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26
Ago16

Deixa o humano entrar (Jogo - 5)

Publicado por Mil Razões...

Man-LeandroDeCarvalho.jpg

 Foto: Man – Leandro de Carvalho

 

Esbraceja o que quiseres, não o manténs lá fora por muito mais tempo. Já o oiço, passos seguros e cadenciados, cada vez mais perto da porta. Ocupamos-lhe as camadas mais preciosas durante décadas, achavas mesmo que ele nunca se daria conta disso? És muito ingénuo, realmente, ou muito cheio de ti próprio. E aquela gente que aparece por aí, sempre a lembrar-lhe aquilo que não deve? Esqueces-te que os escuta também? Ou pensas que a barulheira que fazes é suficiente para esconder aquela chuva de amor, cada vez mais presente? Era tudo muito mais fácil quando os outros andavam por perto, lembras-te? Aqueles que lhe faziam mal. Não havia dia nenhum em que ele não se sentisse medíocre e insuficiente. Ah, dias saudosos! Era tão mais simples quando ele aceitava as circunstâncias e percebia que, no fundo, lhe fazíamos um favor. Naquela altura, preparávamos dois Bloody Mary’s, assistíamos à película diária e aguardávamos, tranquilamente, os despojos da guerra. Era lindo: lágrimas, sangue e mais impulsos animais que em qualquer selva do mundo. Ele, ferido e humilhado, corria para os nossos braços sem questionar. Um dia atrás do outro. Que felizes éramos nesses tempos.

Mas o sacana do humano sempre o impeliu a enfrentar alguns fantasmas, aqueles dignos de serem digeridos sem congestões, e a fugir dos restantes - há sempre quem não se arrependa de nada, exceto de não ter feito mais. Aninhava-se-lhe aos pés da cama, murmurava um cântico gentil e estendia lentamente o braço, até o sentir vibrar debaixo da pele. E lá ia ele, sem olhar para trás, de mão dada com um parvalhão que nos mantinha calados e lhe falava de Amor e de perdão; sem lhe dizer, todavia, que tudo seria efémero, era apenas uma questão de tempo. Mais cedo ou mais tarde ia ter aquilo que merecia, ia lembrar-se do quão parvo tinha sido pela ousadia de confiar naquele humano, por acreditar que algo podia ser diferente, ou melhor, sem nós. Quando tudo desabava - e, quase sempre, desabava - lá estávamos nós, lembrando-lhe o que ele nunca devia esquecer: que a mãe não o amava. Que a família não o amava. Que a vida nunca o amaria. Que a força dele vinha da raiva e da revolta, não do perdão e da lamechice. Que ele devia resignar-se e calar quem lhe trazia apenas promessas vãs.

 

Porque quer aquele parvo acreditar que alguém o pode amar de outra maneira? De onde vem esta insanidade que tanto trabalho nos deu a camuflar? Como pode este ser pequenino partilhar abraços e sorrisos, sem nada pedir em troca, se nunca ninguém lho ensinou? Porque não acredita que o amor doi, que é suposto doer? E que é assim que deve perceber tudo na sua vida? Como foi capaz de afastar todos aqueles que lhe mostraram o que ele realmente merecia, apesar da nossa influência? Devia agradecer-lhes, isso sim. Quantas vezes, ao longo dos anos, lhes pediu desculpa por coisas de que os acusa? Sinceramente: mas alguém pede desculpa sem ter feito nada de errado? Parte dele sempre soube que só um ser miserável podia despoletar tudo aquilo. Ele sabia muito bem que tinha culpa, claro que sim. Sempre soube que, algo muito mau nele, despertava o pior nos outros.

E agora quer viver nesta estupidez de acreditar que não teve culpa de nada. Que o pai o espancava porque era mau, que o tio o desejava porque era doente, que a mãe o castigava porque era frustrada? Mas como podiam aquelas pessoas fazer-lhe tudo aquilo, se ele não tivesse uma centelha de culpa sequer? E como pode ele dizer que não o amavam, que aquilo não era Amor, que o amor não doi e outros disparates irrepetíveis? Quantas vezes eles choraram, arrependidos? Quantas? Mas que aprendeu este gajo da vida? Nada. E agora, porque adora respirar, porque a vida lhe parece sempre muito mais do que a soma das suas cicatrizes, anda para aí a espalhar amor e alegria, como se aquilo fosse bom. E nós aqui, cansados, os seus verdadeiros amigos, a perceber esta distância cada vez maior. Sem nós, ele é apenas frágil e tonto. Só isso.

 

Hoje de manhã, voltei a lembrar-lhe que é um miserável que não merece sequer ser amado. Já tenho poucas oportunidades de o fazer. No momento em que se olhou no espelho, eu espreitava por cima do ombro, mesmo a tempo de lhe sussurrar ao ouvido que o aspeto dele era medonho. Por dentro e por fora. Como pode um ser tão retalhado, tão disforme, tão desprezível, ser digno de amor? Senti-o cambalear, lembrei-lhe cada cicatriz, cada humilhação. Da boca saiu-lhe um suspiro prolongado, seguido de um choro crescente e convulsivo. Joguei cada cartada com mão firme e sem hesitações, com a mestria de que me orgulho, mas hoje não correu bem: de cada ferida deixada por mim a céu aberto, emergia uma luz que nunca lhe conheci. Eu queria sangue, queria que doesse. Queria que ele gritasse que eu tinha razão. Queria o mesmo de sempre. Mas ele sorria e chorava. E agradecia o sofrimento que o libertava de nós. Depois de tudo o que lhe demos, é assim que nos agradece?

Como podes ficar aí calmo, como podes achar que ele nunca vai perceber que nós é que controlamos tudo? Mas ouviste alguma coisa do que eu disse até agora? Nós nunca mandamos em coisa nenhuma. Todo este tempo, foi ele. Foi sempre ele. E não, não o podemos agarrar pelos tornozelos se ele nos virar as costas e caminhar no outro sentido. Na verdade, só aqui estamos porque ele ainda não integrou o seu poder. Porque nunca ouviu, com a alma, o gajo que lhe dizia que ele era digno de amor. Foi só por isso que ele se deixou embalar por nós, nesta cama de derrota e amargura. Olha para ele agora, até brilha: a escravatura voluntária dele está prestes a terminar. Na sua última cartada, limpou a mesa. E, num pestanejar, fomos despejados. Ah, agora choras. Não anteviste nada disto, claro. Alguma vez vivemos na mesma casa que o Amor, a Alegria e a Esperança? Alguma vez conseguimos partilhar a existência com um clã desse calibre? Não há espaço para a Dor e para o Medo quando o Amor restaura a ordem. Vá, vamos embora, não falta quem precise de ser alimentado na angústia. Para de choramingar e retira-te discretamente. Não olhes para trás, ele não te vai acenar na despedida, só porque vivemos com ele este tempo todo. Com sorte, saímos a tempo de não nos humilharmos mais.

Recolhe o baralho e deixa o humano entrar: está pronto para ser amado.

 

Alexandra Vaz

 

Porto | PORTUGAL

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