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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

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Destaque

Amigos do Ziki - Uma ferramenta para o pré-escolar.

07
Mai14

O ontem pode ser… já! (Infância - 16)

Publicado por Mil Razões...

 

Quando me pediram para escrever sobre a Infância, pensei em falar sobre a sua importância na vida do atual adulto e em como, dizia Freud “A criança é o pai do adulto”. Depois pensei em falar nos cheiros que nos fazem viajar até ao passado, o da cozinha ao pequeno-almoço, da escola no primeiro dia de aulas… mas na verdade, o que me parece mais importante neste momento, é não sentir a infância como sendo algo do passado. O mais bonito e difícil que podemos experimentar é deixar que o adulto que hoje somos vivencie a vida como se fosse uma criança. Viver o agora, sem preocupações com aquilo que ainda nem sequer aconteceu… cantar sem ter medo de parecer um tolo… andar à chuva… rir às gargalhadas… tocar nos outros… ver tudo de outra perspetiva, com tempo, com atenção ao detalhe: a borboleta a voar, os rostos das pessoas, o céu, as estrelas, o mar, o lixo… procurar agradar aos outros, mas com o coração aberto… parece-me que, mais importante do que a infância que tivemos, visto que nem todos têm o mesmo ponto de partida, é aquilo que de bom qualquer infância pode refletir na nossa vida agora, hoje, já. Leia este texto e depois… vá ser criança!

 

Sara Almeida

 

05
Mai14

Vou ter um gato (Infância – 15)

Publicado por Mil Razões...

 

Estão a dar os meus desenhos animados preferidos na televisão, mas hoje não consigo estar com muita atenção. Estou a pensar no teste de português que fizemos ontem e que acho que não me correu muito bem. Quer dizer, acho que não vai dar para ter um muito bom e se calhar a mamã vai ficar chateada comigo. Ela está sempre a dizer que os estudos são o meu trabalho e que tenho que me esforçar.

Mas ontem não conseguia concentrar-me muito bem. Primeiro foi o passarinho com a asa partida que encontrámos no recreio e que a professora disse que se calhar não sobrevive; depois foi a estúpida da discussão com a minha amiga que insistia que eu não podia estar a ler o livro tão depressa… e eu que estava a ler devagar para ela me poder acompanhar! Mas pronto, não importa… as pessoas nunca acreditam em mim e já devia estar habituada. Quem tem mais de nove anos diz que sou uma miúda e não me leva a sério… os outros miúdos não me percebem ou não querem perceber. Se calhar a culpa é minha.

Mas às vezes os dias são giros e divertidos, porque há muitas coisas para descobrir e fazer. Há flores a nascer nas árvores, há gatos e patinhos pequeninos e estrelas, e montes de livros para ler, tantos que nunca vou conseguir ler todos. Livros sobre pessoas e animais e o espaço e descobertas e pessoas muito inteligentes e coisas que nem consigo imaginar apesar de estarem sempre a dizer que tenho uma imaginação delirante.

E agora tenho que esperar pelo resultado do teste para ver se sou castigada, mas se for, paciência, porque mereço. Depois hei de ter tempo porque há muito tempo à minha frente, para estudar e brincar e tirar boas notas e ser aquilo que quiser ser quando for crescida. De vez em quando os adultos ralham-me ou batem-me por causa de coisas que dizem que eu fiz ou não fiz, e eu nem sempre entendo o que fiz de errado mas devo ter feito alguma coisa mal porque os adultos dizem que fiz… mas quando for crescida não vou fazer assim com os miúdos porque deve haver uma maneira de eles saberem como é que se faz as coisas certas sem apanhar.

Estou a pensar que deve ser muito fixe poder ser grande e ninguém mandar em mim, poder comer o que quiser quando quiser e ler quando quiser e aprender todas as coisas do mundo e arranjar um emprego a fazer coisas de que gosto, e ser feliz. Mas depois parece-me que se calhar não deve ser assim tão simples, porque os adultos não me parecem sempre muito felizes e só falam em contas e em dinheiro e parece que não têm muito tempo para se divertirem, e mesmo quando têm tempo para se divertirem parece que já não sabem muito bem o que fazer com ele.

Mas eu vou fazer melhor do que isso porque ando a aprender muito com os livros e de vez em quando na Internet, quando me deixam, e olho com muita atenção para os adultos da minha família para aprender o que é certo e errado e o que eles fazem bem e fazem mal, e só vou fazer coisas bem. Já percebi que quando somos maus ficamos mal dispostos e quando somos bons e ajudamos pessoas e animais sentimos um calorzinho cá dentro e o nosso coração parece que está a rir-se e ficamos bem-dispostos e felizes. Por isso só é preciso sermos bons.

Eu sei que às vezes não apetece nada ser boa pessoa, porque alguém nos chama nomes feios ou nos mente, ou nos engana, ou o dia não nos correu bem, como dizem os adultos. Mas eu não gosto de sentir-me triste e, apesar de algumas vezes fazer asneiras, como saltar em cima de uma secretária na sala de aulas, ou fazer cara de má a um colega mais irritante, acho que vou conseguir ser boa pessoa.

A minha avó diz que eu tenho a vida toda pela frente. Eu não sei se entendo muito bem o que ela quer dizer com isso, porque já estou a viver há alguns anos e por isso parece-me que também tenho a vida por trás. Mas sei que vou esforçar-me muito para poder ter a vida que quero quando crescer.

E, nessa altura, finalmente, ninguém me vai poder impedir. Vou ter um gato.

 

Dora Cabral

 

02
Mai14

Carta à criança que fui (Infância – 14)

Publicado por Mil Razões...

 

Não me lembro das circunstâncias do teu nascimento. Tudo o que sei, dos teus primeiros tempos de vida, foi-me dado pelas lembranças dos outros repetidas até à exaustão, pelas fotos e pelos cheiros que lembro, sem saber porquê. Só mais tarde reconheço memórias conscientes, a partir de um dia amargo que a memória guardou, e que todas as minhas defesas tentaram apagar em mim, ad eternum. No entanto, não esqueci. Aquilo que parece fácil, tem levado décadas a por em prática. Construí e desmontei. Neguei e finalmente, aceitei. Como aceitei muitas outras memórias que se seguiram.

Menina traquina e faladora, que teimavas em sorrir ao mundo, apesar do terror ter vivido contigo anos a fio; gosto tanto de sentir, visceralmente, o quanto eras feliz! Se não fosses tu e essa tua obstinação, eu não estaria aqui hoje, a viver sem entender muito bem como, nem porquê, apesar de tanto ainda doer da jornada. Hoje sei que essa luta também foi a tua, desde o primeiro instante. E tu resististe, para me deixares o melhor de ti. Estar-te-ei grata, até ao fim dos meus dias, por te teres recusado a desistir. Uma e outra vez. E mais outra. E outras mais. Demasiadas para que as conte com justiça. Todavia, há momentos em que me sentiria envergonhada se pudesses perceber a desistência no meu olhar. Nos meus dias mais cinzentos esqueço o que te levou a vencer os gigantes e sucumbo às formigas que me beliscam. Quanto mais mergulho no abismo, mais te odeio por nunca teres tido coragem de tomar uma atitude digna e poupares-me a mim deste azedume que rouba, gota a gota, de dentro da minha alma, todas as cores do arco-íris. Porque não percebeste logo que isto ia ser, toda a santa vida, uma novela mexicana? Porque me deixaste a mim essa responsabilidade? Como fizeste para escapar do veredito estatístico? E se um dia tudo isto for demasiado para mim, serás capaz de me perdoar se eu não tiver a tua força?

Não fiques triste, hoje não te odeio. Escuta com o coração: hoje, e na grande maioria dos meus dias, não te odeio. Hoje, e nesses dias todos também, sei que léxico algum será suficiente para agradecer todas as raízes que, carinhosamente, plantaste em mim. Por isso hoje, e porque tenho medo que não o saibas, agradeço-te a perseverança, a capacidade de amar e abraçar que me ensinaste, o arco-íris que afinal nunca de mim saiu - e que só eu não vejo, quando sucumbo à dor do post-scriptum. Sei que há muitas outras coisas, verdadeiramente mágicas, que preferias que eu lembrasse; em vez de cenas apocalípticas, cheias de efeitos especiais, que a minha insana memória consegue materializar. Eu sei, menina doce… Mas ainda que às vezes eu te pareça à deriva e isso te entristeça, lembra-te que dentro de mim, permaneces viva. Manténs-me viva. Dás sentido a todos os meus matizes, a todos os sorrisos que partilho, a todos os abraços que brotam da alma, a todas as histórias que eu conto, a todos os momentos em que danço e te sinto em mim, aos pulinhos de alegria, por coisa nenhuma. Não penso que nenhum dia nos vá sobrar no crepúsculo da vida, por mais que te ame genuinamente. Não haverá um encore do nosso último suspiro. Mas espero abraçar-te, na derradeira etapa da nossa jornada e escrever, com mão segura e a alma plena, a última página da nossa história. Nela, vejo-nos deitadas na areia, de mãos entrelaçadas e o coração tranquilo, a ouvir as ondas a bater nas rochas e a contemplar as estrelas. Tu, muito jovem e apaixonada, e eu, muito velhinha e deliciosamente feliz, na absoluta harmonia do Ser e do Sentir. Sem princípio e sem fim.

 

Alexandra Vaz

 

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