Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

Destaque

Amigos do Ziki - Uma ferramenta para o pré-escolar.

30
Nov10

Não sei que horas eram (Depois da tentativa – 5)

Publicado por Mil Razões...

 

Não sei que horas eram. Sei que era noite. Nos últimos meses as horas só se tornavam relevantes quando não passavam e o desespero era maior que o desespero normal que sentia. Sentia o seu peso mas não importava se eram 3 da tarde ou 3 da manhã. Não queria que o dia acabasse pois não era uma questão de luz ou de compromissos. Só queria dormir. Quando se dorme a dor desaparece e com ela a ansiedade, o desespero e a angústia. Os sintomas de uma depressão major estavam todos lá. Havia vezes em que o corpo doía sem ser magoado. Sem toque. Havia outras que o corpo não sentia. Mesmo com toque. O pior era o acordar. Lembro-me de dizer numa consulta (já não sei de quê, porque durante meses e meses passei por Psicologia, Reiki, Psiquiatria e uns pseudo-terapeutas / médiuns), que a sensação que tinha quando acordava era a de bater numa parede de ansiedade. Nunca experimentei uma sensação assim. Adormecia do cansaço de chorar, passava para o vazio e despertava para uma sensação imediata de sufoco, o coração perto do ataque e o vómito perto da boca. Escusado será dizer que na maior parte das vezes levantar-me era um sacrifício muito alto. Em raras ocasiões, se não me levantasse depressa tinha a sensação que nunca o faria.

A vida constituía-se de farrapos. Vagas memórias de momentos e sensações, na sua maioria negativas. Pedi a todos os santos por uma solução, isto nas fases de religiosidade exacerbada, quando sabia no íntimo que a solução estava em mim. Esteve sempre lá. Eu sabia que sofria por amor. Sabia que só não era feliz porque não queria. Mesmo sabendo de tudo isso não tinha força para mudar, para avançar, para respirar, para viver. Mas não foram poucas as vezes que tentei, principalmente naqueles momentos em que o bater no fundo não era uma força de expressão dado que, no chão era onde o corpo se retorcia num choro constante de vários sentimentos que de tão intrincados não se conseguiam exprimir. Quantos murros nesse chão dei… Basta! – dizia para mim decidindo que esse era o último minuto de sofrimento. Mas não foi.

 

Não sei que horas eram mas sei onde estava. Fiquei em casa dos meus pais porque era uma daquelas noites em que um apartamento para uma pessoa só era um inferno privado. Não sei que horas eram mas sei onde fica a gaveta onde estava a faca. Não sei quanto tempo fiquei a olhar para ela, medindo o seu comprimento e as consequências de um acto. Estava sentado no chão, costas na parede, mangas arregaçadas. A faca passou impiedosa, cortando pele e carne expondo o sangue. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis… e perdi a conta. Lembro-me também da sensação. Estranhamente, ou não, em cada corte sentia-me… livre? Enfim. Ali fiquei.

O meu irmão encontrou-me, ou a minha mãe. Não tenho a certeza. O assunto não é tabu, mas também não é falado. Hoje, reconheço a validade do que fiz. Não que tenha sido certo, é claro, mas ainda hoje na varanda, com os meus filhos e com a mulher que amo, olhar para as cicatrizes que ficaram faz-me perceber que se não fosse por um momento de violência, se calhar nunca me tinha permitido ser feliz.

 

Rui Duarte

 

9 Comentários

Comentar Artigo

Porto | PORTUGAL

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Equipa

Alexandra Vaz

Ana Martins

Cidália Carvalho

Ermelinda Macedo

Fernando Couto

Jorge Saraiva

José Azevedo

Landa Cortez

Leticia Silva

Rui Duarte

Sandra Pinto

Sandra Sousa

Sara Almeida

Sara Silva

Sónia Abrantes

Tayhta Visinho

Teresa Teixeira

Vanessa Santana

Calendário

Novembro 2010

D S T Q Q S S
123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
282930

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D

Comentários recentes

  • marta

    Uma pintura para a compaixão que este texto merece...

  • marta

    Um texto verdadeiramente Verdade...obrigada....e e...

  • Anónimo

    Oh, minha querida. Nunca saberei a dimensão da tua...

  • Anónimo

    Ana, deve ser tão difícil...a experiência de morte...

  • Paulo Das Neves

    Alucinante e envolvente...muito bom!

Links

Amigos do Mil Razões...

Apoio emocional

Promoção da saúde