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20
Out09

Frente à velha figueira (Incapacidades – 7)

Publicado por Mil Razões...

 
Sentia-se confortável. Tão velha como ele, a cadeira de repouso envolvia-lhe as costas, sustentava-lhe os braços, moldava-se às pernas e amparava-lhe a nuca de tal forma, que o seu corpo parecia flutuar, imponderável.
 
Gostava dos fins de tarde de Outono e da luz mansa que se espraiava pela casa. Os objectos adquiriam tons quebrados e formas difusas, remetidos para a sua importância funcional. Lá fora, a figueira dos seus tempos de menino, espreitava pela janela e acenava, impelida pelo vento.  
 
Já passara um ano sobre o maldito AVC e persistiam as dificuldades de coordenação de movimentos. Em tudo dependente - até para dormir - aguardava que alguém o deitasse ou o trouxesse para a velha cadeira onde permanecia todo o dia. Ali passava longas horas, sozinho, assombrado por recordações, revisitando pessoas e sentimentos. Por vezes retinha as imagens mais agradáveis, alongava-se nos detalhes e dormitava sobre eles. Mas dias havia em que fragmentos dolorosos do passado se impunham e dominavam os pensamentos. Nessas alturas, levantava os olhos para a velha figueira e seguia-lhe os movimentos ondulantes até alcançar um estado hipnótico e libertador.
 
Apesar de tudo, sentia-se bem naquela tarde. Percorreu os tempos em que subia à figueira e as vezes sem conta que de lá caiu. A velha face enrugada e trémula esboçou um esgar, quase um sorriso. Recordou o amigo que muitos anos atrás lhe dissera já ter tido um A, um B e um C, receando continuar, de acidente vascular em novo acidente, até ao final do abecedário. E riu-se contidamente por dentro. Cheirou a hortelã acabada de cortar e as rosas vermelhas que bordejavam o canavial. Desceu ao rio de sempre e tocou nas águas luminosas e transparentes. E ficou muito tempo na margem, seguindo as folhas levadas pela corrente. De súbito, o rio parou e a imagem do seu rosto de menino surgiu reflectida na água.    
 
O tabuleiro de figos no parapeito de sol; as iscas de bacalhau do Solar das Andorinhas, o gato preto, enorme, no tapete da sala; ”- a nogueira secou”; o corredor imenso, cheio de fantasmas de luz e sons; os cheiros da sobreloja e a galinha ao fundo, imóvel no cesto; ”- já chegou o menino Jesus”; as sobrancelhas do professor Borges; as mãos macias e quentes da mãe. Era sempre assim: recordações aleatórias acotovelavam-se no final do dia e terminavam com a imagem da mãe, segurando-o no colo. ”Amanhã, pensou, vou visitar a escola e, se tiver tempo, vou comer umas iscas da “Ti Rosa”.
        
Sentiu a mão da filha a percorrer-lhe a cabeça. Começava o ritual diário que anunciava a hora de se deitar. Compensou com o olhar os gestos que o corpo recusava e deixou-se levar.    
           

José Quelhas Lima

 

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