Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

Destaque

Amigos do Ziki - Uma ferramenta para o pré-escolar.

14
Set10

Sentir, com todos os sentidos (Ser – 7)

Publicado por Mil Razões...

 

A porta fechou-se nas suas costas. Ficou parado na soleira. Olhava em frente, olhos fixos, firmes e serenos. Olhos ávidos de reencontrarem o mundo, de receberem imagens de pessoas, de ruas, de carros, de árvores, de flores, de céu, de rio, de mar. Queria tudo sentir, com todos os sentidos, tudo encontrar e descobrir como se tivesse nascido naquele dia. Sentia-se renascido – tinha recebido uma segunda oportunidade. Como este dia começava diferente!

 

Reconhecia ter ontem excedido todas as medidas. Ao longo do tempo levara ao extremo, sem disso dar conta, o convencimento de que tudo girava à sua volta, de que sobre tudo tinha controlo. Ontem, as suas duas décadas de vida continham toda a experiência e sabedoria do mundo. Ontem, os outros - os mais velhos, os pensadores, os filósofos, os cientistas, as igrejas, Deus - todos treta, todos estavam errados, nada eram ou valiam. Ontem, à noite, mais uma discussão com ela, mais uma disputa, filha do seu ego sem forma, sem jeito. A maior, a mais dura e agressiva, a mais fútil de todas as discussões, em favor da mais vazia de todas as razões.

E de repente, o aperto no peito, a falta de ar, a incapacidade de se manter de pé. O coração dela já muito tinha batido, demasiadas vezes com demasiada força, por más razões, e estava agora a fraquejar.

O amor, bem por baixo de grossas camadas de estupidez por ele laboriosamente tecidas com fios de ideologia e de indiferença, agigantou-se e dominou-o por dentro. Abriu-lhe os olhos para que a visse. Abriu-lhe os ouvidos para que a escutasse. Abriu-lhe o coração para que a entendesse e aceitasse. E ao ego, com todas as certezas que continha, rebentou-o, esvaziou-o, fê-lo rodopiar como um balão moribundo dentro do cérebro dele.

E assim, alterado, regressou a si mesmo. Inundou-o o medo da morte, o medo de que ela morresse, assim, ali, por sua causa, por tanta tristeza acumulada sem dele desistir. Quis levá-la ao hospital, insistiu, persistiu na vontade. Ela recusou, insistiu, persistiu na recusa. Ele não tinha como a obrigar mas sentia que sem isso a perderia para sempre. E isso seria injusto para ela. Teve de aceitar a recusa e encontrar outra forma de conseguir que ela vivesse. Abriu a memória, procurou algo que por vontade própria rejeitara, deitara fora, espezinhara. Ajoelhou-se e começou a rezar. Rezou toda a noite, de joelhos no chão, cotovelos na cama dela, com determinação e fé. Bem mais tarde ela acalmou, repentinamente. Ele receou o pior, mas logo se tranquilizou. Fixou a hora – uma hora - e continuou a rezar, até que adormeceu. Acordou entorpecido e como já tudo estava bem, cambaleou até à sua cama.

De manhã, bem cedinho, o telefone tocou. Ele acordou e atendeu. Era a vizinha do lado que noticiava que naquela noite, era uma hora, o seu marido morrera súbita e inesperadamente. Ele compreendeu que naquela noite a morte estivera naquela casa. E Deus também.

 

A porta fechou-se nas suas costas. Ficou parado na soleira.

 

Fernando Couto

 

6 Comentários

Comentar Artigo

Porto | PORTUGAL

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Equipa

Alexandra Vaz

Ana Martins

Cidália Carvalho

Ermelinda Macedo

Fernando Couto

Jorge Saraiva

José Azevedo

Landa Cortez

Leticia Silva

Rui Duarte

Sandra Pinto

Sandra Sousa

Sara Almeida

Sara Silva

Sónia Abrantes

Tayhta Visinho

Teresa Teixeira

Calendário

Setembro 2010

D S T Q Q S S
1234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D

Comentários recentes

  • Sandra Pereira E Pinto

    Concordo plenamente com a frase em que diz que tod...

  • Anónimo

    Só quem vive com essas diferenças sabe dar valor e...

  • sandra

    Anotação Não te aproximes demasiadodeixa espaço pa...

  • Mil Razões...

    Quando nos sentimos mal, física ou emocionalmente,...

  • Anónimo

    estou me sentido muito mal com td isso parece que ...

Links

Amigos do Mil Razões...

Apoio emocional

Promoção da saúde