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06
Jul15

Pertencer (Marginalização – 3)

Publicado por Mil Razões...

ThinkingWoman-GeorgeHodan.jpg

 Foto: Thinking Woman – George Hodan

 

Ela soube do evento no próprio dia. “Hei!, é verdade, esquecemo-nos de te avisar, mas hoje realiza-se o jantar anual da empresa. E, claro, queremos que vás. É importante cobrir o evento, fotografar, ou fazer um vídeo. Podes levar a tua máquina fotográfica? Encontramo-nos logo!”

Por uns largos instantes, ela ficou sem saber o que dizer. Estava surpresa. Com tudo. O esquecimento, o convite, o propósito do convite.

Ela já sonhara com um evento destes algumas vezes. Com aquele dia em que participaria numa atividade informal, em que pudesse conhecer melhor os colegas, dar-se a conhecer, de forma descontraída. E até poder despir aquela “capa” que usava diariamente para se proteger do desconhecido.

“E logo hoje, que eu tenho dentista!” Não é que o dentista fosse importante. Mas aquilo que concebera para aquele momento não estava a corresponder… naturalmente, sempre a fantasiar aquilo que não existia! Francamente!

Ligou para o dentista e adiou a consulta. E, de mansinho, foi perscrutando os colegas, entusiasmados com o jantar. Um pouco timidamente juntou-se ao grupo feminino com quem partilhava o piso de trabalho. Entre risadas e piadas, recordavam-se os anos anteriores, faziam-se prognósticos para a noite.

Ela tentou saber: “ Então, e como é que vocês costumam fazer? Vão ao cabeleireiro, trocam de roupa ou vão diretas daqui para o restaurante?”

“Cabeleireiro? Não! Isto é muito informal; há pessoas que vão diretamente daqui, outras que vão a casa. Mas ninguém se produz nem nada disso!” – afirmou convicta a mais velha daquele grupo de 3.

“Eu cá vou a casa, mas vou deitar-me no sofá até à hora de sair e nem os sapatos vou trocar!” – lançou decidida uma jovem colega.

Num misto de desilusão e alívio correu para casa quando terminou o dia (mais tarde do que o previsto). E no fim até agradeceu o facto de não ter que se produzir para aquela noite, pois entre os miúdos carentes de afeto, o alarme da casa da vizinha a buzinar-lhe os ouvidos e o marido pouco cooperante, ela apenas teve tempo de trocar de colar (o raio do colar que usara até então estava com a presilha avariada e teimara em cair todo o santo dia!).

Ofegante e de máquina em punho, apressou-se a chegar ao local combinado, já com 15 minutos de atraso. Estacionou com facilidade, tentando identificar algum carro conhecido. Entrou no restaurante a correr, mas a pressa era inútil. Tinha sido a primeira a chegar.

Lentamente, as primeiras colegas foram chegando: salto alto, batom, cabelos apanhados… quase não as reconhecia (também, pudera, só trabalhava na empresa há cerca de 6 meses, o que não é tempo suficiente para conhecer alguém!).

Começou a fotografar, consolando-se com a ideia de que ficaria sempre atrás da objetiva. Ao desfile juntaram-se as colegas de piso, igualmente vestidas para a ocasião. E, ao vê-la, soltaram uma gargalhada.

“Então, trocaste de colar? Isso é o quê, uma coleira que o teu marido te pôs para não ires para muito longe?” Ela sorriu e entrou na brincadeira. E jantou, sem despir a “capa”. E depois do jantar, alinhou nas bebidas. Sim, porque era importante registar o momento! E todos posavam para as fotografias, formando grupinhos, cada qual mais animado que o outro.

À medida que a noite ia avançando, aquela alegria que imaginara para aquele momento teimava em não surgir; a descontração também não. Deu por si a não saber o que dizer, por isso foi ficando calada. Sentiu-se mal por estar ali, como se não pertencesse àquele ambiente.

E quando o grupo decidiu rumar a uma discoteca (Ah!, o que ela ansiava por voltar a uma discoteca, após 3 anos de exílio materno!), ela viu ali a oportunidade para se escapar. O novo destino não apresentava condições para se fazer reportagem fotográfica, por isso ela já não ia fazer falta.

Assim, após uma despedida / desculpa cortês, rumou até casa.

Quem sabe, para o ano…

 

Sandrapep

 

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