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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

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06
Jul16

A viagem (Irreversível – 3)

Publicado por Mil Razões...

Norway-HenningSørby.jpg

Foto: Norway – Henning Sørby

 

Uma após outra vai pisando as traves que servem de escada, monte abaixo, em direção ao rio. Estão velhas e gastas as traves que alguém, há muito tempo, colocou em pequenos socalcos de terra e pregou a pequenos pilares, também estes de madeira gasta como as traves que amparam. O rio da Sabedoria, assim se chamam as águas que correm lá no fundo, no lugar onde um monte acaba e outro começa, fascina-o. Mesmo à distância as suas águas exibem uma transparência e uma frescura irresistível. Anseia por se banhar nessa beleza e beber da sua sabedoria. Caminha há muito tempo mas está longe de chegar, a distância que o separa parece aumentar a cada passada e abana-lhe a certeza de o conseguir. Olha para trás na tentativa de se confortar com o caminho já percorrido mas parece que não saiu do lugar, o cimo do monte continua ali, um pouco acima da sua cabeça.

Estuga o passo e desce os degraus dois a dois. Tem que chegar ao rio antes que anoiteça, e o sol já parece esconder-se no monte do outro lado do vale.

 

Começou por ser um vulto indecifrável o que viu lá longe, mas foi crescendo e ganhando forma à medida que ficava mais perto. A criatura à sua frente caminhava devagar, primeiro, um pé tateante, depois, quando o lugar lhe parecia seguro, pousava-o para avançar com o outro. Quando se apercebeu de que não estava só, perguntou:

- Quem se aproxima?

- Um ser como tu. Desço o monte até ao rio onde me vou refrescar e saciar a minha sede de saber.

- Sou cego e também vou para o rio, sê bondoso e deixa-me apoiar em ti, caminharemos juntos e juntos entraremos no rio da Sabedoria.

- Desculpa homem cego, caminho há muito tempo, estou cansado e tenho pressa de entrar no rio, se te acompanhar atrasarei a minha viagem. Vem no teu passo que acabarás por chegar.

Acelerou ainda mais.

 

Tinha decidido levar esta viagem até ao fim e as suas decisões eram irreversíveis.

- Viajante! Oh viajante! Ajuda-me!

- Quem pede ajuda e onde está?

- Aqui, nesta trave. Olha para baixo e ver-me-ás. Sou um pobre coelho que ficou preso neste buraco, tem misericórdia e solta-me.

- Não posso soltar-te coelhinho, demoraria muito tempo e eu tenho pressa de chegar ao rio da Sabedoria, terás que te libertar sozinho, vai tentando, de tanto tentares hás de conseguir.

O viajante continuou a caminhada.

 

Os degraus estendem-se à sua frente a perder de vista e o sol, ainda que baixo no horizonte, queima e dá ao lugar uma aridez que mais lhe aumenta o desejo de atingir as águas refrescantes da Sabedoria. Só, encosta abaixo, uma espécie de angústia apodera-se dele e atormenta-o. Sabe que desce o monte para entrar no rio da Sabedoria que corre lá em baixo, mas esqueceu-se de onde vem, não se lembra da sua casa e a memória libertou o registo do rosto de familiares e amigos. Apela para todos os sentidos mas não obtém resposta. Perdeu o passado nesta viagem irreversível.

- Viajante! Oh Viajante! Onde vais com tanta pressa?

- E quem tem curiosidade em saber?

- Sou eu, esta árvore aqui mesmo ao teu lado. - disse a árvore abanando os ramos para se fazer notar. E, continuou:

- Tenho sede e se me deres um pouco da água que está naquele poço, eu compensar-te-ei com a sombra dos meus ramos e com fruta suculenta.

- Não posso perder tempo contigo, a noite aproxima-se e eu tenho que chegar com luz ao rio para me poder banhar nas águas da Sabedoria. Espera que chova e a tua sede será saciada.

Exausto, continuou a caminhada.

 

O cansaço apoderou-se dele. Assaltaram-no dúvidas. Dúvidas sobre a existência do rio que corre lá em baixo. Mas não era razoável duvidar, ele bem o via com as suas águas transparentes e de onde estava sentia a aragem fresca e o aroma a juncos que por certo cresciam nas suas margens. Dúvidas sobre as razões desta sua empreitada para atingir as águas da Sabedoria, de que nunca antes tinha ouvido falar. Dúvidas de que o rio fosse o fim da caminhada e que a Sabedoria estivesse no lugar de chegada e não no caminho que percorria. E se interrompesse a viagem para a repensar? Não, não podia voltar atrás, os degraus que desceu, inexplicavelmente desapareceram e ele não vislumbrava outro caminho de regresso. Esta viagem era irreversível. 

 

De repente, ali mesmo à distância de um passo, viu-se à beira de um precipício. Olhou para baixo e lá no fundo corria o rio alimentado pela catarata que brotava em força do meio da escarpa. As águas jorravam belas e ameaçadoras da tranquilidade e do silêncio do lugar. A luz que refletiam encandeava-o. Quis abrir os olhos que instintivamente se fecharam mas não conseguiu. A luz intensa, demasiado intensa, impediu-o de ver. As pálpebras não cederam à vontade de manter os olhos abertos. Quis recuar, afastar-se do precipício, mas perdeu o equilíbrio, faltava-lhe o chão, sentiu-se afundar. Estava em queda livre, quando batesse nas águas da cascata que alimentavam o rio, seria o seu fim. Irreversível! Estava em pânico. Num último esforço conseguiu abrir os olhos. O precipício desapareceu, o reflexo de luz intensa da catarata desapareceu e as águas cristalinas do rio já não corriam lá no fundo.

A cama onde estava deitado nunca antes lhe pareceu um lugar tão seguro.

 

Cidália Carvalho

 

 

04
Jul16

Sorriso (Irreversível - 2)

Publicado por Mil Razões...

Baby-MDphoto.jpg

Foto: Baby - MDphoto

 

Hoje acordei pronta para refletir sobre a morte.

Porquê? Porque me faz pensar em tudo a que vale a pena dar importância, já que, quando ela chega acaba tudo e pronto, sem volta a dar. Isto ajuda-me a levar melhor os dias.

Mas, quando acordei, o que vi primeiro foi o grande sorriso do meu pequeno filho. Afinal, há mais coisas que não esquecemos e que não há volta a dar, está feito e bem registado na memória: a felicidade.

Essa sim, não é física, chega e fica, mesmo que seja em recordações, está na nossa mente bem guardadinha. Temos é que ir lá buscá-la.

A felicidade que já conquistámos em algum momento é irreversível, está vivida e não podemos voltar com o tempo atrás.

Depois deste grande sorriso, chega um segundo quando chego ao trabalho e tenho uma conversa com um dos alunos:

- Sónia, vamos ter um dia como o de ontem?

- Acho que sim, porquê?

- Adorei o dia de ontem!

O dia de ontem foi vivido e naquela memória está gravado como um excelente dia.

Por isso, hoje esqueço a morte e vivo a felicidade, como algo que não voltará a deixar de existir.

 

Sónia Abrantes

 

01
Jul16

Dimensão que fica (Irreversível - 1)

Publicado por Mil Razões...

Head-GerdAltmann.jpg

Foto: Head - Gerd Altmann

 

Há dias os seus corpos também estavam cá.

Os seus corpos tornavam-nos existentes.

Os seus corpos também comunicavam connosco.

Tornaram-se inexistentes, porque o cérebro e o coração pararam.

Tornaram-se invisíveis, porque ninguém consegue recuperar e ver o corpo.

O corpo desaparece…

É muito importante ter o corpo para a despedida, mas o corpo não volta; é irreversível.

Há, no entanto, outra dimensão que não desaparece. Não é reversível, nem irreversível, porque nunca desaparece do nosso perimundo.

Envolve-nos diariamente sem grande esforço. As fotos ficam; as recordações não documentadas ficam.

Ficam connosco com muita intensidade.

Às vezes rimos e choramos sozinhos com lembranças muito reais.

Vivemos momentos imaginados, com desfechos prováveis baseados nesta dimensão que não desaparece.

Seria assim, teria este desfecho se estes momentos fossem vividos com estas pessoas cujo corpo já não está cá, dizemos nós.

Acompanham-nos como se o corpo fosse reversível e, deste modo, visível.

Na morte, só o corpo é irreversível… só as funções vitais são irreversíveis…

Há uma dimensão que fica…

 

Ermelinda Macedo

 

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