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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

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Destaque

Amigos do Ziki - Uma ferramenta para o pré-escolar.

31
Dez09

O dia seguinte (Natal – 15)

Publicado por Mil Razões...

 

O dia, solidário com o seu estado de alma, avança triste e cinzento.
À sua frente, o largo onde outrora seriam visíveis os tições das lareiras natalícias, serve hoje de asilo a um idoso. Cansado e doente, para ali vai e ali permanece indiferente ao tempo e à data, sem angústias metafísicas que não sejam o dar de comer aos pombos. Concentra toda a sua atenção no generoso gesto de dar de comer às avezinhas que lhe pousam nos ombros e nas mãos e lhe dão bicadas carinhosas, plenas de reconhecimento. Não repara no que o rodeia, não vê ninguém. Retribui desta forma a indiferença com que se sente tratado pela sociedade que, implacável, deixa para trás os que não podem acompanhar o ritmo frenético do chamado desenvolvimento. Não imagina que aquela mulher o observa todos os dias e que se preocupa nos dias em que ele não vai. Ela conhece-lhe os gestos, lê-lhe no rosto os desejos, as alegrias e os sofrimentos.
Da mesma forma que os pombos, também ela lhe está agradecida. Sem o saber, ele é muitas vezes a sua companhia. Enquanto o observa ocupa-se, está menos só, quase irmanada com ele.
 
Afasta-se da janela. O espelho, em tempos tão generoso e amigo, agora derruba-a mesmo numa olhadela furtiva. Não foge da imagem que lhe devolve, explora-a. Abre um risco bem no meio do cabelo. Lá está um, de cor clara quase branca, distinguindo-se do conjunto pelo brilho. Abre novo risco mais ao lado e lá está outro e mais outro e ainda outro. As ilusões abandonam-na e dão lugar aos cabelos brancos.
Cansados, os olhos reflectem a desilusão de mais um Natal que queria que fosse de amor e tranquilidade. Não sabe que força interior insiste em acreditar que ele vai estar à altura da comemoração e vão ser uma família igual às outras. Não sabe porque se ilude… Muito jovem, permitiu-se ter sonhos. Sonhou com Natais fantásticos, em casa, onde reuniria uma grande família, ou numa versão menos tradicional, a viajar pela Europa e a cumprir as tradições dos lugares por onde passava, quer fosse a comer cachorros quentes, junto à Torre Eiffel, quer fosse a beber vinho quente com canela, na Checoslováquia. Mas bastou que ele tivesse aparecido na sua vida para que todos os seus sonhos se evaporassem como éter no ar. Resiste mais uma vez a este pensamento e olha em volta, quer vislumbrar a concretização de um sonho, um só que seja... 
A sala simples, muito simples, testemunha silenciosa da noite anterior, está hoje mais triste e feérica. Na mesa, ao centro, o bolo-rei que ele trouxe mas que ninguém comeu. Ninguém se sentia digno de comer o bolo do “rei”... A um canto o pinheiro “desbraçado” cumpriu com a sua missão: dar à casa um ar festivo. É um pouco desengonçado mas ainda assim bonito. Lembra-se de como o encontrou no lixo no ano anterior e de como fez a felicidade dos filhos quando apareceu com ele em casa.
Não vai desistir de viver a sua vida que não é de sonho nem sonhada. Se como dizem “não é possível ficar parado, que quando não andamos para a frente estamos, de facto, a andar para trás”, então vai mesmo ter de andar para a frente porque do passado quer ela fugir, assim o menino Jesus a ajude, porque a coragem, bem, a coragem ela sabe onde encontrá-la...
 
Do outro lado da casa chegam-lhe vozes alegres; vão-se aproximando e em algazarra, todos à uma, reclamam-lhe a atenção, querem mostrar-lhe os presentes que o menino Jesus lhes deixou no sapatinho. São os seus filhos, os seus “duendes” como carinhosamente os trata, a concretização do seu único sonho, a personificação da sua coragem.
 

Cidália Carvalho

 

29
Dez09

Um Natal como os outros (Natal – 14)

Publicado por Mil Razões...

 

O meu Natal é um bocadinho estranho... é um Natal em que eu estou com uns e “abandono” outros. Eu tenho uma família cá (a de sangue) e uma família lá (a que criei) e nunca as consigo juntar. Há barreiras, muitas barreiras.

Há barreiras económicas, sociais, físicas, legais, geográficas.
E por isso, o meu Natal é cá ou lá, mas nunca é um Natal por inteiro. É o Natal em que prescindo de uns afectos para ter outros, um período em que por muito que eu gostasse de estar verdadeiramente onde estou, nunca estou. O meu corpo está cá e um bocadinho do meu coração também, e o resto está lá, em pensamento e emoção.
 
Eu tenho sempre que decidir onde vou passar o Natal e nunca, até hoje, fiquei feliz com a decisão. Tenho que decidir se tenho um Natal com neve ou sem neve, em inglês ou em português, com os abraços e beijos de uns ou de outros. Tenho que decidir que prendas é que dou pessoalmente e quais envio pelo correio. 
O cá e o lá de que falo são universais, há muita, muita gente como eu por aí, a passar Natais em que se sente obrigada a estar feliz e agradecida pelos que estão presentes, mas não consegue deixar de pensar nos que não estão. Porque emigraram, porque não vivem aqui e nem sempre há como reunir todos os que amamos, ou até porque simplesmente morreram.
 
O meu Natal é feito de amor e gratidão e saudade e sentimentos de culpa por ter tantas saudades e não me conseguir dar por inteiro aos que estão comigo nem ao espírito de Natal.
O meu Natal não é infeliz... é apenas estranho, amargo e doce ao mesmo tempo, com o calor do amor dos que estão comigo em presença e dos que estão comigo em espírito. É um Natal com fantasmas que eu amo e pessoas ausentes que eu amo ainda mais.
 
Espero que tenham tido todos um Natal lindo, perfeito, com muito, muito amor, e mais presenças dos que ausências.
 
Dora Cabral
 
27
Dez09

Um Natal diferente (Natal – 13)

Publicado por Mil Razões...

 

 

Acordei cedo; a ansiedade era tanta que quase pulei da cama. O pai já saiu, o meu irmãozinho ainda dorme, a mãe está na sala de volta dos presentes. Embrulha-os meticulosamente com mãos de fada, tudo fica perfeito. Pergunto-me como pode alguém fazer algo tão belo e chorar de tristeza, ao mesmo tempo. Tento animá-la, digo-lhe que é Natal e que este ano a vamos ter em casa. Noutros anos para trás, explicou-nos que tinha que trabalhar, que há pessoas doentes 365 dias por ano e que tem sempre de haver alguém que assegure as suas necessidades. Assim, todos se sacrificam e ficam longe dos seus entes queridos em muitos momentos especiais, até ela; já nos habituámos. Mas este ano não; este ano temo-la connosco.
 
Gostava que o pai sentisse o Natal. Gostava que, pelo menos nesta altura, as coisas em casa fossem pacíficas e felizes. Está sempre tão zangado… já não sei se é por nossa causa, se é a vida que o desilude, ou se ele simplesmente perdeu o rumo há mais tempo do que imagina. Sei apenas que vivemos no medo, no terror absoluto. Mesmo no Natal.
No entanto, uma parte de nós sente alegria também. Gostamos dos enfeites, das luzinhas a piscar, da árvore cheia de bolas coloridas mas, sobretudo, vibramos com o momento em que fazemos, juntos, o presépio com musgo verdadeiro, a cabana a preceito, o riacho e todas as personagens importantes! Gostamos da comida da nossa mãe, do cheiro do cabelo dela quando nos abraça, das músicas natalícias que cantarola connosco.
O meu irmão é pequenino, saltita pela casa atrás do cão que insiste em morder as patas dos carneiros do presépio. O dia pacífico com a mãe passa num ápice e logo se antecipa a chegada do pai a casa. O silêncio vai-se instalando dentro de nós enquanto a televisão passa um programa qualquer alusivo à época. Olho para a porta um cento de vezes; não há menino Jesus que nos valha se o pai entrar por ela adentro a cair.
A minha mãe prepara o jantar: tradicional, até aos dias de hoje, servido numa mesa bonita e aprimorada. Cada gesto dela contrasta claramente com o semblante carregado e a tensão nas palavras que balbucia. Quando a chave roda na fechadura, o mundo entra em suspensão. Gela-se-nos o sangue.
 
Não mexe, não respira, não pestaneja.
Ele caminha (leia-se: cambaleia) até à sala e grunhe qualquer coisa sobre o Natal e o bolo-rei que traz debaixo do braço. Afinal, trouxe o que lhe pediram e ninguém morreu, logo, para quê exageros? Para quê chatearem-no quando não quer ser chateado, questionado, beliscado sequer? E tem razão: ninguém quer chateá-lo, de bom grado seríamos invisíveis. Parece que desejamos todos a mesma coisa mas, por qualquer estranha razão, acabamos a dizê-lo em linguagens diferentes e a coisa descamba, em menos de um fósforo.
Neste dia, ironicamente, somos poupados da dor do corpo, massacrado dos dias anteriores, porque o pai ainda está em processo de “mea culpa”. Aos poucos, vemo-lo adormecer com a cara em cima da mesa e a tranquilidade regressa assim que o sentimos a dormir profundamente.
Aninhamo-nos no sofá, no melhor colo do mundo, e agradecemos por mais este dia em que nos temos uns aos outros. Neste Natal “só” se carrega a dor da alma e esta vai-se diluindo no poder balsâmico do abraço da minha mãe. Nela, com ela, aquele momento é perfeito.
 
É o melhor Natal que podia alguma vez pedir…
 
Alexandra Vaz
 
25
Dez09

Será Natal? (Natal – 12)

Publicado por Mil Razões...

 

A Ana é uma sem abrigo. Já a conheço há mais de trinta anos. Sempre igual a si mesma.
Contam-se histórias de que é de “boa família”. Teve um filho. Tiraram-lho. E a Ana entrou no seu mundo privado. As ruas são a sua casa. Alimenta-se do que aparece, até em caixotes do lixo. Está quase sempre bem disposta. Morena pelo sol de Verão e pela sujidade da sua pele. No Inverno, cheia de roupa. Faz frio.
 
Nem sei se ela sabe o que é, ou se é Natal. De qualquer forma, a noite de consoada deve ser “uma chatice” para a Ana – não andam pessoas na rua para lhe darem um cigarrito…
 
Há uns anos fui, com os meus dois filhos, na noite do dia 24 de Dezembro, ao encontro da Ana. Levei-lhe uma pequena ceia de consoada onde nada faltava. Ah! E mais dois maços de tabaco e uma cervejita para aquecer.
Achei que devia isso à Ana. Achei que devia isso aos meus filhos.
O Natal não é receber, é dar. Principalmente Amor.
 
Quem vê hoje a Ana, não deve pensar que ela já foi uma criança e que deve ter tido Natais muito felizes com a sua família. E fico sempre a interrogar-me – será que a Ana terá algum vislumbre dos seus Natais de criança? Do sapatinho na chaminé e dos presentes que recebia? Sim! Porque o Natal já teve significado para a Ana algures na sua existência!
 
A Ana continua a sua vida sempre igual todos os dias. Para ela é sempre Natal … Ou não! As luzes da cidade só brilham uma vez por ano!
 
Manuela Sousa Santos
 
24
Dez09

O que é o Natal para mim? (Natal - 11)

Publicado por Mil Razões...

 

O Natal para mim é giro porque recebo prendas e estou com a família.
 
A meio de Novembro já estou a pedir à minha mãe para fazer a árvore de Natal, mas não vale a pena porque em minha casa só a fazemos no dia 8, que por acaso coincide sempre com a festa de anos de um amigo meu. O que mais prazer me dá ao fazer a árvore de Natal é por as fitas, porque posso atirá-las bem alto, mas antes disso gosto de por os ramos da árvore artificial, direitos.
 
Embora goste do bacalhau, os doces, como as rabanadas, o creme, que prefiro sem ser queimado, é o que é melhor da comida do Natal. Mas também há outras coisas boas.
 
Gosto de estar com a família para brincar e elas, ou eles, trazerem os tais doces. Quando recebo as prendas, gosto logo de as abrir e começo logo a brincar com elas. Mas só começo a brincar com uma de cada vez.
 
O que me deixa triste é saber que existem famílias que não podem festejar o Natal, porque não têm dinheiro, uma casa ou mesmo família. Eu gostava que essas famílias também pudessem festejar o Natal e gostar dele como eu gosto.
 
Eu desejava que o Natal fosse Feliz de festejar.
 
André
(9 anos)
 
22
Dez09

Um Natal que ameaçou ser diferente (Natal – 10)

Publicado por Mil Razões...

 

Ressalvando as diferenças de grau e intensidade que fazem a singularidade de cada um, diz-se que todos temos necessidade de rotinas e hábitos; que nos estabilizam, nos dão segurança, e até identidade. E eu, que gosto de variar, de fazer coisas diferentes e até as mesmas coisas de formas diferentes, não posso senão concordar.
 
Este meu Natal ameaçou ser diferente dos outros, em algo que o define. Felizmente ainda não é desta, mas agora sei (não há como não) que um destes anos vai ser mesmo – já não será a casa dos avós e serão menos pessoas à mesa. E haverá que aprender a amar o que vier a seguir.
 
No Natal também há coisas pelas quais custa passar. Mas talvez no Natal seja mais difícil, por ser por definição uma época de celebração, de alegria. Penso que mesmo quem não é cristão sem dificuldade se deixará contagiar pelo que tem de festa, de anseios de paz, comunhão e de uma vida melhor vivida. Simultaneamente, parece que a dor se torna mais palpável, a solidão mais pesada, mais presente a consciência de que ainda há muito por fazer.
 
E, de Natal em Natal, lá vamos avançando.
 
Ana Álvares
 
20
Dez09

Onde encontrar carinho? (Natal - 9)

Publicado por Mil Razões...

 

Já lidava melhor com as recordações desse dia trágico de Dezembro passado. É certo que perdera um braço para sempre e que o tronco exibia ainda as marcas causadas pelo violento impacto da queda de mais de 4 metros. Manter-se de pé era tarefa outrora simples que só conseguia cumprir à custa de muito apoio.
 
Atirado da varanda do segundo piso directamente para o caixote do lixo das traseiras, aí ficara toda a noite torcido entre sacos de plástico e vazias embalagens reluzentes, até ser recolhido por mãos carinhosas de uma família de parcos recursos. Destinaram-lhe um quarto minúsculo nas águas-furtadas. Da janela, virada a poente, espreitava as ondas dos telhados vizinhos e alcançava o mar e o sol de fim de tarde. Aí se recompôs das feridas do corpo e da alma, e passou a viver sem sobressaltos.
 
Na véspera de Natal, levaram-no para a sala de jantar e encheram-no de cuidados e atenções. Sentiu-se bem no meio de gente que o estimava e acarinhava. Sentiu alegria, paz e amor como nunca antes experimentara.
 
Acomodado num canto da sala, observara-a pela primeira vez. Era simples, muito simples. Uma mesa, tão velha com as quatro cadeiras que a ladeavam, um louceiro pequenino que parecia de brincar e um candeeiro enorme, desproporcionado no tamanho e na luz que projectava sobre a jarra de flores. Nas paredes laterais, suspensas no espaço e no tempo, fotografias inclinadas de gente antiga, cruzava olhares fixos, amarelecidos e pouco nítidos.
 
Como era diferente da casa que conhecera um ano antes! Tão repleta de peças caras que não sobrava espaço para os sentimentos. Onde se confundia conforto com felicidade. Onde o Natal era sobretudo uma referência de calendário, fugaz como todas as datas que se esgotam em si mesmas. Onde, passado o dia convencionado para ser Natal, havia que recolher rapidamente os enfeites, o presépio, as velas, as iluminações e os anjinhos papudos, únicos olhares inocentes daquela casa. Vazias embalagens reluzentes, das prendas apressadamente recebidas, iam juntar-se aos sacos plásticos a abarrotar de restos e sobras. E na fúria restauradora da ordem de todos os dias, nem houve tempo para guardar o pinheiro de Natal. Foi atirado da varanda, directamente para o caixote do lixo das traseiras onde ficaria toda a noite, até ser recolhido por mãos carinhosas…
 
José Quelhas Lima
 
18
Dez09

Se o menino Jesus passar (Natal – 8)

Publicado por Mil Razões...

 

- O Natal já não é o que era. - disse ele.
- Pois não... – disse ela.
E juntos olharam em frente para ver melhor o fim da estrada de paralelo que dava acesso à casa da avó. Estava escuro. E frio. O largo em frente à casa estava vazio. O poste velho ao fundo iluminava a rua.
- Não se vê ninguém. – disse ela.
Estacionaram o carro e saíram.
Era o fim de tarde de 24 de Dezembro. O céu estava limpo e ameaçava nevar. O largo continuava vazio. Era aqui que dantes se fazia o fogo de Natal. Os rapazes da aldeia carregavam a lenha durante o dia; à noite, depois da ceia, as famílias juntavam-se à volta do fogo, cantavam e dançavam até de manhã. Não havia prendas. O pai dizia que não havia melhor prenda que o farto jantar de Natal. Mas eles não iam dormir sem deixar o sapato na chaminé (não fosse o menino Jesus lembrar-se de passar por ali!). A verdade é que no dia seguinte havia sempre alguma coisa dentro do sapato: uns rebuçados, umas chicklets, um chocolate...
 
Agora era tudo diferente. O pai faleceu, a avó estava tão doente que já nem se lembrava do nome deles. Mas a casa, o largo, o poste, estavam na mesma, talvez mais velhos e gastos, um pouco despidos, mas iguais.
Treparam as escadas que davam acesso à casa e entraram na cozinha. Por momentos sentiram o calor do lume aceso com os potes com as batatas e o polvo a ferver, o cheiro das rabanadas acabadas de fritar e o pai a dizer: - Feliz Natal!
 

Joana Gonçalves

 

15
Dez09

Natal ao lado (Natal – 7)

Publicado por Mil Razões...

 

Quando pensamos no Natal, a primeira imagem que nos surge leva-nos para os convívios em família alargada, com todas as gerações da família reunida.
As matriarcas na cozinha a ultimar as doçarias da época, os patriarcas a discutirem o mais recente acontecimento político do panorama nacional enquanto vão bebericando um cálice daquele Porto antigo que só respira nestas alturas, e as crianças a correrem e a explorarem tudo o que o tempo e os adultos lhes vão permitindo, enquanto não chega a hora de rasgar aquele papel mágico que provoca labaredas de mil e uma cores na lareira que a avó diligentemente acendera para manter a família quente e confortável.
 
No entanto, tal como tudo na vida, também o Natal é mutável e vai-se pintando de tonalidades diferentes ao longo da vida...
Hoje em dia, tenho um Natal um bocado ao lado do que é tradicional. A Avó deixou de existir, deixei de voltar à casa da Avó e comecei a viajar nesta época para diferentes destinos com a família mais próxima.
Se no início tudo isto me soava algo estranho e me sentia deslocado e com saudades dos natais de criança, com o tempo também esta forma de Natal se foi tornando tradicional e familiar, apenas um pouco ao lado.
Deixou de haver troca de prendas, mas passou a haver a felicidade de conhecer novas formas de viver o Natal. Deixou de haver filhoses e rabanadas, mas passou a haver cachorros quentes debaixo da Torre Eiffel. Deixou de haver toda a família alargada junta, mas passou a haver um encontro de culturas em cada catedral visitada. Deixou de haver o cálice de vinho do Porto, mas passou a haver a caneca de vinho quente com canela que aquece a noite fria enquanto não chega a hora da Missa do Galo em Checo.
No entanto, por mais diferenças que encontre entre os Natais de hoje e os de antigamente, existem pontos que se mantêm.
A ansiedade de ver o Natal chegar, estar com as pessoas que nos querem e que tanto queremos, mas acima de tudo, o que se vai mantendo são a memórias boas que vou construindo a cada Natal que vai passando. E hoje acredito que mais importante do que qualquer prenda material que possamos receber, é o que vivemos nesta época que faz com que seja tão especial.
 
Alexandre Teixeira
 
13
Dez09

As emoções de Natal (Natal – 6)

Publicado por Mil Razões...

 

O Natal chega todos os anos, à mesma hora, no mesmo dia. E ainda assim, previsível como é, desperta-nos, motiva-nos, leva-nos a reflectir e a pensar, anima ou entristece-nos. Todos os anos, esta data vem recheada de sensações, emoções e sentimentos antagónicos: felicidade e tristeza, ansiedade e paz, preenchimento e vazio, calor e frio.
Com diferentes significados – consoante as pessoas, as histórias, os passados, o momento actual, o futuro que se aproxima – o Natal provoca sentimentos ambivalentes e ambíguos em muitas das pessoas que o vivem.
É a saudade que se instala, por todos os Natais passados, felizes, que nunca se irão repetir, nem nunca sairão da memória. É a expectativa de um novo amanhã (talvez melhor, talvez pior), a incerteza do que virá, os desejos de um futuro melhor. É o regresso àqueles que amamos e que nos amam, o reatar das ligações significativas. É a curiosidade das prendas a caminho, o dar e o receber. É a alegria de reunir a família e/ou a tristeza de reunir a família. É tudo e não é nada. É bom e mau. Positivo e negativo.
 
De todas as festas do ano, o Natal é sem dúvida a que cria maior alteração emocional, quer positiva, quer negativa, em todas as pessoas que vivem esta época. Mas porquê?
Pela importância dada à família? Pela importância dada ao consumo e ao poder de compra? Pelas expectativas altas (às vezes, irrealistas, até) criadas em torno desta época? Pelo final do ano civil em curso e o início de um novo ano? Por todos estes aspectos e muitos mais...
A verdade é que o Natal chega, para alguns de nós, como o momento da verdade, o “vai ou racha” da rotina que se instalou durante o ano e que não se quer repetir, uma fase de transição que representa a possibilidade de uma mudança para melhor. E enquanto dura esta época festiva, enquanto duram os festejos de Natal, visualizam-se as possibilidades, deixam-se voar os sonhos, sempre na esperança de um amanhã mais meigo, mais recheado e colorido.
 
Ana G.
 

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