Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

Destaque

Amigos do Ziki - Uma ferramenta para o pré-escolar.

28
Mai14

Em estado de mortandade (Luto – 6)

Publicado por Mil Razões...

 

Olhava o espelho. Via uma estranha ou um futuro demasiado cedo. Não era ela. Apenas alguém, que substituira a sua vitalidade. Com o olhar encovado, como o de quem vai para a cova, pálida de cansaço e vazia de quem fora. Estravanha-se. Que pensariam quando saísse à rua? Já nem importava, se ela própria já não tinha nada a esconder. Já não conseguia esconder de como morrera por dentro, de como tal morte de quem fora lhe secava as veias. Toldava-lhe o semblante e tornava os olhos mais fundos, mais distantes do mundo alheio. O mundo vivo, no qual se sentia um fantasma, palpitava ainda lá fora com todos os seus ruídos e sem consideração pela morte antecipada desta inquilina.

Rolou-lhe uma lágrima pela face que depressa reprimiu. Quem és tu? Como chegaste a isto? Porquê? Onde te perdeste neste caminho?

Lembrou-se de como era antes do calvário por que passava. De como era cheia de vida, agitada, cheia de projectos e esperanças. De como gargalhava e de como ao olhar o mar se sentia viva. Porém, tentava perceber em que momento do percurso se despistara da vida. Fora tudo acontecendo, acumulando, sucedendo. E, de repente, já não vivia. Existia apenas, por força das circunstâncias. Passava por um luto de si própria. Apetecia-lhe chorar, mas quase já não havia lágrimas. Só cansaço. Cansaço de tudo.

Saiu à rua. Todos a olhavam como se olha um enfermo. “Coitada”, deviam pensar, “Está mesmo acabada”. Sabia que por mais que se sentisse um fantasma, não passava despercebida. Devia ser mesmo isso. Parecer um fantasma, tal era o ar de espanto horrorizado dos outros. Mas, isso era o de menos. A maior ferida era contemplar-se assim e sentir-se perdida dentro de si. Querer resgatar quem fora e não ter forças. Querer mudar quem era naquele momento e não ter esperanças. Ter saudades da mulher que vivia nela e da qual se esquecera. Era um luto terrível pelo qual passava. Porque estar de luto, era dizer adeus a tudo o que fora e deixava saudade. Tudo o que se vai com a partida. A dor que fica na mudança, mesmo que depois dessa “morte” haja vida. E aquela sensação de nem sequer se reconhecer. De não se sentir. Estranha dentro do seu próprio corpo. Da sua mente.

E, nos passos da existência, continuou caminho, em estado de mortandade.

 

Cecília Pinto

 

2 Comentários

Comentar Artigo

Porto | PORTUGAL

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Equipa

Alexandra Vaz

Ana Martins

Cidália Carvalho

Ermelinda Macedo

Fernando Couto

Jorge Saraiva

José Azevedo

Landa Cortez

Leticia Silva

Rui Duarte

Sandra Pinto

Sandra Sousa

Sara Almeida

Sara Silva

Sónia Abrantes

Tayhta Visinho

Teresa Teixeira

Calendário

Maio 2014

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D

Comentários recentes

  • Anónimo

    estou me sentido muito mal com td isso parece que ...

  • Fernando Couto

    Como se não nos bastassem os pesadelos criados pel...

  • marta

    ...e o pesadelo continua...

  • marta

    Uma pintura para a compaixão que este texto merece...

  • marta

    Um texto verdadeiramente Verdade...obrigada....e e...

Links

Amigos do Mil Razões...

Apoio emocional

Promoção da saúde