Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

Destaque

Amigos do Ziki - Uma ferramenta para o pré-escolar.

04
Ago14

Para sempre delinquente (Delinquência – 15)

Publicado por Mil Razões...

 

O meu nome é Maha al-Sharif, vivo na Arábia Saudita e ontem fui presa por cometer um crime. Fui apanhada a conduzir, e no meu país só os homens podem conduzir. Safei-me com uma noite de encarceramento porque o meu marido é, simultaneamente, uma pessoa importante e um marido compreensivo e, como foi a primeira vez, moveu influências e mandou irem-me buscar. Quando cheguei a casa, bateu-me com um cinto, para me ajudar a ganhar juízo. Já sei que vai demorar muito tempo para ter coragem de me voltar a arriscar a sair de casa e sobretudo, tornar a ter oportunidade de colocar as mãos num volante. É que, se me tornam a apanhar, não me safo tão facilmente.

 

Chamo-me Feriha Kulin e sempre quis ser médica; adoro o cheiro a farmácia, os instrumentos cirúrgicos, o bulício dos Hospitais e, sobretudo, pessoas. Pronto, e puzles para resolver, do género, fratura exposta ou falha cardíaca. Chamem-me estranha… mas só quero ir salvar vidas. Fui inscrever-me na faculdade. Bateram-me, empurraram-me, correram-me à vergastada. Diz que só os homens devem estudar e que o lugar das mulheres é em casa, a tomar conta do marido e dos filhos. Diz que afinal sou louca. E agora estou internada num hospício. O meu pai trouxe-me. Diz que sou a vergonha da família.

 

Eu sou a Laleh. Há tempos passeava no parque da cidade, estava um lindo dia de Primavera. Ia de mão dada com a minha namorada. Ela disse alguma coisa simples e bonita como ela. Eu adoro-a. Dei-lhe um beijo. Demos um beijo rápido, envergonhado, a medo, a correr, como as duas criminosas que somos. Toda a gente sabe que aqui em Teerão a punição para a homosexualidade é a morte. Ela foi enforcada ainda antes de mim, eu fui obrigada a ver. Agora estou aqui nesta cela imunda, à espera que levem o meu corpo para o mesmo destino. Que seja em breve, por favor, porque a minha alma já foi.

 

O meu nome era Jehan Bakhsh e tinha quinze anos. Fui comprar especiarias à mercearia, já era um pouco tarde mas a minha mãe insistiu porque o meu pai, o meu marido e os meus irmãos estavam a chegar a casa para jantar e vinham com fome do trabalho, e era importante terem uma refeição decente. Aqui no Paquistão as mulheres têm que ter cuidado quando saem à rua sozinhas, mas eu tinha sempre cuidado. Já estava a regressar quando fui encurralada numa esquina por três jovens. Ainda imberbe, um deles. Mas todos muito decididos, muito cheios de si e de coisas para provar. Seguiram-se horas que não posso contar, porque nem consigo voltar a esse lugar. Consegui escapar com vida e voltei para casa. A minha família estava preocupada. Quando perceberam o que se passara, os homens da família levaram-me para as traseiras da casa. Chamaram-me nomes que também não ouso repetir, explicaram-me que a culpa era minha, que as mulheres são todas umas meretrizes e que eu era uma adúltera e uma desgraça insuportável para o bom nome da família. A seguir, mataram-me ao pontapé.

 

Eu nasci no Sudão e o meu pai chamou-me Meriam. Dizia sempre que eu era a sua luz. Depois os anos passaram e eu apaixonei-me. Para mim este amor vale tudo. Fiquei grávida. O meu amado é cristão, eu não. Fui presa, estava grávida. Porque ele tem uma fé diferente chamaram-me adúltera e levei cem chicotadas por ter casado com um cristão. Consegui sair do país com a minha família. Mas sei que não posso voltar nunca mais.

 

Dora Cabral

 

1 Comentário

Comentar Artigo

Porto | PORTUGAL

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Equipa

Alexandra Vaz

Ana Martins

Cidália Carvalho

Ermelinda Macedo

Fernando Couto

Jorge Saraiva

José Azevedo

Landa Cortez

Leticia Silva

Rui Duarte

Sandra Pinto

Sandra Sousa

Sara Almeida

Sara Silva

Sónia Abrantes

Tayhta Visinho

Teresa Teixeira

Calendário

Agosto 2014

D S T Q Q S S
12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D

Comentários recentes

Links

Amigos do Mil Razões...

Apoio emocional

Promoção da saúde