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08
Ago16

Amanhã pode chover (Irreversível – 16)

Publicado por Mil Razões...

Color-LoggaWiggler.jpg

 Foto: Color - Logga Wiggler

 

Ontem era o meu dia de folga e fui aos saldos. Bem, digamos que, por força do adiantado da época, fui mais às rebaixas das promoções dos saldos das promoções. Como gosto de andar sempre na última moda, tinha que ir aos últimos saldos, certo? Assim como assim, já que não vou de férias julguei justo permitir-me essa extravagância, com uns últimos trocados do que consegui poupar este mês.

Comprei um trench coat reversível: uma lindeza! De um lado, uma aguarela pintada de fresco, ainda escorrendo cores de rebuçados. Do outro, uma indefinível e elegante cor de tarde pardacenta. Ficou-me a matar, parecendo talhadinha para o meu corpo de modelo único. Sim, porque igual a mim, moi, je, já não se fazem hoje em dia! Que o digam todas as roupinhas maravilhosas que rejeitei lá pelas lojas, umas de tamanho excessivamente pequeno, outras de tamanhão escandaloso. Meu Deus, serei assim tão especial, singular, eu, com as minhas medidas de mãe-de-trazer-por-perto e de mulher-de-lazer-ao-largo?  Francamente, não sei se fique feliz ou infeliz com essa particularidade. Feliz, porque até me considero jeitosinha, para o gasto, e infeliz... bem, é óbvio, porque nunca consigo comprar uma roupa que me caia bem, nas “oportunidades”.  Adiante, que se faz cansaço.

Dizia eu que vim toda feliz, ontem, com o meu trench coat. Digam lá, soa bem, trench coat, não soa? Foi a menina da loja que lhe chamou isso. Diz que é chique, ainda por cima! Para mim, se querem que lhes diga, aquilo é uma gabardina, mas pronto. É muito bonitinha, a peça.  E reversível. O que dá um jeito que vocês nem imaginam. Ora pensem lá: um dia visto-a de um lado. Outro dia visto-a do outro. Duas peças pelo preço de uma. E por uma pechincha. Ah, eu sempre soube que trabalhar num restaurante de sol a lua era um desperdício. Eu devia era ter um cargo, assim um cargo importante no mundo dos negócios. Gestora financeira, ou assim. Ah, deixa-te de tretas, Maria Almerinda, já tens uma carteira bem difícil de gerir: a tua!

 

Ai, cheguei a casa tão feliz!... Mas depressa o meu estado de graça se reverteu. Outra coisa reversível que eu tinha lá por casa, era o estado de espírito do meu marido, convém dizer. Pois. Parece que ontem a vida não lhe correu bem, e desatou a descarregar em mim as frustrações do dia. E os últimos vapores de álcool do vinho a martelo lá da tasca da esquina.

Disse-me coisas irrepetíveis. Barbaridades duma injustiça acutilante. Vociferou, perdeu a razão. Não adiantou ripostar, argumentar, tentar todas as estratégias que tenho traçadas, nos velhos calendários de anos e anos, a ouvir e calar, a levar e perdoar, a esquecer para sobreviver, a aprender a ter a arte da reversibilidade. A verborreia não demorou muito a passar a tareia. Mais uma. Só mais uma nódoa negra para a qual eu teria hoje de inventar uma desculpa criativa, lá no trabalho. As crianças tinham-se, como de costume, encolhido no canto mais remoto da casa, tapando os ouvidos para não deixar entrar as memórias futuras. Depois dos gritos, o habitual bater violento da porta da rua. Depois dos habituais três ou quatro minutos cronometrados à lágrima, dois pares de passos trémulos ao meu encontro. Dois abraços, um ao nível das pernas, outro da cintura. Isto, quando eu não estava no chão, derramada num desconjuntado monte de ossos e de mágoas.

 

Ontem, foi também um dia desses. Ontem, foi o dia da irreversibilidade - a aguarela do meu lado cor de rebuçado, borratou, enegreceu, ficou irreconhecidamente ácida, dolorosamente maculada, ultrajada, corrompida. Sem outra face. Alguém chamou o 112. Não sei. Doía-me o ar que respirava. Doíam-me, sobretudo, dois pedaços de mim, que me levaram dali em lágrimas.

Vestiram-me a gabardina nova (quero lá saber se é trench coat!), do lado mais triste, para me cobrir o corpo rasgado. Fechei os olhos e, juro, dentro deles vi um festim de cores, tons pastel beijando flores doces, andorinhas felizes perseguindo brilhos de sol, azuis de céu pedinchando arco-íris. Uma tela magnífica, pintada por mim mesma, pela minha vontade de me virar do direito e sair para a chuva sem medo.

 

Hoje, os meus filhos vieram ver-me. E viram: é nos olhos que primeiro a alma se percebe. São meninos sensíveis, os meus filhos. Não é preciso contar-lhes que há coisas nesta vida que são irreversíveis: palavras que marcam indelevelmente, atos indignos, traçados de dignidade própria, caminhos de um só sentido, decisões sem alternativa. Nem explicar-lhes que só os objetos podem ser reversíveis, como uma moeda, um trench coat, uma porta. O resto, vou explicar-lhes, devagar, que é apenas redefinível: o ponto de vista, a posição estratégica, a escolha dos caminhos, a maneira de olhar, o modo de ver, o conhecimento de causa e das coisas. 

 

“Amanhã é outro dia.” Ah, o tempo, o tempo também é irreversível! As coisas que ainda temos que aprender, os três! Eles foram buscar a gabardina, quando sentiram o meu arrepio e vestiram-ma do lado garrido. Havia aqui e ali uma mancha de sangue seco. Vivo, paradoxalmente - mas isso só acrescentou ao quadro mais cor, mais força, mais caráter. E mais verdade.

 

Teresa Teixeira

 

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