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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

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06
Abr10

Procurar a liberdade (Vida em Sociedade – 10)

Publicado por Mil Razões...
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Aos dez anos já Eduardo sabia o que queria ser quando fosse grande. Queria ser médico e a sua escolha estava fundamentada. O médico, por um lado tinha um conhecimento vasto e científico, o que o atraía e fascinava, e por outro lado utilizava o seu conhecimento para ajudar pessoas, para salvar vidas, o que lhe dava a perspectiva de plena satisfação pessoal.

Aos onze anos já Eduardo entendera que ser médico significaria ser escravo da sua profissão, pois não seria capaz de se negar a ninguém que dele necessitasse. Escolheu então um outro caminho: ser engenheiro. Esperou que tivesse um nível equivalente de conhecimento científico. Já sabia que não teria o envolvimento humano do médico, não ajudaria directamente ninguém, não salvaria vidas. Mas poderia ter uma vida mais sua, mais livre.

E como seria se não conseguisse? E se os seus pais não tivessem como pagar-lhe o curso? Que escolhas lhe restariam?

Conseguiu. E começou a trabalhar. Ao fim de alguns anos tinha já um bom estatuto, com um bom rendimento.

 

Aos trinta e poucos anos começou a sentir a falta do lado humano, de mexer com pessoas, de tentar minorar sofrimentos. Desejou aprender coisas novas, criar, inovar, mas para aliviar as angústias e os medos dos outros.

Com mais alguns anos vividos entendeu que as pessoas eram a matéria que queria, de facto, trabalhar. Porque não percebeu isso mais cedo? Há um tempo para tudo e tudo necessita de ser amadurecido. Queria abandonar os números, as máquinas, os loucos objectivos, o efémero comercial, a falsidade dos sucessos, a mentira das excelências, o artificial do espectáculo encenado para vender um pouco mais, a qualquer preço. Queria dedicar-se às pessoas, às suas necessidades básicas: emoções, afectos, sentimentos, saúde, dignidade, relacionamento, integração.

Mas, como fazer para mudar de vida? Como perder estatuto, como perder rendimento? Como pagar as contas? Como cuidar da família? Como assegurar o futuro dos filhos?

Foi então que Eduardo percebeu que não tinha escolha. O passado definira e condicionara o seu futuro. Eduardo percebeu que se tornara, voluntariamente, num refém. Num refém em busca de liberdade.

 

Fernando Couto

 

09
Mai09

Escolher

Publicado por Mil Razões...

 

Reflectido na margem de um riacho é possível ver o céu…
Enquanto as nuvens se movem para Oeste, o riacho corre para Este; conseguimos assistir a um desencontro harmonioso.
 
Fechemos um olho, espreitamos para dentro de um tubo redondo e conseguimos ver o deformar e formar de formas de todas as cores: quadrados verdes dentro de triângulos azuis, hexágonos que contornam uma circunferência vermelha a qual, de repente, se transforma numa pinta rosa e assistimos a uma impossibilidade colorida.
 
Fitando um espelho procuramos o lado direito de um rosto e afagamos o lado esquerdo de uma imagem reflectida num pedaço de vidro, e verificamos que com facilidade se troca o evidente.
 
O que não deveria acontecer… acontece, o impossível torna-se no possível e a facilidade numa constante.
As experiências de vida vão-se sucedendo e formando vivências que fazem parte de um percurso que se iniciou com o primeiro berro, mas que apenas ganham consistência no momento em que é possível armazená-las em forma de memória.
A vida flui como a água de uma nascente, seguindo um sentido, mas os sonhos e os desejos não se prevêem e podem, muitas vezes, percorrer o sentido inverso e acontece o que não deveria acontecer, viver uma vida que não faz sentido.
 
A vontade apenas existe, sem haver regras ou normas para a definir. A vontade faz com que se cometam actos irreflectidos e o impossível tornar-se o possível.
Não! Sim! O que parece mais fácil é evitar o confronto com aquilo com que não se concorda, com o que não se planeia, com o que não se enquadra…
Mesmo que aconteça o que não deveria acontecer, quando nos vemos a viver uma possibilidade que sempre foi impossível, deveremos ter a coragem de esquecer a facilidade e escolher apenas o queremos.
Mesmo que essa escolha se traduza num adeus permanente e num afastamento definitivo.
 
Susana Cabral

 

Porto | PORTUGAL

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