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28
Fev14

Ao serviço dos valores perdidos (Valores – 6)

Publicado por Mil Razões...

 

Uma das realidades com que me vou deparando nestas minhas andanças de mudanças de vida que já são uma constante, numa inconstante forma de estar na vida, é a alteração que se tem sentido no mundo laboral. Claro que as transformações são manifestações normais de sociedades em movimento. Porém, é incrível como a desvalorização consegue ser tão rápida num universo que tão lentamente conseguiu evoluir. E se pensarmos, não deveria ser tendência natural evoluir para melhor? Depois da escravatura, veio o salário, depois veio a entrada das mulheres no trabalho, seguido por uma luta por direitos dos trabalhadores, melhores condições de trabalho, direito ao descanso, direito a ordenados justos e garantidos. E, de repente, o que era uma promissora evolução, revela-se numa regressão a olhos vistos, devido a ganâncias alheias. E, se hoje a tecnologia devia servir-nos para o melhor, não se notam melhorias. Por um lado, esta tecnologia veio-nos tirar cargas de trabalho, mas também postos de outrora. Mas, pior, é como os humanos que ainda têm trabalho começaram a ser tratados. Regredimos. E muito! Ao contrário da tendência natural de evolução. Por muitos factores. Regredimos, sobretudo nos valores. Valores mensais ao final do mês, nem sempre garantidos, mas acima de tudo nos valores morais. Como já há tanto tempo não se via, passamos de humanos a mercadoria barata, facilmente manipulada, facilmente descartada. Nesta visão economicista que o mundo se decidiu encobrir, o valor da pessoa deixou de existir. Tanta questão com a produtividade, elemento final do sentido empresarial, tanto estudo categórico do factor humano e a sua implicação na produtividade, e para quê? Para tudo se focar em números, esquecendo que sem humanos não há números. Com pessoas deprimidas, esgotadas, desmotivadas, qual o resultado final? Com pessoas que devido ao excesso de horas enfiadas em projetos dominadores, que em vez de potenciar o seu máximo, castram as potencialidades de cada um, se vêem privadas das suas dimensões pessoais, como há de a máquina rodar afincadamente?

Estamos pobres, e não só em valores monetários, estamos pobres. Os valores como o respeito, a compreensão, a humanidade, não estão desgastados. Estão perdidos. É vê-los com o maior dos despreendimentos falar para pessoas, como se aquele ser vivo fosse uma máquina, esvaziada de mundos, disponível quase 24h, apenas e somente para os seus serviços. Sei que há muito tempo atrás, na nossa sociedade, o valor da vida humana era quase nulo. Sei que muitas pessoas foram esmagadas pelo trabalho para garantir comida numa casa de tantos e com tantos. Sei disso. Mas sei que houve, após isso, o acréscimo de valor ao trabalhador. Havia respeito e interesse por esse trabalhador que não era só um número. Era uma pessoa com valor. Porque sei que houve tempos, em que se o trabalhador precisasse tirar uma tarde para cuidar de alguém ou algo de importante na sua vida, havia flexibilidade para tal. Mesmo que posteriormente o trabalhador compensasse esse cuidado que o empregador tivesse tido para com ele. Hoje não há isso. Há trabalhar a mais e nada de pensar em faltar seja qual o motivo for. Nem se deveria falar em compensar horas, porque elas já foram dadas em horas extra não pagas. Cuidados? Para quê? Como estamos a falar de carga barata, nem vale a pena ter cuidado. Porque é sem cuidado que hoje a teia empresarial trata a sua matéria-prima. Sim, matéria-prima. Porque sem humanos, não há trabalho, por mais tecnologia que haja. A tecnologia não se inventa por si própria. É fruto de trabalho humano. E até a tecnologia fica sem bateria. Até a tecnologia necessita de constante energia para ser operacional. Pois é, os senhores que nos governam esquecem-se que até eles tiveram quem os sustentasse, não só com pão na mesa, mas com cuidados que não têm preço, como o tempo de atenção, a partilha em família, onde os valores se fomentam. Mas talvez na teia se tenham corrompido. E, hoje, a todo o custo, privam a sua matéria-prima de valores fundamentais, como a liberdade, a família, a partilha, a saúde, a troco de trocados e desconsideração. E já é uma sorte ter trabalho, dizem eles! Sim, porque não importa em que condições. Isso não interessa. O que interesse é que seja trabalho. Ou melhor, pseudo-trabalho! Esquecem-se é que como qualquer humano, necessidade satisfeita, nova necessidade se apresenta. Não só de pão vive o homem, já se ouve há dezenas de anos. É condição natural evoluir. Mas hoje, quem tem o pão e o queijo na mão, insiste na regressão. Talvez porque se tenham esquecido do valor mais fundamental, que quando se escapa, não volta, e quando se quer de volta, já não tem retorno. A Vida. Aquela que merece ser vivida.

 

Cecília Pinto

 

Porto | PORTUGAL

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