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14
Out15

Tempo que já não volta (Tempo – 6)

Publicado por Mil Razões...

GrandadAndGranddaughter-GeorgeHodan.jpg

Foto: Grandad And Granddaughter – George Hodan

 

Foste sem avisar, sem dar sinal de partida. Não houve um aviso, sinal ou indício. Nada! Foste assim, de repente. Partiste… sem despedida. Ninguém estava à espera. Eu não estava à espera. Sempre achei que teria tempo para ter tempo para ti. Que teria tempo de recuperar o tempo perdido, aquele tempo (agora que percebo, precioso!) que podia ter aproveitado contigo. E quanto do teu tempo tu quiseste dispensar e aproveitar, com a traquina menina de outrora! Por gosto, por vontade, mas acima de tudo, por amor! Não correspondi… Ou deixei de corresponder a esse tempo e a esse amor… Não aprendi o que deveria ter aprendido contigo. Porque achei que o tempo não te levaria tão depressa, porque talvez não acreditasse na sua efemeridade, ou simplesmente por egoísmo!

Recordo-te muitas vezes. Perco a noção do tempo e da realidade quando penso em ti! São boas as lembranças! E são a única coisa que ficou, só me culpo por não serem mais. Demasiadas vezes penso há quanto já não te tenho. Nunca estou certa da resposta! Parecem muitos mais anos do que aqueles que são na realidade! (Como a noção do tempo sentido e do tempo real são subjetivas…) Este ano, perfaz 8 anos de ausência… da tua ausência. São uma eternidade para mim…

Chorei-te muitos dias e noites, sempre às escondidas. Ainda choro… Tento, frequentemente, lembrar-me da tua voz, agora com mais dificuldade, confesso. A minha memória atraiçoa-me, por vezes, e penso como é possível já não me lembrar nitidamente dela. Choro mais. Falsamente vou buscar consolo à recordação do teu riso. Desse ainda me lembro! Não que fosse uma gargalhada sonora; não a era. Era meia abafada, quase inaudível, com um som muito caraterístico e uma expressão muito própria, que nunca reconheci em mais ninguém.

Talvez seja esse som e a boina, que estava lá sempre, salvo nas refeições, pois que não era ato de respeito, que mais me vêm à memória. O que não deixa de ser curioso porque, agora que penso, eram os olhos azuis, amargurados e tristes que sobressaíam mais no teu rosto. As vicissitudes da vida assim o ditaram. Injustamente… infelizmente! E nem isso me fez ficar mais perto de ti. Porque a menina ingénua, inocente, traquina e feliz, deu lugar à então adolescente senhora do seu nariz, egoísta, resmungona, que achava que não precisava de passar tempo contigo! E não podia estar mais errada… Dói a tua ausência e dói também o egoísmo e a indiferença que tive e sem perceber como aí cheguei.

A infância preencheste-ma com tudo o que poderia ter sido e tido: amor, alegria, brincadeira, traquinice, carinho. Nada me faltou. Se tivesse que escolher um som desse tempo, seria o da tua mota a chegar para ir buscar-me. Não que me recorde bem da minha reação, mas sei que estava sempre pronta para ir contigo. Por isso gosto de imaginar que, mal ouvia o barulho do motor, me ponha pronta à porta de casa. Um cheiro? Talvez o do lume do lar, onde tantas vezes se preparava o almoço de domingo. E a extravagante mistura dos cheiros das flores dos jardins, obviamente! A imagem seria a tua, de pose calma e serena, de boina na cabeça, sempre! A ver-me ir embora, quando numa tarde quis ir à minha vida… Tola!

No início, depois da tua morte, custava-me imenso ir a tua casa. Devia ter ido todos os dias! Naquela altura o lugar ainda se parecia contigo, ainda se sentia a tua presença! Será sempre a tua casa. Não a imagino de outra maneira, apesar de, muitas vezes não a reconhecer como tua. Os jardins perfeitamente cuidados, com a máxima dedicação e bonitos, são hoje folhagem seca e ressequida. Até as flores sentem a tua falta. Não há o cheiro perfumado de outrora. Não passa de uma casa fria e cinzenta, com hortas e jardins murchos e maltratados. De quando em vez, a própria Natureza lá faz jus à tua outrora presença e brinda-nos com os cheiros do passado. E ficas mais perto de nós.

Dizem que o tempo cura tudo. Não podia discordar mais. A ferida da saudade, da perda, da ausência (primeiro, a minha, agora a tua), do meu desprendimento e egoísmo… Esta ferida, o tempo nunca curou, nunca curará, nem tão pouco me ensina a lidar com ela. Amei-te mal e do meu jeito torto. Nunca disse que gostava de ti. Não sei se tu o sabias, tal era a minha indiferença, muitas vezes, e já há muito que deixei de ter tempo e oportunidade para to dizer. Devia ter dito… Devias ter sabido isso…

 

Sandra Sousa

 

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