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O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

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02
Abr10

Um lanche artístico (Vida em Sociedade – 9)

Publicado por Mil Razões...

  

 

A Sr.ª Escrita convidou as outras artes para um lanche. Chegou cedo para fazer as honras, escolheu uma bonita esplanada em frente ao mar e uma mesa onde pudessem banhar-se de sol naquele final de tarde luminoso como há muito não havia, naquele Inverno que parecia não querer acabar.

Enquanto aguardava foi olhando à sua volta e cada pormenor lhe agradava mais do que o outro. O mar, de tonalidade enganadora, ora azul ora verde, salpicava de espuma branca a areia da praia que hoje estava ainda mais dourada. As gaivotas, em grupo ou isoladas, completavam este quadro de perfeita harmonia.
A Sr.ª Escrita experimentou uma suave tranquilidade e logo se encheu de vaidade por se sentir o meio preferido dos Humanos para descrever um momento assim. Com sorte, se a pessoa que a usar o fizer bem feito, provoca reacções, descobre emoções, mexe com a natureza humana. Ela, Escrita, quando usada com regras, forma uma língua que, por sua vez, pode ser identidade de uma Nação. Sentiu-se muito importante e desta conclusão deu nota à Sr.ª Música que entretanto tinha chegado.
 
A Sr.ª Música não quis ser desagradável com a amiga, mas logo ali deixou claro que a Sr.ª Escrita não tem o exclusivo de mexer com a natureza humana; ela também o faz e há muito mais tempo. Tem vindo a acompanhar o homem desde o seu início e reforçou o seu argumento:
- O som que ouve, das ondas a desmaiarem na praia, repare, ouça com atenção, não contém uma melodia? Estou em toda a parte - basta que me queiram ouvir. Tenho várias filhas, a que os humanos chamam correntes musicais; elas também são identidades dos lugares onde nasceram. Quem como eu enche estádios e movimenta massas com o único objectivo de ser ouvido? 
 
A chegada da Sr.ª Pintura e da Sr.ª Fotografia interromperam a divagação da Sr.ª Música, não sem algum desagrado desta, a qual, não querendo ser incorrecta, incentivou a Sr.ª Pintura a falar do seu papel. E ela falou. A sua principal preocupação é realçar o que há de belo nas pessoas, nas coisas, nas paisagens nas acções, etc.. E sente-se muitas vezes injustiçada por não ser verdadeiramente compreendida. Facilmente chamam horrível ao belo, tendo como único argumento o não gostarem. Mas até no horrível se pode encontrar uma parte bela.
- Reparem - chama ela a atenção – os fuzilamentos de Góia parecem horríveis, não é? Na realidade as práticas foram muito piores. Eu pego na realidade e torno-a menos agressiva.
 
A Sr.ª Fotografia, sempre tão parca em palavras, não quis terminar o lanche sem defender a sua causa:
- Pois a mim custa-me aceitar ser tão ignorada no mundo das artes. Não fosse eu e como poderiam os humanos registar cenários de guerra, acontecimentos importantes como os casamentos, os baptizados, isto para não falar da imprensa, revistas e jornais. Saiba a Sr.ª Escrita que muitas das revistas não são lidas, mas apenas vistas pelas suas fotografias. Eu, como a Sr.ª Pintura, também reproduzo uma realidade, mas ao mesmo tempo fixo o momento.
A Sr.ª Fotografia acaba a lamentar-se por já não serem os mesmos tempos, os tempos em que as famílias se engalanavam para ir ao fotógrafo e, depois de lhes chamarem a atenção para o passarinho que nunca existia, tiravam uma fotografia para a posteridade.
 
O Sr. Cinema, que nasceu mudo mas rapidamente evoluiu, pese embora ainda não ter passado de 7.ª Arte, é um verdadeiro cavalheiro. Não quis interromper as Senhoras quando chegou, mas logo que pôde entrou no diálogo e, bebericando uma bebida cor de chá mas com cheiro duvidoso, disse:
- Eu até aceito a deselegância de me pagarem o lanche se alguma das Senhoras me revelar um método mais simples de aprendizagem e indicar indústria mais rentável do que a minha. Vejam por exemplo o que acontece nos E.U.A. e na Índia! Não houve de facto argumentos e as contas acabaram à moda do Porto - cada um pagou o seu e cada um foi para seu lado cumprir a agenda.
 
Quando a Sr.ª Escrita entrou na sala de exposições foi recebida pela Sr.ª Música Ambiente. As Sr.as Fotografia e Pintura já estavam expostas nas paredes e, num lugar mais reservado da sala, já estava o Sr. Cinema - um filme sobre o autor do livro que ia ser lançado aquela noite.
Os personagens, já nossos conhecidos, entreolharam-se e respeitaram-se mutuamente. O Sr. Cinema quis divertir as Damas e piscou um olho, a imagem desapareceu do ecrã. Logo um técnico veio repô-la - pensa ele, porque o que aconteceu foi que o nosso amigo voltou a abrir o olho.
As Senhoras das artes riram muito e muito baixinho, tão baixinho que ninguém as ouviu...
 

Cidália Carvalho

 

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