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O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

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07
Dez16

Canção de esperança (Esperança – 10)

Publicado por Mil Razões...

Earthquake-AngeloGiordano.jpg

 Foto: Earthquake – Angelo Giordano

 

A dor lancinante que lhe subia pela perna despertou-a da morte iminente. Não conseguia distinguir se tinha os olhos abertos ou fechados, tamanha era a escuridão.

Demorou a perceber o que lhe estava a acontecer. Minutos antes, estava sentada a estudar na mesa da sala quando um ronco profundo e seco soou da terra e tudo tremeu violentamente. Refugiou-se debaixo da mesa, tal como tinha aprendido na escola, para estas situações de emergência. Dificilmente conseguia mexer-se debaixo dos escombros, tinha um pé preso, já anestesiado pela dormência que tomou o lugar da dor. Assustada, chamou pela mãe que estava na cozinha momentos antes, gritou por socorro, mas a negritude apenas lhe devolveu o silêncio de morte. Aterrorizada com a sua sorte, tentou manter-se calma, não entrar em pânico, esforçou-se por ocupar os seus pensamentos com as boas memórias da sua vida, com os pais, os amigos e colegas, listou mentalmente os seus gostos, comidas preferidas, filmes e músicas preferidas. Antes de adormecer, teve tempo para imaginar os locais que ainda gostaria de visitar.

 

Acordou sobressaltada, com fome e sede. Não podia perder a esperança de ser encontrada e ser salva. Gritou por socorro, gritou até esgotar as suas forças. Entretanto, os seus olhos já habituados à escuridão, conseguiram distinguir no seu lado esquerdo uma luminosidade ténue. Esticou o braço em sua direção e sentiu na mão uma humidade refrescante que lhe caía gota a gota. Levou a mão à boca para saborear o líquido. Sim, era água! Esticou desenfreadamente o braço uma e outra vez, quantas as necessárias para satisfazer a sua sede.

Desorientada, entre adormecer e acordar, perdeu a noção de tempo. Desconhecia se era dia ou noite, se estava ali há vários dias ou apenas há algumas horas… Saciava-se com as gotas que caiam mais espaçadamente. “Se as gotas pararem de cair estarei perdida!” Este pensamento feriu-a como uma flecha espetada no coração. Sentiu a morte a espreitar.

Já no seu limite, pediu novamente ajuda. Os pensamentos atropelavam-se na sua cabeça, sentia o desespero a invadi-la. Não estava preparada para morrer, ainda tinha tanto que experimentar, tanto que viver! Entrou em luta com o seu corpo dormente e com vontade de desistir. Não podia desistir, esperava que alguém a viesse salvar. Envolvida numa languidez sonolenta, começou a cantar. Começou a cantar as canções da sua infância, continuava com as suas canções preferidas e todas as que conhecia. Sempre que acordava, cantava, cantava já embrulhando as letras, cantava como se de um mantra se tratasse, como uma ladainha promissora de vida.

“Ei! Vocês estão a ouvir? Estão a ouvir?”, perguntou aos colegas, o jovem bombeiro que tinha acabado de se sentar para descansar uns minutos. “Estou a ouvir uma voz delicada a cantar!” Começou a bater nos pedaços de parede caídos e a chamar a pessoa soterrada, pedindo que continuasse a cantar até conseguir perceber a sua localização e a salvá-la.

 

Tayhta Visinho

 

Porto | PORTUGAL

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