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13
Nov15

O último dia (Tempo – 20)

Publicado por Mil Razões...

TableSetting-GregGetten.jpg

Foto: Table Setting – Greg Getten

 

Na próxima segunda-feira, quando o restaurante abrir, Joaquim já não estará lá.

 

Começou a trabalhar aos 10 anos para que mais algum dinheiro suavizasse a pobreza da família. Ter de deixar a escola entristeceu-o e revoltou-o – gostava de aprender e era aluno dedicado e com bons resultados. A D. Laura, a sua mestra, dizia que o Quim poderia vir a ser alguém, quem sabe, doutor. O Joaquim acreditou que esse era o seu desígnio e tomou a hipótese da velha senhora como o seu objetivo. Acreditou ser possível, pois ainda desconhecia o mundo em que vivia. Conheceu-o daí a pouco num embate duro e desigual. Começou por fazer entregas na mercearia do irascível Sr. Antunes, naquela gigantesca e pesada bicicleta, de porta em porta, todo o dia, todos os dias. Dedicou-se ao trabalho como se dedicara à escola, ansioso por ganhar muito dinheiro e um dia, em breve, voltar ao objetivo que a mestra estabelecera para ele. O dinheiro foi entrando mas nunca o muito necessário, por isso o regresso à escola foi sempre adiado.

 

Ainda moço mas já com corpo de homem, bem desenvolvido e musculado, foi conhecendo a vida de emprego em emprego, em lojas e armazéns. Um dia percebeu que o tempo em que vivia era assim, implacável, percebeu que a sociedade em que vivia era assim, com oportunidades só para alguns e que ele não constava na lista dos escolhidos. Foi então que decidiu partir. Conseguiu trabalho num paquete, como empregado de mesa, a percorrer uma boa parte do mundo. Um dia cansou-se do embalo dos mares, sentiu enormes saudades da terra firme por baixo dos pés e correu para os braços da Graça, mulher bonita, roliça e desembaraçada, com que namoriscava desde os 17 anos.

 

Casaram e Joaquim continuou à volta das mesas, de restaurante em restaurante, enquanto os filhos foram nascendo, o João primeiro, a Rita logo a seguir. Joaquim fez formações, tornou-se um profissional de mérito, trabalhou em excelentes restaurantes e nas suas mesas sentou-se gente diversa, gente importante que muito o considerava, pessoas que necessitavam da sua opinião e com quem ele gostava de conversar sobre os tempos, sobre o ser, sobre a vida. Alguns ficaram seus amigos. Os filhos foram crescendo e, esses sim, tornaram-se doutores – eram já outros tempos.

 

Os novos tempos, como tudo na vida, trouxeram coisas boas mas sem deixarem de arrastar coisas más. Quando a idade foi crescendo, o Joaquim viu-se trocado por colegas mais novos, que condiziam melhor com a decoração moderna das salas e das mesas. Teve, por isso, de baixar para restaurantes de nível médio, mas a competência e a exigência consigo mesmo sempre lhe asseguram bons lugares e boa remuneração. Como os filhos já estavam encaminhados e as exigências dele e da Graça estavam longe de ser demasiadas, sentia-se bem, feliz e por isso tornou-se mais contemplativo, mais profundamente observador das pessoas, confrontando os tempos vividos e o tempo presente, analisando as diferenças, as que exaltava como positivas e as que lamentava como negativas. Refletia sobre o que o tempo faz às pessoas, sobre o que elas fazem com o tempo que têm, como vivem nos tempos que correm.

 

E foi então que aquela família entrou no restaurante para o almoço de sábado. O homem, marido, pai, empurrando o carrinho de bebé e carregando os sacos. A mulher, esposa, mãe, no meio, com a filha mais nova ao colo. A mais velha, à frente, abria o caminho e as portas. Olharam à volta apenas o mínimo para detetarem uma mesa para quatro pessoas, num canto protetor, numa sala ainda quase vazia. Se tivessem olhado teriam percebido um casal já a meio da refeição, deliciados pela pizza, em conversa serena de fim-de-semana e um homem de cabelos grisalhos, num outro canto, à espera que lhe trouxessem a sobremesa. O homem marido estacionou o carrinho, pousou os sacos e sentou-se de um lado, sempre em silêncio. A mulher mãe, com cara dura e fechada, nunca levantando o olhar acima do nível do seu próprio queixo, ralhou longa e convictamente com as filhas, encontrando obediência indiferente na mais velha, que se sentou ao lado do pai partilhando com ele o silêncio, e encontrando total indiferença na mais nova, apenas interessada em pegar em todos os acessórios depositados sobre a mesa, já sentada numa cadeira adaptada ao seu corpinho, que o Joaquim, após as boas vindas que se perderam no éter, colocou num dos topos da mesa, tendo a irmã à sua direita. De repente, a mulher calou-se e sentou-se frente à mais velha, pegou no telemóvel e toda a sua atenção se concentrou a dedilhá-lo. Em ato contínuo, o homem pegou no seu e também o acariciou, dedilhando-o. Assim ficaram loooongos minutos, fora dali, enquanto as meninas brincavam e conversavam entre si.

 

O Joaquim ficou a contemplar esta família, deste tempo em que tocamos, dedilhamos, acariciamos, não os corpos e as almas dos que deveriam ser os nossos queridos, mas dos nossos imprescindíveis e omnipresentes equipamentos. E imaginou os posts que estavam a ser colocados nos facebooks:

“Acabamos de chegar ao restaurante – é óptimo Tatá, obrigada pela recomendação. Estou esfomeada! E as miúdas hoje estão insuportáveis!”;

“Ainda bem que gostas, querida. Para ti, tudo! Cuidado com essa fome! Tu és linda e não podes engordar. E as meninas são tão queridas como tu; são uns anjos. Que família tão bonita!”.

“Acabamos de abancar. A fome é tanta que nem sei o que hei de devorar…”;

“Então atira-te à cerveja e agarra umas tripas para ganhares força para o jogo de logo. Vamos ganhar, vamos dar cabo deles!”.

Joaquim disse para consigo: “Quim, vai até lá recolher o pedido e põe fim àquela miséria.”. E foi, mas a miséria não findou.

 

Na próxima segunda-feira, quando o restaurante abrir, Joaquim estará a caminho da aldeia da Graça, com calma, com tempo. Esse será o primeiro dia da sua reforma.

 

Fernando Couto

 

Porto | PORTUGAL

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