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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

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Destaque

Amigos do Ziki - Uma ferramenta para o pré-escolar.

12
Jul14

Hoje trato-te por tu! (Endometriose – 2)

Publicado por Mil Razões...

 

Querida Endometriose, durante 14 anos levaste a melhor. Durante 14 anos deitaste-me ao chão. Durante 14 anos fizeste-me sentir um ser inferior, um ser incapaz. Fizeste-me duvidar da minha sanidade mental. Fizeste-me duvidar de mim, das minhas capacidades enquanto pessoa, enquanto mulher, enquanto ser humano. Durante 14 anos fizeste-me chorar em silêncio, muitas vezes sozinha. Fizeste-me desistir de sonhos, reformular planos, mudar de estratégias de vida. Mudar de caminhos. Durante 14 anos, fizeste-me acordar de noite, com dores insuportáveis e pensar que ia morrer de dor. Fizeste-me crer que não era possível alguém aguentar tanta dor, durante tantos anos, sem respostas. Durante 14 anos vivemos uma relação completamente injusta e desequilibrada. Tu conhecias cada pedaço do meu corpo, sentias o sabor das minhas lágrimas, ouvias o som dos meus gritos, estavas ali dentro de mim, a assistir na primeira fila, de sorriso nos lábios e a bater palminhas ao meu sofrimento. Lembras-te das muitas vezes em que só não cometi uma loucura porque simplesmente não conseguia andar? Durante 14 anos, tu sabias tudo de mim. Eu nunca tinha ouvido falar de ti! Achas isto justo? Chegares, apoderares-te assim do meu corpo e da minha vida sem pedir permissão? Sem te dares a conhecer? A mim parece-me extremamente injusto. Cruel. Desumano. Foste tão cruel comigo querida Endometriose que a única solução que tive foi fazer de ti a minha melhor amiga.

No dia em que ouvi o teu nome pela primeira vez, no dia em que soube que eras tu que habitavas dentro de mim e controlavas a minha vida, jurei a mim mesma que era o fim. O fim da tua glória sobre a minha vida. O fim do teu riso maléfico. O fim de uma relação desequilibrada. Hoje, trato-te por tu querida Endometriose. Continuas a fazer parte do meu dia, mas agora sou eu que mando. Agora sou eu quem decide o que fazer. Que caminhos vamos seguir. O teu tempo de rainha terminou querida Endometriose. Na minha vida mando eu. E queres saber o melhor? Os 14 anos que me roubaste já foram em muito compensados com o conhecimento que me trouxeste, com as amizades que cruzaste na minha vida e com os sorrisos que já partilhei por tua causa. Os 14 anos que me roubaste, não são nada perto da mulher guerreira em que me tornaste. Hoje, graças a ti, sou uma mulher completamente diferente. Querida Endometriose, mostraste-me que tenho uma força que desconhecia. Mostraste-me que por maior que sejam as batalhas eu posso vencer e sair de cabeça erguida, apesar das nódoas negras. Mostraste-me que nada é impossível e que eu posso ser feliz... ser uma mulher completa mesmo com uma doença crónica. Hoje o meu dia passa por te dar a conhecer ao mundo. Passa por te tornar tão conhecida que em breve não possas atormentar mais ninguém em silêncio. Querida Endometriose, ganhas-te muitas batalhas, mas a guerra venço eu, todos os dias, de sorriso nos lábios!


Susana Fonseca

 

Artigo publicado no âmbito do Acordo de Cooperação entre o blogue Mil Razões… e a MulherEndo.

 

English version

 

11
Jul14

Delinquência ou adolescência? (Delinquência – 5)

Publicado por Mil Razões...

 

As rimas são traiçoeiras, podem associar palavras cujos significados em nada estão relacionados. Ou serão matreiras, juntando palavras que afinal têm algo mais em comum do que o som da última sílaba e nós não víamos até então?

Neste caso, penso que tem um pouco destas duas perspetivas, ou não será a adolescência a altura da vida em que se começa a experimentar o desconhecido e até proibido, e a delinquência o ato de fazer algo que está fora do padrão dito normal para a sociedade em que se está inserido.

Uma rapariga com 12 anos, com um ano de experiência a ir para a escola sozinha ou só com os colegas, começa a sentir que o seu dia-a-dia pode ser mais do que ir para a escola certinha, frequentar as aulas e ter boas notas, brincar um pouco com os coleguinhas, e voltar para casa pelo mesmo caminho. Um dia arrisca e aceita conversa com um grupo de rapazes que estão sempre no mesmo sítio, no muro perto da escola, e vai ter com eles. Afinal até são simpáticos e vai ficando cada vez mais tempo e mais tardes seguidas. Continua a fazer o mesmo percurso até casa, mas uns dias sozinha porque os colegas já foram e ela ficou no muro.

Os seus novos amigos oferecem-lhe algo novo, um cigarro, e ela recusa prontamente pois, apesar de não ter o hábito de faltar à escola, até já tinha experimentado com outros amigos, dentro das suas brincadeiras certinhas. Isso ela já sabe que não é do seu interesse, cheira mal e, dizem, até faz mal à saúde e custa dinheiro que ela quer para outras coisas.

Um dos amigos começa a ser mais do que só um amigo e pede-lhe em namoro e ela aceita. Os beijos começam e ele questiona se ela está a gostar da experiência por pensar ser a sua primeira vez. A rapariga responde que sim, mas não consegue comparar com o seu primeiro namorado, pois são pessoas diferentes, de contextos diferentes e hábitos diários e familiares diferentes. Ele experimenta e oferece os seus carinhos em campos mais profundos, dizendo até que já tem experiência na vida sexual, mas ela recusa referindo que apenas dará esse passo quando pensar que será um momento de sonho que tem bem vincado nos seus projetos.

O ano escolar avança e a época dos testes chega e, em vez de estar apenas na conversa no muro, a rapariga começa a levar as suas folhas de estudo para estudar no muro. Afinal, é um local onde se sente bem e que tem a companhia de pessoas que a fazem sentir bem também. Eles ficam curiosos e ela passa algum tempo a falar dos conteúdos dos testes, de como são as aulas do seu ponto de vista.

Um dia, só as raparigas do grupinho que se juntava no muro, decidem fazer um passeio só de raparigas como boas raparigas rebeldes que são, onde incluíram uma passagem pelo minimercado da vila e tentaram roubar rebuçados, apenas pelo ato aventureiro de roubar. São apanhadas e a rapariga vê-se a argumentar com a gerência do minimercado que dar essa notícia aos seus pais seria bastante injusto pois eles não mereciam. A gerência nada fez, soltaram-nas e esse dia acabou com a rapariga a dizer à mãe o que tinha feito, pois ninguém deveria levar com as consequências dos seus atos sem ser ela mesma.

Hoje, adulta, não rouba nem fuma, trabalha e investe no que acha melhor para si e para os outros, veste o personagem dos outros para os tentar ajudar, valoriza todos os amigos como se fossem únicos e respeitando o seu espaço e diferenças.

Se não fosse a delinquência dos 12 anos, talvez não fosse a pessoa que é hoje. Teve a sorte de pertencer a uma família que a deixou voar e explorar os caminhos que a vida oferece, nunca deixando que esses caminhos a levassem para um beco sem saída.

 

Sónia Abrantes

 

09
Jul14

Renascer (Delinquência – 4)

Publicado por Mil Razões...

 

Deixei…

Por vezes ainda deixo…

Mas cada vez menos, pretendo deixar de exercer atos delinquentes sobre mim e de uma forma consciente e/ou inconsciente sobre os que me rodeiam.

Aprendamos a viver com o Amor que está no nosso interior, que sempre nos acompanhou desde a nossa criação…

Sintonizemos esse perfeito momento originado pela solene e majestosa força que deu vida ao belo Ser que todos somos… Seres de Consciência!

Exactamente isso – CONSCIÊNCIA.

Vamos parar,

Vamos interiorizar,

Vamos resgatar a beleza que está em nós,

Vamos recordar o nosso nascimento,

Observar a serenidade de um recém-nascido,

E obrigarmo-nos a reviver esse magnífico momento que todos nós presenciamos… Onde não existiam lugar a medos, dúvidas, dramas…

Simplesmente estávamos…

Independentemente do Amor que poderia vir do exterior…

Perfeitamente entregues ao nosso destino.

Tudo está em Paz…

Nada podemos controlar,

Por isso não há que forçar.

Vivendo em Amor,

Cumprindo o nosso dever como homens, mulheres, pais, filhos, netos, amigos, ou como qualquer outro papel que tenhamos assumido nesta vida, nesta sociedade.

Assumirmos o nosso dia com todas as falhas, com todos os erros.

Assumirmos que tudo está bem quando nós fizemos a nossa parte com consciência do Amor que reside no nosso interior.

É o caminho…

Fácil, não é!

Mas quando atingimos Paz, por poucas vezes que possa ser no início, vamos querer sentirmo-nos sempre assim…

Desdobrar as emoções, os pensamentos em Amor é a única salvação…

Encontrem as estratégias para ganharem a batalha, mas sem nunca fugir, sem virar as costas ao inimigo… Perdoando sempre…

Enfrentando, pois é assim que aprendemos e ganhamos o Amor Divino e sentimos o prazer da verdadeira libertação!

 

Joana Pereira

 

07
Jul14

Que sabem eles do que eu sei? (Delinquência - 3)

Publicado por Mil Razões...

 

Não é a primeira vez que espera sentado naquela sala. Conhece bem os procedimentos - quando o Juiz entrar há-de levantar-se e quando lhe for pedido, em voz alta e bem pronunciado, dirá o seu nome.

Das outras vezes a espera não foi tão penosa. As situações eram diferentes, pequenos furtos, crimes sem sangue, crimes menores, ouviu dizer numa das audiências.

A sala está abafada e o ar irrespirável. Gotas de suor caem-lhe do rosto taciturno e toldam-lhe a visão. À luz intensa do sol veem-se partículas de pó que pairam silenciosas, formando um carreiro de um ao outro extremo da sala. Fixa uma pequena partícula e tenta segui-la com o olhar. Tem de matar o tempo de alguma maneira. Perdeu-a de vista, já se confunde com as outras. Não consegue perceber em que direção se movem ou se têm alguma direção, parecem-lhe movimentos aleatórios, lembram-lhe a ordem universal, milhares de partículas em movimento sem que se instale o caos. Gosta da ordem.

Um burburinho trá-lo de volta à sala. Ei-los que chegam, os justiceiros. Levanta-se.

- Jura dizer a verdade, só a verdade e não mais do que a verdade?

Nas reuniões que teve com o advogado ensaiaram perguntas e instruíram respostas. Em todo o caso não tem muito para dizer e ainda quer dizer menos que isso. Na verdade não quer dizer nada e se pudesse nem estaria ali. Fugir, é o que lhe ocorre. A espera e o frente-a-frente com o juiz e todos os que vão decidir qual vai ser o seu futuro, enfada-o. Não percebe porque é que não dizem logo o que têm a dizer e o mandam para uma cela, ou para um lugar que eles achem ser o mais adequado ao seu caso.

- Sim, juro!

Já não ouve e quer apenas ser libertado da presença daqueles emproados todos que se advogam de estar dentro da lei e de terem o direito de o julgar. Que sabem eles do que aconteceu naquela tarde? Ninguém naquela sala conhecerá algum dia as verdadeiras razões, as suas razões. Ela sim, sabia. Estava avisada e sabia que um dia aconteceria. O terror estampou-se-lhe nos olhos, quis gritar mas apenas balbuciou qualquer coisa. Pareceu-lhe um pedido de desculpa. Mas não, ela gritou-lhe na cara todo o ódio e desprezo que sentia. Não tivesse ela gritado e a desgraça quase que não acontecia. A honra de um homem limpa-se com sangue, e o dela correu em abundância.

Não quer saber o que está a acontecer ali onde tudo obedece a um ridículo ritual e onde todos parecem querer encontrar complexidade onde nada deveria ser mais simples do que fazer justiça. Julgam-no à luz da lei por ter feito justiça moral na ponta de uma bala. Saberão eles o que isso é, justiça moral, justiça que o coração dita que se faça?

Ignorantes.

Considera-se um homem simples, de condição humilde, não se eleva em conhecimentos e teorias como as que tem ouvido desde que foi detido - família desestruturada, mãe alcoólica e pai violento, o meio a influenciar uma personalidade desviante – tudo não passa de considerações teóricas, quase a justificar o ato e a acalmar a sua consciência, se ela estivesse atormentada, o que não é o caso. É tudo muito mais simples do que isso - para matar bastou-lhe o coração ferido e a honra mordiscada. O coração e a honra é que ditam as regras e ela não tinha o direito de lhe roubar um e outro. Fez o que tinha de ser feito a alguém que fez o que não devia.

- Culpado!

 

Cidália Carvalho

 

05
Jul14

Serei normal? (Endometriose – 1)

Publicado por Mil Razões...

 

Começas a tua viagem na adolescência, quando te dizem que és mulher, porque menstruaste pela primeira vez. Sentes as primeiras dores menstruais e tudo é normal, até que um dia começas a queixar-te um pouco mais da Dor e do enorme fluxo que não tem maneira de parar. “É normal”, ouves o médico de família dizer e segues o teu caminho. Os anos vão passando e a Dor, o desconforto naquela altura do mês vai aumentando. Continuas com as tuas queixas ao médico de família que te passa para o planeamento de família e ouves “é normal, vai passar com a idade” e continuas à espera que passe. Chegas à idade adulta e as dores começam a intensificar. Procuras um médico, depois outro e outro… a resposta mantém-se “é normal”. E pensas “serei eu anormal?” “estas dores são da minha cabeça?”. Ficas confusa. Tanta é a dor que sentes que já não és capaz de estudar nem trabalhar. Faltas à escola, ao trabalho e aos encontros sociais. Durante, em média, 3 a 8 dias por mês ficas na cama a gritar com dores, a contorcer- te. Não tens posição confortável, apenas sentes dor, mal-estar, enjoos. Não consegues comer, dormir e ir ao wc é tortura. A tua família parece desesperada por te ver assim e questiona-se com o que está a acontecer. Os teus amigos não te compreendem, porque pareces normal e te queixas de uma tal dor que ninguém nunca viu nem ouviu falar. Todos te dão conselhos “faz caminhadas”, “toma analgésicos”, “não penses nisso”, “todas as mulheres têm dores menstruais”, “quando tiveres um filho isso passa”. É que ninguém percebe que as tuas pernas não te obedecem para andar, que o teu corpo sente dor, cansaço imenso e que já não consegues pensar a não ser “Serei normal? O que se passa comigo?” E começas a sofrer em silêncio, porque mais ninguém compreende a tua dor.

Continuas a visitar médicos e cada um com uma explicação diferente vai-te deixando com a tua dor. A tua saúde parece estar debilitada, tens problemas nos rins, nos intestinos e vais fazendo um tratamento aqui, outro ali. Desespero? Sim, sentes-te desesperada! A tua vida fica condicionada à tua dor. Os teus superiores não entendem porque fazes tantas pausas no trabalho, porque faltas tantas vezes. As relações amorosas confortam-te, até ao dia em que começas a sentir vergonha da tua dor, em que não consegues acompanhar o teu namorado nos passeios, nos compromissos, quando a relação sexual começa a ser de tal forma dolorosa que a evitas. O teu papel como mulher, como companheira, fica comprometido. Desesperança? Sim, desesperança de ter uma vida normal, sem dor. A tua vida passou a ser controlada e programada em função da dor.

Após 8, 10, 12 anos de dor, martírio, sofrimento, confusão, perdas, um médico diz-te que és portadora de Endometriose e aqui começa uma nova viagem na tua vida.

A Endometriose faz parte de ti, os médicos não sabem a sua origem e também não existe uma cura. Dizem-te que é crónico e que apenas podes ter tratamento que te alivie um pouco a dor. Mas ainda não sabes por tudo o que tens de passar. A incerteza é uma constante na tua vida. A explicação aos outros sobre a tua doença é tarefa difícil, porque nunca ouviram falar. Os exames constantes e invasivos a que estás sujeita, os resultados que nunca sabes o que trarão consigo, e tudo é imprevisível. O medo? Sim, o medo dos resultados dizerem que precisas de nova cirurgia, o medo dos resultados dizerem que mais uma parte de ti está afetada, o medo de te dizerem que afinal terás que retirar um ovário, os dois, o útero, e sabes lá mais o quê, o medo de seres infértil, o medo, o medo. Sempre o medo de mãos dadas com a dor. O sonho de ser mãe, pode cair por terra, a dificuldade ou impossibilidade de engravidar é alta, mais uma vez, não sabes. Então, além do papel de mulher, também o papel de mãe ficou comprometido.

Dor sem cessar, procedimentos médicos a toda a hora, órgãos afetados, doenças associadas, relações desfeitas, incompreensão, desgaste emocional e físico, sonhos que ficaram por realizar, é assim a tua vida, portadora de Endometriose! Sim, mas uma portadora de Endometriose é uma mulher maravilhosa, uma lutadora, uma guerreira e vencedora! Pois, após anos de sofrimento físico e emocional, és capaz de pegar no que de melhor existe em ti e fazer disso o teu sucesso de vida! E porque hoje existem especialistas de todo o género (desde a medicina convencional à não convencional, a psicologia, abordagens de outros tipos), tens ao teu alcance um sem fim de recursos para tornar a tua vida numa vida melhor, com muita qualidade e felicidade.

 

Vera Freitas

 

Artigo publicado no âmbito do Acordo de Cooperação entre o blogue Mil Razões… e a MulherEndo.

 

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04
Jul14

Retrato (Delinquência – 2)

Publicado por Mil Razões...

 

Por onde passa, deixa um rasto desolador:

Paredes riscadas, ou com fétido odor.

 

Normalmente em grupo (e se calhar tão só!),

Tem um comportamento que até dá dó.

 

Com pérfida alegria põe carros amolgados

Vidros partidos, equipamentos avariados.

 

Pratica o mal sem nenhuma razão

(ou por muitas, sendo esta a sua forma de expressão)

 

Respeito e civismo

São valores que ignora com cinismo.

 

É um delinquente, um mal-educado!

(Ou talvez desprezado e mal-amado?)

 

Sandrapep

 

02
Jul14

Na relva do castelo (Delinquência – 1)

Publicado por Mil Razões...

 

No castelo perto da Escola via-se e ouvia-se tanta coisa!!! Sentados(as) com as pernas à chinês na relva, com as muralhas como horizonte, divertiam-se como sabiam, gostavam, lhes ensinaram… enfim, não sei porque se divertiam assim… os comportamentos eram diferentes; usavam substâncias estranhas que os faziam estranhos (pensavam os outros que não as usavam e não sabiam o que fosse tal coisa)… ouviam música com um gira-discos portátil: Eric Clapton; Rod Stewart; Paul Simon; Zeca Afonso; Vitorino; Janita Salomé, entre outros. Havia pessoas, estranhamente curiosas com aquele mundo, a assistir e a comentar tal comportamento nada “normal”… porque passavam assim os “furos” das aulas? Vestiam diferente: roupas alternativas; calçado alternativo… pouco comum… pouco “normal”. Não nos aproximávamos do castelo, ou seja, da relva do castelo. Não podia ser… era muito estranho... ao longe era mais interessante; aumentava o mistério e a curiosidade. Os que se sentavam com as pernas à chinês na relva do castelo eram olhados como especiais: especiais pela diferença e, apenas, pela diferença. Não era “normal” passar os “furos” daquela maneira, muito menos a usar aquelas coisas estranhas. O que é certo é que não cumpriam algumas normas sociais… sim, porque não era permitido usar aquelas coisas e, convenhamos, que também não era muito “normal” sentarem-se com as pernas à chinês num sítio público com gira-disco portátil!!! Não era o nosso código de relacionamento nem de comportamento. O que faziam torna-se um comportamento delinquente? A palavra delinquência traz consigo muita carga moral!!! (é apenas a minha perceção). Se consideramos delinquente aquele que evidencia comportamentos ilícitos que contrariam os códigos de comportamento estabelecidos pelas autoridades daquela área geográfica e com bases morais socialmente estabelecidas, então, os(as) que se sentavam com as pernas à chinês na relva com as muralhas do castelo como horizonte e que usavam aquelas substâncias estranhas, eram delinquentes.  Parece estranho dizer assim as coisas… mas eram! As substâncias eram ilícitas, portanto, o seu uso não era aceite pelas autoridades. Se perguntarmos porque é que aquelas pessoas, que se sentavam com as pernas à chinês na relva do castelo, tinham esses comportamentos, várias teorias nos podiam ajudar a descobrir: biológicas, psicológicas, sociológicas… enfim, conseguiríamos uma resposta mais ou menos aceitável. A evidência científica diz-nos que a causalidade do comportamento delinquente não é linear. Expressões como “Diz-me com quem andas dir-te-ei quem és” e “Filho de peixe sabe nadar”, precisam de questionamento sério no que a este comportamento diz respeito. Atendendo às teorias explicativas, poderíamos chamar aqui a importância dos fatores de risco e dos fatores protetores. A evidência também nos alerta para a necessidade do equilíbrio entre eles. Como pais, como família, como amigos, como elementos de uma associação ou apenas como um elemento da comunidade onde vivemos, temos responsabilidade na prevenção de alguns destes comportamentos, no sentido em que devemos ter presente a importância de funcionarmos como fatores de proteção dos nossos filhos, da nossa família e dos nossos amigos. Hoje o comportamento delinquente assume contornos diferentes, apenas e só, porque as normas sociais também são diferentes. Continuamos a sentar-nos com as pernas à chinês com as muralhas do castelo como horizonte… ouvimos música (provavelmente, outras músicas) com um aparelho diferente do gira-discos portátil… e o uso daquelas substâncias estranhas continua a ser um comportamento desviante. A sociedade vai aceitando progressivamente alguns comportamentos, assumindo-os com normalidade, outros mantem-nos delinquentes e outros torna-os delinquentes. Arrisco dizer, com algum grau de certeza sustentado pela ciência, que a promoção da saúde mental é um dos caminhos para a prevenção de alguns comportamentos delinquentes.

 

Ermelinda Macedo

 

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