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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

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Destaque

Amigos do Ziki - Uma ferramenta para o pré-escolar.

30
Abr14

A grande banhada (Infância – 13)

Publicado por Mil Razões...

 

"Chiu! Eles vêm aí!". E instala-se um silêncio tenso enquanto eles se aproximam.

Isto passa-se atrás de uma barricada estrategicamente preparada para os esconder. Uma espécie de quartel-general feito com todo o empenho e detalhe, com canas e cordel, camuflada com folhagem e ramagem entrelaçada. Atrás da barricada providenciaram pelos cómodos de que todo o guerreiro necessita: bancos de madeira (o mais alto é o do chefe), um caixote de madeira com tampa (onde estão secretamente guardados os mapas secretos e os planos secretos de ataque, bem como a limonada que a mãe do chefe lhes preparou), uma bacia cheia de balões de água, uma arma ultra potente a que carinhosamente chamam de canhão d'água (é uma mangueira), um pau de marmeleiro espetado na terra e, amarrado a ele, uma bandeira de pano negro com uma caveira toscamente pintada a vermelho vivo (não sei porquê, esta caveira faz lembrar um texugo, mas atenção, um texugo ameaçador, não um desses texugos fofinhos).

Os piratas estão a postos. Espreitam por entre a ramagem da barricada, carregados de balões nas mãos, nas camisolas reviradas e no chão (e ainda têm a bacia cheia deles). "Isto vai ser um massacre!", sussurra um deles para o do lado. O do lado solta um guinchinho surdo de sei lá do quê (talvez de alegria concentrada e contida, os putos têm destas coisas). Todos agachados como podem, porque a barricada agora não parece ser assim tão alta.

Os inimigos estão à vista. Entre os inimigos está uma menina, o alvo preferido dos piratas. Vem de vestidinho, a palerma. Vai ficar uma desgraça. Secretamente, muito secretamente, absolutamente completamente secretamente todos os piratas acham que ela é gira.

Ninguém pia, ninguém mexe. O ataque está iminente. Os inimigos vêm cautelosamente em bando. São quatro a contar com a menina. Parece que sabem que algo os espera. Um deles aproxima-se incautamente da barricada. Os piratas preparam-se para o atacar. Os outros inimigos juntam-se àquele que se aproximara incautamente da barricada. A menina também. Todos os olhos dos piratas estão agora postos nela.

De repente… "Plof!" Rebenta um balão de água em cheio na nuca do pirata mais gordo. E logo a seguir uma rajada deles nas nucas e nas costas dos outros piratas. Os piratas viram-se de repente e começam a disparar "balonadas" com toda a força, freneticamente, caoticamente. A maior parte delas erra o alvo. São agora atacados por todos os lados. A menina é d'armas: atira melhor do que os rapazes.

"O canhão! O canhão!" - grita o chefe - "Liga a água!". Mas já era tarde. Os inimigos tinham despejado toda a artilharia sobre eles e agora piravam-se. Tinham caído numa emboscada. Foram distraídos pela frente e cobardemente atacados por outros três inimigos que se escondiam por detrás deles. Foi uma valente derrota. Uma humilhação total. Estavam encharcados até aos ossos. Nem tiveram tempo de chegar à bacia. Foi um ataque relâmpago.

Ficaram por instantes calados e a escorrer. Mas logo se seguiu uma acesa discussão de todos contra todos sobre quem não viu, quem não previu, quem bufou…

Foram então secar-se e deitaram-se ao sol a beber limonada e a falar sobre qualquer outra coisa.

Lembro-me bem deste dia: eu era o pirata mais gordo. E a miúda era mesmo gira.

 

Joel Cunha

 

28
Abr14

A Gata e a Sabrina (Infância – 12)

Publicado por Mil Razões...

 

Vista do céu, Sofia parece um cartoon: cabeça gigante e corpo minúsculo. De pescoço esticado a lembrar uma tartaruga, o seu olhar dirige-se para o último andar do lote 3 do Rossio da Trindade. Aguarda o casaco de malha que a avó combinou, pelo intercomunicador da entrada, atirar-lhe pela varanda da cozinha. “ Está frio, o que é que andas a fazer na rua?”. Ainda falta um jogo para terminar a jornada do faz-de-conta do Teatro. Sofia é uma gata. Marta, uma princesa, claro está.

- Atenção ao Homem dos Cães! Depois andam aí as duas a fugir dos vadios! – Grita a avó, lá de cima do topo da sua autoridade e proteção.

O casaco angelicamente branco cai à paraquedas na terra batida do pátio de estacionamento defronte do lote. Previsível. Sofia é pequena, meio quilo de pernas secas e braços soltos. Salta para tentar apanhar o casaco, mas não lhe chega. A peça esvoaça, roça na capota do R5 vermelho do pai da vizinha Sónia, e aterra chegado aos verdes e grandes contentores do lixo. Uma ligeira camada de pó cinzento levanta-se no ar acabando por cair em cima do casaco, que muda ligeiramente de cor. Volta a espreitar para a varanda da casa. O corpo corpulento e moreno da avó já não as observa. Ufa, senão já ia ouvir.

O terraço onde brinca o grupo do condomínio tem tijoleira vermelha gasta e escorregadia. Muitas vezes por lá caíram. Sofia já contou umas dez quedas nas últimas seis semanas. Cai muito, a pequena. O pai costuma dizer-lhe que a filha não sabe caminhar – e realmente não sabe. Ninguém compreende a sua predisposição para as quedas. Marta ri-se. Ri-se sempre – e muito! – dos tropeções da irmã. A irmã mais velha de Sofia é daquelas crianças espertas que se riem sempre das senhoras que escorregam pelas ruas abaixo, com sacos de compras atrás, ou quando a gorducha Paulinha se entala com as bolas de Berlim no café do Sr. João. É uma cómica, a Marta. E hoje é a Princesa do Sabá, embora prefira uma Barbie vestida de rosa pálido. Uma romântica e uma coquete. Se fosse um filme, seria Sabrina.

- Tinhas de sujar o casaco, e o pior é que quem ouve da vovó sou eu, Sofia! Já não sei o que fazer contigo.

É muito leoa com a irmã mais nova, embora, por vezes, contrariada. Ainda assim, leva-a a passear, faz-lhe o lanche… Sempre com ar de mandona, mas Sofia não tem mais ninguém com quem se entreter: ou a irmã ou a avó. E acaba por furar as brincadeiras com os seus amigos, mais velhos, que a tratam como se ela fosse um bebé – que é um facto e que a impede de conseguir manter as conversas mais sérias.

- Sofia, hoje tu vais fingir que estás nos meus pés a aquecer-me pois és uma gatinha.

- Este teatro é uma seca. – Resmunga João.

- Mas tu és o príncipe! Não podes sair agora.

- Eu posso ser o príncipe. – Suspira Rute, que quer ser sempre alguma coisa.

- Mas tu és outra princesa e preferes ser o príncipe?

- Eu quero ser alguma coisa. Daqui a pouco são seis da tarde e aparece o Homem dos Cães e estamos a perder tempo.

- És uma medricas! – Ri-se em gargalhadas sem culpa, João, o único rapaz do grupo, multifacetado nas personagens que interpreta – é pau para toda a colher.

- Olha, olha! No outro dia até choraste quando ele olhou para ti!

- Isso não é verdade!

- Marta, posso ser uma princesa? – A voz de Sofia soa a pintainho acabado de sair do ovo.

- E quem é a minha gata?

Paulinha usa a batuta como a Princesa do Sabá: sempre.

- É claro que tens que ser a gata da Marta, Sofia! Tu és a mais pequenina e é a gata quem vai descobrir que o príncipe quer matar a princesa Rute.

- Esta brincadeira é mesmo chata.

- Ai é, João? Então vais fazer o quê? Jogar à bola? Não tens colegas de equipa, seu burro!

- Eu posso jogar à bola contigo, João.

- Não podes, não! – Três princesas: a do Sabá, a de Inglaterra e a da Noruega: Marta, Paulinha e Rute: as três estarolas que cantam “ As Três Irmãzinhas” vezes e vezes sem conta. Uma comunidade claramente matriarcal em que João e Sofia, os mais novos, não são mais que peças de um tabuleiro posto e disposto por elas. Já para não falar quando se junta Sónia, a Rainha- Má. Raramente se diverte com eles, demasiado espaçosa para as exigências das amigas.

- E se o príncipe fosse a Sónia? Podíamos ir chamá-la.

- Eu posso ir chamar a Sónia, Marta.

- Não vais nada, Sofia. Tu és uma gatinha linda. A minha gata. Só não te podes deitar na tijoleira senão sujas-te toda.

Sofia senta-se quase a medo no chão do terraço. Sabe, a partir desse exato momento, que já manchou os calções azuis: um figo no lugar errado à hora errada, esmagado no rabiosque da criança. Cala-se e pensa no que vai dizer à irmã e à avó por tamanha distração. Outra vez.

- Muito bem, vamos começar.

Ainda em longa distância, o ladrar rouco de um cão que faz lembrar o suspense que Sofia sente numa história que o avô conta vezes e vezes seguidas: “E lá longe, vinha um cavalo…”

- O Homem dos Cães!!! – Uníssono. As crianças têm ouvidos de tísicos. Sobretudo quando se fala em perigo. Tudo importa, desde uma folha que cai no parapeito da janela aos passos de um adulto. Quando se sente medo do que não controlam, preferem viver em alerta de detetive – que também são, os Inspetores do Rossio da Trindade.

- Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhh!!!!!!!

Correm, correm, correm. Pernas de x-ato, bocas abertas num gritante A, as suas casas ali tão perto, com leite quente e televisão ligada. E ainda assim, sempre na rua, arriscando-se a serem devorados pelos cães que fazem companhia ao vagabundo. “São muitos, vovó! Uns quinze!”. Cinco, mais propriamente. Marta, exagerada, tem medo de tudo, sobretudo do Homem e de trovões. “Parecem tiros!”. Sofia receia aquilo que os outros receiam, e a avó, que se vai zangar pela mancha avermelhada nos calções azuis. Agradece o facto do pânico que distrai a irmã mais velha pois assim não ouve ralhete a dobrar. É uma sombra, porém brilhante e mexida, como a de uma andorinha.

De frente para a porta azul celeste do apartamento, Marta recomenda:

- Temos de entrar com calma para os avós nem perceberem o nosso medo. Está na hora de sermos umas senhoras.

Umas senhoras, diz ela. O que ela quis sempre ser: faz croissants no formo da mãe, veste a sua roupa e pinta os lábios Vermelho Anos 80. E adotou Sofia, primeiro a custo, depois a gosto. Abandonando o sonho de bailarina, abraçou o que tinha como pôde. É a fada da família, com caprichos que lhe caiem como purpurina e com aromas de frutos silvestres.

A avó abre a porta e de nada vale a Sofia ter uma irmã que transforma tudo em ouro: os seus calções têm cor de fruta podre.

- Ai Sofia, o que fizeste aos calções!

 

Sofia Cruz

 

25
Abr14

A minha infância (Infância – 11)

Publicado por Mil Razões...

 

No meu tempo não havia nada, mas havia tudo. Esta parábola é bastante ilustradora do paradoxo entre bens materiais e os valores (morais) que coloram a nossa existência. Não se pretende assim induzir a períodos históricos de existência de alguém ou de gerações, mais ainda de grupos sociais segmentados pelo seu poder de compra, usualmente designado de classe social numa base meramente de poder aquisitivo relativo. Pessoalmente não sou apologista de uma classificação seca baseada meramente num único critério como seja o poder aquisitivo, sabido da decapitação destes seres quando cumulativamente não sejam minimamente instruídos, mas isso caberia numa outra dimensão de análise social.

Sem prejuízo das demais, pretende-se vislumbrar o modus vivendi de indivíduos pertencentes a classe média-baixa, se me permite assim classificar. Normalmente são pessoas com uma infância rústica e alto contacto com a natureza ou realidade das coisas, diferentemente de um mundo sofisticado em que a realidade é figurada para não antecipar certos contactos, alguns cuidados do mundo moderno e frutos da invenção do Homem para entreter/divertir os mais novos. Este esforço de proteger os seus rebentos é deliberado para não expô-los da maldade crua do mundo à sua volta, num esforço de evitar que os erros, carências e limitações do seu passado se repitam. Cada um tem o seu percurso, no final da estória prevalece a razão suprema: quis assim o seu destino.

Entretanto este instinto intuitivo também verifica-se por parte dos progenitores de infantes da classe média-baixa, porém com outro pormenor expressivo influenciado pela baixa escolarização, reduzida renda, infraestruturas fragilizadas, enfim um conjunto de fatores endógenos e exógenos que não facilitam a externalização profissional da educação por parte dos pais. Existem arranjos internos como sejam a participação dos avós, irmão mais velhos e até infantis, vizinhos, entre outros, para suprir a reduzida amplitude de controlo que os progenitores poderiam suplementar agravado por contextos em que deparam-se com carência das necessidades mais básicas.

Uma característica comum de sociedades subdesenvolvidas, com nível médio de escolaridade baixo e forte influência da cultura tradicionalista é a alta natalidade, facto que a longo prazo agrava a sequência descrita anterior. Francisco (2011) no seu ensaio sobre Estratégias de Reprodução e Proteção Social defende que ter muitos filhos é um mecanismo de proteção social através do qual a população humana mitiga o risco de insegurança e ameaças à sobrevivência. Apesar dessas adversidades, por amor aos seus, mesmo em carências avultadas, desde que haja harmonia familiar e fé, os progenitores de classe média-baixa desempenham cabalmente a tarefa de educar os seus filhos com um cunho moral acima da média. Segundo o mesmo autor, a estratégia da reprodução (ter muitos filhos) é eficaz atinente a sobrevivência, contudo ineficiente, conforme evidências demonstradas através da análise do desperdício demográfico.

No que toca a infância em específico, existem momentos sensíveis de transição na formação (crescimento) do indivíduo e sua identidade, em que a opinião dos pais faria toda a diferença não apenas para justificar a dependência material, emocional e espiritual relativamente aos encarregados de educação como também para legitimar tais atos.

Enquanto o papel dos pais é edificar filhos modelos, quais prodígio, que os honram e tornam educadores distintos numa sociedade marcada pela degradação de valores, reforçando a convicção segundo a qual é cada vez mais difícil educar hoje do que fora anteriormente, a missão dos filhos é encontrar um melhor desempenho comportamental com base na menor repreensão possível em sinal de obediência e respeito aos princípios e valores veiculados pelos pais.

Sem modesta do perfil de indivíduo que as crianças reveem nos seus pais, há a ameaça da influência externa que as crianças sofrem quando experimentam o mundo exterior descobrindo outros modelos. O grande desafio é haver uma margem de diferença reduzida entre os modelos de forma a criar menor penumbra no questionamento do indivíduo, que induz a experimentação e autodescobrimento.

 

António Sendi

 

23
Abr14

O império da infância (Infância – 10)

Publicado por Mil Razões...

 

A infância pode ser como um jardim.

Com canteiros, arbustos, sebes, flores, caminhos de saibro, que deixam marcas e cicatrizes nos joelhos e nos cotovelos, relvados macios onde se pode rebolar e dar cambalhotas.

O jardim pode ter labirintos onde se entra e se parte à descoberta de novos caminhos, novas sensações, onde a criança se pode encantar, mas também se pode perder, ter medo do desconhecido, entrar em pânico, em estado de quase nem conseguir pedir ajuda.

 

Jardim-de-infância. Agora quase todas as crianças os frequentam e todas vão para o primeiro ciclo da escola. É a infância enquadrada, a aprender e a socializar. Os infantes aprendem as cores, as letras, a andar em fila, a ter horários, observando e experimentando a vida com um certo resguardo. As crianças têm direito a isso.

 

Talvez estejamos a falhar, retiro o talvez, quando nos ficamos, nos fixamos, apenas nos direitos, em dar e proteger os direitos das crianças. E o resto?

 

Especialmente em termos familiares, os infantes reinam sobre um império de direitos, protegidos de tudo, os seus desejos a serem considerados como ordens imperativas. O risco do arranhão no espinho da roseira ou no saibro do jardim quase que reduzido a zero, a nada. Anulando a experiência, a dor, o fracasso, a queda, a ferida.

 

Tudo lhes é devido? Penso que sim, incluindo a preparação para lidar com o “não”, a desilusão, a frustração, as dificuldades e as insuficiências. É melhor proporcionar também estas experiências, dando amparo, preparando para a vida real, como vai ser “lá fora” ou criar um império tão aparente que lhes parece real, mas que se vai estilhaçar em mil pedaços quando a idade adulta chegar?

 

A infância e o seu jardim de brincadeiras, jogos, sustos, lutas, quedas; memórias inquebráveis para a vida.

A infância é a vida a florescer.

 

Jorge Saraiva

 

21
Abr14

Inocência (Infância – 9)

Publicado por Mil Razões...

 

As mais antigas memórias alimentam os meus dias.

Enchem de cor os meus pensamentos.

Fazem-me rir… fazem-me chorar…

Fecho os olhos e volto a ser menina…

Que bom é brincar… Que bom é correr!

Que bom ter alguém que olhe por nós.

Que bom olhar para trás!

 

Ser criança

Temer inocentemente

Ser livre sem receios

Viver sem medos

Viver o momento

Aproveitar cada brincadeira como sendo única

Viver num Mundo destacado por fábulas

Onde o Amor e a sinceridade têm especial destaque

 

Ver os meus filhos brincar

Automaticamente sorrio

O meu coração conforta só de ver a pura liberdade que é ser criança

Tenho especial cuidado para não os acorrentar à prisão das emoções

Tento que sejam o mais virgens possíveis

Que sejam eles mesmos

Com a inocência e pureza com que nasceram

 

Com ajuda de um corpo físico

Com registos valiosos em suas almas

Crescem pacientemente

Sem pressas

Sem ânsias

Simplesmente aceitam que são crianças

 

Transportemos a nossa meninice para hoje

E vivamos sem correrias e sem medos

E aceitemos que há sempre quem tome conta de nós

Deus nosso Pai

 

Joana Pereira

 

18
Abr14

De volta aos 6, 8 ou 10 anos (Infância – 8)

Publicado por Mil Razões...

 

Uns pozinhos de perlimpimpim fizeram magia e levaram-me de volta àqueles dias em que só a minha casa representava um mundo inteiro cheio de mistérios, de doces aromas e fantásticas aventuras.

Acabo de chegar a casa depois de um dia de escola, a minha mãe já veio do mercado do Bolhão e pelo cheiro que se espalha por toda a casa... hoje comprou morangos!!!

O meu irmão quer que eu vá experimentar uma das suas novas invenções:

Um gigantesco carrinho de rolamentos feito a partir de uma tábua de passar a ferro. Eu só tenho de me aguentar em cima dele, enquanto ele empurra rua abaixo. Resultado: joelhos esfolados, lágrimas nos olhos e um momento que jamais esquecerei.

Domingo de manhã, quer dizer que o meu pai nos trará a todos o pequeno-almoço à cama, com as suas famosas torradas com manteiga, depois, depois e até almoço pode ser que ele faça uma tenda de lençóis amarrados aos pés da cama e nós viveremos mais uma aventura para mais tarde recordar.

“- Susana deixa de mergulhar e pensa nas sapatilhas!” Um momento embaraçoso, só estava a apalpar um fato de mergulho. A minha mãe uma presença constante, carinhosa e ternurenta, que nos educa e que nos mima. A senhora de cabelos negros, olhos enormes e sorriso nos lábios.

Vem aí o Dia da Mãe e eu quero comprar uma prenda especial.

Para ganhar dinheiro, só tenho de vender os desenhos que fiz e rapinar umas moeditas do porta-moedas da minha mãe. Afinal a prenda é para ela...

É tão giro aprender a dançar, com os pés em cima dos do meu pai, só tenho de fazer de conta... E estou a dançar estas músicas que me parecem tão antigas!

Adoro vir para o quarto do meu irmão e jogar ao berlinde, pode ser que desta vez eu ganhe e lhe mostre a ele e aos amigos que sei jogar tão bem quanto um rapaz.

O meu pai hoje vai levar-nos a todos ao cinema. Adoro ir ao cinema!

Deu-me um chocolate para eu esconder no bolso e comer durante o filme. Não posso fazer barulho absolutamente nenhum.

Lá vou eu lanchar com o meu avô, a minha mãe recomenda-me mais uma vez, não vá eu esquecer-me das outras mil, para me portar bem.

E cá estou eu sentada, no Majestic a olhar em volta e a pensar que se somasse a idade de todos os que lá se encontram, poderíamos chegar ao início da existência do mundo.

Os pozinhos de perlimpimpim têm duração limitada, não tenho como percorrer todas aquelas horas, dias e anos que em conjunto, traduzem as preciosas memórias da minha infância.

Uma infância que me enche de saudades, fui muito feliz, uma criança com muita sorte.

Se um dia os meus filhos recordarem a sua infância como eu da minha, serei uma mãe mais feliz.

 

Susana Cabral

 

16
Abr14

Memórias da infância esquecida (Infância – 7)

Publicado por Mil Razões...

 

Falar de Infância por parte de um adulto é falar de saudade. Seja qual tenha sido a experiência de cada um, há sempre algo de saudade. Nem todas as infâncias foram felizes, mas houve em todas, num dado momento, um pingo de Inocência. E nessa Inocência, está para mim o conceito de Infância. A inocência que desperta a curiosidade, o espanto, o ar de maravilhado, o ar de desapontado, a descoberta, o crescimento. O olhar para o mundo como se tudo fosse uma descoberta, uma novidade. As conclusões brilhantes de tão simples e banais que eram, sem necessitarem de um raciocínio lógico-matemático, mas pura ligação de pontos de uma observação do que está diante dos olhos. E com as coisas complicadas, como às vezes, as falas dos adultos representavam e que nada se percebia, a imaginação ajudava sempre com um cenário espetacular! Tipo: “Não vale a pena chorar pelo leite derramado”, e lá íamos nós pela imaginação fora a pensar “qual leite, se estou a chorar porque perdi a borracha cor-de-rosa?”. E na cabeça só ficava a imagem de uma mesa a derramar leite, que pingava até ao chão. E bastava a seguir encolher os ombros e ir jogar à macaca, como se fossemos os maiores acrobatas! E assim, se descomplicava o complicado!

E aquelas vezes em que, em retrospetiva, nos vemos na nossa dimensão tão pequena, a ter uma perspetiva do mundo completamente diferente e tudo nos parecia enorme. A porta que era do tamanho de um gigante, o quintal que mais parecia uma quinta, as pernas debaixo da mesa altíssima, as coisas inantingíveis. E quando, na nossa pequenez, na rotina diária, seguíamos agarrados às mãos do pai, que no seu passo apressado, esquecido já da sua meninez, nos arrastava passeio fora em direção a uma meta, como a paragem do autocarro? Era uma prova de velocidade, que hoje nos parece o mais banal dos ritmos. Mas, na altura, só pensavamos em não perder o balanço, no meio de tanto tropeço.

Adoro olhar para trás e recordar todos os bons momentos que marcaram a minha infância, mesmo os mais simples.

Adoro o modo como as crianças olham para as coisas, para a realidade, como pensam com a sua tão fértil imaginação. Como fintam a inteligência dos adultos com perguntas sem constrangimentos, apenas sedentas de curiosidade. Como não optam pelo complexo para exprimir o simples. Como não se escondem em racionalizações, e sentem com verdade. Como fazem do mundo, um lugar à sua maneira.

O tempo passa, o crescimento dá-se, e toma-se outra perspetiva. Deixamos de olhar de baixo para cima, de olhar em redor, e passamos a olhar só para cima. Para onde temos de chegar. Ao topo. Para onde nos fazem sentir obrigados a estar. No topo. Para onde não podemos ousar olhar. Para baixo. Tentamos seguir de cabeça erguida, e, por vezes, esquecemos de olhar com diferentes perspetivas. Esquecemos de olhar o mundo com curiosidade. Esquecemo-nos de tentar esticar-nos nas pontas dos pés e ver mais adiante, mais além do que é visível, tal como uma pequena criança. Deixamos de acreditar que tudo é possível. Daí a insistência do aviso: “não deixes morrer a criança que há em ti”, porque só ela te levará mais longe, mais perto da tua essência.

 

Cecília Pinto

 

14
Abr14

Eu nunca fui criança (Infância – 6)

Publicado por Mil Razões...

 

A contemplação do fogo acalma-nos, conduz-nos a um estado de hipnose que convida à reflexão, aplaca os nossos demónios e gera consensos. São marcas imemoriais gravadas nos genes, um legado dos nossos antepassados que viviam em cavernas, que no seu interior ficavam retidos por longos períodos de tempo e que tinham a fogueira por centro das suas vivências.

Lentamente, o fogo consumia a enorme raiz de oliveira e fazia-nos chegar um calor poderoso e envolvente. Vértice dos nossos olhares, a lareira do hotel autorizava o silêncio. Não havia entre nós qualquer ponto de contacto para além dos que decorriam das obrigações profissionais e na minha mente começaram a dançar palavras para o definir. Iam e vinham num rodopio que acompanhava o evoluir das chamas. De súbito, estabilizaram, formando um conjunto que me pareceu ajustado. Tosco, grosseiro, áspero, rude. BOÇAL. Boçal surgia em maiúsculas e assim me parecia que deveria ser. BOÇAL. Boçal em letras de fogo, maiúsculas, encaixilhadas pelo granito da lareira.  

- A minha família era muito pobre. Miserável. Dormíamos em velhos colchões de folhelho e nos dias rigorosos de inverno, quando o frio era tal que me impedia de dormir, eu ia deitar-me junto da nossa vaca. Mas mesmo nesses dias em que o vento trespassava as pedras nuas da casa, logo que o dia raiava, a minha mãe, único adulto da família, vinha junto a mim lembrar-me que era preciso apanhar a erva para os animais. E lá ia eu, pequeno e frágil, tiritando de frio e a cambalear de sono, descalço, segurando a foucinha numa mão e esfregando os olhos com a outra. Terminada a cega, calçava os socos e ia para a escola. Lembro-me, como se fosse hoje, do último gesto antes de entrar na aula: usava as mangas da minha jaqueta, dos ombros até aos punhos, para limpar o ranho que me escorria até à boca. E lembro-me de não ter forças para correr ou saltar, nem ter vontade de o fazer. De olhar para um pião ou para um arco e uma gancheta e os achar objetos estúpidos, inúteis, sem sentido. E lembro-me de ter fome e da dor que a fome me causava.

As chamas da lareira tornaram-se difusas e cada vez mais distantes. Um frio fino e cortante atravessou o meu corpo e eu senti-me desconfortável. E frágil. Os nossos olhares encontraram-se e assim ficaram por alguns momentos, num daqueles raros instantes em que duas pessoas se sentem completamente ligadas mas sós no mundo.

- Sabe, eu nunca fui criança.

 

José Quelhas Lima

 

11
Abr14

A infância acabou (Infância – 5)

Publicado por Mil Razões...

 

Minha infância foi longa, arrastada e eterna, como um esses filmes que a gente não tem como sair e tem que ficar assistindo até o final.

Do muito que me contam sobre a magia da infância, não conheci. Crianças correndo soltas na sua inocência, sua ingenuidade e no seu deslumbramento pela vida, essas crianças nunca cruzaram minha vida.

Na vida real eu era massacrada todos os dias por elas, perseguida e humilhada. Eu era alta, usava óculos, era gorda e tinha um defeito terrível, só gostava de livros, nada me interessava além deles.

Para piorar não era boa em nada, nada, nada, era um desastre natural, péssima em matemática, esportes, em qualquer tipo de concurso.

E digo sem vergonha a melhor parte da minha infância foi quando acabou. Mais um dia nessa tortura e eu não teria sobrevivido.

A vida adulta para mim é o paraíso. Se alguém fala mal de mim ou tira sarro, faz isso pelas costas, coisa que agradeço. Se alguém tentar me humilhar, eu devolvo na hora, sem medo de ir para a sala da diretora.

Hoje brinco o que não brinquei, como a sobremesa antes do almoço, mando a merda quem não mandei e sou livre, exatamente como dizem que as crianças são.

E não acredito mais em historinhas com final feliz, hoje sei o peso da crueldade infantil, sei que as crianças trazem seu ódio líquido e os adultos fingem não perceber. Alguém vai correr e dizer ''Mas isso não é ódio líquido, crianças são inocentes e dizem o que pensam!''

Ora e desde quando dizer o que se pensa é apropriado se envolve a opinião sobre outra pessoa?

Muito se pode falar sobre a inocência ou crueldade das crianças, mas eu senti na pele a maldade, ao contrário de muitos que ficaram com trauma de adultos, eu tenho trauma de crianças.

Anos atrás aconteceu uma coisa estranha. Eu procurava um livro sobre teatro infantil e achei em um sebo um livro de contos ingleses, escrito no começo do século XX.

Não consigo lembrar o nome do livro e fiz uma coisa que não se faz nem por decreto, emprestei ele e nunca mais o vi.

Mas as histórias ficaram tatuadas na minha mente, nunca esqueci. Eram contos sobre crianças, nunca li nada parecido aquilo.

Em um dos contos um menino acha duendes no seu jardim, resolve atrair eles a casa de bonecas de sua irmã e acaba aprisionando os duendes e se diverte por meses torturando eles, deixando eles passarem fome, sede e medo.

Outro conto que nunca esqueci foi da menina que acha fadinhas no seu jardim e faz amizade com elas. Um dia pede as fadas que coloquem flores no seu cabelo e as fadas se recusam a fazer isso. A menina não pensa duas vezes, corre a sua casa e volta com uma tesoura e corta as asas de todas as fadinhas.

Foi a primeira vez que li uma coisa assim sobre crianças, um texto relacionando infância e crueldade. Cresci lendo livros fofos, meigos, cheios de crianças sapecas e curiosas, nunca tinha lido nada igual.

Lamentei profundamente que esse livro não tivesse caído nas minhas mãos quando eu era garotinha. Eu lia tanto e com tanto desespero que teria sido um alívio perceber que não era a única que tinha conhecido a crueldade infantil.

E curiosamente crianças me adoram, mas isso acontece porque elas são espertas e sabem quem são as pessoas só de olhar. Elas olham para mim e podem ver no fundo da minha alma, sabem que eu sei o que elas estão passando e não sou outra adulta a dizer que tudo na infância é mágico, em silêncio elas percebem que eu conheço o inferno que algumas passam. E sobreviventes são assim, se reconhecem no olhar.

 

Iara De Dupont

 

08
Abr14

A “cabana” (Infância – 4)

Publicado por Mil Razões...

 

De cobertor, paus e outros objetos para a brincadeira na mão, saltávamos pedras e riachos para chegar à árvore que tanto desejávamos. Com muito engenho e imaginação construíamos a “cabana”. Era o nosso espaço improvisado. Ali, ficávamos com os outros objetos para a brincadeira, inventávamos e encenávamos histórias, e fazíamos joguinhos improvisados. Era o nosso refúgio e o local das nossas brincadeiras. Quando o dia começava a cair, sabíamos que os nossos pais não nos perdoavam: desmontávamos a “cabana”, voltávamos a carregar o cobertor, os paus e outros objetos para a brincadeira e, saltando pedras e riachos, voltávamos a casa. Em casa eramos alvo de um questionamento que, neste momento, para mim, faz sentido. Nessa altura não percebia bem porque se preocupavam com tanta intensidade; afinal só tínhamos construído uma “cabana” e com tanta felicidade, meu Deus! Respondíamos a todas as perguntas sem que a mentira aparecesse nas palavras. Éramos felizes… crianças felizes com brincadeiras que, nessa altura, exigiam algumas competências e algum esforço. Era preciso esforço para brincar, mas esse esforço trouxe-nos, com certeza, uma forma de estar na vida diferente. Vejamos: a cabana e a televisão; a cabana e a playstation e; a cabana e o (mau) uso da Internet… o que nos parece melhor? Eu não sei! Sei que, no contexto atual, o uso da televisão, da playstation e da Internet é alvo de muita análise, reflexão e discussão. Sobre os benefícios e malefícios da construção da “cabana” nunca ouvi falar. Nunca fiquei dependente dela, nunca me aborreceu, permitia manter as minhas relações de amizade e proporcionava o desenvolvimento da minha imaginação. Não sei porque a construíamos, dado que poderíamos fazer o mesmo sem ela. Talvez o fizéssemos porque fazia frio a maioria dos dias… talvez fosse essa a razão. Demorávamos algum tempo a construí-la, por isso, deveria existir um motivo importante. Hoje questiono-me porque deixámos a construção das “cabanas”. Porque é que as cabeças das nossas crianças estão mais “comodistas”, com todas as consequências negativas que esse facto traz para a saúde mental e física das nossas crianças? Porque não lhes ensinamos a construir “cabanas”? Porque não lhes ensinamos a escolher os objetos para as brincadeiras? Estamos também “comodistas”, ou já esquecemos? Teremos muito trabalho, o que nos permite não ter tempo para esse ensino? (a falta de tempo ajuda-nos sempre a desculpabilizar para não ensinarmos a construir “cabanas”). Teremos dificuldade em voltar ao tempo das “cabanas” ou não sabemos desconstruir as atuais práticas de “brincadeira” para passarmos a outras: às “cabanas”. Bem, a nós ninguém nos ensinou… pois, é verdade! Como não tínhamos a televisão, a Internet e a playstation, a nossa cabeça tinha de fazer algum esforço para brincar. Agora, as crianças brincam? Possivelmente, sim. Não brincam como nós brincávamos, disso eu tenho a certeza! Terá isto, consequências futuras? A minha interpretação diz que sim. Eu gostava muito das “cabanas”! Era muito feliz com elas! O resultado final fazia com que pensasse que era eficaz no que fazia… a minha autoestima melhorava… afinal, era capaz de construir uma “cabana”! O frio diluía-se com a presença dos meus amigos e com as brincadeiras que inventávamos. O significado que isto tinha! Será que posso agradecer ao frio, à montanha, aos meus pais, que me deixavam construir a “cabana”, ou a mim mesma, que gostava de o fazer? Sei apenas que terei de agradecer a alguém, porque a construção da “cabana” ensinou-me tanta coisa! Ajudou a construir-me com esforço individual. A “cabana” é apenas um exemplo!

 

Ermelinda Macedo

 

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