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O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

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20
Abr10

O tabu da morte (Morte – 3)

Publicado por Mil Razões...

 

Sou jovem, nunca me morreu ninguém que amasse; já tive medo que isso acontecesse, mas não é a mesma coisa; a minha profissão também não me coloca em contacto com a morte. À minha volta, a morte não é um assunto presente. Parece-me que isto acontece com a generalidade das pessoas; diria que a morte é algo de que nem sequer nos lembramos no dia-a-dia, ocupados com a tarefa de viver. Por isso não diria que é um tabu - nada tem de interdito, de transgressão, de moralmente chocante; de todas as realidades, a morte, o grande destino comum, é, com certeza, uma das mais consensuais.

Ao nível macro, não é difícil falar de morte. Quase todos os dias há notícia de mortos pela guerra, danos colaterais ou mortos pela fome; mais do que a morte em si, as circunstâncias poderão chocar; os ilustres também morrem de vez em quando na televisão e facilmente a reacção a estas notícias é de algum pesar. Nos últimos tempos tem-se intensificado a discussão de questões adjacentes à morte, como a eutanásia, a distanásia, o suicídio ou a importância dos cuidados paliativos. Somos capazes de reconhecer em algumas religiões, práticas espirituais e alguma poesia, pelo menos, a recomendação da consciência de que vamos morrer um dia como essencial para uma vida melhor vivida.

 

Mas é verdade que estamos habituados a associar à morte temor e sofrimento, só mitigáveis através de uma fé. Seja pelo término da vida que se conhece e o absoluto desconhecido que se segue; seja pela dor da perda alguém querido; seja pelo receio de sofrer ou ver sofrer até à consumação da morte; seja por receio do julgamento final, o divino ou o próprio.             

O que poderá fazer da morte tabu, como assunto de que é difícil falar, não será a morte em si mas o facto de acontecer em casa - de se tratar da nossa morte, da morte de alguém que amamos, ou da morte que faz sofrer alguém que nos é querido - e de nos obrigar a abrimo-nos profundamente; é a aproximação à intensidade de sentimentos que lhe está associada, em que as referências deixam de servir e nós deixamos de estar no comando. O tabu da morte é o tabu da entrega absoluta.

 

Ana Álvares

 

Porto | PORTUGAL

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