Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

Destaque

Amigos do Ziki - Uma ferramenta para o pré-escolar.

07
Jan15

Racista, eu? (Racismo - 3)

Publicado por Mil Razões...

Capulanas.jpg

 

Juntei-me ao grupo no preciso momento em que António acusava um dos amigos de ser racista por se opor ao casamento da filha com um homem de outra raça.

O outro defendia-se dizendo que isso não era racismo, era evitar um final infeliz porque ao putativo noivo ser-lhe-ia muito difícil aprender a cultura e o modo de viver da filha e da sua família.

- Mas, porque é que há de ser ele a ajustar-se à cultura dela e não ela à cultura dele? Perguntava António.

- Porque ela pertence a uma sociedade mais desenvolvida e o nivelamento deve ser feito por cima e nunca por baixo. Respondia o outro.

As considerações à volta do tema prosseguiam com um a defender-se das acusações do outro, e este outro, a defender o noivo com tanto paternalismo que, não deixava margem para dúvidas, revelava não lhe reconhecer capacidade para resolver os seus próprios problemas.

Percebi da discussão que, no imediato, os jovens de que falavam, para poderem ser um casal, teriam que matar o passado de um deles. Um deles, o mais fraco aos olhos da sociedade, teria que renunciar a tudo o que foi no passado e recomeçar numa nova comunidade sem história pessoal, familiar e cultural. Mas se no imediato essa seria a solução, por quanto tempo ela serviria? Quanto tempo levaria para que o amputado de identidade e referências se revoltasse e exigisse a reparação dos danos?

Fujo de discussões inflamadas. Os contendores não ouvem nem se fazem ouvir. Não pretendem aprender mais do que já sabem, se é que sabem alguma coisa, e todo o esforço é para que no final da discussão o adversário acabe vergado. As discussões acabam no ponto onde começaram, nas certezas inabaláveis de um conhecimento acima da normalidade. Não há vencedores nem vencidos, apenas intolerantes travestidos de grandes conhecedores de causas e efeitos.

Mas esta discussão teve a particularidade de me transportar até Moçambique, onde vivi há cerca de 30 anos. Perdi-me nas minhas memórias e revivi a chegada a um país recém saído de um sistema colonial. Fui para lá com um objetivo diferente do dos meus antepassados, estava empenhada no processo de renascimento de um novo país e era importante mostrar essa diferença. A minha empregada foi convidada a comer à mesa mas, o que para mim era natural, a ela causava-lhe um enorme constrangimento, de tal forma que não conseguia comer. Quando as refeições terminavam sentava-se no chão da cozinha e comia a dose de arroz como sabia, com as mãos. Lembro-me de que decorei o chão da minha casa com esteiras. Mais ou menos coloridas, simples ou trabalhadas, cumpriam na perfeição a função de tapetes. O problema é que a Laurinda, assim se chamava a minha empregada, não passava por cima delas. Só percebi porquê quando soube que a cama dela era uma esteira, naturalmente que ela não pisava em cima da cama, eu também não ando em cima da minha. Com o tempo deixei de estranhar e aprendi a gostar do pano que a envolvia e que dava pelo nome de capulana. Admirava as figuras geométricas feitas na carapinha e não lhe criticava os sulcos feitos no rosto tão usuais na sua tribo de origem.

A esta altura das minhas recordações já os meus amigos se espumam de ira e paixão na defesa dos seus pontos de vista que, no meu entender, não são muito diferentes. Se não estivessem tão exaltados já teriam percebido que estão muito próximos um do outro na reação às diferenças, um declara abertamente que quer distância dos que são diferentes, o outro defende-os com tal fundamentalismo que é tão triste e assustador como o primeiro.

As diferenças provocam-nos curiosidade, mas na hora da decisão, optamos por favorece o que nos é próximo e semelhante, mas isso não deve diminuir ninguém. Por mais beleza que visse nas trancinhas e nas capulanas da Laurinda, optei por me manter fiel aos meus cabelos lisos e a usar calças e saias; na época, como agora, não me imagino a comer arroz com as mãos, sentada no chão da cozinha. A minha curiosidade pela cultura e tradições da Laurinda nunca passou de observação, admiração em alguns casos, mas em todos, muito respeito. E foi assim que viver em Moçambique resultou numa sã convivência e numa experiência gratificante.

Não contei aos meus amigos as minhas recordações, são apenas pequenas experiências sem significado nem importância para a resolução do racismo no mundo.

 

Cidália Carvalho

 

 

05
Jan15

Uma questão de raça (Racismo – 2)

Publicado por Mil Razões...

FamiliaTresRacas.jpg

 

Racismo é palavra que me soa a arcaísmo, palavra em desuso que nunca deveria ter sido inventada. Mas é ingenuidade minha pensar assim, uma vez que é um tema que continua a passar nos telejornais (e um pouco por todo o mundo, sem que o Mundo saiba).

Fui saber: no dicionário, racismo é definido como uma teoria que defende que uma raça é superior às outras e, por isso, julga ter o direito de oprimir, inferiorizar ou até mesmo dizimar as outras.

Para quem, como eu, abomina a ideia de que alguém seja capaz de discriminar outrem pelo seu tom de pele, pela sua etnia, pelas suas diferenças físicas ou culturais, não há nada de novo que eu possa acrescentar.

Mas, para quem persiste neste pensamento (e possível comportamento), eu convido a realizar o seguinte exercício:

Pensa nalguém que amas muito. O teu pai ou a tua mãe. O teu filho ou filha. O teu namorado(a) ou esposo. A noite termina com um beijo de despedida e um “até amanhã”. Dormes. Acordas e vais rever essa pessoa, dar-lhe “os bons dias”. E quando a encontras, vês que a pessoa que amas amanheceu com a pele castanha. Ou com os olhos rasgados. Ou com uma indumentária nada caraterística. Ou com um novo sotaque.

O que acontece ao amor que tens por ela? Como a vais tratar daqui por diante? É a pessoa que tu amas, é a mesma pessoa de sempre, só que está diferente.

E, terminado o exercício, talvez percebas (como eu gostaria!) que ser diferente por fora não muda o quanto nos parecemos todos por dentro. E que ser diferente não é ser inferior ou menos válido. E que todos pertencemos à mesma raça: a humana.

 

Sandrapep

 

02
Jan15

A marca (Racismo – 1)

Publicado por Mil Razões...

JovensDoMundo.jpg

 

Historicamente o termo estigma, criado na Antiga Grécia, refere-se a marcas físicas aplicadas no corpo, com as quais se pretendia evidenciar alguma coisa negativa sobre o estatuto moral de quem as possuía. Goffman (1988) diz-nos que estas marcas eram feitas com cortes ou com fogo e atestavam que o portador era escravo, criminoso ou traidor, indicando grupos excluídos socialmente com um status social desfavorecido e “avisavam” a existência de um escravo, de um criminoso, de uma pessoa cujo contacto deveria ser evitado.

Atualmente o termo estigma é usado com o sentido original, porém, de uma forma mais ampla, marcando a própria existência de uma forma pejorativa. É uma combinação de opiniões estereotipadas, atitudes prejudiciais e comportamentos discriminatórios em relação a outros grupos, resultando na redução de oportunidades de vida para aqueles que são desvalorizados.

Goffman (1988) explica que a sociedade estabelece os meios de categorizar as pessoas, ao mesmo tempo que determina quais os atributos considerados comuns e naturais para os membros de cada uma dessas categorias, formando ambientes sociais que determinam as categorias das pessoas a eles pertencentes. Quando um estranho é apresentado a essas pessoas, podem surgir evidências de que ele tem um atributo ou característica que o torna diferente (estigma) que constitui uma discrepância entre a identidade social virtual e a identidade social real, deixando de se considerar um elemento comum para ser considerado uma pessoa diminuída. Embora o estranho possa apresentar atributos diferentes, o termo estigma só é usado para referir um atributo profundamente negativo, depreciativo.

Ainda Goffman (1988) categoriza o estigma em três grupos: i) as abominações do corpo - as várias deformidades físicas; ii) os defeitos de carácter individual (entendidos como vontade fraca, crenças falsas e rígidas, desonestidade, doença mental, prisão, vício, alcoolismo, homossexualidade, desemprego, tentativas de suicídio e comportamento político radical) e; iii) os estigmas tribais de raça, nação e religião. Todos estes atributos são uma caraterística diferente e podem impor-se à atenção e afastar ou destruir a possibilidade de dirigir a mesma atenção para outros atributos.

Atitudes negativas dirigidas a algumas (muitas) pessoas são muito comuns e constituem a maior barreira ao contacto e convívio sociais.

Mas…

Todos os dias me encontro com pessoas cuja vida tem uma “banda sonora diferente”. A banda sonora é, com certeza, também diferente da minha. O que nos une é o facto de sermos humanos; humanos com marcas diferentes. A diferença (marca) é “apenas” a riqueza do nosso mundo!

 

Ermelinda Macedo

 

Pág. 2/2

Porto | PORTUGAL

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Equipa

Alexandra Vaz

Ana Martins

Cidália Carvalho

Ermelinda Macedo

Fernando Couto

Jorge Saraiva

José Azevedo

Leticia Silva

Rui Duarte

Sandra Pinto

Sandra Sousa

Sara Almeida

Sara Silva

Sónia Abrantes

Tayhta Visinho

Teresa Teixeira

Calendário

Janeiro 2015

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D

Comentários recentes

  • Anónimo

    A realidade de tantos e tantos...

  • Teresa Teixeira

    Obrigada. É só o que me apetece dizer, agora. E nã...

  • Cidália Carvalho

    Rui Duarte, não peça desculpas por entender que o ...

  • Anónimo

    Exatamente! E esse respeito passa também por serem...

  • Anónimo

    Obrigado pela sua resposta ao meu comentário Teres...

Links

Amigos do Mil Razões...

Apoio emocional

Promoção da saúde