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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

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07
Nov16

O que permanece (Herança – 14)

Publicado por Mil Razões...

Brothers-AdinaVoicu.jpg

Foto: Brothers – Adina Voicu

 

A herança pode ser uma coisa fantástica, se falarmos daquelas comédias em que alguém fica milionário com uns milhões vindos de um tio-avô esquecido, ou de um primo em sabe-se lá que grau. Mas isto é o lado superficial ou fútil da questão, aquele que não é importante nem determinante para as nossas vidas.

A verdadeira herança é outra coisa, é quem somos e como somos e a compreensão que temos do mundo por causa daqueles que nos criaram e daqueles que passaram pelas nossas vidas.

Nem sempre são coisas boas, porque os outros são como nós, ou seja, não são perfeitos. Para complicar, a herança não é só feita de palavras e gestos. É muito mais o resultado do que observamos enquanto crescemos, a soma inexata dos exemplos que nos foram oferecidos enquanto crescemos e nos moldamos.

Interessa mais o que nos dizem ou o que fazem e o que nos fazem? Tem mais impacto o que vemos ou o que ouvimos? Há situações com um impacto tão profundo nas nossas vidas que nunca mais dele nos livramos.

Um filho que é fisicamente maltratado ou verbalmente abusado, como se torna numa pessoa meiga e gentil? Uma filha com uma mãe ansiosa aprende onde a ser calma e tranquila? O que nos ensinam pais, avós, tios, mentores e outros que tal, para nos preparar para a vida, a nossa vida? Não a que imaginaram ou esperaram para nós mas aquela que vivemos porque somos únicos e temos sonhos próprios, esperanças diferentes, aquela que nos faz bater de cara na parede muitas vezes, porque tem que ser e na realidade só aos trambolhões aprendemos qual o caminho que desejamos.

Herdamos manias, tiques, agimos muitas vezes de formas que nos tolhem, porque não podemos desiludir quem nos ajudou a crescer. Dizer não, ou apenas nada dizer, a quem nos fez nascer, nos mudou fraldas e deu a primeira papa, é muito duro. Sentimo-nos a falhar às suas expetativas e a ser mal-agradecidos. E quando a vida é madrasta e nem a infância foi simpática e amena, ainda assim estamos sempre em busca dessa aprovação. Como se sem ela não fossemos nada e nenhum dos nossos passos tivesse valor. Como eternas crianças, bem lá no fundo.

 

Aquilo que mais tenho procurado é ser eu mesma e viver a minha vida como desejo; é um caminho arriscado porque estamos mais expostos a críticas. E quando falhamos? Como dizia a minha avó, Deus nos livre e guarde. A dado momento pivotal da nossa passagem pelo planeta, temos mesmo que decidir se conseguimos, ou não, ser a ovelha negra da singularidade familiar.

Não tenho como negar que muitas recordações aconchegantes se estendem pela minha infância e adolescência; e depois há outras mais complexas e que, falando claramente, dispensava. Mas tudo isso é a minha herança e a partir dela já me construí e reconstruí inúmeras vezes. Não só com sucessos, nem sempre com sorte, mas com uma profunda convicção.

A nossa herança é tudo o que nos deram, mais do que tudo o que nós damos aos outros. Os que nos amam devem compreender isso. Os pais devem saber quando passar de redoma para malha de segurança; devem saber quando nos largar ou quando nos apanhar. Os irmãos devem saber quando passar a amigos em vez de rivais. O resto da malta deve saber quando nos deixar voar e respeitar a nossa essência.

Não é nada fácil, eu sei. Mas o Amor genuíno é assim.

Amor sem aceitação, não é amor. Mesmo quando parece.

 

Laura Palmer

 

04
Nov16

Nem tudo o que reluz é herança (Herança – 13)

Publicado por Mil Razões...

Cemetery-3345408.jpg

Foto: Cemetery - 3345408

 

Algumas considerações acerca de heranças (de alguém que não percebe mesmo patavina do assunto):

 

Herança Familiar - Complicado, para afirmar o mínimo. A primeira entrada no Google remete-me para uma página da DECO. Dou uma leitura rápida no texto explicativo que acompanha uma foto de uma mão com um porta-chaves em formato de casa, deitado numa palma aberta. Património. Herdeiros. Sucessão. Bens. Direitos. Dívidas. Funeral. Atos religiosos. Testamento. Administração. Liquidação. Perfilhar. Deserdar. Quota indisponível. Aceitação tácita e Deus me livre. O castigo que a morte trás aos vivos não acaba na dor emocional. Evidentemente que nem todas as mortes são iguais e, em muitos casos, o consolo do coração serve-se do que se deixou. Noutros porém, tal como refere o texto citado, a inexistência de um seguro de vida é basto motivo para desconsolar e responsabilizar quem cá ficou. Sim, já ouvi afirmar: “quando me for, pelo menos não deixo a ninguém as minhas contas”. Reconheça-se que, como último gesto altruísta, a coisa não está nada mal. Há quem faça muito menos naquela tendência final de acertar contas com a vida e com os vivos.

 

Herança Patrimonial - Advém da anterior ou é uma parte da mesma. Confesso que não sei. Julgo ser TUDO aquilo que se deixa. Acho que, existindo diferença para a primeira, este TUDO não tem de advir de um familiar. É o caso típico e frequente da fantasia, em que aquele milionário sem herdeiros deixa em testamento tudo ao seu fiel mordomo. Isto, claro, depois da namorada, 40 anos mais nova, ter gozado o seu devido quinhão.

 

Herança Económica - Soa-me a algo político ou empresarial. Ou a algo semelhante a bode-expiatório. No caminho diário para o trabalho ligo sempre o rádio na Antena 1. Tenho a tendência masoquista (claro que sou português) de ouvir as notícias da atualidade, como se gosta de dizer. Evidentemente que as noticias são as da atualidade. As que já foram notícias, na sua decrepitude tornaram-se história. Mas já estou a divagar. Parece-me então familiar a expressão. A sua tradução em bom Português é (independentemente da cor da boca partidária que a produz), “está tudo uma merda mas a culpa não é nossa”.

 

Herança Cultural / Social - Peço desculpa por misturar as duas, mas as fronteiras das expressões são de difícil destrinça. A malta que pôs um gato dentro de um pote, pôs o pote no alto de um poste, pôs a base do poste em chamas (mais ou menos isto, perdoem-me qualquer imprecisão de tão sublime quadro tradicional) provavelmente será um exemplo espetacular do primeiro caso. Mais espetacular do que o próprio espetáculo contudo, terá sido o facto de pelos vistos ninguém ter sido condenado por tal. Ora aí está talvez um bom exemplo do segundo caso. Já vem de trás no nosso país (herança social) que a vida dos animais não vale um chavo. Vá lá que isso aparentemente está a mudar. Exceto quando é a RTP a fazer uns trocos e “serviço público” com a transmissão das touradas.

 

Herança Genética - É como um encontro às cegas. Com sorte nunca mais o esqueces e até pode ser o ponto de viragem na tua vida romântica. Com azar nunca mais o esqueces e até pode ser o ponto de viragem da tua vida romântica. Ou como a roleta-russa. Mas já perceberam a ideia. Já aqui o escrevi várias vezes mas aqui vai mais uma. Trabalho há 15 anos com pessoas com deficiência intelectual e/ou multideficiência. O que posso dizer? A herança genética é tramada. Síndromes, mais síndromes e mais síndromes. Cromossomas, tinto, coca. Má nutrição, bagaço, cavalo, tabaco. E por aí fora. Diagnósticos difíceis de pronunciar, muitos deles com nomes de uns senhores estrangeiros. Não interessa muito. O rótulo é o mesmo, no final.

 

Mas aproveito para deixar à vossa consideração o seguinte: o rótulo não tem de existir mais que o necessário, dado que rótulos todos temos. Olhem para todas as pessoas como isso mesmo. Pessoas. Umas precisam de mais apoios e outras de menos. Todos temos direitos e deveres. Não deixem que a herança cultural e social de olhar para alguns como “coitadinhos” tolde o vosso juízo crítico da justiça social e relacional.

 

Herança Indivisa - Não faço ideia do que se trata. Nem quero saber. A não ser que dê jeito saber caso herde alguma coisa que se veja.

 

Rui Duarte

 

02
Nov16

Herança Maior (Herança – 12)

Publicado por Mil Razões...

Mother-Unsplash.jpg

Foto: Mother - Unsplash

 

Durante anos questionei-me a que lado da família me assemelhava mais, ao contrário da minha irmã mais velha que herdou o feitio e as feições do nosso lado paterno, e da minha irmã do meio que herdou a personalidade do nosso lado materno, nunca consegui identificar quer em mim quer no meu irmão, semelhanças específicas com nenhuma das partes. Com o passar dos anos fui-me dando conta da “hibridez” da minha personalidade, ao mesmo tempo que encetei uma corrida contra o tempo para puder trabalhar tudo aquilo que herdei e que não gosto ou me faz mal.

Existe uma linha muito ténue entre aquilo que herdamos e o que queremos herdar, seja em termos de caraterísticas, ou em termos de código genético. E nesse contexto a genética – que é a mais universal e legítima das heranças - tanto pode maravilhar como pode condenar.

A genética é a mais ambígua das heranças: por um lado recebemos as caraterísticas menos boas, as doenças e até as situações mal resolvidas dos nossos ascendentes, que inevitavelmente, acabam por desaguar em nós. Por outro lado, exibimos com orgulho as qualidades que nos passam, e que tanto apreciamos: mesma cor de olhos, a mesma frontalidade, a mesma humildade, etc., e no outro reconhecemos traços físicos e de personalidade que nos fazem recordar, com alegria, quem já não está e assim louvar a abençoada genética.

É então que surge uma necessidade de divisar aquilo que somos fruto do que herdamos e aquilo que nos construímos para ser, em alguns casos combatendo o que não queremos ser.

 

No entanto, meus caros, muito mais importante do que preocupar-me com aquilo que sou através dos outros e do que sou através da minha individualidade, é trabalhar o meu todo para deixar o melhor de mim à Herança Maior que recebi e que deixo ao mundo: o Sol em forma de um rapazinho que me foi legado. O meu filho sim, é a maior e mais valiosa de todas as heranças que algum dia podia ter sonhado, e, sem dúvida, a mais nobre que posso deixar ao mundo, não porque tem uns incríveis traços de personalidade e jeitos familiares que me transportam no tempo, mas porque me resgatou às sombras, fez crescer em mim a necessidade de ser melhor a cada dia, e porque me ensina mais do que algum dia sonhará.

 

Ana Bessa Martins

 

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