraça da janela desejando que aquele olhar a escondesse, a levasse para bem longe dos olhos mas sobretudo das mentes daqueles cinco outros marginalizados, irmanados mas com nada em comum, juntos naquele parque de estacionamento para gente enjeitada. Lá em baixo, na verdadeira zona de estacionamento, um pequeno carro azul estacionava rápido e uma carrinha branca indolente saía, sem que o condutor atentasse em quem circulava. Do outro lado, no passeio, uma menina saltava, dançava, frente a um menino, ainda mais pequeno do que ela, talvez seu irmão, preso pela mão, talvez da avó. Levantou os olhos lentamente, pelas motos estacionadas no passeio, pelas árvores de troncos fortes e folhagem maciça, pelos telhados de alguns prédios, até ao céu, de um setembro ainda quente, espesso, húmido e pegajoso para quem dele não pudesse fugir e encontrar conforto, talvez ali, sob o ar condicionado do sexto piso daquela colmeia onde nunca quis nem gostou de trabalhar, já perdeu a conta de há quantos anos.

Foi há quase vinte e sete anos que começou a trabalhar naquela empresa, de local para local. Durante muitos anos lá esteve feliz, em muitas lutas, umas grandes outras pequenas, umas importantes outras da treta, numas sozinha noutras acompanhada, numas vezes a passar o tempo que a separa da morte, noutras a ganhar vida a fazer coisas diferentes, a inovar, a antecipar, sempre com correção, tendo nisso conquistado o respeito e a admiração dos colegas que não foram completamente tomados pela inveja, pela competição, pela indiferença. Sabe muito bem, para si própria, o valor do seu trabalho, a qualidade dos seus contributos. Recordou as palavras de um colega, dois dias antes: “Se fizeram assim contigo, então poderão fazê-lo com qualquer um de nós. Ninguém está a salvo!”. Hoje tem dificuldade em avaliar aquelas palavras. Ao ouvi-las sentiu-as elogiosas, devolveram-lhe coisas boas, mostram-lhe um bom resultado, uma camaradagem que sempre quis construir. Mas hoje a sua alma está muito amarga.

Sente-a quase sempre amarga desde que o director, naquela manhã no início de maio, a informou com eficácia e celeridade de que fora sacrificada, porque alguns teriam de o ser e ela estava a jeito, assim posta sem saber por um chefe pequenino e cavernoso que durante anos acumulara inveja e negatividade. Estava dispensada pela direção, mas a empresa encontraria um lugar adequado para ela. Triste forma de o diretor a ela se dirigir pela primeira vez ao fim de anos em que a ignorou por completo, escudado na distância ao seu gabinete na capital da empresa e do reino. Questões não havia e por isso a despedida foi tão rápida como o cumprimento e a função – ao todo, nem cinco minutos. Sempre foi muito objetiva, pragmática, e sabia como estas coisas são feitas e como são resolvidas, por isso percebeu que tinha sido colocada à margem porque sim, e porque alguém, incompetente e mesquinho, a lixara. Era necessário levantar a cabeça e seguir em frente, sobre os escombros, mas com o cuidado de não calcar ninguém.

Na verdade, a amargura maior não vinha da questão central, de ter sido descartada porque sim. O sabor mais amargo tinha outra origem. Desde aquela manhã de maio que a maioria dos colegas passaram a ignorá-la, a não lhe concederem sequer um indiferente bom-dia. Agora completamente marginalizada, como se o mal de que foi vítima pudesse salpicá-los. Compreendia o mecanismo do medo, de a ignorarem, de a querem esquecer, na crença insana de que ela tinha defeito mas eles não, e que se não olharem para o lado, se não atenderem à realidade circundante, nada os afetará. Ser colocada à margem, assim, provoca um frio imenso. Era esse frio amargo que ela sentia, da alma para todo o corpo. O calor que observava pela janela pertencia a uma outra realidade, com outros protagonistas.

Foi então que decidiu que o seu lugar seria lá fora, no calor de outras lutas.

 

Fernando Couto

 

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