Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

30
Nov15

Renascer no desapego (Medo – 7)

Publicado por Mil Razões...

WomanSmiling-PeterGriffin.jpg

Foto: Woman Smiling – Peter Griffin

 

Alguém desligou o som, depois a luz. E o tempo parou. Quando reiniciou a marcha, sem ter percebido que havia parado, deu por si fragmentada e esquecida. Havia um antes e um depois de qualquer coisa omissa. Uma brecha, pequenina, quase insignificante, era agora um portal de livre circulação de todos os demónios, outrora em quarentena segura. E o tempo, sem saber quem era, não se compadeceu de nada nem de coisa nenhuma: fez a alma acolher a anarquia, permitiu à mente rodar as piores películas de sempre e esmagou o coração sob a tirania da mentira e do desencanto. Tudo isto como um castelo de cartas, derrubado com um sopro suave, quase poético, mas cujo fascínio termina no momento em que cai a última carta. Caiu tudo. Mudou tudo. Tudo.

Acordada da letargia que lhe desligou o relógio, tomou consciência do quanto doía dentro de si. Os dias e as noites foram atormentados por uma multidão, que gritava e bailava, dentro dela. Vultos sem rosto, vozes zangadas. Quanto mais a alma sangrava, mais nítido se tornava aquele cenário: os seus demónios, à solta, numa dança perversa. Estavam lá todos. Serviu-lhes um cocktail à chegada e assistiu, sem mexer um dedo, à expropriação de si mesma. Em pouquíssimo tempo, tudo o que tinha sido já não era, mas continuava sem saber o que chamar àquele intervalo frenético. Não sabia o que lhe faltava lembrar para respirar sem doer. Andou assim muito tempo: fora dela, sem força para agir; dentro dela, absolutamente perdida, escrava de algo sem nome nem código postal.

 

Numa incerta manhã, porém, sentiu-se mais leve. Os demónios já não dançavam tranquilos dentro dela. O tempo começava a ligar as pontas soltas e a estreitar afetos genuínos. Sentiu-se abraçada pelo universo, envolvida num manto de amor e, lentamente, vislumbrou luz dentro da alma. Uma chama tímida iluminava o maior dos seus inimigos: o medo, atroz. De quê? De tanto. Demasiado. Ali, iluminado, num canto. Imenso. Pesado. E aquela chama. Pequenina. Pálida. Não se reconheceu nela mas havia algo de familiar no tipo aninhado no canto. Sentiu medo do medo, por si nomeado maestro dos afetos e da esperança. Deixou-o conduzir a sua vida, em absoluta escuridão, com uma batuta exigente e pesada, a um ritmo alucinante. A seu lado, mirando a orquestra, a culpa, companheira silenciosa de algumas décadas. Mas, ao longo dos meses, a dança foi ficando mais lenta e solitária. Alguns bailarinos exímios deixaram de ter parceiro à altura e abandonaram o recinto; o suficiente para, pela primeira vez, conseguir sentir o calor daquela chama e perceber como era, afinal, tão forte. Deu-se inteira à força daquela energia, deixou-a varrer memórias para parte incerta e, naquela centelha de luz, sentiu-se enraizar e crescer.

O tipo, no canto, continua lá. Tem dias em que ainda consegue levantar-se e gritar, mas já não há chama que o alimente por muito tempo. Parte dela sente que, se hoje o tempo dói, o tempo cura. Sabe que, se hoje o medo grita, o amor abraça num silêncio que protege, suavemente. Continua assustada e confusa, em digestão lenta de um processo de finitude, mas sente que talvez seja apenas o fim do reinado do medo. Morrer para renascer, num reino sem déspotas. Sente-se no caminho do desapego e, ao mesmo tempo, a aprender a receber. Apesar dos dias em que boicota esta intenção, sabe que o mundo não vai desmoronar. Ainda que assuste esta mudança. Ainda que doa.

 

Dentro dela há, subitamente, um antes e um depois, não do amor e da vida, de que se esqueceu ser merecedora, mas da dor e da angústia que, numa implosão violenta, quase a destruíram. Sabe que morreu, que já não é a mesma, mas sente-se renascer naquela chama que segue no horizonte. Quando se foca nela sente a alma vibrar, numa harmonia que a faz sentir-se em casa. Ainda não está mais plena, de sonhos e resiliência, mas sente mais leveza nos seus passos. Para trás, fica a bagagem que não lhe pertence mais. Ainda não sabe para onde vai mas já não está perdida. Algo lhe diz que está no caminho certo.

 

Alexandra Vaz

 

Porto | PORTUGAL

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Equipa

>Alexandra Vaz

>Ana Martins

>Cidália Carvalho

>Ermelinda Macedo

>Fernando Couto

>Jorge Saraiva

>José Azevedo

>Leticia Silva

>Maria João Enes

>Rui Duarte

>Sandra Pinto

>Sandra Sousa

>Sara Almeida

>Sara Silva

>Sónia Abrantes

>Teresa Teixeira

Calendário

Novembro 2015

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
2930

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D

Comentários recentes

Links

Amigos do Mil Razões...

Apoio emocional

Promoção da saúde