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12
Nov14

Devastação (Receita mágica – 19)

Publicado por Mil Razões...

 

João acomodou-se na cadeira, esticou as pernas, levantou os braços à altura da cabeça e uniu as mãos encostando-as à nuca. Fixou o olhar na janela e refletiu em voz alta:

- Estás então a dizer que essa civilização, que existiu na Europa há muitas centenas de anos, extinguiu-se como consequência das opções dos seus próprios políticos?

Rita continuou no tema, agora com maior entusiasmo:

- Sim, eles pensaram e colocaram em prática, de forma deliberada, uma receita que consideravam mágica para se perpetuarem no poder, a qual consistia em criar condições para que nenhuma contestação surgisse no seu povo, o povo que os elegia, que progressivamente foi ficando mais indiferente, com cada vez menor intervenção política, cívica e social, deixando-os à vontade para fazerem tudo o que entendiam, preocupados apenas em agradar àqueles que detinham o poder económico internacional, que à época era designado de forma genérica por “os mercados”. As transformações sociais assim provocadas foram de tal natureza e de tal intensidade, que a sociedade foi morrendo, morrendo, até que se extinguiu por si só, sem intervenções externas diretas. E conseguiram-no em menos de um século.

João procurou um pouco na sua memória:

- Houve civilizações, povos, bem mais antigos do que esse, que foram extintos mas por intervenção direta exterior, ou porque algo mudou no que os envolvia, de forma determinante. Esse, autoextingiu-se. Como é isso possível? O impulso natural não é o da autopreservação?

Rita retomou:

- Sim, esse é o impulso natural, mas neste caso, que é um caso de estudo por ser único e brutal, tudo foi pensado para contrariar a natureza tendo, no centro da estratégia, a eliminação progressiva, mas acelerada e muito eficaz, da capacidade individual e colectiva de questionar, de contestar, de criar.

João estava perplexo e perguntou:

- Mas Rita, como o fizeram?

- Os políticos atacaram, essencialmente, a cultura e a educação. Justificando as suas escolhas com sucessivas crises financeiras e económicas, e pela vontade de ir ao encontro das necessidades e do gosto do povo, foram cortando todos os apoios financeiros e sobretudo os apoios políticos à cultura, apagando sistematicamente todo o património construído ao longo do tempo e toda a criatividade, permitindo apenas o desenvolvimento de um fenómeno comunicacional da época, designado por televisão ao gosto das audiências, muito alegre e festivo mas destituído de qualquer conteúdo. Na educação colocaram em prática um processo de cortes em tudo semelhante ao da cultura, e por outro lado, colocando em prática ideias na aparência muito modernas e progressistas, criaram uma instabilidade gigantesca no sistema, com alterações curriculares permanentes e empobrecedoras, investiram na descredibilização total dos professores, chamaram os pais a uma suposta participação no processo educativo escolar, mas que de facto apenas visava empolgá-los no envolvimento em questões menores, de modo a que deles não surgisse crítica ou contestação. Nas alterações curriculares a preocupação maior foi a de reduzir o conhecimento até ao nível do patético, dificultando o estudo da matemática e da língua – e esse povo tinha uma língua própria, com raízes antigas, que era identificada como a sua própria pátria. Sem domínio da língua, o pensamento das crianças e jovens tornou-se elementar, pobre e frágil, o seu intelecto definhou. Sem a matemática, o progresso, a evolução e a ciência tornaram-se impossíveis. Houve mesmo áreas do conhecimento completamente interditas, pois que, alegando falta de saídas profissionais, ficaram vazias e desapareceram. Mitigaram o rigor e a exigência, tendo eliminado a prestação de provas, para que todos tivessem aproveitamento e sucesso escolar, mesmo sendo galopantes os níveis de ignorância e de incapacidade. Para iludir a perda efetiva do conhecimento, criaram mais graus académicos e facilitaram a forma de acesso e o esforço necessário à sua obtenção. Rapidamente os que estudavam e assim adquiriam conhecimento, perceberam que não tinham qualquer vantagem com essa atitude, pois trabalhassem ou não, o resultado era sempre o mesmo, pelo que abandonaram o esforço e seguiram a atitude dos seus pares. Em termos sociais, elevaram as questões de género a um ponto tal que as necessidades de afirmação entre homens e mulheres fizeram esquecer a família – o centro da civilização e da sociedade. As crianças deixaram de nascer e a população começou a diminuir. Em termos eleitorais conseguiram assim assegurar que os dois principais partidos fossem alternando no poder, sem que ninguém entendesse bem porquê. Já quase ninguém se envolvia no debate político nem no voto. As pessoas detestavam os políticos e estes acabaram por constituir um pequeno grupo fechado que vivia isolado da sociedade, desfrutando de significativos benefícios numa economia completamente dominada por interesses de outros países. A saúde mental daquele povo começou a refletir, de forma brutal, a forma como as pessoas vivam, mas também essa área foi abandonada pelo poder político, como se não fosse importante. Aumentaram assim as depressões e outras patologias, as autolesões, os suicídios, num quadro de pobreza crescente.

Após uma pausa, João voltou:

- Terrível!! E não surgiu quem se opusesse, quem chamasse a atenção para um caminho que poderia ser diferente, para um regresso a uma organização normal, razoável e humana da sociedade?

Rita explicou:

- A receita foi produzindo o seu efeito, intensificado à medida que o tempo decorria, pelo que as contestações foram diminuindo até desaparecerem. Os mais inconformados, ou mais irreverentes, ou mais desesperados (quem sabe?) foram saindo do país e fixando-se noutras paragens, aliás fortemente incentivados pelos políticos, na ânsia de acelerarem o processo. A vida naquela sociedade tornou-se uma experiência penosa e insuportável. Aquele povo, cheio de história, de cultura e de tradição, acabou por desaparecer, por se autoextinguir, tendo o seu território sido tomado e repartido pelos povos que durante o processo foram tomando posições na sua economia.

Após um longo silêncio João voltou:

- Muito interessante mas terrível. Felizmente não houve réplicas.

E regressou ao silêncio, tentando construir na sua cabeça todo aquele processo destrutivo, toda aquela receita devastadora. Por isso não deu conta de Rita sair da sala.

 

Fernando Couto

 

Porto | PORTUGAL

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