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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

15
Dez17

Caminho (Mistérios – 11)

Publicado por Mil Razões...

Saint-James-Compostela - Nuno Lopes.jpg

Foto: Saint-James-Compostela - Nuno Lopes

 

Levantas-te para mais uma manhã sabendo que lá fora o sol ainda não brilha. Sabes que vai estar frio, muito frio. Assim como o chão que tocas, quando mal assentas os teus massacrados pés. Piso que apenas conheces do dia de ontem, assim como o beliche onde dormiste e, provavelmente, os teus companheiros de quarto dessa noite. Tornam-se rotina todos os passos seguintes de preparação. Arruma-se o saco cama, refaz-se a mochila, veste-se a preceito para o clima e, muitas vezes com custo, calçam-se as botas do dia anterior. E dos dias anteriores a esse.

Sais para um desconhecido planeado, com metas programadas, mas onde o fortuito te alcança sempre. Nunca sabes como vai verdadeiramente correr a etapa. Come-se qualquer coisa, entre as coisas que estão disponíveis no local da partida. Curioso como a fome fica diferente. Assim como as sensações de temperatura. E de dor.

 

Primeiro passo, e mais um passo, e mais um, e outro, e outro... Cada passo é importante, mas na verdade não são o que verdadeiramente conta. São os passos que te transportam o corpo, mas é a mente que transporta o resto. Para milhares que fazem o caminho esse resto pode ser a fé, a espiritualidade, o agradecimento, ou a homenagem. Não importa.

Cruzas bosques, mato, estradas, aldeias. Pessoas e animais. Como disse um companheiro de viagem: “subir custa, mas descer dói”. O caminho implica dor. Implica sofrimento. No corpo e/ou no pensamento. Vês-te subitamente numa dupla viagem. As tuas pernas caminham, mas por vezes a mente voa.

Os quilómetros passam, ou não passam, assim como o tempo. Parece que a natureza certa das coisas decide brincar com a tua perceção. Um passo, e mais um passo, e mais um, e outro e outro. Um dia e mais um dia, e outro e outro...

Até que chegas. Até que percebes que cumpriste. Até que percebes que resististe. E a partir daí percebes que algo te invade. Não importa o motivo que te levou ao primeiro passo. Quando chegas a Santiago de Compostela o que te invade é um mistério.

 

Rui Duarte

 

11
Dez17

A Guardadora de Mistérios (Mistérios - 10)

Publicado por Mil Razões...

Russia - CrazyRussian.jpg

Foto: Russia - CrazyRussian

 

“Não descubras o teu peito,

por maior que seja a dor –

quem o seu peito descobre,

de si mesmo é traidor.”

 

Não me lembro bem da primeira vez que ouvi essa quadra - tão cheia de sabedoria - mas lembro-me, sim, muito bem, quando comecei a entender-lhe o significado.

“Se os olhos são a janela da alma, o segredo é a alma da verdade”, dizia-me também a Sra. Camila, a Guardadora de Mistérios. E continuava: “Cada um tem a sua própria e íntima verdade... Se a confiar totalmente aos outros, vai, ao mesmo tempo, expor-se a julgamentos e impor-se como juiz. Há que nunca perder o mistério dos pequenos silêncios – os pequenos silêncios são irmãos do encanto das grandes palavras.”.

A Sra. Camila era a velhinha mais velhinha da aldeia. Era o que eu achava. O seu rosto miúdo, emoldurado pelos finíssimos cabelos tecidos da primeira luz das manhãs, era um campo sagrado: continha vinhedos de outono, sulcos geados de sementeiras, vestígios de ninhos de andorinhas, trigais já segados de pão, ribeiros secos pelos desertos da vida. Boca, quase nenhuma, sugada pela falta de dentes, e olhos feitos de água fresca – dois poços fundos, insondáveis, porém saciantes, retemperadores, cheios de paz e sabedoria. E de mistérios. Todo o conjunto, toda a morfologia facial da Sra. Camila, era uma página... não! – um livro inteiro, não só de Geografia – física e humana – mas também de História.

 

Histórias. A Sra. Camila, sabia contá-las como ninguém! (deixaram-se iludir por aquilo de “boca, quase nenhuma” e “guardadora-de-segredos-irmã-do-silêncio”?... ah, desenganem-se! – ela, apesar de saber imensamente mais do que me contava, era um livro, eu não disse...?! - da sua boca pequena e flexível, como ramo de árvore ainda tenra, voavam bandos de palavras que sabiam todos os ninhos da minha imaginação!)

Aí é que está – a minha imaginação: era nela que eu chocava os mistérios. Era nela que guardava os segredos que ia descobrindo, à medida que iam nascendo as pequenas certezas que lá cabiam. E os meus próprios mistérios, novinhos em folha. Bastantes, até. Mas, claro, não tantos como os que a Sra. Camila trazia nos olhos. Ah, não!...

Ela era uma verdadeira Guardadora de Mistérios. E repetia-me, entre histórias de faz-de-conta, e contas do seu rosário: “Sabes, Teresinha, devemos deixar que os outros granjeiem um quinhão de terra, no lameiro que nos pertencer por direito. Mas só se o quiserem, se o merecerem e se tu achares que eles têm necessidade disso para sobreviver. E só lhes permitas o quinhão bastante para essa sobrevivência! O melhor, o maior, deixa para ti – nunca se sabe se quem te renda, um dia te rasga. E nunca se sabe se esse que te rasga, ou outro que venha, um dia, não precisará que tu o remendes... com a grandeza da tua alma e a garantia da tua granja.”

 

Eram palavras algo confusas para eu entender, na altura. Mas ia percebendo uma verdade: os mistérios são como ninhos – é bom descobri-los, saber que estão lá, no alto daquela árvore, mas o segredo de todas as primaveras é respeitar-lhes a arquitetura, ter cautela, não espalhar a notícia; cuidar de manter os ramos intactos e a peugada despercebida e esperar que os ovinhos se tornem passarinhos – guardadores do grande mistério do voo.

 

Teresa Teixeira

 

08
Dez17

O pião das nicas (Mistérios - 9)

Publicado por Mil Razões...

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Foto: Furious - Robin Higgins

 

“Um dia destes, acordo desta letargia, esbofeteio-me, com vigor, para a vida não ter de o fazer mais, fecho todas as portas entreabertas sem olhar para trás e decido que é tempo de viver a sério.” Renovei estes votos, ano após ano, a cada desafio enfrentado; quis muito acreditar que isto seria suficiente para que a minha alma escapasse daquilo que a consumia. Aceitei dos outros a falta de razão, de justiça, de integridade, como se não as merecesse, para não enlouquecer. Aprendi, muito cedo, a suportar em silêncio, sem chorar, a maldade daqueles que deveriam proteger-me.

 

Todavia, entorpecidos os sentidos, manter a cabeça à tona revelou-se uma tarefa titânica. Viver entre o que se faz porque deve ser feito (ou assim se enraizou a coisa) e aquilo que realmente nos faria flutuar, sem esforço, é completamente desgastante. Sentir a alma voltar-nos os pés noutra direção e ainda assim ficar ali, onde nada se pode curar é, simplesmente, insano. Não há forma prosaica de o dizer. É-me, particularmente, penoso porque o masoquismo não consta do meu cardápio, em dia nenhum do calendário. De bom grado eliminava esta ferida, num golpe misericordioso e, talvez, talvez ainda restasse algo de mim que se pudesse salvar. Escapei o melhor possível durante décadas. Enfrentei vários demónios para os deixar partir, fechei algumas das tais portas escancaradas e aprendi, muito recentemente, a dar explicações, apenas e só, a quem as merece. Mas, volvidos todos estes anos, constato que não curo a minha maior ferida, que ainda permito uma violência emocional desmedida e que sou completamente incapaz de a entender ou de me proteger dela.

 

Andei cá e lá, movida pelo amor que me liga a ti, nesta formatação da minha pessoa, na qual tu foste, sem dúvida alguma, a medida de todas as coisas. Vivi na tua sombra, respirei o teu dióxido de carbono (acreditando ser oxigénio), fui o alvo das tuas críticas, nesta vida que me foi roubada sem apelo nem agravo. Foste e és protagonista na tua vida, sempre a mãe de todas as dores, a mais sofredora, a que mais lutou, a mais prendada, a mais organizada, cobriste-te com esse manto de tantos predicados luminosos que deixaste de nos ver – continuo ingénua, vês? Desconfio que nunca me viste realmente, não como sou. Esperei que um dia me amasses, me desses paz, me fizesses sentir segura mas, até hoje, partilhar o teu lar é mergulhar, de olhos bem abertos, num espaço que me fere, onde durmo e me movo hipervigilante, frágil e assustada. Crescer não me tornou imune a ti, não impediu que te movesses na minha vida como se esta te pertencesse. Uma sequela da tua vida, à mão de semear, sempre que dela precisasses. E sim, tu precisas sempre. Tu precisas sempre mais do que toda a gente. Não interessa o esforço dos outros, os sacrifícios que fazem para colmatar as tuas necessidades, não interessa o quanto nos matas lentamente, desde que haja alguém que escute as tuas lamúrias. Na tua dor és Rainha, na dor dos outros és Comodoro. E eu sou o teu permanente dano colateral, simplesmente, porque me permiti acreditar, durante demasiado tempo, que esta história podia ter um final feliz. Um dia irias ser grata pelo amor que tinhas e, esse milagre, ia parecer-te tão grandioso e tão sublime que nunca mais te queixarias de nada. Nesse abençoado dia, irias perceber todas as coisas maravilhosas que ainda tinhas, todas as bênçãos que recebias diariamente e o quão privilegiada, afinal, tinhas sido. Serias Amor e Gratidão e eu estaria, automaticamente, curada – gostava tanto de ter conserto. Seria linda, a metamorfose singular da minha alma: de pião das nicas à redenção. Sonhei, repetidamente, com esse dia, acreditei com todas as minhas forças que, no âmago da minha pessoa, permaneceria, intacta, a capacidade de te aceitar a qualquer altura, sem contrapartida, sem recalcamentos, plena de amor. Mas a vida tem-se escoado a cada dia, levando com ela a força e a esperança que me restavam nesta nossa relação.

 

À medida que me desformato, constato, com profunda tristeza, a extensão desses danos dentro de mim. Como pude acreditar que podia passar por isto (quase) incólume é algo que me transcende. Neste lugar que ocupo agora, onde mal respiro, oiço o eco da tua voz e, mesmo à distância, até esse, me empurra para baixo. Voltaram o buraco no estômago, o nó na garganta e a sensação de abandono, alimentados pela migalha que ainda permito que me dês. Nela, a tua total incapacidade de ouvir o meu grito, ainda que este seja, mais amiúde, sonoro e lavado em lágrimas. Tudo passa, tudo é ligeiro. Nos outros. No palco da existência, debaixo do teu holofote, apenas tu e todos os teus dramas. A tua cacofonia silencia qualquer queixume. Já não consigo viver tão zangada. Não consigo dormir de olhos abertos, punhos em riste e acordar, semana após semana, com medo de sair da cama e de enfrentar as exigências do dia. Se não te consigo transmitir nada de bom, não posso permitir mais que me arrastes contigo para esse catastrofismo militante do qual te recusas a sair. Já percebi que estás em casa, nesse lugar de dor que tratas com tanto esmero. Mas eu não posso continuar aí, contigo, tão perdida. Quem sou eu, afinal, fora do teu sistema solar? Por que é amar-te uma sentença de morte? Preciso de asas para voar mas as minhas raízes foram-me violentamente arrancadas: como faço agora para me levantar? Preciso de um lugar seguro na minha vida. Preciso de dormir sem medo. De respirar profundamente. E de aceitar, de uma vez por todas, que há um preço a pagar por permanecermos onde nos ferimos; eu, reconheço, já lá estou há demasiado tempo. Não quero mais esta pena perpétua, camuflada de amor, em nome do bem maior. Por que somos quem somos, na vida uma da outra, permanecerá um mistério. Aceito-o, finalmente. Agora, por favor, leva-o contigo e deixa-me ser a pessoa de quem precisei a vida inteira.  

 

Alexandra Vaz

 

04
Dez17

O poder misterioso das castanhas assadas (Mistérios – 7)

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Foto: Roasted-Chestnuts - Cristina Pechirra

 

Há coisas que eu, realmente, não entendo. E logo eu, que sou entendido em tudo aquilo que penso e falo! Mas é que tu, tu és estranha!

De manhã, estavas capaz de me esganar porque tiveste que parar de estender a roupa para encher as bolas de basquetebol para os miúdos jogarem, enquanto eu estava refastelado no sofá.

E suspiraste de desilusão quando foste ao armário de ferramentas em busca de fita adesiva para tentar tapar a fuga de ar da bomba manual e encontraste o livro que comprei para te oferecer este Natal - como se eu pudesse adivinhar, após 15 anos de casamento, que tu detestas romances do tipo “Nicholas Sparks”.

E não disfarçaste a tristeza quando, mais uma vez, eu troquei o plano prometido de uma matiné no centro do país, por um rápido passeio na cidade.

E posso jurar que vi nos teus olhos duas lágrimas prestes a rolar (desespero ou raiva?), quando, num dos meus típicos momentos de avareza galopante, fui estacionar o carro quase a 1 km da marginal só para não ter que pagar o parque.

 

E vai daí que, de repente, quando passavas pelo assador de castanhas e lhe lançavas um olhar de desejo reprimido, eu me lancei sobre ele e comprei-te um cartucho. E, como que por encanto, o teu semblante alterou-se radicalmente. Voltaste a sorrir, disseste-me um “obrigada” embargado de emoção e, de besta, passei a bestial!

Mas que poder misterioso terão estas castanhas assadas, que te fizeram esquecer tudo o que estava para trás? Seria porque tu adoras castanhas ao ponto de te deixares enfeitiçar pelo seu sabor único, quentinho e esbraseado? Ou talvez porque eu te tenha surpreendido com um gesto que demonstra que, afinal, eu até me importo um bocadinho contigo, e que, apesar de me ter torcido todo ao desembolsar aqueles 2 € para pagar as famigeradas castanhas, fi-lo para te agradar?

Eu cá não sei. Só sei que és estranha como o caraças, porque num momento pareces detestar-me e, noutro, é como se me amasses com a força do primeiro dia. Serão assim todas as mulheres?

Bem, também não vale a pena pensar muito nisto, deixa-me relaxar no sofá a ouvir os comentadores da bola, que o Porto está em alta e isto de ter tido um momento de gentileza pôs-me de rastos.

2 €... Que roubalheira, por um punhado de madeira!!

 

Sandrapep

 

01
Dez17

Ave-Marias e Padres-Nossos (Mistérios - 6)

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Foto: Pray - Martine

 

Vamos começar por algo bonito, que há borboletas bem lindas, vistosas, coloridas, ainda que algumas tenham figurações que pretendem ser ameaçadoras para os seus predadores. Comecemos pela borboleta tropical pois então.

Aviso, em tempo: a história, exemplificativa, começa bem, bonita, mas vai acabar mal, qual tempestade. Cientificamente, é uma história, digamos, determinística, com relação de causa e efeito. Na teoria do caos, dizem-nos que um bater de asas de uma linda borboleta na região do Amazonas, Brasil, pode vir a causar um tornado, um furacão nos estados do midwest norte-americano!

Para os cientistas, por uma via, em termos religiosos, por outra, está tudo, ainda que de formas bem complexas, explicado. Para um simples mortal, acontecem coisas inexplicáveis, verdadeiros mistérios.

A mínima diferença, modificação, das condições de uma situação considerada de partida, pode gerar consequências inimagináveis (inexplicáveis para o ser humano médio - excluindo, portanto, os especialistas e os ignorantes), de dimensões catastróficas ou, (porque não?) maravilhosas. Não apenas na meteorologia, pode ser na língua escrita e falada, pensemos por um momento que o português de Portugal e do Brasil tem a mesmíssima origem, há cerca de tão só 500 anos, mas pequeníssimas diferenças circunstanciais foram originando palavras novas e termos e expressões iguais à partida vieram a ter aplicações e significados diversos, em alguns casos aproximando-se do antagónico; pode também ser um episódio idêntico que significou para duas pessoas uma perda, tendo para uma consequências desastrosas, mas proporcionou uma sucessão de boas oportunidades para a outra (os males que vêm por bem).

 

Já terá dado para perceber o ponto de vista.

Não vou maçar-vos mais: passo para as conclusões - que, rogo, sejam aplicadas por cada um ao que lhe interesse - o mundo, a sociedade, a nossa vida, sem mistérios seriam muitíssimo menos interessantes, se se puder comparar!

Convirá é, perante as circunstâncias, que há que aceitar, não nos colocarmos apenas como efeito, mas também como causa, agente, ator. Mesmo rezar o terço, para quem o faça, digo eu e justificando o título da prosa, não deverá ser um ato mecânico, uma lengalenga sem sentido.

 

Jorge Saraiva

 

27
Nov17

Encantos do Mar (Mistérios – 5)

Publicado por Mil Razões...

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Foto: Sea - 12019

 

O Mar, com os seus mistérios naturais, com os seus encantos e seus perigos, é um rico e fértil território para o desenvolvimento de mitos e lendas. Tal deve-se, por um lado, ao mistério e ao desconhecido que habita nas suas paragens longínquas e, por outro lado, à própria imaginação do ser humano.

Há muito que se ouvem histórias sobre monstros e criaturas marinhas, fantasmas que assombram os oceanos. Podemos destacar na “Odisseia” o episódio das sereias encantadas, que, com os seus cantos, levavam homens e almas para o fundo do Mar; o célebre mistério do triângulo das “Bermudas” em que navios e embarcações misteriosamente desapareceram; a história ou mera lenda sobre a “Atlântida”, esse antigo continente que teria formado uma ligação entre a Europa e a América; o fenómeno das marés, influenciado ou não pela Lua, que ainda não foi totalmente explicado. Fonte contínua de vida e de inspiração para o Homem, o Mar guarda mistérios insondáveis e esconde dentro de si múltiplos segredos.

Pouca ou nenhuma gente saberá dizer o que se esconde nas suas profundezas, mas, seguramente, constituirá sempre um mistério algumas das formas de vida dos animais e plantas que nele vivem. Ainda bem! Sem ele - até porque nos brinda com o melhor dos nossos alimentos - o Mundo em que vivemos seria inconcebível. São os seus mistérios que o tornam ainda mais enigmático. Sua grandiosidade, sua força incomensurável, sua beleza natural, sua inesgotável fonte de recursos têm inspirado, ao longo dos tempos, obras-primas da literatura e da poesia. Cada mistério que dele se desvenda parece ser um milagre da “Natureza”. Amorável e austero, guia da humanidade, foi ele que embalou o berço do Homem e que em seguida o despertou para os grandes feitos, sugerindo-lhe as primeiras noções do Universo.

 

Pode afirmar-se que o Mar tem muito da natureza humana. Mas cuidado, o Mar também inspira respeito e muito! Por isso, deixemos de o agredir e de o tratar tão mal, como vem acontecendo nos últimos anos, com o lixo para ele lançado. O Mar só causa problemas a quem não o respeita e, para evitar esses perigos, basta respeitá-lo. Saibamos, por isso, respeitá-lo para podermos continuar a sonhar e a desfrutar dos seus encantos e mistérios.

 

José Azevedo

 

24
Nov17

A mansão (Mistérios – 4)

Publicado por Mil Razões...

Gargoyle - Dean Moriarty.jpg

Foto: Gargoyle - Dean Moriarty

 

Ao ver o velho portão não consegui conter um largo sorriso onde cabiam os medos ingénuos da infância. Para muitos ele era apenas o velho portão, guardião da casa em ruinas, mas para mim ele ganhou História com as histórias que dele se inventavam, ou não. Também ele cedeu ao tempo, estava perro e a ferrugem tingiu de ocre o chão. As ervas cobriram o passeio até à casa e estendiam hastes ameaçadoras por entre o gradeado. Mas, apesar de abandonado, ansiava atravessá-lo, queria chegar à casa e ver o que encerrava e que tanto assustava a pequenada do meu tempo. Empurrei-o. Rangeu furioso, protestante por ser arrancado à sua quietude, mas não se mexeu. Apliquei-me ainda mais, empurrei-o novamente, cedeu alguns centímetros, ainda assim não me permitiu entrada. No alto do gradeamento as carrancas de madeira intencionalmente ali colocadas pelo antigo dono, pareciam rir-se do esforço. Lá ao fundo, nas paredes da enigmática casa, as gárgulas demoníacas confiavam-se ao decrépito portão. Há muito que deixei de me assustar com tamanha fealdade, mas tempos houve em que só passava junto ao portão acompanhada dos meus colegas, tão assustados quanto eu. Se chovia e fazia vento, o ruído dos ramos das árvores adensava o mistério do lugar, mas se o tempo era de calmaria e a natureza se quedava, até o som das delicadas sementes das brizas e o balouçar do espanta-espíritos no alpendre nos chegava ameaçador. Dos adultos, ouvíamos as histórias fantásticas dos acontecimentos. Pessoas que desapareciam, tesouros guardados por um touro diabólico, barulhos indecifráveis, luzes que se acendiam e silhuetas que passeavam pela casa e pelo jardim. Assim, com todo este peso simbólico, quando a pequenada queria aferir da valentia de alguém, desafiava para passar o portão, atravessar o jardim e entrar na casa. Os mais aguerridos aceitavam as apostas, mas envergonhadamente derrotados desistiam mal a haste de uma erva lhes roçasse a cara. Lembro-me de um que, já quase a entrar em casa, fingiu uma entorse no pé quando subia o alpendre, desistiu, mas todos lhe admiraram a coragem, nunca ninguém tinha chagado tão próximo de entrar na casa.

 

Por essa altura chegou à escola um menino de uma aldeia vizinha. Desconhecedor dos fenómenos, aceitou entrar em casa e, com a inconsciência que a ignorância confere, sem rodeios abriu o portão, passou o jardim e entrou. Cá fora, com as caras encostadas às grades, as crianças esperavam. Era muita a ansiedade e a espera interminável, alguns adiantavam que era mais um a desaparecer nas ruínas misteriosas da mansão. Com a culpa a aflorar nos gestos e risinhos nervosos, já falavam em ir embora quando, com a mesma segurança com que entrara, viram o rapaz assomar à porta. No jardim cortou um ramo de flores bravias que entregou à Margarida por quem, diziam, se encantara, com a promessa de a levar com ele da próxima vez que ali voltasse. E ela, embevecida, prometeu-lhe que assim seria. Os outros procuravam sinais de pânico, faziam-lhe perguntas do que vira e ouvira e de como era lá dentro, mas o rapaz a nada respondia.

Um dia, no fim das aulas, viram-nos entrar na casa, ele à frente e ela atrás, hesitante mas obediente ao chamamento do amigo. Não avaliaram quanto tempo por lá andaram, mas quando saíram vinham de mãos dadas e sorriam. E se assim era com eles, então talvez não houvesse razão para tanto medo à volta da casa, pensavam os outros. Não sei se algum deles se atreveu alguma vez a passar o portão, mas aquele lugar deixou de ser misterioso e perdeu a curiosidade que até então suscitara. Passávamos sem a olharmos e caminhávamos de costas viradas sem receio de algum perigo que nos pudesse surpreender.

 

Ainda tento, mais uma vez, enterrar este fantasma do passado; gostava muito de visitar a casa, mas o portão teima em não se deixar arrastar. Dou meia-volta com intenção de me afastar. De repente, atrás de mim, o ranger de ferro-velho. Viro-me ainda a tempo de ver o velho portão fechar-se abruptamente. E, como antigamente, o riso das gárgulas e das carrancas a estugar-me o passo para longe daquele lugar misterioso.

 

Cidália Carvalho

 

22
Nov17

Incertezas (Mistérios – 3)

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Scientist - Lucas Vasques.jpg

Foto: Scientist - Lucas Vasques

 

O que vai ocorrer daqui a alguns dias na vida de cada um? É desconhecido.

Como vamos reagir aos acontecimentos ocorridos? Não adivinho.

Como vão reagir as pessoas ao meu comportamento? Não sei.

O que esperam as pessoas de mim? Não faço ideia.

O que espero dos outros? Tenho uma ideia, mas não arrisco ter certezas.

Que acontecimentos são previsíveis? Já se soube mais relativamente a alguns… as variáveis alteram-se.

Porque ocorrem determinados fenómenos naturais? Várias explicações aparecem para os justificar. 

Como se reorganizam vidas interrompidas por fenómenos devastadores? Só consigo dizer que deve ser muito difícil.

Apesar das fantásticas descobertas científicas e tecnológicas, porque é que vários tratamentos funcionam em algumas pessoas e noutras não? O que fazer na individualidade que nos define? Ainda é um campo a descobrir? Ao que parece, sim.

Quantas questões se poderiam colocar que se afiguram difíceis de obter resposta? Um número indefinido.

Quantas respostas com incerteza se poderiam avançar? Muitas.

A vida é um conjunto de mistérios? Talvez!

 

Ermelinda Macedo

 

20
Nov17

Razão e sensação (Mistérios – 2)

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Ballerina - Pexels.jpg

Foto: Ballerina - Pexels

 

Caminhava despreocupadamente pela rua, distraída com os afazeres da rotina. Sem que nos apercebamos, é assim que a vida passa por nós, enquanto a mente está mergulhada noutros mundos. Foi então que um vislumbre a retirou das indagações trazendo-a para o presente. A visão de alguém longamente ausente, ali, num acaso curioso proporcionado pelos fios do destino. Depois de usufruído o momento, deu por si a pensar em como há acontecimentos e coisas que não são possíveis nem passíveis de serem explicadas. Não havia qualquer razão nem fundamento para aquelas duas almas se encontrarem no mesmo espaço à mesma hora. Mas a verdade é que foi isso o que sucedeu.

 

E quantos mistérios mais existem sem que os entendamos ou compreendamos por completo!... Talvez nunca venhamos a descobrir a origem verídica do universo, de que é que é feito o divino, o porquê do ser humano habitar a Terra ou da vida existir assim, tal e qual como a conhecemos. Talvez nunca saibamos o que existe além da vida corpórea, o porquê de certos sonhos se constatarem na realidade, os contornos da verdade em diversos contextos e o que sustenta as capacidades infinitas de que somos portadores. Não há ciência nem razão que consigam detalhar e aprofundar tudo o que ocorre, havendo sempre alguma coisa que carece de explicação. Porque nem tudo foi feito para ser entendido, mas sim para ser sentido, de modo a que a sua essência e a sua substância se revelem em todo o seu esplendor.

E é assim, graças a esses mistérios, que é conferida alguma magia à nossa existência.

 

Sara Silva

 

17
Nov17

Futuro (Mistérios – 1)

Publicado por Mil Razões...

Flatfoot - Stefan Schweihofer.jpg

Foto: Flatfoot - Stefan Schweihofer

 

Nada sabemos.

Quando pensamos que conseguimos prever tudo, trabalhar para um objetivo, antecipar todas e mais algumas respostas e reações, nada sabemos.

Decidir com ponderação? Sim.

Decidir com a certeza de que é o mais acertado? Não, pelo menos amanhã.

Nada sabemos.

Hoje acordo e penso: vou treinar, conversar, trabalhar, almoçar, ...

Afinal o que acontece é: tive um furo no pneu do carro, treinei em casa, conversei com as paredes, almocei algo que coloquei na liquidificadora só para dizer que comi.

E quando ela acontece? A morte...

Morte de um pensamento, de palavras ditas. Morte de uma relação, de um amor. Morte de um ser, de um sonho...

Nada sabemos.

O que nos move? Isso mesmo, o nada saber e querer desvendar esse mistério permanentemente.

 

Sónia Abrantes

 

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