Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

18
Dez17

Homem Sombra (Mistérios – 12)

Publicado por Mil Razões...

Man-silhouette - Free-Photos.jpg

Foto: Man-silhouette - Free-Photos

 

Pegava numa folha branca e escrevia. Na folha apareciam frases que ela não sabia de onde vinham, mas, para sua admiração, providas de sentido. Não sabia se escrevia para ela mesma ou para aquele homem misterioso e distante. Tudo ficava confuso, como que alienado. Talvez entrasse num estado que se podia confundir com um sonho. Talvez fosse uma forma de encontrar consolo.

 

Recorda-o. Aproximou-se com cautela. As primeiras conversas, como se estivessem sentados face a face. Apresentou-se com o seu eu de agora: falou sobre o que fazia profissionalmente, onde trabalhava, contou-lhe sobre os seus tempos da universidade, os seus interesses atuais e confidenciou-lhe a idade, correndo o risco de ela nunca mais lhe falar. Ela perguntara-lhe mais pela sua vida e ele abrira-lhe o seu “pequeno mundo”. Contara-lhe que tinha um filho e desabafara sobre o casamento falhado e sobre os desafios que agora enfrentava. Assim… a uma total desconhecida. Ele apenas dizia que gostava de conhecer pessoas, como aliás sempre gostou, frisara, e que ali, naquele “mundo” onde quase se sentiam lado a lado, não havia tantos preconceitos e julgamentos.

 

As coisas sucedem e a todo o momento alteram-nos, matando-nos o eu interior, criando um outro eu ligeiramente diferente, ou então muito diferente. A vida não é como deveria ser, as coisas não acontecem como previsto. E há um corpo que se fecha e que é só a defesa e uma forma de proteção do que vai sucedendo. Como se reconheceria ela a si mesma? Saudade de quem nunca foi.

O mesmo sucedera com aquele homem misterioso. Reconhecera-se ele a si mesmo? Sentira ele saudades de quem nunca foi ou do que já tinha sido? Nunca entendera as confissões do homem misterioso, o motivo pelo qual o corpo fechado se abrira para ela. A ela, apenas, suscitara-lhe alguma desconfiança e sentido de confusão o desprendimento com que ele lhe falara sobre coisas da sua intimidade.

 

Depois, ele desapareceu. Antes, deixou de aparecer. E o homem misterioso começou, aos poucos, a tornar-se o homem sombra. Não que fosse má pessoa: algures na vida que não é como deveria ser e nas coisas que não acontecem como previsto, ele perdera-se no que lhe tinha acontecido e perdera a capacidade de se deixar levar, de interagir, de dar e receber ou até, em último caso, de sentir o outro e de amar. Ela descobrira, então, a sua exímia capacidade de manipulação: primeiro, envolvera-a com a sua astúcia e inteligência, realçando sempre o lugar que tinha conquistado profissionalmente e todos os conhecimentos que adquirira, sem deixar de frisar o muito que ainda tinha que aprender. Envolvera-a no seu jogo e conseguira o que queria: a atenção, o carinho, a devoção, a curiosidade e a admiração dela. Depois desligara e voltara a refugiar-se no corpo fechado em que habitava, sem deixar de a alimentar com pequenas migalhas de atenção. Achara que assim conseguia mantê-la por perto. As coisas não aconteceram como ele previra. Mistério resolvido.

 

Sandra Sousa

 

Porto | PORTUGAL

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Equipa

> Alexandra Vaz

> Ana Bessa Martins

> Cidália Carvalho

> Ermelinda Macedo

> Fernando Couto

> Jorge Saraiva

> José Azevedo

> Leticia Silva

> Maria João Enes

> Miriam Pacheco

> Rui Duarte

> Sandra Pinto

> Sara Silva

> Sónia Abrantes

> Teresa Teixeira

Calendário

Dezembro 2017

D S T Q Q S S
12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D

Comentários recentes

  • Alexandra Vaz

    Obrigada eu, pela partilha. Forte abraço.

  • Anónimo

    Obrigada pelo seu contributo nesta empreitada de d...

  • Anónimo

    Uma pincelada de amarelo, pelo respeito de quem de...

  • Anónimo

    Mais um texto que mexeu comigo. Maravilhoso. Obrig...

  • Mil Razões...

    As redes sociais não são uma ajuda clínica. Quando...

Ligações

Candidatos a Articulistas

Amigos do Mil Razões...

Apoio emocional

Promoção da saúde