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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

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Destaque

Amigos do Ziki - Uma ferramenta para o pré-escolar.

11
Set17

Gratidão (Saudade – 11)

Publicado por Mil Razões...

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Foto: Psychology - Clayton

 

Nas minhas consultas reparei, ao longo dos anos, que muitos pacientes dizem sentir uma saudade sem fim de algo ou de alguém, sendo que essa saudade lhes retira qualquer possibilidade de serem felizes. Tenho reparado também que grande parte desses mesmos pacientes recusa a ideia de abandonar a saudade que sente. Estão apegados a ela como se fosse uma entidade. Sempre que se apresenta uma solução para abandonar a saudade e seguir em frente, lá vem um “mas”, um “não pode ser”, um “e se”.

Então, comecei a perceber que a saudade não está relacionada com o passado, como inicialmente considerei. Não é a constante recordação de um acontecimento ou pessoa do passado que espoleta a saudade, mas sim o que já não se vai mais viver com essa pessoa ou com essas condições. É o medo do vazio do futuro sem aquelas caraterísticas do passado que nos faz ficar cativos nessa emoção. É a hipótese não vivida, a expetativa criada que nos deixa assim, presos a um vazio do futuro, mascarado com o que aconteceu no passado.

 

Porém, há boas notícias: a saudade cura-se! Como? Sendo profundamente agradecido pelo que se viveu, pelo que se evoluiu com a experiência. Mas seguindo em frente, rumo a novas lembranças, a novas saudades.

 

Sara Almeida

 

08
Set17

Era uma vez (Saudade – 10)

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Foto: Girls - Nikola Pešková

 

Entraste na minha vida pela porta da frente. Foi em setembro, ainda numa manhã de verão (ou seria já de outono?). Sentada, sozinha, na sala de aula, na última carteira da segunda fila. A primeira impressão que tive de ti não foi a melhor: uma pessoa arrogante, de nariz empinado, com a mania a achar que era mais do que os outros. “Tira o limão da boca” foi a frase célebre que melhor caracteriza essa tua caraterística expressão facial.

Provaste-me como não podia estar mais errada. Aproximámo-nos por intermédio de amigos comuns que, sem darem conta, fizeram de nós amigas para a vida. Ou, pelo menos, assim pensava eu. Naquela altura, e durante muitos anos, achámos as duas.

Viviam-se tempos confusos dentro da minha cabeça, não fosse aquela a fase da adolescência. Eu não permitia a qualquer pessoa que entrasse sem pedir licença. Tu não pediste, mas acabei por gostar dessa tua ousadia. Talvez a palavra que melhor te definia naquela altura (se é que alguém se sente minimamente definido aos dezasseis anos!). Trouxeste-me uma nova perspetiva em relação às coisas, foste uma lufada de ar fresco.

 

Anos se passaram, dez para ser mais precisa, onde a convivência era imensa, mas a cumplicidade ainda maior e melhor. Vivemos aventuras juntas, noites bem passadas (dias também!), momentos menos bons; dividimos quase tudo: alegrias, risos e sorrisos, cigarros, conquistas, incertezas, conselhos, ideias, desilusões… Acho que só não dividimos homens! E, quanto a isso, continuo certa de que fizemos bem!

De tudo aquilo que partilhamos, a cumplicidade era, para mim, o que tínhamos de mais bonito e precioso. Quase como se fosse um tesouro. Perceber, como que por uma espécie de conexão telepática, que algo não ia bem, ou então que algo ia muito bem; a palavra falada que não revelava tudo, mas que a outra entendia o tudo que ela não dizia; aquele olhar trocado que bastava para perceber o que a outra estava a pensar; o riso malandro, porque tínhamos pensado exatamente na mesma piada obscena…

 

Considero que há muitas formas de amor, e de amar. Por isso, há também o amor que anda de mãos dadas com a amizade. Não é um amor romântico, mas não deixa de ser amor. Achava que esse tipo de amor era para a vida, mais do que qualquer amor romântico. Até que me apercebi que não é! A fragilidade da nossa amizade, coisa que eu achava difícil existir, revelou-se. É possível que tenha sido esse o meu erro: achar que as relações duradouras, com raízes (pro)fundas não são tão frágeis assim. Certo é que essa fragilidade apareceu. E da forma mais estúpida possível, levando, como se fosse o vento, tudo o que havia. Como é possível? Não sei.

Agora, no lugar da cumplicidade resta apenas… estranheza! Agarro-me às boas recordações dessa cumplicidade e às saudades que dela sinto. Mas a saudade é boa na mesma medida em que é má: e tanto é doloroso o vazio que essa estranheza provoca, como é dolorosa a saudade, por ser ela a única coisa que resta desta amizade. “O pior tipo de estranho é aquele que um dia você conheceu.”.

 

Sandra Sousa

 

06
Set17

Reflexões (Saudade – 9)

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Foto: Vintage-1950s - Jill Wellington

 

- Só temos saudades das coisas boas que vivemos, porque das más não temos saudades nenhumas!

 

Saudade é reviver memórias, momentos que nos fizeram sentir felizes! É aquela sensação de saborear de novo todas as nuances das emoções desencadeadas pelas vivências mais afortunadas.

As “saudades do que não vivi”, residem apenas na fantasia do que se ambicionaria viver de bom.

Saudade é viver amor, é amar em retrospetiva!

 

Tayhta Visinho

 

04
Set17

Entre quem é! (Saudade – 8)

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Foto: Nostalgia – Marko Lovric

 

“...

Senhora Saudade,

não sei por que encanto

me trazes espinhos

e eu te quero tanto!

 

Senhora Saudade

se o teu manto santo

servisse ao meu corpo,

não teria espanto...

...”

Senhora Saudade; T. T.

 

Ela vem sempre cheia de dores – às vezes grandes, graves, mortais; outras vezes, apenas pequenos achaques, pequenas febres, pequenas cismas. Mas volta sempre, isso é certo como o bater do nosso coração. Entra-nos de mansinho pela porta dentro, alquebrada e triste, vestida de cor indefinida, assim numa espécie de tom órfão de luz, ou viúvo de cor. Nunca se sabe bem... depende da maleita que a traz.  Mas sei que não é preto, o seu manto. Tenho a certeza – a ilusória negrura que lhe atribuímos, na minha opinião, é devida ao mero facto de que ela, normalmente, nos aparece assim de repente, recortada no umbral da porta e nós a vemos em contraluz, do lado de dentro da vida onde nos calha morar, ou do tugúrio onde nos restou esconder.

Ela entra, fecha a porta atrás dela, abraça-nos como se nós fossemos a sua salvação (que ironia!...) e deixa-se ficar, invade cada cantinho da casa, paga, religiosamente, o tributo à penumbra que nos cerca e planta as suas próprias raízes no nosso coração. Ora é doce, ora é cruel. Ora nos prende com os seus braços asfixiantes, ora nos afasta dela, para que não nos pegue as suas maleitas. Ora nos beija em delírio ardente, contaminando a nossa pele com as chagas dos seus lábios, ora nos sopra as feridas vivas.

E as suas raízes vão crescendo, crescendo, dentro de nós. O nosso coração torna-se terra arável, fértil. Crescem dentro dele árvores, que nos servirão de sombra, e cujos frutos servirão de alimento à nossa alma. E cujos ramos servirão para construir todas as cruzes que carregarmos, ao longo do nosso percurso, as grandes, as pequenas, as assim-assim – mas todas elas necessárias, indeclináveis, para que cumpramos a nossa via-sacra e para que possamos pendurar as nossas memórias, como flores renascidas a cada estação de esperança.

Os nossos olhos, entretanto, habituar-se-ão à penumbra que ela trouxe consigo, nas dobras das suas vestes de melancolia e já não a verão tão negra. As nossas mãos já lhe irão identificando as feições e os nossos ouvidos aprenderão a reconhecer os seus passos arrastados. O seu toque já nos será brando e doce, e a sua presença, prova de amor e promessa de serenidade. E entenderemos que somos ditosos por tê-la ao nosso lado, sempre, ajudando-nos a erguer todas as cruzes, mesmo aquela que lhe indicou o caminho para a casa lúgubre onde nos refugiamos, quando ela nos encontrou e entrou, sem bater, sem esperar que lhe abríssemos a porta. Entenderemos, sobretudo, que em algum ponto do nosso caminho fomos felizes – porque só se já tivermos sido felizes, nos calhará por companheira a Saudade. Para sempre, se a felicidade foi grande e a Dor maior. Ou até que a paisagem nos distraia, se a estação de rosas foi passageira e a continuação da viagem dispensar a sua sombra triste como companhia. 

Num e noutro caso e em todos os incontáveis casos de permeio, a Saudade velará, atenta e pronta a coabitar connosco visceralmente, amando-nos na solidão e cuidando-nos na dor, com a ajuda do Tempo e da Serenidade. A nós, resta-nos amá-la e respeitá-la. Como se respeitássemos todas as árvores que nos crescem por dentro – e tudo o que elas nos dão, sem ruído nem lágrimas: sombra, flores, frutos, ar... As nossas cruzes, sim, também as nossas cruzes. Ah!... e ninhos.  Esperança. E a seiva de que são feitos todos os sonhos.

 

Teresa Teixeira

 

01
Set17

O princípio do fim (Saudade – 7)

Publicado por Mil Razões...

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Foto: Model – Engin Akyurt

 

Na cadência dos dias, não olho para trás com vontade de retroceder no calendário.

Quando digo isto, não raras vezes, alguém me devolve “Ah, pois, ainda não te bateu, foi isso… Quando te der, ainda vai ser pior do que a mim, vai ser assim, de repente, mas vai chegar, não tenhas dúvidas…”. Parece que esta coisa do envelhecer não está a funcionar comigo como “deveria”. Nunca senti “quem me dera ter vinte anos e saber o que sei hoje” – dizem-me ser o sinal inequívoco do “princípio do fim”.

Olho à minha volta, oiço os amigos, as meias conversas no café, no trabalho e nas ruas da cidade: depois de (in)determinada idade, um generoso número de pessoas parece abraçar um saudosismo doentio, repetido como um mantra, que as mantém reféns de memórias irrepetíveis. Como se cada dia mais nas suas vidas fosse uma sentença de morte e não uma bênção. Nem se dão conta do maior estrago de todos: na dormência autoimposta, perdido fica o dia de hoje e todos os que se lhe seguem, em nome dos dias idos. Das coisas mais tristes a que assisto. E eles repetem, “vai chegar, ah vai vai... Gostas de envelhecer, pois claro, andas é iludida… Olha que já não tens muito mais tempo para continuares a pensar que és nova e com saúde e que vais sempre viver com essa ligeireza…”.

Penso com frequência quando chegará o meu dia. O tal dia, o tal momento, em que também eu passarei a circular em sentido contrário na escada rolante. Mas ainda não chegou esse dia. Cada nova aurora impele-me a avançar, mesmo quando me levanto sem força para sonhar. Não olho para trás, não me dou a cenários do “…e se…”. Tenho outras formas de me atormentar mas, esta, não faz parte do meu cardápio. Sei hoje que existe uma lição a tirar e, consequentemente, uma aprendizagem de tudo o que já vivi. Até daquilo que quase me destruiu. Profunda gratidão pelas lições de vida que tenho recebido, mas a coisa nenhuma, boa ou má, eu gostaria de voltar. Nenhuma delas faria qualquer sentido hoje, por isso, não lhes dou muito tempo dentro de mim.

 

Quanto mais o tempo passa, quanto mais a minha consciência caminha a par e passo com o Amor-próprio, mais insuportáveis se tornam as relações de dependência que alimentei durante anos, com pessoas que nunca de mim cuidaram. Uma a uma, retiro-as da bagagem, sem as desprimorar, e permito-me caminhar mais leve. Fecho ciclos, deixo partir quem não está comigo por mim, mas porque precisa de mim. Gente que enaltece a minha força e a minha resiliência, enquanto cronometra o tempo que demoro a cair mas que, nas vezes em que me estendi ao comprido, não esteve lá para mim. É preciso deixar esse espaço, na alma e no coração, para aquilo que nos faz felizes, para aqueles que nunca de nós sairão, ainda que a vida os leve. Porque há gente verdadeira e integralmente insubstituível. Os que amo, nunca de mim partirão. É no amor sem fim que sinto a Imortalidade. É, com todos os que amo que hoje caminho, mais rica, mais forte. É por eles que faz sentido agradecer cada dia a mais que vivo.

Não tenho saudades de ninguém com quem ousei, um dia, sonhar construir uma vida porque o meu coração sabe que não era suposto acontecer dessa forma. Agradeço o que me foi dado mas não quero reviver nenhuma história. Entre uma ou outra página mais indigesta, folheio o livro da minha vida sem angústia ou saudosismos, sem sentir que “os melhores dias da minha vida já passaram” ou “se eu pensar neles até à exaustão, eles vão voltar“. Não os desejo de volta. Já vivi dias extraordinários, verdadeiramente mágicos, mas sinto que alguns dos melhores dias da minha vida ainda estão por acontecer. Cada dia tem sido único e irrepetível.

 

Tenho saudades daquilo que não vivi, das formas que encaixam em mim como uma luva mas que ainda não têm contornos definidos. Tenho saudade da essência da minha pele, antes da amnésia da educação. Isso a que chamais saudade, e que vos atira lá para trás, a mim move-me para a frente como uma catapulta. É ela que me guia, quando não vejo um palmo à frente do nariz, e me lembra o que é importante. Não tenho tempo para arrependimentos ou agonias prolongadas. Não posso caminhar para trás, já não sou a pessoa que um dia fui. Honro os dias que passaram, vivendo o dia de hoje com gratidão. É assim que descubro quem sou, nas nuances das pequenas/grandes coisas que tenho na minha vida, um dia atrás do outro.

Saudade é o que sinto aqui, agora, no alto desta montanha, abraçada pelo desconhecido e pelos sons da vida à minha volta. É este calor no coração, esta força que me faz fechar os olhos, abrir os braços ao mundo e sentir-me em casa, dentro de mim. Muitos dos meus dias serão vividos pela metade, soube-o à medida que a vida me foi levando os que amo. Sei também que nenhum dia vai sobrar no fim. É isto que a saudade me lembra. É isto que recuso esquecer.

 

Alexandra Vaz

 

28
Ago17

Memória futura (Saudade – 6)

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Foto: Camera – Th G

 

Há momentos, generalizo assim porque acredito que acontece com toda a gente, em que não se sabe porquê, mas ficam-nos gravados para sempre, alguns constantemente, outros ativados de forma intermitente, de longe em longe. Momentos para os quais não é imediata a razão para tal distinção, de tão singelos, simples, vulgares que são. Haverá uma teia, de fios mais ou menos visíveis que resistem na memória, no tempo.

 

Há momentos em que é evidente porque os sabemos situar na circunstância, o quê, quem e onde. Usando as frases batidas e dependendo das idades de cada um: Onde estavas no “25 de abril”? O que fazíamos quando soubemos e percebemos o que estava a acontecer no “11 de setembro” em NY, nas torres gémeas...

Estes são tão chocantes, envolventes, positiva ou horrivelmente, que nem temos tempo ou capacidade para pensar que estamos com a História a passar frente aos nossos olhos e que nos vamos lembrar deles enquanto tivermos os nexos elétricos da nossa memória em funcionamento. Estamos, na ocasião, totalmente absorvidos, imbuídos daquilo que acontece e que, seja mais longe ou mais perto, nos toca, choca e espanta.

 

Depois há as situações que nos surpreendem, melhor, superam as expetativas elevadas para as quais vamos, ou então acontecem de imprevisto e que nos são tão agradáveis que nos fazem pensar de forma grata na vida, agradecer quem somos e com quem estamos. Perante elas e no seu decurso, como que parte de nós se destaca, para, observa, prenhe de satisfação, alegria, entusiasmo, olha para o “espetáculo” em cena e diz-nos: aqui está algo que vou gravar, mais tarde vou recordar, para memória futura!

Muitas vezes esta memória não permanece vívida, desvanece-se e não acontece o que nós prevíamos, o momento não se tornou, de facto, inesquecível.

Mas também são eles, o conjunto desses momentos, meio enevoados, que nos constroem, ligam os blocos que edificam a nossa vida, a argamassam.

É uma saudade, sem rosto, sem contornos ou com contornos difusos, indefinidos, mas sem a qual nós não seríamos integralmente nós. E, sim, a saudade é mais dos momentos felizes, de alegria transbordante, mas, com o longo prazo que já começo a experienciar, digo que também podemos ter saudade, sem ser incongruentes, de momentos tristes, infelizes. A vida é mais de emoções que de razões, será isso.

 

Eu sou a minha saudade (também pode ser no plural) mais o que me espera e procuro no futuro. Um filme, uma sequência de fotos, com muitos flashbacks, saudades, memórias.

 

Jorge Saraiva

 

25
Ago17

Vai e vem (Saudade – 5)

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Foto: Coffer - Anna

 

Ela vai e vem, percorrendo a nossa vida; é assim o movimento da saudade. Por ela somos levados ao passado, a um momento temporal determinado, que nos permite recordar o que de bom se viveu, ou do quanto se perdeu.

A saudade manifesta-se e sente-se no presente quando a memória a chama a si para fazer reviver o passado. É natural o despertar deste sentimento que nos revela, não raras vezes, uma reconfortante e suave melancolia dos gratos e felizes momentos vividos. Ela, que não deve ser obsessiva, é recorrente, na medida em que se repete, vai e volta, regressando sempre ao “baú” das nossas memórias.

Ela, a saudade, acaba por ser, principalmente, em finais de vida, a companheira mais fiel dos que não têm companhia e por isso, se refugiam num silêncio cúmplice. É nessa relação de cumplicidade, nesse estado de alma, em paz interior, que melhor se convive com a saudade. E é esta que nos ajuda a recordar o que de bom se viveu. Ora, como o diz o povo: “recordar é viver”, a que se pode acrescentar, quando há uma doce e inesquecível saudade, que, recordando momentos inesquecíveis, vive-se duas vezes.

 

José Azevedo

 

23
Ago17

Para quê? (Saudade – 4)

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Foto: Playground - Maria

 

Para quê sentir vontade de reviver momentos que já não voltam, com quem já não se encontra fisicamente entre nós, em sítios que já não são os mesmos?

Este verão voltei à terra da minha infância.

O parque onde brinquei já não existe. Ficou apenas a área vazia de terreno. Os prédios enormes continuam lá, mas não vi ninguém, nenhuma criança a brincar ou a comprar um pacote de leite na loja do bairro. Onde estão? Elas devem existir pois, à janela daquilo que foi em tempos a nossa sala de jantar, estava um jovem a sacudir a toalha. Fitei-o, bem como ao interior da casa. Ele reparou e fitou-me. Mal sabe ele que ali passei toda a minha infância e adolescência. Que ali me chamavam aos berros quando era para ir almoçar ou jantar, depois de umas boas horas a brincar na rua sozinha com os meus 30 amigos do bairro.

Logo ao sair do carro, encontrei o Senhor da Padaria e a Mãe de uma das amigas. Iguais! Algo passou por ali, arrasou o parque mas deixou as pessoas iguais! “Os sobreviventes”, como o Senhor da Padaria disse.

Fomos convidados a visitar o centro comercial que, de dois andares de lojas, restam apenas três lojas abertas. Ao entrar no café, o Senhor do Café reconheceu-me e eu vi isso nos olhos dele. “Mal olhei para os teus olhos pensei: eu conheço aqueles olhos.”. Pois é... Há quem diga que pelos olhos se vê a alma e a minha alma é a mesma.

 

Tudo muda. As casas, as pessoas que lá habitam, a nossa estatura física, as pessoas que connosco convivem, a nossa própria família também muda. A alma não. O nosso interior e o que nos formou como pessoas, isso não muda. Já cá está carimbado e para sempre.

Depois de despedidas secas, vazias, lá fomos embora, com a sensação de que aquilo é uma realidade que já não existe pois o lugar é aquele, aqueles três comerciantes são os mesmos e penso que serão sempre, mas a vida real é outra. Serão eles os três anjos que nos fazem recordar o que nos tornou pessoas? Não estava mesmo lá mais ninguém...

Para quê saudades se a vida já não tem lugar? Nós fizemos desaparecer esse lugar...

 

Sónia Abrantes

 

21
Ago17

De mel e fel (Saudade – 3)

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People-StockSnap.jpg

Foto: People – Stock Snap

 

Chega-me com o perfume das noites quentes de verão, assim bem cheirosas porque plantas e flores, sem pudor, se despem das suas fragrâncias. Enchem o ar e levam uma direção. Não é um lugar qualquer aquele para onde vão ou de onde vêm e para o qual eu me deixo levar; é um lugar longínquo, mas que o cheiro a calor aproxima. Vou pela avenida junto ao mar até à Ponta Vermelha onde, por certo encontrarei alguém para uma partida no minigolfe. Desafio o vento que abana as palmeiras da marginal a fazer coisa idêntica nos meus cabelos, dou o exemplo passando os dedos pelo meio da cabeleira e levantando-a até ao cocuruto. A pele recebe uma lufada de ar e fica menos pegajosa, mas por pouco tempo. Repito o gesto vezes sem conta. Não está ninguém conhecido na Ponta Vermelha. Vou até à esplanada do Ciao. Peço uma cassata que não saboreio. Dizem que é dos melhores gelados da cidade, mas esqueço-me dele na taça de vidro; peço-o porque faz parte do ritual. O calor deforma-o rapidamente e a bola colorida passou a um líquido de qualidade duvidosa. Vão chegando amigos e com eles as histórias que têm para contar. O Dr. Óscar Monteiro é dos mais eloquentes a contar as peripécias de médico do antes e pós-independência. O humor que empresta aos dizeres faz do nada uma boa conversa. Tive notícias de que morreu, e que outros também já partiram. A bola de gelado não voltará a derreter à espera dos meus amigos e eu, mesmo querendo – e como quero – não conseguirei devolver à esplanada do Ciao a vida de outros tempos.

 

Chega-me com o pão quente pingado de mel. Fino e transparente, cor de ouro, combinado com o pão acabado de sair do forno, faz da simplicidade um manjar de réis. Nunca se esquece de, em cada fornada, fazer um pão pequeno só para mim. Ouço-a dizer com carinho: “uma bolinha pequena para gente pequena”. Querida avó, que bem que me sabia esta e tantas outras das tuas atenções. Como gostaria de poder dizer-te o quanto admirava essa tua magia de mimares tanto com tão pouco.      

 

Chega-me com o choro dum bebé. Sinto nos braços o teu corpo frágil abandonado aos meus cuidados e na ponta dos dedos o toque da tua pele macia. O prazer de me entregar ao papel de mãe foi muitas vezes abafado por receios e dúvidas. Gastei as páginas do “Meu Filho Meu Tesouro”, de Benjamin Spock, na tentativa desesperada de aprender a educar. Hoje, teria mais serenidade e saberia retirar mais gozo dessa nobre função. Mas, a falta de experiência de então, não rouba o carinho com que recordo essa nossa fase de crescimento, tua, na direção da infância e da adolescência, minha, na direção da maturidade.

 

Chega-me com o abraço que me dás. Cativaste-me assim, num abraço sentido.

 

Chega-me com as inquietações amargas do passado, com a solidão, a alegria e a tristeza do presente, com as fantasias do futuro.

 

Chega-me com a perda de conhecidos, amigos e familiares.

 

Chega-me com pormenores que, de tão insignificantes, só não escapam aos meus sensores.

 

Chega-me do nada e sem saber porquê, mas agora e sempre, rendo-me a este abusivo e posseiro sentimento de saudade.

 

Cidália Carvalho

 

18
Ago17

Memórias (Saudade – 2)

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Foto: Girls – Cheryl Holt

 

Lembro-me de a ver na piscina quando era pequenina; de interceder a nosso favor para podermos sair de casa; de pedir chocolate à mãe para todas; dos momentos em que contava aos pais as nossas aventuras de adolescentes na ausência deles; do cheiro; da saia curta castanha e top amarelo que a faziam ainda mais bonita; do beijo carinhoso; de a ver comer, elogiar e criticar negativamente a comida (não gostava de empadão); do boneco que tratava como se fosse seu doente e das receitas de ben-u-ron que lhe prescrevia numa folha de um bloco A5; de a ver por a mesa com toda a parcimónia; das canções que cantava num inglês imperfeito (gostava da Tina Turner); da sua memória impressionante; da palavra frigorífico, entre outras, que não conseguia pronunciar bem; dos momentos da sua higiene, que inicialmente fazia sozinha, acompanhados de todos os cremes; de debitar a programação da televisão como se estivesse a ler por qualquer lado; dos elogios que nos fazia quando estávamos “bonitas”; dos pedidos que fazia à mãe para lhe dar um cafezinho; da cumplicidade com o pai e a mãe; da felicidade que demonstrava quando chegávamos ao fim de semana… Até tenho saudade dos momentos tardios mais agressivos, mas inconscientes. Já lá vão alguns anos e, neste momento, restam as recordações e a saudade (a saudade eu não sei definir). É assim…

 

Ermelinda Macedo

 

Porto | PORTUGAL

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