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10
Jun15

O que o dinheiro não compra (Dinheiro – 11)

Publicado por Mil Razões...

Dog-LoraKirchner.jpg

 Foto: Dog – Lora Kirchner

 

Já fui pobre, tremendamente desgraçado; já fui rico, estupidamente excêntrico. Já tive tanta fome, uma vontade tão diabólica, que me passou tudo pela cabeça, até fazer mal a alguém. Já experimentei os pratos mais exóticos e mais refinados, cheguei a vomitar por excesso de comida. Já sofri dores crónicas por não ter um tostão para me tratar, tremi com febre debaixo de chuva; já me deixei operar, por pura vaidade, achando enganar a morte e a velhice. Já tive frio, dormi na rua, tremi em cada segundo do tempo, achando que não podia fechar os olhos com medo de não voltar a acordar. Já tive quem me preparasse o banho, a roupa, a alcova, num cenário em que, frio, nem como nome de cocktail era usado.

Já fui pelintra. Já fui nobre. Já fui um pelintra nobre e um nobre sem honra. Já chorei por não ter, outras vezes por ter demais. Já ri de satisfação por encontrar uma costeleta podre no contentor e aquilo me saber à melhor coisa do mundo. Já senti a mesma alegria por ver o sol nascer nos Himalaias.

Odeio a falta de dinheiro tanto como aprendi a odiar o seu excesso. Nunca tive amigos, a não ser o Teófilo. Conheci-o quando vivia na rua, numa noite gelada de inverno, abandonado para morrer depois de ter sido atropelado. Eu salvei-o e ele salvou-me a mim. Nunca mais nos separamos. É a única criatura no mundo que gosta de mim tal e qual como sou. Quando a minha vida mudou, para ele nada se alterou. Tudo o que lhe importa, genuinamente, é a minha companhia e poder dormir enroscado nas minhas pernas; seja numa caixa de cartão, num beco manhoso, seja aqui, nesta cama king size que partilhamos.

Não confio em ninguém, não posso baixar a guarda, a não ser com o Teófilo. Tive três mulheres que nunca o suportaram mas, corriam tanto atrás do meu dinheiro, que me davam muito tempo de qualidade com o “feioso”, como gentilmente lhe chamavam. A única razão por que ele correria atrás de uma nota era se eu a amassasse, fizesse uma bola e o chamasse para brincar. Não conheci lealdade no Homem e, à medida que fui tendo mais e mais dinheiro, tornei-me ainda mais incrédulo e azedo. Cada vez mais só, prisioneiro numa jaula dourada à qual só o Teófilo teve sempre livre acesso.

Apesar da vida financeiramente despreocupada, de não conhecer limites aos meus sonhos e poder ter tudo aquilo que desejar, todo o dinheiro que possuo não impediu que o Teófilo morresse hoje nos meus braços, perante o olhar desanimado do médico que não se deixou subornar, na minha ridícula tentativa de resgate à morte. Dinheiro nenhum os demoveu e a morte levou o companheiro da minha vida, arrancou-mo dos braços sem piedade. Hoje senti-me paupérrimo. Mais pobre do quando vivia na caixa de cartão, com um cobertor que tresandava e o corpo mordido pelas pulgas. Hoje senti-me, pela primeira vez, realmente miserável: cheio de dinheiro e incapaz de salvar o único ser que deu sentido à minha existência.

Abomino o dinheiro e a pobreza que me trouxe mas já não tenho idade nem saúde para largar tudo e voltar à rua. Não sem o Teófilo. Vou ficar aqui, nesta gaiola em que me prestam vassalagem, até chegar o meu dia. Já não tenho qualquer motivo para me preocupar. De hoje em diante, resta-me apenas aguardar o momento em que verei a morte pela segunda vez. Quero abraçar o meu companheiro no final da travessia. É tudo o que importa.

 

Alexandra Vaz

 

Porto | PORTUGAL

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