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29
Fev16

Deus me acuda (Eu - 6)

Publicado por Mil Razões...

MulherFalandoAoTelefone-PetrKratochvil.jpg

Foto: Mulher Falando ao Telefone – Petr Kratochvil

 

Nos tempos modernos, conhecer pessoas como tu pode ter efeitos nefastos sobre a saúde, de uma forma generalizada: quantas mais pululam no nosso universo, mais afetados ficamos – e eu conheço umas quantas, por sinal. Os padrões da disfuncionalidade confundem-se com os sinais da modernidade, de uma forma tão natural que uma criatura que não seja capaz de manter uma união em permanente estado de delírio cibernético, sente-se incompetente no departamento dos relacionamentos atuais. À volta, todos parecem viver assim, imersos nas imensas solicitações, notificações, aplicações, apressados, ansiosos, ligados por wi-fi a uma espécie de vida que nos nivela a todos por baixo. Enveredamos por relações tão destrutivas quanto delirantes, no abraço da tecnologia e do imediatismo, cegos à verdadeira natureza dos que nos abraçam. Eu, na aprendizagem contínua da minha vida, fiz uma licenciatura inteirinha contigo.

 

Durante vários anos, amar-te levou-me numa odisseia olímpica de que nunca te deste conta. Implicou trabalhar dias inteiros, noites inteiras até virar o dia no calendário e no relógio, organizar a vida, a família, as mil tarefas e estar para ti, nas tuas demandas, no tempo que te era útil. Que bom, amor, claro, vamos partilhar uma chamada, vamos ouvir a voz, matar a saudade. Percebes que estou cansada, que fofo, mas tens tantas saudades minhas. Pedes que tire uma foto, queres ver-me, não sabes como vives sem mim. Ok, respiro fundo. Queres seduzir-me mas entretanto tenho de ligar o candeeiro, segurar o telefone fixo, procurar o telemóvel para a foto. Credo, estou de fugir. Tenho mesmo de começar a dormir como deve ser (mantra sussurrado nos últimos cinco anos). Boa, adoraste. Volto a deitar-me. Apago a luz. Quero concentrar-me em ti, na tua voz, naquele momento que, infelizmente, tem de ser partilhado virtualmente – implicações de um relacionamento a milhares de quilómetros de distância. Estou tão cansada, amor. Gostaste muito, queres mais. Nunca é demais. Nunca chega, dizes, amas-me tanto. Ok, aí vamos de novo. Oh não, a bateria está nas últimas. Vá lá, só mais quinze fotos. Já tenho menos de cinco horas para dormir, um trabalho para corrigir, uma máquina de roupa para estender, contas para pagar, um banho para tomar e uma sopa, era bom, uma sopinha, ainda não jantei. Mas sim, claro, estou superexcitada e adoro esta cena toda das fotos, das gravações, do virtual, dos gritinhos e tudo e tudo, a altas horas da madrugada. Sim, também te amo muito. Ah, já está? Não tinha percebido que tínhamos começado, distraem-me muito estas manobras. Em centenas de momentos destes contigo descobri que tinha, não duas, mas três, quatro, cinco mãos… no auge do cansaço, cheguei a balbuciar “Deus me acuda” (na realidade, se o aperto for mesmo grande e Deus não estiver disponível, qualquer outra entidade que me possa valer, será sempre bem acolhida). No meio de tanta acrobacia, cheguei a temer pela minha vida. Devia ter percebido que tanta ginástica virtual te levava ao profundo desespero, quando a dois. Apenas a dois, sabes, concentrado na coisa a sério? Com essas duas mãos que esqueceste ter, tal é o rodopio de tudo em ti. Lamento ser eu a dizer-te mas a versão poética de “curvas de enjoar”, não se parece nadinha com isso. Devia ter entendido, em tempo real, que quem vive de sinopses e réplicas, não chega a fazer bem coisa nenhuma, ainda que me diga religiosa e diariamente que me ama. Nunca está. Aqui e agora. Está em fluxo permanente, em águas pantanosas, sem perceber que não vai a lado nenhum. Sempre, daqui para ali. Mas, sem sair daqui, se é que me faço entender. E, o teu aqui e agora, é mais uma cópia de qualquer outra coisa, algo estranho, sem denominação adequada, algures entre o “quero ser qualquer outra personagem mais linda e mais poética” e o “cala esse bicho que me preenche a agenda e me esvazia a alma”. Pois, amor, claro que entendo. Deve ser muito difícil, claro. Andas perdido e queres que te entenda. Sobretudo porque me amas muito. Não: porque sempre me amaste, sublinhas. Querias tudo ao mesmo tempo, sem ondas e sem dramas, claro. Não querias magoar ninguém, é óbvio, que disparate. Era suposto ter ficado tudo no faz-de-conta que tu comandas. Amas-me tanto. Falas em honra e em respeito. Claro. Não é tão lógico? Pois, não te entendo assim tão bem, não peças demasiado. Mesmo com todo o realismo das tuas lágrimas, continuas a vender-te barato. Pouco me interessa o que fazes agora, como fazes, com quem fazes, ou se um mundo inteiro te valida. Disso ainda me lembro o suficiente para te dizer que não há nada, absolutamente nada, que eu pudesse desejar novamente. Não tens puto de ideia do que é viver sem representar e tens duplos para as cenas mais simples. Pois digo-te que não há nada mais belo que quatro mãos que se enaltecem. Não, não são as tuas quatro mãos (ou todas as que consegues manipular na tua “cena perfeita”, no teu medíocre horizonte de amante). Se soubesses quantas vezes, no decorrer daquelas performances virtuais, me apeteceu virar para o lado, chorar e dormir. E não, não foi pela clara demonstração acrobática mas pela falta de autenticidade em ti. Podes abrir a boca de espanto, podes arrepiar a sobrancelha até quase acreditares no que dizes. Podes encenar tudo à distância, com a prática de quem domina todos os truques, para a coisa parecer bonita. É quando fazes, é quando És, que a coisa se torna verdadeiramente dramática.

Para mim, quero a banda sonora, a pele, a alma. Quero aquele momento ali, por inteiro, sem telemóveis, sem apps marados ou qualquer outro meio de registo que não sensorial. Não quero um polvo, multi device system, que se ache um garanhão por conseguir gerir seis aparelhos em simultâneo mas que me deixa à deriva na maior parte dos mergulhos reais. Quero um ser humano, infinito na sua existência, único em cada instante. Não quero a snapshot entre frases bonitas e ousadas, enquanto encontro a luz perfeita, o ângulo perfeito, o teclado mais intuitivo, tudo isto, claro, sem perder o erotismo e a vontade; não dá, não aguento. Não há líbido que resista a tanto efeito especial quando depois, no aqui e agora da pele e dos sentidos, comme il faut, tantas, tantas vezes a leoa vai dormir com fome. Mas a leoa é fofa, é estupidamente leal. Ama o seu leão, voilà. Gostava dele mais tribal, mais genuíno, tem de admitir, mas percebe que, neste mundo de superficialidade, talvez isso seja um pouco démodé. Aceita o seu leão, coxo e inseguro, porque o ama e acredita que ele a ama também. Engole a insatisfação e a tristeza e caminha ao seu lado, como se ele fosse o arquétipo da perfeição. Não precisa que ele seja o rei da selva a tempo inteiro, só nos intervalos, isso. Com delicadeza. Com lealdade. Já era bom. Mas nada de genuíno pode vir de um ser sem alma. Afinal o leão, toldado pelas cataratas da mediocridade, não reconhece uma rainha. É quando a lucidez se instala que a leoa percebe que um leão que não sabe amar, e se veste de mentira, não serve para coisa nenhuma. A integridade acolhe muitas fragilidades. A falta dela torna-as insuportáveis.

 

Queres ser o Houdini da ciberesfera e do fast-food. Gostas disso. Boa. Faz lá isso tudo. Mas não precisas de mentir a todo o momento. Ou queres viver toda a vida com esse imbecil que vês no espelho, o único com quem, garantidamente, passarás todos os teus dias? És um péssimo amante, homem-polvo. Falta-te luz, falta-te alma no desempenho, falta-te a honestidade que faz dos machos verdadeiros Homens. E não, não me refiro à tua performance física. Não tenho qualquer intenção de te denegrir na tua “masculinidade”. Nos dias de hoje, não precisas de te preocupar com isso: é tudo tão fugaz que já ninguém exige grandes requisitos em desempenhos de curta duração. Mas para seres um bom amante, precisas da profundidade que nunca tiveste. Refiro-me à tua incapacidade de sentir, realmente, Amor. De seres Amor. De fazeres Amor. De deixares Amor na tua saída. Não imaginas como estou grata por essa tragicomédia já não ser a minha história. É preciso ser muito cego para viver tão insatisfeito ou ser igual a ti para suportar tal falta de graça: não me encaixo, atualmente, em nenhuma das categorias.

Não sou, nem nunca fui, um aperitivo para o teu ego. Não estou disposta a alimentar o ego de ninguém, na realidade. Sou uma alma para alguém que seja realmente uma alma. Conhecer-te validou tudo o que não quero, nesta Era ou noutra qualquer: viver na superficialidade. E, pouco me importa que isso seja trendy. Não precisava de te deixar duas vezes para despir o manto dessa mentira. Não precisava de ter vivido tantas vezes na resignação do meu ser quando, claramente, nunca estiveste à minha altura. Esqueci-me, completamente, que sempre senti vontade de ser inteira com alguém, também inteiro, no momento presente. Que quero as mãos e os sentidos ocupados apenas com o que está ali comigo, de corpo e alma. Que não procuro ninguém que me complete mas que me acrescente. E não, não me refiro a aparelhos eletrónicos. Refiro-me a alguém com uma identidade apenas, que saiba que a grandiosidade vem das coisas vividas devagar, na totalidade do ser. Ah, tontinho, tinha sido tudo muito mais simples se me dissesses que procuravas um mundo de Tinderellas e speed-datings. Tinhas-me poupado o mergulho profundo nas águas frias e rasas em que te agitas. Pessoas como tu não se apaixonam, fazem reféns. Deixei-me encolher para caber inteira num mundo a que não pertenço e, no fim desta novela, percebo que nunca me conheceste. Agora, longe de ti, constato que o que me incomoda não são os sinais da modernidade: é a falta de caráter. É viver pela metade. É partilhar o palco da existência, numa morte lenta e diária, com aspirantes a atores sem alma, que torna a vida um engate barato e sem sentido. Já percebi que a miséria funciona como um íman mas eu não me sinto miserável, por isso, não gravites à minha volta. Para ti, a partir deste abençoado dia, estou em permanente offline.

 

Alexandra Vaz

 

Porto | PORTUGAL

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