Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

29
Mai15

Os nómadas (Dinheiro – 6)

Publicado por Mil Razões...

WalkInTheFog-GeorgeHodan.jpg

 Foto: Walk In The Fog - George Hodan

 

A geração nómada é agora uma espécie em vias de extinção. Outrora teria sido a comunidade mais alargada, que prosperava em diferentes partes do globo. Após uma era de catástrofes naturais, em que vastas áreas terrestres se tornaram inóspitas, a autoridade dourada conseguira mobilizar os humanos em fortalezas protegidas, mas altamente controladas em que, por troca de dinheiro e conforto, nenhum dos humanos não poderia sair além dessas fronteiras, submetendo-se às regras das muralhas. Muitos nómadas capturados em terrenos próximos dessas fortalezas, acabariam por sucumbir e tornarem- se, meramente, humanos.

Para controlo das massas proliferava agora a ideia de que os nómadas eram, apenas, um mito. Nos livros de História os nómadas surgiam na secção “Crenças e deuses”, difundindo a ideia de que os nómadas eram personagens criadas por humanos, desesperados pela fome que alastrara depois dos constantes terramotos que assolaram toda a Terra. A imagem do retorno às zonas desvastadas e desprovidas de qualquer recurso, contribuiu para que os pais confirmassem junto das crianças a inexistência ou desconhecimento total de tais seres. A pouco e pouco, esqueceram-se dessas ligações. Apesar de humanas e das constantes confirmações adultas de que os nómadas não passavam de um mito, ainda assim, as crianças sentiam um enorme fascínio por esses seres. Devido a esse fascínio e à quantidade de nómadas capturados que se corrompiam, a autoridade dourada considerara prudente deixar algumas linhas alusivas a estes seres nos livros de História, para que pudessem classificá-los de crenças irreais e contornar a imaginação infantil.

 

- Já há algum tempo que permanecemos aqui. Temos de continuar caminho. Não podemos viver sempre escondidos – disse assertivamente.

- Mas, eles virão atrás de nós – respondeu com desespero.

- Não, enganas-te. Virão atrás do que transportamos. Nunca te esqueças disso! – corrigiu.

- Mas eles não nos podem tirar o que carregamos! – exclamou.

- Não serão eles a tirar-nos. Poderemos ser nós a desistir. A tentar-nos. Devemos continuar caminho! – prosseguiu.

- Desistirmos? Como assim? Nós somos nómadas, o sonho vive em nós. – disse incrédulo.

- Lembra-te, houve um tempo em que todos os humanos eram nómadas. Passo a passo foram fixando-se e submetendo-se à autoridade dourada. Abdicaram do sonho em prol da autoridade. O poder sugou-lhes as réstias de sonho que carregavam. Tornaram-se, apenas, humanos. – explicou.

- Não deixarei nunca que me roubem o sonho. – afirmou.

- Não te iludas mais uma vez. Não serão eles a roubarem-te. É o brilho do dinheiro que te tenta. Só se acreditares, com todo o teu ser, no sonho que transportas, poderás resistir. Caminhemos, a nossa missão persiste. Ainda existem humanos com réstias de sonhos. – recomendou.

- Mas, eu acredito no meu sonho! – exclamou.

- Deixa-me que te explique. Eu já vi acontecer. Primeiro, defendes com todo o teu ser o teu sonho. Aos poucos, vão mostrando como o dinheiro te permite fixar e não te cansares com caminhadas, caminhos perigosos e até escassez de recursos para o teu bem-estar. Depois, dizem-te que não precisas de abdicar de todo o teu sonho, só de uma parte. Aí é que está o perigo. A partir do momento que te submetes ao poder do dinheiro, foste corrompido. Depois é só uma questão de tempo. Não, porque és mais forte ou mais fraco. Mas porque duvidaste e escolheste o fácil. Antes achava que era o dinheiro, em si, que corrompia os nómadas. Mas não é o dinheiro. É aquilo a que este dá acesso. Uma ponte para o esquecimento do que a caminhada traz ao sonho. É o poder de esquecer. E isso só tem um final - a morte do sonho. – disse calmamente.

- Mas, porque é que eles nos querem corromper? Porque somos perseguidos? – perguntou exaltado.

- Talvez porque, no fundo, saibam que o que transportamos é muito mais valioso do que o poder que eles ostentam. Já pensaste, se cada um dos humanos despertasse o sonho em si mesmo? Como se tornariam poderosos? Como não precisariam de se submeter? Como estariam preparados para as caminhadas? Os humanos esqueceram que o maior poder reside neles próprios. E é assim que a autoridade dourada os controla. Adormecidos. Por isso te digo sempre, nunca pares. – observou.

- Não pararei. – afirmou convicto.

- Enquanto caminharmos juntos não deixarei que nos corrompamos mas, se tal acontecer a um de nós, o outro deve seguir caminho. Cada um é responsável pelo sonho que carrega e em honra aos nómadas, mesmo aos que sucumbiram, temos o dever de continuar. E os caminhos continuarão agrestes. Isso posso assegurar-te. – desafiou.

 

Cecília Pinto

 

Porto | PORTUGAL

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Equipa

>Alexandra Vaz

>Ana Martins

>Cidália Carvalho

>Ermelinda Macedo

>Fernando Couto

>Jorge Saraiva

>José Azevedo

>Leticia Silva

>Maria João Enes

>Rui Duarte

>Sandra Pinto

>Sandra Sousa

>Sara Almeida

>Sara Silva

>Sónia Abrantes

>Teresa Teixeira

Calendário

Maio 2015

D S T Q Q S S
12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D

Comentários recentes

Links

Amigos do Mil Razões...

Apoio emocional

Promoção da saúde