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18
Mar15

Cinzento mais que imperfeito (Profissão – 15)

Publicado por Mil Razões...

Chuva.jpg

 

Segurança Social: 11%. IRS: 0%. Salário Mínimo. Horas Extras.

- Estou farto desta merda, Vasco. Vou para casa, amanhã ainda é dia 22, ainda temos três dias para os pagamentos.

 

Subsídio noturno: 25%. Subsídio de Refeição…

- Mexe-te, Vasco! Anda embora! Já não está ninguém no escritório, porque é que temos de ficar cá nós, como os mouros, a trabalhar até tarde?

 

O Porto é Londres. Em 30 anos de vida, Vasco, ainda não conseguiu habituar-se ao guarda-chuva, um empecilho em forma de bengala que, no mau tempo, vira-se todo, em guerra com ele mesmo, ao obrigar a fazê-lo figuras estúpidas – logo ele, tão sempre ereto, tão sempre contido como uma estátua, até no mau tempo que lhe encharca os sapatos de berloque. Porto é Londres, sobretudo na Rua de São Roque, onde trabalha, no escritório, mau como uma repartição pública mas que o distrai nos últimos sete anos. Não é Londres, nem Paris, nem Praga. Pior! Sem cor, naquela rua sem luz do sol, aquele escritório mais parece a cidade do México.

- Rua de merda, parece que ainda chove mais aqui, neste ermo…

- Jorge, porque és sempre tão mal-educado?

O colega e amigo entretém-no nos momentos comuns, habituais, convencionais, banais da sua vida – no fundo, o que é. Vasco não tem histórias épicas no seu quotidiano, nem mesmo quando esteve em guerra aberta com o chefe; não fosse ele pacato, ou trouxa, como lhe chama tantas vezes Jorge, teria sido despedido na certa.

O vento a assombrar as melenas de cabelo despenteado à entrada no prédio, uma mulher com uma criança, de andar apressado, como se assim evitasse a chuva que cai a pique, os carros que passam lançando lamas das poças para os pés dos peões. O teto do Mundo resolveu cair em apenas uma rua da cidade.

- Bárbara?...

- Diz, Vasco? Que disseste?... Olha, eu vou indo; deixei o carro na praça e ainda tenho de ir a correr para não me molhar todo, tchau! Até amanhã!...

“Bárbara?...”

Ali, bem no meio dos paralelos, doce Bárbara. Os olhos escuros, tão meigos como ela, carregados do peso de um rímel esborratado – aquele artifício de que ele nunca gostou, nas pestanas naturalmente reviradas e vivas – olhando para ele, de frente, para a incredulidade da alma velha de Vasco.

“Bárbara.”

Encharcada como uma cascata, a gabardina terracota colado ao corpo franzino, todo ele osso; o cabelo, comprido – desde quando? Desde sempre. Linda… Linda.

Mas porque é que voltaste?

- Bárbara, tu endoideceste?! Corre para entrarmos no meu carro! – Vasco dá-lhe a mão, de pianista como lhe dizia enquanto tocava nelas, sempre ao de leve, quando estavam na cama, naqueles domingos atrasados. Frias como habitualmente.

A luz fraca do Clio ainda lhe permite ver a sua beleza por trás das gotas de água escorrendo no rosto sardento. A gabardina, recorda ele, foi um presente, três anos atrás, quando ainda tudo era colorido. Meu Amor…

- Vasco, ele deixou-me…

A proteção do costume no reencontro repetido. Terceira vez, conta ele, que o procura, depois do parvalhão do outro gajo, o Nuno, a deixar e a deixar por outras gajas, que devem ser como ele, até aposta, passeando-se com elas por Porto Santo e Copenhaga. Ainda assim, com tantos sinais como as bochechas de Bárbara, Vasco pensa irremediavelmente: “Pode ser desta.”

O namoro entre ambos, curto?... Curto, não! Foram cinco mágicos anos, atenção! É favor respeitar o que foi vivido! Que saudades dela, bolas! Lá vai ele ter de dar, de novo, o ombro amigo para ela deitar a sua cabeça, para sentir aquele couro cabeludo macio a roçar-lhe o queixo… É como esfaquear-lhe o coração, cortar às tirinhas e ainda servir a frio num prato requintado ao sádico Nuno, que se ri da fraqueza do seu arquirrival.

- Deixa lá isso, já sabes que ele vai voltar…

- Não vai, não… Desta vez, não vai…

- Também dizes sempre isso…

Os olhos brilhantes, os tais, escuros e carregados, a pedir auxílio e esperança.

- Espera, Bárbara, espera...

Ela sorri, com aquele parênteses que ele contornava com a língua em tempos de partilha, silenciosa e delicada, em movimentos de quebranto dos troncos e membros. É a própria que corta o barato da memória da saudade, tentando conversar sobre os pais, como estão eles, logicamente que sim, que estão bem, como o trabalho dela? Sim, assim como o irmão e a chuva neste Porto londrino.

E vai. Vai voltar. Com toda a certeza. “E enquanto tu voltas para ele, eu fico.” A angústia do reencontro é como uma faca de dois gumes – que bom que é encontrar quem se ama, igualmente avassalador como a perda dos minutos seguintes, aqueles do abandono. O dela foi como o início: no meio da chuva, saindo do caro, sem proteção a não ser o casaco oferecido por ele, o seu anjo-da-guarda do costume, que até dispõe de boleia, recusada como o seu amor foi, a seco, no dia do seu fim.

A mente a sobrepor essa tal coisa que se chama de alma: Vai processar salários. Que mais tens tu, Vasco?”

A luz artificial do escritório permanece acesa, horas e horas – talvez dias? – fundindo-se finalmente com a aurora da manhã: e há quem diga que o trabalho não se mistura com o amor.

 

Sofia Cruz

 

Porto | PORTUGAL

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